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sábado, 19 de dezembro de 2009

Então é Natal...

O ano passou voando...Já nos aproximamos da última semana deste rentável 2009 e tento imaginar como será meu final de ano. Não tenho tido muito tempo para pensar nas festividades, nem em quem vou reencontrar ou qual o cardápio da ceia. De alguns anos para cá, acompanho tudo de longe, dando sugestões pelo telefone, sugerindo coisas e pessoas que talvez nem existam mais, a não ser dentro de mim.
Estou em um novo apartamento neste final de ano, com novas janelas e horizontes. O barulho daqui é terrível, mas de um mês para cá se tornou bastante agradável. Músicas natalinas, risadas de crianças, conversas de namorados, passos apressados, sacolas buscando suas brechas e luz, muita luz.
A cidade ganhou nova cor, mais vida e ritmo. Consigo escutar o som dos sinos pendurados nas portas das casas e o barulho dos passos das botas colocadas nas janelas. Consigo ouvir o trote das renas e o sorriso engraçado do Papai-noel colocado em cada esquina. É como entrar em uma vila de contos de fadas, que cedo ou tarde se desfaz e volta a mostrar sua verdadeira cor.
No bairro onde trabalho não existe decoração natalina, este privilégio é reservado para o centro comercial, para os grandes shoppings e parques com maior movimentação de pessoas, e, consequentemente, de renda. Tive medo de que as crianças de lá não soubesse nada sobre o Natal e levei uma grande lição ao trabalhar com elas na última semana.
A proposta era levantarmos tudo o que existe no Natal e em seguida escolher duas destas coisas para eternizar com um desenho ou colagem. Surgiram inúmeras sugestões que iam desde o Papai-noel e seus duendes, até a enfeitada árvore de Natal, passando pela neve, pelo trenó e claro pelos presentes.
Este último item foi o mais lembrado, e confesso que não me admirei, afinal de contas o Natal deixou de ser uma data religiosa para virar uma data mercadológica há muitos anos. Passar um Natal sem presente, nos dias de hoje é inimaginável, certo?
Não para aquelas crianças. Quando as questionei sobre o presente de natal que gostariam de receber, ouvi respostas que passaram longe das bicicletas, carrinhos de controle remoto, vídeo-game e bonecas barbie. Escutei desejos de frango assado, leite, brigadeiro e macarronada.
Descobri naquela tarde que além da barriga cheia alguns desejavam rever o pai ou irmão que estavam sentenciados, outros o tio que tinha falecido ou ainda desejavam uma cama com colchão só para eles.
Claro que depois destes desejos surgiram os pedidos de carrinhos e bonecas, mas nada que fosse de última geração, ou que tirasse o sono de alguns pais.
O fato é que estes desejos de natal me deixaram sem respirar por alguns segundos e me fizeram mais uma vez procurar o espírito natalino. Espírito esse que surge no final do ano e desaparece feito mágica dias depois, deixando as expectativas para traz e nos lembrando dos tropeços da vida. Mas como não custa nada tentar, busquei bem fundo o significado real desse tal espírito de Natal e desta vez, felizmente, o encontrei.
O espírito natalino estava bem ali, estampado no rostinho de cada uma daquelas crianças que se desmancharam de alegria ao fazer pequenos pedaços de algodão virar neve com seu assopro, ou ainda, quando se lambuzaram com um saquinho surpresa de doces.
Encontrei o tão esperado espírito de Natal em uma garotinha especialmente, que ao receber os doces, guardou metade em um dos bolsos da calça e me disse:
- Tia, esses eu vou guardar para o dia de Natal.
- Ah é? E por que vai guardá-los?
- Vou dar de presente para minha mãe e meus irmãos.
Por um breve instante me calei, a peguei no colo e lhe dei um longo abraço, em seguida lhe disse:
- Este abraço você guarda também e distribui com os doces na noite de Natal, tudo bem?
Sorrindo ela me beijou e correu para os braços da mãe mostrando aquela simbólica lembrança que pra ela tinha sido tão valiosa.
Na mesma hora me lembrei de um conhecido ditado que é muito verbalizado, mas que poucos colocam em prática: “Ninguém é tão pobre que não tenha nada para oferecer, nem tão rico que não possa nada receber”.
E é com estas palavras que finalizo este texto, com desejos de fartura e alegria para todas as famílias neste Natal, e especialmente com desejos de ações altruístas como daquela garotinha que não conhece muito da vida, mas já desvendou seu segredo...


Ilustração de: Gabriel Vicente.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Enquanto o tempo vai e a vida vem...

Tenho tido bastante tempo para pensar nos últimos dias. Por mais incrível que pareça, fui acometida por uma dolorosa caxumba. Doencinha esquisita, que me obrigou a tirar férias forçadas do trabalho e me colocou de repouso por longos e intermináveis dias.
Nunca imaginei que seria vítima desta doença beirando os vinte e seis anos, nem que a tal caxumba – doença de criança, perigosa para os homens na fase adulta, fosse tão dolorosa, menos ainda que me cansaria de ficar deitada e não teria mais filmes na minha lista intitulada: “Assistir nas férias...
O fato é que tanto tempo livre me possibilitou refletir sobre o que tenho feito do meu tempo e com a minha vida, e mais, me fez pensar nos meus quereres. Pensei no que tenho construído e no que tenho destruído nos últimos meses e tentei organizar tudo com etiquetas coloridas, como se fossem caixas em uma grande estante.
Pensei nos prazos que deixariam de ser cumpridos no meu trabalho e em todo o trabalho que teria na volta. Cheguei a sonhar com reuniões, com o grupo de crianças, com as cestas básicas e com o carrancudo auxiliar administrativo.
Pensei nas mensagens confortantes que recebi dos poucos, mas fiéis amigos que conquistei ao longo da vida e no quanto me fazem falta.
Pensei na minha família que nos últimos dias dividiu-se entre: os que já tiveram caxumba e os que não tiveram, revezando telefonemas e paparicos que deram um pouco de cor nestas tardes doloridas, me fazendo companhia no décimo filme ou me trazendo a terceira gelatina do dia.
Pensei no meu namorado e no quanto perdemos tempo falando de problemas e nos chateando nos poucos momentos que temos para ficar juntos. Pensei no quanto poderíamos rir mais, sair mais e deixar mais lembranças para este sentimento que tem se fortalecido com o passar dos dias. Pensei no vazio que sua ausência me causa e nas dúvidas que rodeiam nosso namoro e fiquei confusa.
Pensei nas aulas que deixei de assistir das duas pós-graduações que teimosamente continuo a fazer e nos livros que terei que ler quando retornar.
Pensei no texto que tinha que ser encaminhado para o jornal e no quanto tenho sentido falta de escrever. Pensei nos leitores e nos meus e-mails que estão sem resposta há mais de uma semana.
Pensei no quanto minha vida está dividida entre lá e cá e no quanto me embaralhei ao colocar algumas coisas na estante. Tantas coisas que deveriam estar na cômoda do prazer e passaram para a gaveta das obrigações. Tantas pessoas que deveriam estar na mesa de centro e foram penduradas no cabide. Tantas vontades esquecidas no fundo do baú, tantos momentos desperdiçados, tanto tempo indo enquanto minha vida vem.
Pensei no que tem me movido a fazer escolhas. No que tem me feito errar tanto algumas vezes e a acertar sem querer em outros momentos. Pensei nas coisas que gostava de fazer quando era mais jovem e que foram esquecidas. Pensei nos desenhos em grafite e carvão, nos quadros de tinta a óleo, nas flores de crochê, na minha coleção de cactos e nas aulas de natação.
Lembrei-me com saudade das habilidades que deixei de exercer e pensei no quanto tenho deixado o tempo passar enquanto minha vida vem. Pensei em algumas conversas que viraram discussões e no silêncio que me fez calar tantas vezes. Pensei nas lágrimas retidas, no nó na garganta e nas gargalhadas que há tempos não surgem espontaneamente.
Olhei para mim e me observei de fora, me vi cheia de compromissos, e sozinha, rodeada por um mar de gente. Olhei para dentro de mim e descobri o que me move.
Pensei na certeza de sair daqui e ir para lá, nas dúvidas do recomeçar e na confiança do que seria melhor. Pensei no adeus, nas pessoas que estão do outro lado do mundo e ainda vivem tão forte no meu coração e no quanto me obriguei a reencontrá-las, por tanto tempo.
Pensei no que espero do meu futuro e não encontrei resposta alguma. Descobri que viver os dias um a um pode ser maravilhoso e que fazer planos para daqui há dez anos, pode ser mais doloroso do que a caxumba, já que ninguém faz planos sozinho e contar com personagens para nossa história pode ser bastante decepcionante.
Descobri que o que me move mais que o amor em tudo o que faço é a minha confiança.
Confio na minha competência profissional, confio nas amizades que se cristalizaram com o passar do tempo, confio no amor da minha família, confio no meu coração e em tudo o que ele tem me ensinado, confio na minha ânsia de novos conhecimentos e, sobretudo, confio em mim.
Descobri que não estou infeliz, nem tão pouco descontente, creio que me falta apenas organização. Nada do que vivo foi imposto, cada momento, cada pessoa que entrou e saiu da minha vida, cada dia passado, presente e futuro, tudo foi em determinação da minha vontade, da minha escolha e das minhas renúncias.
Descobri que preciso recobrar algumas velhas alegrias e aspirar novos horizontes. Descobri essencialmente que confiança gera auto-estima, que gera confiança, que gera amor, que gera confiança, que gera coragem, que gera confiança, que gera escolha, que gera confiança, que gera sabedoria, que gera confiança, que gera personalidade, que gera confiança e que finalmente gera ple-ni-tu-de...
Enquanto o tempo vai, a vida vem plena e cheia de surpresas. Eu que o diga, ter caxumba nesta fase da vida é mesmo algo inimaginável e ainda arriscaria dizer: incrível. Fez-me brecar o ritmo e colocar cada coisa em seu devido lugar, enquanto o tempo vai e a vida vem, enquanto as coisas se apertam e se encaixam nesta longa e colorida estante...

