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sábado, 7 de novembro de 2009

A greve

Greve é greve em todo lugar. Aqui, na Europa ou na América do Norte greve é greve e sempre será greve, desde fins do século XVIII. Se não me engano a palavra greve origina-se do francês grève, que era também o nome de uma praça onde desempregados e operários insatisfeitos com suas condições de trabalho se reuniam, a Place de Grève.
No Brasil a greve é legalizada, garantida pela Constituição Federal de 1988, que assegura o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender, desde que não prejudiquem serviços essenciais à população e atividades inadiáveis.
Movimentos grevistas surgem e desaparecem como bóias no meio do oceano, já foram proibidos e ainda assim aconteceram; já foram solicitados e ficaram submersos; já foram esquecidos e marginalizados e agora apresentam-se previsíveis.
Atualmente é possível arriscar sem medo os períodos mais propícios ao início de uma greve, que sempre tem data certa para começar, mas nunca para terminar.
Geralmente é assim, passado o início do ano, se não houver nenhum sinal de reajuste salarial, é bem provável que em breve se ouvirá dizer: greve à vista!
Todo ano a mesma história, quase sempre as mesmas reivindicações, os mesmos grevistas e as mesmas reclamações de quem está de fora.
Particularmente nunca participei de um movimento de greve, não sei se por acreditar que esta talvez não seja a melhor forma de negociação, ou por não encontrar argumentos mais sólidos, o fato é que independente de minha opinião o efeito de uma grave geralmente é breve e inegável.
Presenciei bem de perto três grandes greves neste ano, a dos motoristas de ônibus, a dos médicos e dos bancários. A primeira me atingiu diretamente, pois como sempre relato aqui, tenho o ônibus como meu meio de locomoção diário para o trabalho, claro que seria mais confortável ir de carro, mas isso no momento é impossível por dois motivos: não tenho um automóvel e não sou muito fã de direção, mas isso é história para outro dia. O fato é que uma semana sem ônibus foi o suficiente para generalizar o caos no trânsito e nas empresas da cidade.
Era gente “rachando” táxi, gente correndo atrás de lotações, que começaram a surgir na porta dos terminais de ônibus como os guarda-chuvas dos camelôs ao menor indício de chuva. Funcionário chegando atrasado por ter trocado o ônibus pela bicicleta, empregador utilizando o atraso para mandar o fulano embora por justa causa, enfim, foi aquele “vucovuco”.
Eu, não tinha muita opção a não ser esperar os poucos ônibus da frota de emergência que ainda circulavam, nada como duas horas no terminal de ônibus e mais 40 minutos em pé, apertada como em uma lata de sardinha para se entender as consequências de uma greve e descobrir suas sutilidades.
Foi em um desses dias de greve, na fila do ônibus que vi um garoto com o braço erguido, que exultava o dedo indicador apontado na direção daquela fila de gente. Ele ia e vinha contando e dando número às pessoas como se fossem bois no pasto. Quando se aproximou de mim disse:
- Sessenta e quatro.
Olhei para ele e retruquei:
- O que você disse?
- Sessenta e quatro – ele respondeu.
- E o que tem isso?
- Tem que você é a mulher de número sessenta e quatro da fila, bem atrás do homem de número quarenta e dois.
- Então temos mais mulheres do que homens na fila?
- É... Mas isso é em todo lugar, não é? Na minha casa mesmo tem seis mulheres e dois homens. Na minha escola tem mais meninas do que meninos.
- Mas por que você decidiu contar as pessoas de forma separada aqui?
- Para ver se minha mãe tinha razão.
- Razão em quê?
- Hoje, antes de sair de casa, ela disse que as mulheres é que fazem as coisas acontecerem, que são elas que acordam cedo e fazem tudo na casa e vão para o trabalho, enquanto os homens ficam dormindo.
- E você concorda com isso?
- Ah... Eu já estava de pé quando ela disse isso, mas meu pai estava lá dormindo, disse que hoje ia fazer greve. Não sei direito o que é isso, mas deve ser bom, não é?
- O quê?
- A greve ué, quando eu crescer quero fazer greve também, ai posso dormir até tarde enquanto minha mulher sai e faz as coisas acontecerem.
Não tive nem tempo, nem reação para responder ao garoto, pois o ônibus já se aproximava e sua mãe correu o puxando pelo braço, mas que o que ele disse faz bastante sentido faz, não acham?

4 comentários:

Marly disse...

Uma verdade incontestável Taline!!!
ai do mundo e dos homens se não fossem as mulheres. Não pense que são palavras minhas; mas, de um padre amigo meu. Pessoa muito esclarecida e a frente de movimentos sociais.
Boa semana pra vc.

Hermes disse...

Os movimentos de greve são interessantes, eu, particularmente, não sou afeito a eles, mas já funcionaram no passado.

A Inglaterra, depois de décadas controlada pela welfare, não aguentava mais greves, depois da grande greve dos catadores de lixo (imagine, catadores de lixo) uma mulher assumiu o poder. Margaret Thatcher assumiu o poder e começou a privatização do Reino Unido. É interessante pensar que ela governou por mais de 10 anos (16, salvo engano), e só se retirou porque a Rainha pediu. Thatcher também foi chamada de "O homem da Inglaterra" por sua postura rígida (e destruidora de movimentos sociais).

Mas a greve ainda pode ser útil, evita, em parte, que o poder centralize-se muito. Mas é uma faca de dois gumes, ela também pode concentrar o poder na mão dos sindicatos.

O Brasil tem um sindicato central forte e articulado, o que não é aconselhável pela OIT, as decisões ficam atreladas à politização sindical, e uso dessa estrutura para "fazer política", vide nosso presidente.

Agora, sobre as mulheres... eu acredito na teoria econômica da "lei dos rendimentos decrescentes". Os homens comandaram a política (e comandam)e o mercado de trabalho até a muito pouco tempo. As mulheres foram excluídas do processo, mas ficaram nas sombras dos homens. Elas brigam para estar entre eles, e deter tanto poder quanto eles, mas à medida que elas forem 'chegando lá', tornar-se-ão farinha do mesmo saco. Assim como o homem, quando perceber que está perdendo espaço, vai render mais, não duvide, hehe.

Abraço!

Taline Libanio disse...

Aos comentários!

Olá Marly! Sempre bom tê-la por aqui...Realmente acredito muito no potencial transformador e dinamizador das mulheres, são capazes de provocar uma releitura nas coisas e pessoas e ainda continuar de cabeça erguida.
Ótima semana a você!

Hermes! Bom revê-lo por aqui.
Agradeço a aula de história, sempre é bom adquirir conhecimento.
Descordo de você quanto ao movimento sindical estar forte e articulado, muitas das conquistas dos trabalhadores foram afetadas de forma negativa pelo impacto da reestruturação produtiva nos sindicatos. As novas condições de trabalho e a heterogeneidade no ambiente empresarial, tem diluído de forma significativa a capacidade de organização e de resistência dos trabalhadores, que cedem as adaptações empresariais commedo dos enxugamentos de quadros de funcionários.

Quanto a "guerra dos sexos" ainda acredito mais no poder de criação e transformação da realidade por parte das mulheres, que tem se destacado em diversos setores, não sendo mais tanta "farinha do mesmo saco", mas isso é um assunto que renderia uma acalorada discussão..hehe.
Abraços,

Anônimo disse...

caramba, essa crônica foi genial.
Boa sacada, independente de cometários pessoais sobre greve.
Queria tê-la lido num jornal impressa, já com aquela certeza de que teria algo bom pra ler uma vez por semana; mas como isso é privilégio só dos rio pardenses..huaauh

abrços
Tamara