Ilustração de: Gabriel Vicente.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Vida de inseto

Era uma noite chuvosa, fresca e barulhenta, que nos brindou com sua escuridão. Era uma dessas noites de “apagão”, onde faltou a luz e sentimos faltar o chão sob os pés. Momentos em que percebemos o quanto somos dependentes da tecnologia e dos confortos contemporâneos. Noite em que observar alguns insetos que rodeavam incessantemente uma vela, tornou-se uma grande diversão.
Alguns insetos grandes, outros pequenos, alguns com asas, outros com pequenas patas, iam e vinham em torno do pires que sustentava a vela, alguns mais audaciosos arriscavam um vôo ao seu redor e sumiam, alguns para sempre.
Um pequeno besouro, em especial, chamou minha atenção. Foi um dos primeiros a rodear a chama da vela e não contente com sua proeza cortou a chama raspando no pavio, que fez o fogo esmorecer rapidamente e me permitiu vê-lo sair do outro lado da chama, com uma das asas queimadas.
Caiu bem ali, de costas, no vidro da mesa de centro e ficou a mexer as patinhas numa súbita vontade de recobrar o equilíbrio. Não me atrevi a auxiliá-lo, creio que ele precisava aprender aquela lição sozinho. Quanto a mim, ficaria a observá-lo e a incentivá-lo em pensamento enquanto olhava outro inseto que se aproximava da vela.
Este, menor que o besouro, parecia uma formiga com asas, popularmente conhecido por “aleluia”, o bichinho subiu com cuidado até o pires e começou a andar em círculos.
Ia e vinha o tempo todo, sem dar descanso às patas cansadas, como se fizesse uma reverência à vela colocada no centro daquele círculo imaginário.
Fiquei pensando quando ele iria subir pela vela, ou quando criaria coragem para voar próximo às chamas como os demais insetos que ali estavam, mas ele não o fez. Ficou ali na mesma rota, até que a chama terminasse, hipnotizado pela luz, extasiado com todo aquele calor que o prendia como um imã.
Antes da chama findar-se voltei a olhar o pequeno besouro, que com muito esforço havia novamente se colocando de pé. Uma das asas estava comprometida, mas isso não o impediu de mais uma vez alçar vôo pelo pires. Ia e vinha, desta vez mais tímido, mas cada vez mais alto.
Pensei que nenhum animal seria suficientemente ignorante para novamente jogar-se nas chamas e ingenuamente me surpreendi quando o vi usar suas últimas forças para jogar-se novamente na chama e cair, desta vez sem vida.
Foi então que comecei a pensar na nossa semelhança com os insetos e tentei encontrar alguma característica que nos diferenciasse deles. Depois de muito pensar, encontrei apenas uma: a consciência.
Da mesma forma que aquele besouro, trilhamos objetivos, superamos obstáculos e muitas vezes somos por eles derrubados. Criamos novas estratégias, definimos novamente o objetivo, nos machucamos, recebemos todos os sinais de que aquele não é o melhor caminho, mas tão logo criamos novas forças, recuperamos o equilíbrio, nos jogamos na chama e muitas vezes não vemos mais saída.
A única diferença destas duas histórias está na consciência dos atos. O besouro age por instinto, não consegue desvencilhar-se da luz, nós muitas vezes nos atiramos na chama conscientes e ainda assim nos lamentamos com o fatídico resultado e não aceitamos as renúncias de nossas escolhas.
Assim também podemos nos comparar com a “aleluia”, que ficou por horas almejando seu objetivo e não se arriscou, deixou engolir-se pela rotina, e saiu cabisbaixa para longe da vela que já perdia seu significado com o apagar da chama. Quanto a nós, quantas vezes não trilhamos objetivos, fazemos planos e nos sufocamos pela rotina, que nos acomoda e nos impede de alcançá-los?
A cada dia tenho mais certeza de que temos muito a aprender com a natureza, com seu instinto e seus reflexos e é por isso que não me canso de observá-la.
Seja dia ou noite, com luz artificial ou solar, com lâmpada ou velas, meu olhar sempre estará em busca das pequenas coisas que nos movem. Das pequenas coisas que constituem a essência humana.
Talvez se adotássemos a vida de inseto poderíamos ganhar muito, principalmente se formos capazes de usar nossa consciência humanamente. Consciência esta, que atribui ao homem a capacidade de agir racionalmente e fazer suas escolhas de maneira justa.
Creio que nos falta um pouco mais de instinto e nos sobra crueldade em alguns momentos, em outros nos falta coragem e nos sobra acomodação, sem falar nas vezes que nos sentimos com as pernas para o ar e sem forças para recomeçar. Para recobrar este equilíbrio, e nos ensinar novas formas de trilhar os mesmos caminhos, creio que os insetos, na imensidão de suas monótonas vidas ainda têm muito a nos ensinar....
Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 29 de novembro de 2009

Sexta-feira treze...


Sexta-feira treze. Nunca me importei com esta data, com as previsões e superstições que cobrem de cinza o treze e que chegam a dar um frio na espinha e um pouquinho de medo nas noites escuras, isentas de lua.
Sextas-feiras sempre foram muito convidativas, as treze inclusive, em especial uma que marcou minha vinda para este mundo. Isso mesmo, nasci em uma sexta-feira treze, de janeiro, numa tarde ensolarada que marcou o início de muitas noites insones para meus pais e paparicos para mim.
Na escola sempre fui motivo de risadas quando dizia o dia do meu nascimento, mas sempre me orgulhei de ter nascido em um dia tão polêmico. Sempre gostei desses mistérios que envolvem a data, passei minha adolescência rodeada de bruxas imortalizadas nos livros do escritor Paulo Coelho, com seus enigmas, magias e segredos. Acreditava que ter nascido neste dia poderia ser a reserva de algo misterioso, algo mágico ou quem sabe uma sorte maior para enfrentar esse mundão.
Nunca vivenciei nada de ruim nas sextas-feiras treze que atravessaram meu caminho e me surpreendi quando fui assolada com uma notícia pouco agradável, na terceira e última sexta-feira treze deste ano.
Foi uma sexta-feira quente, como quase todas as outras de novembro, com raios de sol intensos que faziam arder até os cabelos. Um dia para tomar um banho de mar ou piscina para alguns poucos privilegiados que se encontram de férias ou simplesmente nasceram na boa vida. Para mim um dia comum de trabalho, mais um dia como tantos outros que já passei por aqui, só não passou despercebido por conta de um tal sorteio.
Comecei a descobrir o significado de sorte e azar com bastante clareza, e a vivenciar a angústia que assola muitos supersticiosos, naquela ensolarada sexta-feira treze. Eram apenas dois dias depreciáveis: Natal e Ano Novo, prontos para serem sorteados na escala de plantão de final de ano dos trinta e cinco assistentes sociais, prontos para garantir um dia de sorte ou azar.
Como já disse outras vezes, Murphy é meu amigo e não deixaria uma chance como esta passar. É obvio que ele teria que mais uma vez me provar a veracidade de sua teoria, e foi dito e feito: “Se há duas ou mais formas de fazer alguma coisa e uma das formas resultar em catástrofe, então alguém a fará”, bingo! A profecia se cristalizou e não contente com a proximidade do feriado fui escalada exatamente para o dia oficial das comemorações natalinas.
Vinte cinco de dezembro. Dia maravilhoso para ficar de plantão. Dia excepcional para ficar longe da família, dos amigos, da cidade natal e do único momento onde todos os familiares se reúnem no ano.
Mentiria se dissesse que fiquei calma e que tive a certeza de que tudo ficaria bem. Mentiria se dissesse que não senti uma vontade súbita de largar tudo e voltar para a pequena cidade. Mentiria mais ainda se dissesse que aceitei o sorteio de bom grado e que não derramei nenhuma lágrima sequer.
Confesso que foi um dia horrível. Não conseguia acreditar em tamanha falta de sorte e dias depois soube de um grande estudioso das catástrofes humanas que dizia: “Murphy é um otimista!”, pois é meu caro “Johnson”, o senhor tinha toda razão.
Passado os dias de lágrimas e desapontamento depois de inúmeras tentativas infundadas de troca do plantão, resolvi me aquietar e esperar que mais uma vez o universo conspirasse a meu favor, e foi me lembrando de uma conversa que tive com minha mãe na tal sexta-feira treze que resolvi guardar um pouco de esperança:
- Mãe?
- Oi filha, tudo bem?
- Está sentada?
- O que aconteceu?
- Você acredita que fui escalada para trabalhar no dia vinte e cinco de dezembro?
- Não acredito!
- Pois é, e não consegui trocar com ninguém. Estou inconformada.
- Calma filha, vai dar tudo certo.
- Como mãe? Não vai ter jeito não, vou ter que ficar aqui mesmo.
- Confia em mim, vai dar tudo certo.
- Então pode começar a orar por um milagre, por que parece que não vai ter jeito não.
- Fica tranqüila, vai dar tudo certo, eu prometo.
Vai dar tudo certo, confia em mim, dará tudo certo, eu prometo. Fiquei repetindo aquelas palavras no ponto de ônibus enquanto olhava para o sol quente e pensava no quanto seria bom estar em casa naquele instante.
Pensava na minha família, nos meus amigos, no significado que todos eles têm em minha vida e senti um nó na garganta. Um nó tão grande que me fez por um segundo entender o porquê daquilo tudo. Fez-me entender que este não seria o último Natal que teria que passar longe dos meus por conta do trabalho, mas me fez acreditar que também não seria o primeiro.
E foi nesta esperança e na confiança que tenho em minha mãe, que nunca quebrou uma promessa feita a mim, que me apeguei nos dias que se seguiram.
Ainda hoje não sei dizer se foi o destino, se foi a magia, se foi uma obra divina ou quiçá o amor de mãe, que conspiraram para que tudo fosse resolvido. Graças a uma boa alma que pouco conheço, mas que se dispôs a sacrificar seu Natal para que eu tivesse o meu de volta eu pude voltar a sorrir:
- Soube que talvez você possa trocar seu dia de plantão comigo?
- Isso mesmo, posso sim!
- Jura?
- Sim, eu troco, não tem problema. Vou te dar este presente de Natal.
- Você é que merece um presente! Muito obrigada!
Foi assim, com este presente adiantado de Natal que iniciaram as alegrias daquela quarta-feira, do dia dezoito de novembro, dia em que por coincidência ou não, minha mãe completou mais um ano de vida e ao saber da notícia disse que já tinha ganhado seu maior presente: minha presença para o Natal...

sábado, 21 de novembro de 2009

Vai assoprar ou não?

Era apenas mais uma dessas noites insones. Noite quente, cheia de estrelas, sem nuvens. Noite clara, cheia de luzes e sirenes. Noite das luzes vermelhas da viatura policial e do barulho das sirenes da ambulância.
Passava da meia-noite, o sono não vinha. Ouvi barulhos de rádio comunicador e me aproximei da janela.
Da vista da minha janela, observei duas viaturas da polícia militar e quatro guardas fardados, questionando um casal que acabava de descer de um veículo.
Enquanto dois policiais revistavam o carro, outro checava o documento do rapaz e um quarto questionava a moça.
Encontraram duas mochilas no porta-malas do carro e uma terceira em seu interior. Mochilas repletas de DVD’s piratas, apreensão que causou risadas entre os policiais e problemas para o rapaz magro, que agora de cabeça baixa observava sua companheira ser liberada, até perdê-la de vista, sem nenhum abraço de adeus, sem nenhum afeto.
- Tem DVD aqui que nem saiu no cinema. O cara é o rei da pirataria – disse um dos policiais. Frase suficiente para que o outro logo se pronunciasse:
- “Filho”, você está detido, entendeu? Não precisa responder mais nada até chegar à delegacia.
Encostaram o carro do rapaz na rua da frente, à espera do guincho, chamaram reforço e assim que uma terceira viatura chegou levaram o “rei da pirataria” para a delegacia.
História que me deixou pensando em quantos reis e príncipes da pirataria existem espalhados por ai e que aquele rapaz, agora cabisbaixo, não passava de um simples bobo da corte. Mas esse era apenas o início da movimentada noite.
- Ei! Rapaz, você está louco?!
Escutei a frase em alto tom e voltei à janela, ainda sem sono, e pude ver um carro quase atropelando os cones de sinalização colocados pela polícia.
Com esse motorista a tolerância foi menor e as palavras mais ásperas. Sem meia conversa o rapaz foi detido, sem nem poder explicar-se, apesar de tentar dizer que não tinha visto o aviso para parar com antecedência, porque o policial havia sinalizado bem próximo ao cone:
- Você está dizendo que eu não fiz meu trabalho direito? – gritou o policial.
- Não bicho, não foi isso que eu disse.
- Bicho?! Você sabe com quem está falando?!
- Não consegui ver ser crachá senhor.
- Isso mesmo, comigo é senhor. Você chama de bicho seus amigos e suas “negas”, eu não.
- Posso me explicar agora, senhor? Sou pai de família, trabalhador, só fiz o que o senhor pediu. Pediu para eu parar em cima do cone e eu parei.
- Você bebeu rapaz?
- Eu tomei uns goles sim senhor, mas só fiz o que o senhor pediu.
- E aonde você ia com tanta pressa?
- Ia levar meu amigo para Campinas, a gente estava trabalhando até agora.
- Trabalhando no boteco? Ia dirigir desse jeito?
O rapaz, visivelmente embriagado não teve tempo de responder, só pode observar os policiais retirarem uma caixa preta de uma das viaturas, analisar por alguns minutos o equipamento e lhe dizer:
- Você vai assoprar ou não?
- Assoprar o quê?
- O bafômetro rapaz! Presta atenção! Você vai assoprar ou não?
- E se eu não assoprar?
- Se você não assoprar vai para o Distrito Policial (DP) e o carro vai ser guinchado. Se você assoprar vai pra casa com uma multa. E ai? Vai assoprar ou não?
- Mas eu sou pai de família, trabalhador, você está sendo injusto cara! Eu preciso do carro para trabalhar.
- A pergunta é simples, você vai ou não assoprar? É só dizer sim ou não.
- Quero dar um telefonema.
- Pode guardar o bafômetro, ele não quer assoprar, encaminhem-no para o DP e chamem o guincho também – ordenou um dos policiais aos demais.
Mais um carro enfileirado na rua à espera do guincho. Depois deste outras duas motos paradas, mais um carro e revista em alguns transeuntes. Mas estas histórias eu não quis ouvir. Tentava esvaziar a mente com estas linhas para preenchê-la com um pouco de sossego, à espera não do guincho, mas do sono dos justos.
Confesso que estou farta de tanto blá-blá-blá embaixo da minha janela, principalmente porque as palavras altas, o rádio comunicador, as sirenes e os palavrões, invadem minha calma sem permissão, quase que diariamente.
Sinto-me cansada de tanta invasão. Enquanto estas pessoas invadem meu sossego, eu invado suas histórias, que são abraçadas por mim, pelo simples fato de estarem na vista da minha janela.
Sinto saudades do barulho dos pássaros e do cheiro de mato da minha terra. Onde o único “assopro” que invadia minha calma era a brisa leve que adentrava o quarto com os primeiros raios de sol...

sábado, 7 de novembro de 2009

A greve

Greve é greve em todo lugar. Aqui, na Europa ou na América do Norte greve é greve e sempre será greve, desde fins do século XVIII. Se não me engano a palavra greve origina-se do francês grève, que era também o nome de uma praça onde desempregados e operários insatisfeitos com suas condições de trabalho se reuniam, a Place de Grève.
No Brasil a greve é legalizada, garantida pela Constituição Federal de 1988, que assegura o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender, desde que não prejudiquem serviços essenciais à população e atividades inadiáveis.
Movimentos grevistas surgem e desaparecem como bóias no meio do oceano, já foram proibidos e ainda assim aconteceram; já foram solicitados e ficaram submersos; já foram esquecidos e marginalizados e agora apresentam-se previsíveis.
Atualmente é possível arriscar sem medo os períodos mais propícios ao início de uma greve, que sempre tem data certa para começar, mas nunca para terminar.
Geralmente é assim, passado o início do ano, se não houver nenhum sinal de reajuste salarial, é bem provável que em breve se ouvirá dizer: greve à vista!
Todo ano a mesma história, quase sempre as mesmas reivindicações, os mesmos grevistas e as mesmas reclamações de quem está de fora.
Particularmente nunca participei de um movimento de greve, não sei se por acreditar que esta talvez não seja a melhor forma de negociação, ou por não encontrar argumentos mais sólidos, o fato é que independente de minha opinião o efeito de uma grave geralmente é breve e inegável.
Presenciei bem de perto três grandes greves neste ano, a dos motoristas de ônibus, a dos médicos e dos bancários. A primeira me atingiu diretamente, pois como sempre relato aqui, tenho o ônibus como meu meio de locomoção diário para o trabalho, claro que seria mais confortável ir de carro, mas isso no momento é impossível por dois motivos: não tenho um automóvel e não sou muito fã de direção, mas isso é história para outro dia. O fato é que uma semana sem ônibus foi o suficiente para generalizar o caos no trânsito e nas empresas da cidade.
Era gente “rachando” táxi, gente correndo atrás de lotações, que começaram a surgir na porta dos terminais de ônibus como os guarda-chuvas dos camelôs ao menor indício de chuva. Funcionário chegando atrasado por ter trocado o ônibus pela bicicleta, empregador utilizando o atraso para mandar o fulano embora por justa causa, enfim, foi aquele “vucovuco”.
Eu, não tinha muita opção a não ser esperar os poucos ônibus da frota de emergência que ainda circulavam, nada como duas horas no terminal de ônibus e mais 40 minutos em pé, apertada como em uma lata de sardinha para se entender as consequências de uma greve e descobrir suas sutilidades.
Foi em um desses dias de greve, na fila do ônibus que vi um garoto com o braço erguido, que exultava o dedo indicador apontado na direção daquela fila de gente. Ele ia e vinha contando e dando número às pessoas como se fossem bois no pasto. Quando se aproximou de mim disse:
- Sessenta e quatro.
Olhei para ele e retruquei:
- O que você disse?
- Sessenta e quatro – ele respondeu.
- E o que tem isso?
- Tem que você é a mulher de número sessenta e quatro da fila, bem atrás do homem de número quarenta e dois.
- Então temos mais mulheres do que homens na fila?
- É... Mas isso é em todo lugar, não é? Na minha casa mesmo tem seis mulheres e dois homens. Na minha escola tem mais meninas do que meninos.
- Mas por que você decidiu contar as pessoas de forma separada aqui?
- Para ver se minha mãe tinha razão.
- Razão em quê?
- Hoje, antes de sair de casa, ela disse que as mulheres é que fazem as coisas acontecerem, que são elas que acordam cedo e fazem tudo na casa e vão para o trabalho, enquanto os homens ficam dormindo.
- E você concorda com isso?
- Ah... Eu já estava de pé quando ela disse isso, mas meu pai estava lá dormindo, disse que hoje ia fazer greve. Não sei direito o que é isso, mas deve ser bom, não é?
- O quê?
- A greve ué, quando eu crescer quero fazer greve também, ai posso dormir até tarde enquanto minha mulher sai e faz as coisas acontecerem.
Não tive nem tempo, nem reação para responder ao garoto, pois o ônibus já se aproximava e sua mãe correu o puxando pelo braço, mas que o que ele disse faz bastante sentido faz, não acham?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Entre cobras e lagartos... A vida como ela é?!


Semana repleta de surpresas, cheia de sustos e carregada daquela vontade de jogar tudo para o alto e sumir do mapa. Dias difíceis, cheios de mau humor, de pessoas sem graça e de animais peçonhentos.
Uma semana medonha, temerosa, necessária para me mostrar que nem tudo o que reluz é ouro e para escancarar minha fraqueza, meu medo e minha aflição.
Não sou uma pessoa corajosa, até ai não seria novidade nenhuma, tenho medo de muitas coisas, e descobri esta semana algumas outras que eu nem imaginava ter.
Lembro-me que desde criança já dava sinais da falta de coragem, sempre fui medrosa, especialmente com coisas vivas. Animais com pêlos, penas ou veneno sempre me assustaram.
Quando tinha meus seis anos, aproximadamente, acompanhei a mudança de uma nova vizinha para a esquina de casa. Observei os móveis chegando, tudo sendo carregado com cuidado para o interior da casa, até então abandonada, achava legal ter novos vizinhos e fiquei na expectativa de surgirem crianças no meio da mudança para uma nova brincadeira, mas para meu pavor o que surgiu foi um cachorro enorme, que mais parecia um camelo, todo peludo, com um focinho comprido e que adorava correr atrás de mim, tão logo me via fugindo desesperada dele aos berros até entrar pela porta da garagem.
Creio que até hoje minha pouca afinidade com cães de grande porte se dê por consequência daquelas corridas. Não gostava nem de olhar para aquele cão, ele era assustador, tanto quanto os pombos.
Não suporto pombos, tenho pavor daquele barulho que eles fazem, acho que são ameaçadores e não entendo porque as pessoas insistem em tentar domesticá-los. Ratos não são domesticáveis, a não ser que você compre um ratinho branco de olhos vermelhos em uma loja de animais, porque então tentar domesticar “ratos voadores”? Esqueça os pombos e suas migalhas, plante flores no jardim e espere os beija-flores, eles sim têm algo a nos ensinar.
Voltando aos pombos, sempre soube do meu asco por eles, mas descobri meu pavor no período da faculdade, ao ser atacada por dezenas deles no meio da praça central da cidade. Foi um plano maquiavélico, elaborado por um senhorzinho que esperou o momento exato para jogar um monte de milho e pedaços de pão bem próximo aos meus pés. Quando vi a aproximação dos “ratos voadores” joguei a bolsa, as pastas, o casaco, tudo no chão! Abaixei-me e gritei, gritei tanto que eles se assustaram e eu pude me levantar e aguentar os olhares curiosos e as risadas dos transeuntes que não pareciam acreditar no meu medo.
Como se não bastasse minha aflição pelos enormes cães e pelos terríveis pombos, depois de longos anos, bem nesta semana, pude descobrir meu pavor pelas cobras. Sabia que sentia medo do bicho, desde criança ouvia minha mãe dizer que se eu fosse picada por um escorpião ou por uma cobra seria muito perigoso, devido a um probleminha cardíaco que me brindou no nascimento. Mas com o tempo não sentia mais a pressão do coração com seu buraquinho e fui me adaptando a uma rotina comum, tão comum que me fez esquecer do temor pelos animais peçonhentos.
Acreditava que tinha mais medo de baratas do que de cobras, mas me enganei. Nesta semana deparei-me com uma cobra no meu local de trabalho, e confesso que quase morri, não pela picada que felizmente evitei, mas pelo susto. Chorei, faltou ar, tremia tanto que mal podia falar, tudo por ter visto a tal cobra.
Você deve estar se perguntando onde eu estava para dar de cara com uma cobra a menos de um metro dos meus pés, e posso garantir que eu não estava no meio do mato, nem enfiada na mata atlântica, estava sentada, ao telefone na sala de atendimento. Não, não trabalho no Butantã, nem em um escritório no meio da selva, é um bairro urbano, mas que devido à culpa não sei de quem, estava sem manutenção da grama a alguns meses, tempo suficiente para que a cobra se sentisse em casa.
Descobri mais um de meus pavores e novamente fui ridicularizada, por olhares curiosos e sorrisos sem graça que não entendiam o porquê de tanto desespero, afinal a cobra não deveria ser venenosa. E a não ser que esteja enganada encontrei informações sobre a tal cobra, podendo afirmar sua condição venenosa. Se era pouco, muito ou semi-peçonhenta, pouco me importa, o que sei é que não recebo adicional de periculosidade e não tenho que fingir que gosto destes bichos invadindo meu local de trabalho.
Meu mau humor e minha indignação serviram para o corte da grama ser efetuado logo no dia seguinte, mas ainda não me garantiram a segurança e a ausência deste e de outros bichos por lá, muito menos o retorno das minhas tranquilas noites de sono, atualmente invadidas por cobras e lagartos em pesadelos terríveis.
Só sei que entre feras e feridos, salvaram-se todos, menos a cobra, mas dela confesso não ter sentido pena, até porquê de um jeito ou de outro ela estará aqui eternizada, lembrada para sempre toda vez que abrir-se o baú dos meus medos.

sábado, 24 de outubro de 2009

Casca de banana no sapato dos outros é refresco?!

Observei uma cena na semana passada que me deixou surpresa, tão surpresa que me fez soltar um grande grito: “Ahhhhhhh! Não acredito!”.
Grito esse, que me provocou gargalhada e me fez receber muitos olhares curiosos no ônibus. Foi como se por um instante tivesse esquecido completamente de onde estava, estava tão a vontade conversando com uma amiga, e a surpresa ao olhar pela janela foi tanta que não me contive.
A cena que para muitos pode parecer bobagem, para mim foi no mínimo curiosa. Enquanto aguardávamos o semáforo abrir, olhei pela janela e vi um homem de quarenta anos aproximadamente, cabelos pretos, olhos puxados, óculos, camisa azul e calça jeans abaixando-se em frente ao seu portão e recolhendo uma casca de banana da calçada, caída bem ali, em frente a sua porta.
Tal acontecimento já me causou admiração, visto que ultimamente é muito comum ver alguém atirar uma casca de banana na calçada, mas recolhê-la é algo raro. Contudo, o que me surpreendeu, foi o que aconteceu logo em seguida. O homem abaixou-se, recolheu a casca de banana e a jogou no meio fio.
Quando vi a cena, soltei aquele grito, em sinal de reprovação ao ato. Na mesma hora eu e minha amiga começamos a rir devido aos olhares curiosos dos passageiros, e ao olhar para o sujeito que fez esta bandalheira vi que ele nos olhava e sorria. Levantei a mão em sinal de reprovação e ele sem o riso no rosto entrou, e eu fiquei pensando neste absurdo, certa de que isso iria virar história.
Foi então que comecei a pensar no quanto somos individualistas. Aquele homem teve o trabalho de abaixar-se e recolher a casca de banana por estar em frente a sua porta, onde poderia fazê-lo escorregar, no entanto, não pensou duas vezes ao atirar a casca pelo meio fio onde poderia causar um acidente com qualquer pedestre que por ali passasse.
É o velho ditado: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco!”. Gostaria muito de saber de onde surgiu esta bobagem e o que de bom este ditado poderia causar na vida de alguém.
O que mais me impressiona, na verdade, é o fato de muitos de nós sentir alívio ao ver a dor do outro, em um pensamento egoísta que afirma ao ego constantemente: antes ele do que eu, ou ainda bem que não foi comigo.
Certa vez, me lembro de voltar do estágio de carona com uma colega e a mãe dela, bem no dia em que havíamos sido informadas que uma de nós poderia ser dispensada, e que provavelmente quem ficaria no local seria quem tivesse mais tempo de experiência. Ao saber disso, a mãe da minha colega perguntou qual de nós estava lá há mais tempo e tendo a filha dito quAlinhar à direitae era ela, ela simplesmente disse: então está bom, não se preocupe.
Ela realmente não se preocupou, não disse nada, e eu fiquei indignada com uma mãe dizendo aquilo para uma filha, ainda mais na companhia de outras pessoas. Como poderia esperar uma amizade verdadeira, ou evitar uma rasteira de alguém que foi educada a ser individualista e egoísta? Nunca esperei nada desta colega e na primeira oportunidade que ela teve deu seu sinal de que havia aprendido bem a lição e neste caso, quem escorregou na casca de banana fui eu.
Levar uma rasteira, um escorregão ou ser “deixada na mão” são ações que nos provocam indignação, nos despertam aquela sensação de injustiça e aquele sentimento que você não desejaria nem ao pior inimigo. Contudo, há quem diga que esta é a lei do mais forte, já que alguém terá que sucumbir que seja o outro e não eu, no entanto, cometemos um erro enorme ao acreditar que nunca estaremos do outro lado. Hoje você joga a casca, amanhã leva o tombo.
Na verdade o que gostaria de dizer é que não podemos melhorar a índole de ninguém, nem provocar boas sensações em pessoas que não se deixam emocionar, contudo podemos evitar sensações ruins, sofrimentos e muitos arrependimentos se tomarmos atitudes mais altruístas. Lembrando que não estou pedindo a ninguém para incorporar a Madre Teresa de Calcutá, apenas sugerindo que sejamos mais humanos.
Afinal, como já dizia meu chefe: “Bom senso e canja de galinha não fazem mal a ninguém”... E já que é possível escolher, creio que seja melhor a canja do que a casca de banana, exceto para a galinha é claro, ou será que não?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Garçom, um pouco de justiça, por favor!


Um dia você acorda e está tudo bem. Respira bem, come com prazer, dorme com tranqüilidade, estuda, trabalha e se aventura a frequentar ambientes que deveriam te distrair. No outro você está sentindo o gosto amargo do sangue na boca, perdendo o sono, a capacidade de se concentrar e com medo de colocar o pé para fora de casa.
Vivemos em uma sociedade onde a vontade individual prevalece, onde regras são quebradas e injustiças são sacramentadas como exemplos.
Não sei quanto a vocês, mas eu já estou farta de tanta injustiça. Basta colocar o pé ou o nariz para fora das grades que nos prendem em nossas próprias casas, para sentir o cheiro podre da impunidade.
Semana passada, presenciei algo que me deixou enjoada e trêmula, sentindo medo e impotência, presenciei minha vida e a vida de muitas outras pessoas na mão de um indivíduo sem bom senso ou diria ainda, sem senso algum.
Sábado à noite, em um bar de classe média, na companhia de alguns amigos, rodeada por casais, crianças e algumas famílias. De repente um empurra empurra, um homem sangrando, com uma arma na mão. Outra discussão, mesas jogadas no chão, pessoas gritando, mulheres chorando e meu coração na boca. Debandada em busca de uma saída, já que a principal estava impedida, saltos quebrados e correria. Acabamos saindo aos pulos pela grade lateral, com medo de levar um tiro ou acabar atingido no meio daquela confusão. A sensação de alívio de ter saído dali bem, só não foi maior que o medo que senti.
Sair para colocar a conversa em dia, conhecer gente nova ou simplesmente distrair-se se tornou uma audácia de grande risco.
Presenciei há pouco tempo, nas páginas dos jornais dois casos de jovens que saíram para se divertir, abandonando um pouco a rotina do trabalho e estudos, tentando encontrar algum momento de distração e retornaram para casa carregados, onde ainda encontram-se sob os cuidados dos pais, reaprendendo a falar, a andar e a viver.
Qual o crime que cometeram? Livre arbítrio. Um deles havia negado um copo de bebida, o outro havia estendido um sorriso para uma garota que sem placa de identificação retornou o olhar, mas era comprometida.
A barbaridade dos atos me deixou assustada, contudo, a argumentação de estar em uma cidade grande, me permitiu erroneamente banalizar os atos e transpor a manchete do jornal, sem relembrá-la no dia seguinte.
No entanto, quando soube de caso semelhante na pequena cidade, onde muitos dormem de janelas abertas e onde os galos cantam ao alvorecer, senti vontade de chorar.
Impotente, foi assim que me senti. Sem forças, sem voz, sem coragem. Apenas com um impulso súbito de ver a vítima, olhar nos seus olhos, lhe dar um abraço e rir do que nunca teve graça, numa fuga majestosa da impunidade.
Sinto-me revoltada e gostaria de saber quem de vocês já se sentiu injustiçado alguma vez, quem já se sentiu traído ou invadido em sua honra?
Pode ser um insulto ou uma coação no trânsito, a traição de um relacionamento ou um ato de violência e covardia que te obrigou a abdicar do ato de defender-se e expressar-se. Pode ser um empurrão no jogo de futebol, uma surra na saída de um bar ou quiçá uma acusação mentirosa. O ato em si não importa, mas sim a sensação que nos provoca.
Revolta. Impotência. Injustiça. São sentimentos que só surgem quando provocados e para serem sanados necessitam do posicionamento de outros, sejam eles representantes da lei, donos de estabelecimentos, pais de filhos sem caráter, educadores ou simplesmente testemunhas de atos improcedentes.
O fato é que somos constantemente vitimizados e revitimizados ao não termos um retorno justo do dano sofrido. E aqui não falo de dinheiro ou reposição de bens materiais, falo da restituição da liberdade e da qualidade de vida.
Para tanto, creio que bem antes da mudança de nossas leis e formas de punição será preciso reconstruir o conceito de humanidade, incluindo-se seus valores morais e éticos, pois deles dependem nossa existência e deles brotam a possibilidade de um mundo mais justo e equânime.
Até lá que se deem voz aos injustiçados e calem-se os covardes, pois meu bradar já proclama um basta: chega de impunidade!

sábado, 3 de outubro de 2009

Força estranha...

Creio que você já possa tê-la sentido, ou quem sabe já se encontraram frente a frente, numa luta cotidiana para combatê-la. Não existe definição real ou única para ela, diria apenas que se trata de uma força estranha.
Força essa que costuma tornar-se ainda mais intensa nos momentos de decisão. São nos momentos do tudo ou nada, nas oportunidades que você tem de respirar ou sufocar-se por completo, nos momentos de eliminar as preocupações ou triplicá-las é que ela aparece.
Uma sensação que começa no dedo do pé e vai passando por todo seu corpo, chega ao estômago causando um mal estar atípico, acelera o coração, intensifica a respiração e quando chega à sua mente, pronto, é fatal, você vai precipitar-se e aproveitar o empurrãozinho da força estranha para entrar em alguma enrascada.
Nestes momentos você tem sempre duas possibilidades: ficar calada e deixar as coisas como estão – o que geralmente significa manter seu ritmo e não se descabelar; ou abrir tanto os braços quanto a boca e abraçar o mundo, contudo, sem perceber que não conseguiu apertá-lo, você segue com a sensação estranha, provocada pela força estranha, de que alguma coisa está estranha e provavelmente dará errado.
O mais interessante na força estranha é que ela independe da vontade de outras pessoas, é algo que está totalmente sob seu controle, contudo é fortemente influenciada por pedidos, olhares, palavras e sugestões alheias, que podem te causar temor, te alegrar, te preocupar ou na maioria das vezes te desafiar.
A força estranha muitas vezes consegue personificar-se, geralmente aparece no ponto de ônibus te pedindo atendimento depois do expediente, ou em reuniões solicitando sua presença e seu trabalho em atividades longas e maçantes.
Nessas situações geralmente você não consegue livrar-se da força estranha. É como se tivesse um imã te arrastando para abraçar as maiores dores de cabeça e preocupações.
Muitas vezes parece que um instante de euforia é suficiente para você esquecer tudo o que precisa manter na sua agenda e insistir em adicionar outros compromissos que invadem seu sábado, domingo e madrugadas de sono.
A força estranha me move. Algumas vezes de forma positiva, pois me faz dinamizar o dia, me mexer, sair da rotina e buscar coisas novas, contudo, na maioria das vezes essa sensação boa de recomeçar, dura pouco, e é superada por muita preocupação, fadiga e estresse.
Diria que assim como o amor, o ódio, a alegria e a tristeza, a força estranha deve ser entendida como uma sensação, uma emoção, e ser utilizada com moderação, pois nada em excesso é bom, o que dirá essa força que com uma imensa e estranha dominação te faz entrar num mundo misterioso, onde você sabe como entrou, mas nunca sabe como e quando vai sair, podendo retornar sentindo-se um fracassado ou um grande vitorioso.
Resumindo diria que a força estranha é um embate diário com sua vontade de dizer: NÃO. Olhar para as pessoas e dizer: agora não posso; esse ano não vou fazer; amanhã não quero; para ontem não dá; para o final da semana não será possível...num exercício difícil e desgastante que quando deixa de ser colocado em prática, te provoca inchaço, te deixa carregado da força estranha e bem distante da sua liberdade de expressão.
E viva a dificuldade de dizer não!

sábado, 26 de setembro de 2009

Da vista da minha janela...

Da vista da minha janela vejo o moço de olhos castanhos passar. Vejo seus cabelos ao vento e imagino seu pensamento. Ora com sorriso nos lábios, ora com ansiosos passos.
Da vista da minha janela vejo a moça se maquiar. Vejo os olhos procurando o pequeno espelho, vejo os lábios se apertarem para uniformizar a cor, ora rosada, ora furtacor.
Da vista da minha janela vejo um emaranhado de prédios. Vejo suas luzes coloridas refletindo nas sacadas, vejo semblantes atrás das cortinas, ora fechadas, ora escancaradas.
Da vista da minha janela vejo sirenes piscando. Vejo homens de farda com sorriso no rosto e poder nas mãos, ora com justiça, ora não.
Da vista da minha janela vejo mulheres trabalhando. Vejo roupas curtas e ouço palavras obscenas, vejo um comércio que explora, maltrata e vicia, ora de noite, ora de dia.
Da vista da minha janela vejo lojas adornadas. Vejo faixas de promoção e vendedores alvoroçados, ora animados, ora de pés cansados.
Da vista da minha janela vejo palhaços enfeitados. Vejo seus narizes vermelhos e seus pés enormes, vejo rostos e bocas pintadas, ora acolhedoras, ora assustadas.
Da vista da minha janela vejo um caminhão barulhento. Vejo a madrugada ser engolida por sua caçamba, nas mãos de homens desatentos, que recolhem restos de coisas e enterram-se por inteiro, num ritmo ora consciente, ora sonolento.
Da vista da minha janela vejo pombos nos fios. Vejo asas batendo e tentativas de equilíbrio, vejo vôos rasantes e bicos abertos, ora assustando a gente, ora colhendo afeto.
Da vista da minha janela vejo um mar de gente. Vejo camisas coloridas e sapatos enfeitados, vejo sacolas na cabeça, mãos e braços, vejo crianças correndo, ora felizes, ora com cansaço.
Da vista da minha janela vejo o pôr-do-sol. Vejo o amarelo invadir meu quarto, tão quente e brilhante quanto a areia do deserto. Vejo o sol mudar de cor, do amarelo ao vermelho, se findando num alaranjado lilás, ora na minha frente, ora logo atrás.
Da vista da minha janela vejo o céu azul. Vejo as nuvens em formato de bichos e pessoas, vejo sua cor alterar-se no entardecer ou quando a chuva vem, ora para lavar a alma, ora para lembrar alguém.
Da vista da minha janela vejo meu quintal. Vejo uma imensidão de coisas e pessoas, vejo a diversidade de tudo o que há e do que ainda é possível criar. Vejo alguma esperança no fim deste horizonte, que ora se reprime e ora se expande.
Da vista da minha janela vejo o mundo e toda sua confusão. Ora na palma das minhas mãos, ora caindo no chão...

sábado, 19 de setembro de 2009

Só mais cinco minutinhos...

Com o apoio do dicionário me expresso. No intuito de reservar um pouco de trabalho intelectual para o fim deste texto, hoje me resumo em algumas palavras curtas, mas de grandes significados. Palavras que não provocam surpresa como as gigantes aglomerações silábicas: inconstitucionalissimamente ou oftalmotorrinolaringologista, mas que com muita ousadia transformam coisas, pessoas e lugares.
Palavras que quando ditas provocam ansiedade e quando sentidas provocam desconforto. Palavras que se auto resumem e indicam o grau de dificuldade na tentativa de retornar ao equilíbrio.
Mentiroso, creio ser, quem nunca as disse ou as sentiu. Mentiroso diria ser quem nunca as evitou ou as apreendeu. Mais mentiroso ainda diria ser quem um dia afirmou tê-las ignorado.
Estafa: fadiga resultante de um trabalho muscular ou intelectual intenso e prolongado; Fadiga: Condição em que um indivíduo acusa crescente desconforto e decrescente capacidade física e/ou mental, decorrendo ambos de atividade prolongada ou excessiva para a sua capacidade de tolerância; Cansaço: Falta de força causada por exercício demasiado; Canseira: Esforço aturado para conseguir qualquer coisa”.
Excesso, desconforto, esforço aturado, falta de forças, decrescente capacidade física e mental, intolerância. Diria que o excesso só foi possível pela ausência de tolerância, que por sua vez não foi utilizada porque o desconforto e a falta de forças, apesar de decrescer a capacidade física e intelectual são úteis e aturáveis para se conseguir qualquer coisa, ou ainda me atreveria a afirmar: coisa alguma.
Tenho vivido dias cansativos, estafantes, repletos de ansiedades, dúvidas, renúncias e escolhas. Tenho vivido noites insones, barulhentas, pensativas e cautelosas. Tenho vivido tardes sonolentas, doloridas, sem apetite e abarrotadas de cobranças.
Quando digo que estas palavras são mágicas, capazes de transformar coisas, pessoas e lugares digo com convicção. O melhor lugar do mundo torna-se um verdadeiro castigo quando estamos fatigados, até a praia mais bela ou a vista mais linda perdem a cor quando nosso corpo e nossa mente se encontram em estado de exaustão.
O seu passatempo preferido te esgota, o som da sua música predileta, que antes você ouvia por mil vezes seguidas, te irrita, a voz da pessoa amada te confunde e os resmungos da pessoa ao seu lado te cansam. Tudo, tudo se torna intolerante.
Atender aos chamados com sorriso no rosto, respirar fundo cinco, dez, mil vezes ao dia, para não perder o controle, deixar invadir-se pelo mau humor e pelo sentimento de incompreensão, tudo isso, absolutamente tudo são sinais de estafa.
Tenho perdido o sono no início da noite, logo em seguida sou invadida por uma onda de mau humor que me consome a madrugada toda, me faz acordar sem disposição e levar o dia irritada e exausta, tomando o cuidado de não descontar nas pessoas do meu convívio meu desgaste, mas xingando baixinho desde a lerdeza do motorista de ônibus, até a quantidade de palavras e assuntos que sai da boca do meu chefe.
Tenho sentido vontade de quebrar coisas e jogar chinelos na parede, tenho tido vontade de jogar ovos bem em cima das pessoas que passam gritando de madrugada pela minha janela, de fazer uma fogueira com todos os telefones que não param de tocar e dar um stop no mundo, para que eu possa respirar por um minuto em paz e dizer: hoje eu tenho tempo.
Devo parecer ridícula com tanta reclamação, mas creio que senão todas, muitas pessoas irão identificar-se com este emaranhado de emoções que transformam-se da fadiga em angústia em apenas um segundo. Quem nunca teve seu dia de fúria? Quem nunca quis jogar tudo para o alto? Quem nunca teve vontade de dormir o dia inteiro ou só mais cinco minutinhos?
Os cinco minutinhos extras têm me feito uma falta considerável. Faltam minutos para estudar, comer, dormir, namorar, sair. E sabe por quê? Porque um dia, eu acreditei que aturar um esforço para alcançar alguma coisa fazia todo o sentido do mundo. Só me esqueci de registrar que para se desfrutar de alguma conquista é necessário manter-se sadio, de mente e corpo, e para alcançar isso é preciso um pouco mais do que cinco minutos.
Recado dado, é hora de reorganizar minhas 24 horas e se não for pedir muito, vou incitar a conquista, além delas, de só mais cinco minutinhos...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O caracol é o cara! Já eu... preciso de um caminhão!


Dizem que a casa onde a gente vive reflete nosso interior. Que quanto mais bagunçada a casa maior a confusão interior, que quanto mais organizada, mais objetivos trilhados. Dizem ainda que guardar muitas coisas significa uma enorme dificuldade de desprender-se do passado.
Confesso que se isso tudo for verdade estou em apuros. Pude perceber isso esta semana enquanto tentava organizar minhas coisas para a mudança. Depois de sete meses de árdua procura encontrei um bom apartamento, com preço acessível, em boa localização e o melhor de tudo, um espaço só meu, que possibilitará o retorno da minha privacidade.
Mas voltando a arrumação, percebi que minhas poucas coisas transformaram-se em muitas, mas muitas coisas mesmo. Coisas que eu não lembrava ter visto, que eu nem imaginava existir apareceram no meio do meu guarda-roupa e das gavetas da cozinha. Sei que encontrei um amontoado de coisas, de entrada de cinema a extrato bancário, coisas de dois anos atrás, ali acumuladas, ocupando espaço.
Espaço é algo que não terei na nova moradia, claro que terei o suficiente para me acomodar com conforto, mas nem tanto que me permitirá acumular papéis de dois anos atrás. Desfazer-me destas pequenas lembranças não foi fácil, mas foi bom.
A cada papel rasgado e colocado no saco de lixo relembrava uma situação vivida, um passeio, uma pessoa e logo em seguida separava a lembrança no coração e todo o resto despejava no saco escuro, aquele buraco negro que poderia me dar mais espaço para novas lembranças, novas alegrias e com certeza novos papéis.
Já fiz tantas mudanças de residência que nem sei dizer qual delas foi a mais difícil, além das coisas que se perdem pelo caminho, o emaranhando de opiniões, palpites e formas de fazer isso ou aquilo deixa qualquer um maluco. A começar pela escolha do caminhão que fará a mudança, pelos carregadores e porque não pela forma com que os copos e pratos serão embalados, sem falar na data em que a empresa telefônica poderá transferir o serviço.
É chato, cansativo, irritante, mas no final é muito bom. Mudar dá trabalho, nos deixa de mau humor, sem disposição por alguns dias, mas todas as mudanças nos trazem uma lição e o melhor, um novo caminho.
Tem gente que viveu por toda a vida no mesmo lugar, e isso não é ruim, mas tenho certeza que estas pessoas nunca abriram todas as gavetas e armários para reencontrar lembranças do passado. Arriscaria dizer que estas pessoas criaram novas aspirações pelas mudanças ao seu redor ou por uma mudança interior, mas não por sua própria mudança.
Tem gente que passa a ser mais simpático quando recebe uma nova vizinha na casa da frente, outros ganham verdadeiro ar sisudo com o cachorro do novo vizinho ao lado, o fato é que a mudança seja sua ou ao seu redor sempre provoca sensações que nos obrigam a renovar nossas emoções.
Existem ainda, pessoas que não conseguem se desfazer das coisas, vão guardando aqui e ali na esperança de um dia ser útil, como se aquela blusa de dez anos atrás ainda fosse servir no próximo ano, ou aquele pedaço de cano que sobrou da construção pudesse ser útil até o final do mês. Confesso que me incluo neste grupo, pois não sou tão desprendida, não consigo me desfazer de tudo o que ganho, especialmente quando se diz respeito ao meu ponto fraco, que está diretamente relacionado aos papéis.
Pode ser um bilhetinho da época da faculdade, ou um diário da quarta série, a entrada do cinema ou o cartão do táxi, tenho a mania de guardar todo e qualquer tipo de papel, o problema é que quando preciso deles dificilmente encontro. E por conta disso estou vivendo momentos de mau humor e ansiedade, deixar no saco escuro aqueles papéis que parecem tão úteis tem sido um sacrifício.
Além disso, parece que o tempo não colabora, a cada hora o número de sacos aumenta e os papéis aos poucos vão sumindo e dando lugar ao espaço, que eu sempre precisei e nunca tive. O lado negativo da mudança pode ser resumido ao meu último dia de férias, pois foi totalmente utilizado para encaixotar pertences, rasgar lembranças, empacotar saudades e detalhar certezas, amparando-as bem para que em segurança fossem levadas para o novo lar.
O que me espera agora é um novo porteiro, um novo supermercado e padaria, novos vizinhos, momentos de constrangimento no elevador, novo motorista de ônibus e novas histórias. Que sejam coloridas e alegres como todos os papéis que piquei nesta tarde, para que possam enfeitar minhas lembranças até a próxima mudança.
O que posso afirmar agora é que os sacos continuam se acumulando, e as caixas de papelão também. Seria bom se pudesse levar a casa nas costas como os caracóis que hoje dormem ao pé de uma roseira e amanhã se mudam para as folhas dos antúrios enfeitando os jardins.
Seria bom me deslocar sem rumo levando a casa nas costas, o difícil seria me desfazer dos papéis e de seus significados. Mas enquanto carregar a casa não é possível, creio que preciso de um caminhão! Um não, talvez dois ou três para acomodar bem minhas lembranças, meus pertences, minha saudade, meus papéis e, claro, toda a minha expectativa de um novo recomeçar...

sábado, 29 de agosto de 2009

Voar, voar...


Fui questionada esta semana sobre minha paixão pelo ar. Tão logo me perguntaram sobre qual animal eu seria se pudesse me transformar, rapidamente respondi: um pássaro, mais precisamente um beija-flor.
Pássaro rápido, ágil, aparentemente frágil, mas muito forte, adorador das flores, do doce e do ar livre. Já experimentei a sensação de estar solta no ar, livre, e confesso que adorei.
A primeira vez que saltei de pára-quedas foi sem planejar, fui convidada no meio da semana e no fim dela estávamos lá, recebendo instruções sobre como saltar e chegar ao chão. Lembro-me bem da sensação do vento no rosto, da adrenalina que contagiou meus movimentos e do pensamento que se esvaiu. A queda livre transforma-se num marco, o medo do pára- quedas não abrir, a sensação de liberdade, a falta de controle sobre seu corpo e os acontecimentos seguintes, tudo isso nos faz experimentar uma sensação atípica, é como estar livre e preso ao mesmo tempo. É como poder voar, mas sem bater asas.
Abrir o pára-quedas é resgatar o autocontrole, é poder respirar no ritmo de sempre e observar a natureza que, altiva, nos convida a uma sutil hipnose. O silêncio é incrível, nenhum som, nenhum barulho, só a brisa leve e aquela sensação de paz.
O segundo salto de pára-quedas não foi tão bom quanto o primeiro, apesar do céu azul e da adrenalina constante, saber o que aconteceria nos próximos segundos não me deixou aproveitar cada minuto como se fosse o último, mas ainda assim foi ótimo olhar o mundo lá do alto, enxergar a pequenez dos nossos passos e restaurar o autocontrole.
Minha última experiência no ar foi na semana passada, num salto de paraglider. Confesso que senti mais medo do que dos saltos de pára-quedas e o motivo é simples, ali ninguém controla nada, o único dono da situação é o vento e a ele fui apresentada. Não existe avião que te indica a hora certa de saltar, não existe cronômetro para indicar quanto tempo te resta no ar, não existe local marcado para pousar, nada certo, tudo depende do vento.
Aguardar o aceite do vento na saída já me deixou com o coração na boca, pouco mais de dois minutos, que pareceram horas, aguardando aquela lona amarela se abrir. Enfim se abriu! Era o sinal, corremos rumo ao precipício, que maluquice, correr num penhasco, dependendo apenas do vento, e ele surgiu, e nos levou para o alto, com massas de ar quente e fria os movimentos iam alternando-se para baixo e para cima, pouco mais de oito minutos, foi o tempo que o vento me deu para ganhar seu espaço e eu flutuei, feito um beija-flor em busca de respostas, olhando do alto aquela nossa pequenez, olhando do alto todas as dificuldades que dali pareciam mínimas.
A descida, assim como tudo neste esporte, resume-se ao imprevisto. Caímos na ponta do barranco, com o vento inquieto tentando nos jogar para baixo e nos puxar para cima, agora já não dependia mais dele, dependia de nós. Levantei-me, olhei para o alto e me lembrei do trecho de uma música: “Vento, ventania me leve para os quatro cantos do mundo. Me leve pra qualquer lugar...”.
Durante estes momentos de liberdade sem limite aprendi uma lição que compartilho com vocês. Olhar as coisas do alto nos mostra um novo ponto de vista, uma nova dimensão das situações e dos riscos, esta lição eu trouxe para o meu dia-a-dia com os pés no chão.
Tem dias que me encontro irritada, aflita em busca de uma solução para algum problema e por mais que pense não encontro uma saída. Nestes dias, me permito a solidão. No silêncio profundo, como no ar, sem nenhum barulho, permito-me recostar a cabeça no travesseiro e fazer um exercício que muito se parece com os saltos ao ar livre, permito-me olhar-me do alto.
É como imaginar ser outra pessoa e visualizar todos seus conflitos como num filme, onde cedo ou tarde saberemos o final. Basta concentrar-se no todo e esquecer do problema para que a resposta apareça, feito mágica, e com ela a paz e o resgate do autocontrole tão essencial a nós humanos.
Olhar de fora nos indica novas saídas, enxergar nossa fragilidade nos igualando a toda a humanidade reduz nossos problemas e aflições, o olhar do alto nos assegura a existência do penhasco, mas também nos aponta seu pico e nos permite escolher descer ou subir.
E pensando bem, fica clara a nítida relação do ato de voar com os sentimentos de medo ou coragem. Para chegar ao topo é preciso arriscar. Para voar é preciso identificar um medo e superá-lo, assim como os problemas, para vencê-los é necessário primeiro admiti-los.
Voar, voar...Sempre! Seja do alto de um avião, ou com a ajuda do vento; seja sozinho ou acompanhado; seja para fora do país ou para dentro de você, o importante é nunca deixar de voar.


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sábado, 22 de agosto de 2009

Mentira tem perna curta

A cada dia me admiro mais com a capacidade dos homens de acreditar que podem enganar uma mulher. Quando será que os homens deixarão de ser ingênuos e de subestimar nossa capacidade?
Já cansei de ver estudos que comprovam a sensibilidade feminina, seu aguçado sexto sentido e sua capacidade de sentir o cheiro de podre no ar. Pode ser que demore algum tempo, mas cedo ou tarde as mulheres sempre descobrem o que está acontecendo e isso é explicado por dois motivos bem simples: 1°- Mentira tem perna curta, já dizia a minha avó; e 2° - As mulheres são competitivas e pouco confiáveis com seu gênero.
O fato da mentira ter perna curta já definiria bem a ousadia que muitos homens tem de ocultar ou inventar histórias absurdas para que as mulheres permaneçam ao seu redor, mas o fator mais comprometedor está vinculado a nós mulheres, as protagonistas de todas as histórias sem final feliz e já explico o porquê.
Sem querer generalizar, diria que a maioria das mulheres carrega em si um pouco de inveja e muito instinto competitivo. Mulheres quando iniciam um projeto dificilmente mudam seu foco, vão até o final, até as últimas consequências e isso porque nós competimos primeiramente com nós mesmas. Olhamos no espelho e encontramos uma gordurinha ali, um cabelo branco aqui, uma olheira acolá e adoramos olhar revistas de moda que nos apresentam mulheres perfeitas e esculturais, nos fazendo esquecer dos recursos que transformam essas fotografias hoje em dia.
Mas sejamos nós, simples mortais, ou as belas das revistas, em uma coisa somos todas iguais, vivemos tentando ser enganadas pelos homens, que se aproveitam de nossas fragilidades para exercitar sua criatividade com desculpas cada dia mais interessantes.
Dias atrás estava no salão de cabeleireiro e pude comprovar o que acabo de relatar para vocês. Lia uma revista de fofocas quando vi uma entrevista de uma atriz linda, independente e bem sucedida que afirmava já ter sido traída. Logo imaginei: como um homem poderia trair uma mulher como ela! Famosa, linda, bem sucedida. E logo em seguida sorri me lembrando da fila de mulheres que fazem parte do meu cotidiano e agregam todas as características que esta atriz e também foram enganadas.
Neste mesmo dia pude comprovar o segundo motivo pelo qual as mulheres sempre acabam descobrindo as cafajestagens alheias. No salão de cabeleireiro não há regras para o assunto que deve ou não ser dito, são inúmeras as histórias que ouvimos de traições, de conflitos familiares e de fofocas da vida alheia. Basta uma mulher sair linda de lá para aquela que permanece contar para a amiga uma fofoca dela, ou do marido dela, como querendo dizer: ela é linda, mas é uma tola.
Infelizmente esta é uma realidade que nos atropela nas relações femininas de amizade e confiança. Uma mulher que sente inveja de outra será capaz de tudo para vê-la infeliz, inclusive contribuir para que ela saiba de algo que poderá magoá-la e deixá-la feia e deprimida. Mais uma vez reforço que não estou generalizando, porque há outra parte das mulheres que por serem de extrema confiança também colaboram para o desvendamento destas situações com o intuito de nos abrir os olhos e não nos deixar virar fofoca de salão de beleza no dia seguinte.
Então meus queridos amigos do sexo masculino, abram os olhos, vocês podem acreditar que estão enganando hoje e ter uma bela surpresa amanhã. Andei pesquisando na internet sites sobre mulheres traídas ou enganadas, encontrei muita, mas muita coisa. Em todos os países, mulheres de todas as classes sociais e idades abrem o coração e a boca para declarar: “este homem não presta!”. Em um dos sites me admirei quando encontrei um rosto conhecido, onde muitas mulheres escreviam comentários e falavam dos seus defeitos e das histórias que ele usava para enganar as mulheres, todas muito parecidas por sinal.
Aproveito também para não generalizar o sexo masculino, pois apesar de ainda não ter muita certeza disso, devem existir homens fiéis e confiáveis por ai, não é mesmo?!
Existindo ou não, gostaria de reforçar só mais uma coisa, relacionamento prevê confiança e, sobretudo respeito. Conquistar a confiança de alguém com juras de amor e promessas de uma vida perfeita e logo em seguida ocultar mentiras, ou fazer a mulher sentir-se culpada por sua desconfiança indicam a falta de respeito, que me parece tão essencial.
Para não partir nenhum coração, a regra é simples: faça aos outros apenas o que gostaria que lhe fosse feito. Assim a gente nunca erra.
O fato é que sejamos homens ou mulheres, traídas ou traidores ninguém gosta de sentir o coração partir e é tão bom ter alguém para amar. Vamos tentar exercer a sinceridade, porque a mentira tem perna curta e causa um bocado de dor, mas a “Dona verdade”, pelo que eu saiba, nunca fez mal a ninguém.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Férias?!

Férias! As tão sonhadas e esperadas férias enfim chegaram. Confesso que os dias tem se arrastado com cuidado, na espera de alguma surpresa agradável ou de algo que me faça entender porque escolhi tirar férias em agosto. Mês morto, sem feriados, sem férias da pós-graduação, sem nada. Nem mesmo a semana euclidiana que encheria de nostalgia minhas férias, me fazendo relembrar os seguidos anos de maratonista, estará presente.
Minha primeira semana de férias foi consumida pela burocracia. Idas e vindas em imobiliárias, cartórios, sem falar nos documentos para inscrição em um processo seletivo para iniciar outra pós. Meu namorado disse que mesmo de férias eu não sossego, e ele tem razão. Podia ter ficado a semana toda passeando, indo ao cinema, fazendo compras ou viajando, mas não, corri todos os dias atrás de papéis, carimbos e expectativas.
Mas creio que tudo teve um bom motivo. Minha volta das férias será marcada por um período intenso de mudanças e isso, apesar de me deixar de mau humor às vezes, me dá novo fôlego. Mudar de casa, começar um novo curso, ter uma nova vizinhança, um novo caminho para ir e voltar do trabalho, nova padaria e motorista de ônibus, enfim, tudo isso trará muitas novas histórias para incrementar estas páginas, e principalmente minha vida.
Quando escolhi sair desta cidade para fazer faculdade fora, me lembro bem do susto que causei para meus pais e familiares. Não era possível a filha caçula querer ir pra longe, morar sozinha, numa cidade grande, estranha. A primeira filha a sair de casa, a primeira neta, a primeira sobrinha. Foram muitas as palavras desanimadoras, que me causaram insegurança e medo, mas as palavras de incentivo e os olhos orgulhosos de meus pais foram suficientes para não me deixar desistir.
Hoje vejo que criei gosto pela mudança. Foram muitas lágrimas até chegar aqui, muitas noites insones, muitas amizades construídas, muitos vínculos criados, novas opções, novas escolhas e algumas renúncias, mas todas com um gosto muito bom de ter seguido o caminho certo. Constantemente tenho “deja vú” e brinco que são sinais de que estou no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas.
Minha mãe me chama de nômade sempre que ameaço um novo concurso, uma nova morada e não discordo dela, exceto pelo fato do nômade não ter parada, não ter um porto seguro e vagar sempre sem destino. Espero conhecer e viver em muitos outros lugares, provar outros gostos, conhecer outras pessoas, mas sempre terei para onde voltar. Minha terra natal, meu lar, que me abriga, me acolhe e me faz descer a ladeira de casa olhando aquela vista repleta de verde, encher os pulmões e pensar: lar, doce lar!
Não poderei viajar para longe nestas férias, terei que me contentar com estas montanhas que abraçam a pequena cidade, e confesso que fica aquele vazio, é como ter o tempo todo do mundo e deixá-lo sumir entre os dedos como a areia fina de uma praia deserta. Tenho procurado dormir muito, continuo estudando, pois como disse, escolhi um mês horrível para tirar férias, e a pós-graduação não pode esperar, e tento escrever com a mesma intuição e inspiração de sempre, mas até isso tem ficado a desejar nestes dias.
Sei que estas férias ainda não estão com aquele gostinho de quero mais, mas felizmente, ainda estão apenas começando e tenho certeza de que ainda terei muitas histórias para contar, muitas coisas para lembrar, pois, aqui ou lá, por onde quer que eu vá, sempre terei pessoas boas ou nem tão boas assim, rodeando as entrelinhas e me deixando lembranças.
Até que as aventuras comecem continuo aqui, observando as mudanças sutis da cidade, uma loja nova aqui, outra lanchonete ali, acompanhando a notícia daquele amigo da quinta série que vai se casar ou daquela que não via desde a oitava série e hoje me apresentou seus filhos.
As novidades das pessoas que fazem parte da minha história me consomem, me alegram e me indicam sempre novos caminhos. E se você me conhece, ou já conheceu e tiver alguma novidade para contar vou adorar ouvi-la, quem sabe ganho nova inspiração para estas linhas e principalmente para ingressar de alma lavada e com novos objetivos na próxima fase da minha vida que deverá se iniciar nos próximos dias... Aguardo notícias!

domingo, 9 de agosto de 2009

É gripe?!


O assunto do momento tem relação com os espirros, tosses e narizes de porco que encontramos pelas esquinas. A gripe suína, que elegantemente ganha novo nome depois de sua aparição, e atualmente é comentada em voz baixa, aos sussurros como: “a nova gripe”, com um receio quase inconsciente de sua propagação, como se o fato de verbalizá-la fosse suficiente para seu surgimento em um grande espirro surpresa!

O fato é que com maior ou menor intensidade o temor da “nova gripe” tem se espalhado por todo o mundo, em grandes cidades ou vilarejos, muita gente anda se perguntando se já é hora de usar uma máscara no ônibus (se é que essas máscaras evitam mesmo alguma coisa), ou cobrir o rosto com o cachecol a cada espirro ou tossida ao lado.

Aqui na grande cidade com ritmo de interior, muitos casos suspeitos, vários confirmados e muitas pessoas assustadas. Já me deparei com algumas pessoas de máscaras nas ruas, no ônibus, sem falar nos olhares assustados ao menor sinal de alguém ameaçar tosse ou espirro nas proximidades.

Apesar das evidências e das notícias constantes no jornal local, não tinha sentido a nova gripe tão próxima quanto na última semana. Enquanto tentava organizar meus relatórios, deixar lembretes sobre as atividades pendentes para a equipe e contar os dias para entrar de férias, recebi um telefonema da chefia que determinava o cancelamento de todas as atividades grupais e qualquer tipo de aglomeração, pelo período de uma semana no mínimo.

Havia acabado de ler no jornal a notícia do adiamento do início das aulas em escolas municipais, estaduais e universidades federais por duas semanas. O cancelamento do desfile cívico de comemoração ao aniversário da cidade. Adiamento de atividades culturais. E agora a nova gripe estava ali, mais próxima do que eu imaginava, atrapalhando meu trabalho, minha rotina e atrasando a vida de muita gente. Reagi com espanto à notícia, logo eu que morro de medo de qualquer tipo de doença e já havia reforçado a dose de vitamina C para evitar qualquer sintoma suspeito, seja da nova ou velha gripe.

Com ou sem espanto o fato é que a “nova gripe” estava nos rodeando, mesmo que inconscientemente, e o que nos restava era tentar tirar alguma lição disso e prejudicar o mínimo possível quem dependia dos atendimentos. Reorganizamos as atividades, priorizando agora as ações individuais, evitando as tais aglomerações e no final do dia uma enorme nuvem escura pairou sobre o bairro, um vento frio e o medo de adoecer me acompanharam até o ponto de ônibus.

Entrei no ônibus, encontrei um lugar próximo à janela e a abri, me certifiquei que havia ventilação suficiente e ali me sentei, observando os raios que indicavam o início da tempestade logo mais. Sinal de chuva é sinônimo de ônibus lotado, e neste dia não seria diferente. Gente e mais gente entrando por todo lado, pelo menos as janelas ainda estavam abertas, pensei.

Mais alguns quilômetros e a chuva desabou, fez-se um alvoroço! Pessoas fechando as janelas e eu ali, naquela ânsia de evitar que isso acontecesse, não sabendo se era melhor tomar chuva ou ficar sem ar, respirando no mesmo espaço que aquele monte de gente que tossia, espirrava e se enrolava em cachecóis e agasalhos, tentando se desvencilhar de uma possível gripe.

Sem a minha aprovação todos os vidros foram fechados, uma chuva torrencial lá fora e aquele monte de gente amontoado. Comecei a relembrar a notícia do jornal, a determinação da chefia, o fim das aglomerações e fiquei aflita. Quer aglomeração maior do que esta? E sem ventilação nenhuma!

Comecei a pensar se as alternativas de contenção da gripe estavam sendo eficazes e tive quase certeza que não. Só não afirmo a certeza, pois apesar do sufoco, felizmente não gripei, mas não posso afirmar o mesmo das outras dezenas de pessoas que ali estavam.

Será que o ideal não seria ao invés de evitar que as pessoas que possam contaminar-se saiam de casa, conter aquelas que já estão contaminadas em casa? Que tal proibir quem estivesse com a nova ou a velha gripe de ir ao trabalho, a escola ou ao supermercado? Seria uma solução aceitável a meu ver. Contudo, para o empregador liberar o funcionário por causa de alguns espirros e uma febrezinha não pode parecer uma boa idéia, da mesma forma que a “madame” não poderia ficar sem a empregada para fazer suas vontades mesmo gripada.

O fato minha gente, é que não adianta alguns, como eu, terem medo da gripe e fugir do contágio se outros não entendem o quanto o meu bem estar depende do seu e vice-versa. Pandemias só surgem porque alguém, em algum momento achou que era só uma coisa à toa, e ai falou para o vizinho que não era nada, que espirrou para a irmã, que afirmava logo estar melhor e foi viajar pelo mundo e deu nisso.

Não estou querendo instalar o caos ou dizer que essa nova gripe é o terror da humanidade, só queria deixar um recado para que pensássemos um pouco nisso tudo. Afinal, quando se há a necessidade de alterar o rumo da cotidianidade é porque algo realmente não está indo bem.

E o que está fora de prumo neste caso, não é a tal gripe, mas nós, que damos de ombro e vestimos a capa de super-heróis achando que nada nunca nos atingirá, tomamos chuva, gelado, beijamos e abraçamos quem está gripado, esquecemos de lavar as mãos antes das refeições e ainda fazemos piadas com a “nova gripe”, nos esquecendo que a história dos três porquinhos neste caso, talvez não tenha um final feliz...

domingo, 2 de agosto de 2009

Pare o mundo! Eu quero descer!

No final desta semana escutei uma conversa entre duas amigas num consultório médico onde uma delas dizia que um grande amor do passado havia lhe procurado. Depois de treze ou catorze anos ele reapareceu e fez a ela uma proposta no mínimo estranha. Convém registrar que logo no início do relato ela informou que o namorico que aconteceu entre eles, quando estavam na quinta série, nunca gerou nenhum tipo de relacionamento, apenas olhares, cartinhas de amor, declarações e só, bem, na verdade gerou uma série de emoções guardadas e alguns ressentimentos.
Aquele beijo que eles nunca deram pelo visto ficou guardado no coração dele por todos esses anos, e neste dia ele criou coragem e a procurou. Disse a ela que a amava, e enfatizou isso diversas vezes e que havia enriquecido, da noite para o dia, num investimento que deu muito certo, mas que não se sentia feliz. Disse que tinha o carro do ano, sua casa, muito dinheiro, que já tinha jantado nos melhores restaurantes, tinha as melhores roupas, mas faltava-lhe alegria, e isso só ela poderia lhe dar.
Foi então que ele lhe fez a proposta, queria que ela viesse morar na mesma cidade que ele, para tanto ele ofereceu pagar-lhe mensalmente o valor de seu salário e dar-lhe todo o conforto que ela quisesse, isso tudo, porque ele jurava que a amava e que não poderia viver mais nem um dia sem este amor reprimido por tanto tempo.
Sabendo que o rapaz era casado, a moça lhe questionou se era isso mesmo que ele queria: tê-la como uma amante, e ele, com toda naturalidade do mundo, perguntou-lhe porque não poderia ficar com as duas. Tolo pensamento machista que ainda acredita ser capaz de convencer uma mulher da existência deste sentimento nobre com dinheiro e promessas de amor.
A mulher disse ter negado a proposta, além de ter se sentido extremamente ofendida com tal sugestão. Eu, ao ouvir tamanho absurdo, que parecia mais uma trama de roteiro de novela, senti-me indignada e inquieta.
Comecei a imaginar as formas que os homens (leia-se aqui humanidade) encontram para expressar e resolver suas inquietações, problemas e até os mais nobres sentimentos. Será que esse rapaz não pensou na hipótese, simples e digna, de declarar esse dito amor quando estivesse livre? Ou ainda, será que ele em algum momento pensou nesta condição?
Quantos colares e anéis de ouro, quantos apartamento ou carros do ano seriam suficientes para conquistar um amor? Existirá no mundo quantia suficiente para comprar amor, felicidade?
Acho que esta resposta ele mesmo encontrou quando a procurou, dizia-se repleto de bens, mas faltava-lhe o essencial, o amor.
Será que se lhe fosse sugerido trocar todas as riquezas pela vivência deste amor ele o faria? Será que algum de nós seria capaz de deixar tudo o que possui para viver um grande amor?
Confesso que abdicar do que se tem é realmente difícil, mas creio que ainda pior seria ter que abster-se das coisas mais simples e deliciosas desta vida e que felizmente não são compráveis. Ninguém jamais conseguiu colocar preço no sorriso de uma criança, no cheiro de eucalipto ou no caminhar de mãos dadas com quem se ama.
Esta história me deixou assustada. Creio que minha teoria sobre a loucura da humanidade faz-se cada dia mais concreta. Muito me alegrará saber que alguns de vocês concordarão comigo, pois sei que em sua maioria todos devem ter achado essa mulher uma tola por não ter aceitado esta proposta. E isso me faz reafirmar um outro fator, como poderia esse casal viver bem com princípios tão distintos, como ele depois de treze ou catorze anos, poderia achar que ainda a conhecia a ponto de fazer-lhe uma proposta deste tipo?
Realmente as pessoas mudam, mas algumas permanecem iguais ou ganham valores e princípio melhores, acho que foi isso que faltou a esse homem: Princípio. Nenhum amor pode ser colocado na mesma balança que dinheiro, diria que são incompatíveis.
Diante destes relatos tão distantes e tão próximos da nossa realidade é que me perguntou diariamente: “Em que mundo estamos?”. E ao mínimo sinal de encontrar esta resposta tenho vontade de correr e bradar: “Pare o mundo! Eu quero descer!”.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

sábado, 25 de julho de 2009

Plataforma vinte e três

Rodoviária é um canto engraçado do planeta, ora cansativo, ora acolhedor, ora estranho, ora triste, mas frequentemente engraçado.
As rodoviárias que costumo frequentar apresentam-se especialmente coloridas nos últimos dias, repletas de casacos de pele ou lã (cheios de bolinhas), de gorros e cachecóis, de malas e maletas de cores neutras ou berrantes, tudo isso desfilando em corpos desajeitados, assustados, apressados, surpresos, emocionados ou quem sabe, aliviados.
Já vi muitas cenas engraçadas, tristes e emocionantes nas rodoviárias. Hoje mesmo, enquanto escrevo atrás do guardanapo que cobria a bandeja onde acabei de comer, pude presenciar diversas delas, todas contempladas por estes olhos que enxergam além dos corpos desajeitados que compõem as imagens.
Poderia falar do rapaz que passou sem nenhuma mala ou mochila, mas carregando uma imensa prancha de surf, ou da mãe que oferecia ao filho a mamadeira em uma das mãos e na outra um pacote de batatas fritas.
Poderia ainda falar do homem bem vestido que passou por mim, seguido por dois homens (vestidos) de preto. Teve ainda o casal de namorados que se despediu com lágrimas nos olhos e meios sorrisos e em seguida caminhou de cabeça baixa em direção oposta.
Sem falar nos vendedores de assinaturas de revista que ficam no meio do saguão aos gritos, implorando por um minuto de atenção. Hoje lhes dei um minuto e de brinde ganhei uma revista que falava sobre dietas, muito produtiva, me fez refletir enquanto digeria o lanche, o copo de refrigerante, sem falar das batatas fritas, é claro.
Existem ainda aqueles sujeitos que parecem ter saído da novela das seis, com botas, cinturões e “blue jeans”, ou de filmes como “As patricinhas de Beverly Hills” com seus saltos finos de verniz e suas malas com estampas de oncinha, ou ainda de seriados mexicanos, pois posso jurar a vocês que já encontrei a Bete – a feia, e o próprio Chaves em uma dessas longas paradas.
Outra coisa que costumeiramente me chama a atenção são as bagagens que deslizam por aqui, creio que se algumas falassem teriam lindas histórias para contar, como aquele carrinho de quase dois metros escondido naquela enorme embalagem de papelão, ou aquela rede repleta de bolas coloridas arrastada com tanto esforço.
O choro ou o grito de crianças também é uma constante neste meio, sem falar nos celulares que tocam sem parar, perturbando muitas vezes o sossego de alguns viajantes que conseguem dormir, e até roncar, nos bancos duros da rodoviária. Aliás, registro aqui que a rodoviária é um dos melhores pontos de encontros ocasionais que já inventaram, sempre encontro com um amigo nas manhãs que marcam o início de feriados, é incrível como sempre nos encontramos da mesma forma, eu trazendo um café na mão e um semblante amarrotado no rosto e ele dormindo serenamente na poltrona ao lado, termino o café, aguardo ele acordar e colocamos o papo em dia, depois de meses sem nos ver.
São tantas idas e vindas nestes espaços, tantas histórias e imagens que poderia escrever incontáveis textos sobre o assunto, textos que descreveriam desde o relógio enorme que anuncia a hora nos terminais até as festas de boas vindas e as fotos tiradas em frente a um amontoado de malas e passagens.
Hoje, no entanto, me prendo a apenas uma imagem. Tão forte que provavelmente não serei capaz de aqui descrever, mas tão real que seria impossível passar despercebida.
Plataforma vinte e três e em sua frente o retrato mais real e triste que já presenciei. No mesmo instante resgatei na memória as obras de Cândido Portinari na sua série “Retirantes”. Aquela mulher com vestido florido, um lenço no cabelo e chinelo de chita, equilibrando um saco de roupas na cabeça, sem o apoio das mãos que serviam de colo para o filho caçula. Aquela mulher rodeada de crianças, com mais ou menos idade que se olhavam assustadas e admiravam a imensidão daquele lugar, olhos arregalados observando tanto espaço, tanta luz, tanta gente.
Gente como eu e você que mais pareciam animais assustados após serem libertos de suas jaulas. Jaulas deixadas com a esperança de um futuro melhor, de um emprego, em busca de paz e quem sabe, dignidade. Dignidade que não vi nos olhos daquela mulher que aflita olhava para o relógio e para os lados com medo de ali ter sido esquecida. Esquecida por mim, por você, pela sociedade que nos seus ternos e correria, possivelmente não notou aquele retrato, ou se notou pouco fez para torná-lo colorido, e aqui me incluo, pois me limitei a observá-la.
Observei e me lembrei dos inúmeros relatos que já escutei em atendimentos no trabalho, me lembrei dos sonhos desfeitos, do preconceito e do medo que todas as famílias transpassam nos olhos quando enfrentam essa situação e fiquei em estado de choque. Não saberia dizer o que senti, acho que impotência e talvez lamento, pois imaginei que cedo ou tarde poderia me deparar com aquela mulher solicitando as passagens de volta com aquele mesmo relato de sonho desfeito.
Contudo, não a impedi de tentar, não me atrevi a escolher as cores deste retrato, até porque a mim não caberia tal escolha. Foi então que percebi o quanto é mais fácil solucionar os problemas alheios, indicar caminhos aos outros e dar “sábios conselhos”, do que fazer nossas escolhas e assumir nossas renúncias. Mal tenho tido certeza das cores que quero na minha aquarela, mal tenho conseguido escolher os tons e contrastes dos meus dias, e mesmo em pensamento me senti no direito de invadir aquele retrato. Que tolice a minha.
Creio que só não fui mais tola, pois apesar de não ver o desfecho desta história aprendi mais uma lição. Deixei aquela família ali na plataforma vinte e três à espera da esperança ou quem sabe de um milagre que em breve deveria chegar e caminhei para o meu destino, não sem antes, olhar para trás e dar adeus a ela, aos meus preconceitos e a minha soberba. Não sem antes, trazer para junto de mim aquela vontade de dias melhores.