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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Lança a dança... Insegurança


“Porque amor é justamente isso, é ficar inseguro. É ter aquele medo de perder a pessoa todo dia, é ter medo de se perder todo dia. É você se ver mergulhado, enredado, em algo que você não tem mais controle” (Fabrício Carpinejar)

Insegurança é veneno produzido no coração. Corre pelas veias, invade o cérebro e domina os pensamentos. Deixa a boca seca e mata aos poucos, gole a gole.
Seca sentimentos como o sol castiga as plantas no sertão. Camufla sonhos e exalta medos como um outdoor com figuras em segundo plano.
Insegurança dói. Tanto quanto a perda de um ente querido, ou uma batida do dedinho no pé da mesa.
Insegurança é lança atirada pelo inseguro contra o próprio peito. É dança em descompasso em piso frio.
Insegurança transparece. Cresce feito nuvem em dias nublados e esconde o que está à vista, como a lua em dias de nevoeiro.
Insegurança cega os olhos, tapa os ouvidos e constrói perguntas que nunca deveriam ser feitas. Insegurança é a maldição dos desapaixonados ou quiçá dos enganados.
Sua maior propagadora é a moça de coração partido ou o rapaz traído na beira do altar. Sentimentinho ridículo de tão pobre, mas capaz de impedir o surgimento de lindas e nobres histórias de amor.
Filha do ódio e da vingança, irmã do ciúme, a tal insegurança quando encontra um coração partido se instala como se fosse suíte em hotel de luxo e ali permanece, em estadia prolongada, sem data para partir. Por vezes adormece por meses e quase passa despercebida, mas basta a menor desconfiança para que ela acorde e grite, aos berros, que dali ninguém a tira.
Ninguém gosta de sentir-se inseguro. Ninguém gosta de desconfiar. Mas quando alguém carrega a insegurança dentro do peito, é difícil aquela fera aquietar. Acredita que a mantém sob controle, quem não sabe o que ela representa, ou seus efeitos nunca sentiu. Esse acha fácil arrancá-la dali e tece crítica feroz a quem com ela emergiu. E entre uma critica e outra, entre um grito e outro, a insegurança desperta, e sente-se vitoriosa ao anunciar: mais um relacionamento que não vai vingar.
A solução para mantê-la sob controle é manter-se solitário. Sozinho, longe de qualquer sentimento nobre que possa atacá-la e querer seu espaço ocupar. Mas isso é justo?
No meu singelo entendimento não. Mas se o homem é o criador de sentimento tão mesquinho, será possível outro homem nele por fim?
Enquanto o guerreiro não a encara de frente, corações apresentam-se secos, sem vida, incapazes de ser terreno fértil para o cultivo de sentimentos nobres. Palavras ecoam na mente do inseguro e o cansaço da crítica também alimenta a dúvida, enrijece a alma, endurece o coração. A insegurança fechou o portão e disse ao amor: aqui você não entra mais não.
Que grande mal é esse, que confunde baixa estima com medo, que ultrapassa a dor física e faz a alma chorar por não conseguir, por mais que deseje todas as noites, confiar?
Ah insegurança... Lança a dança e agora avança. Vá embora sua bruxa malvada e dê a menina um pouco de esperança. Promessas, terapia e simpatia já não a fazem partir, rezas e mandingas a fazem sorrir, seu único medo é a confiança. Mas cá entre nós, como pode confiar o inseguro que desconfia até de quem faz suas tranças?
Mal sem fim, dor eterna? Dizem que não há mal que para sempre dure, nem tristeza que nunca acabe. A insegurança sendo um mal que causa tanta tristeza não há de ser eterna, pois. Será?
Remédio para curá-la? Ainda não há.  Desconheço algum de efeito imediato, mas dizem por ai que amor, em doses diárias, paciência e gestos de cumplicidade alimentam a confiança e enfraquecem a insegurança. 
E se assim for, que o pedido diário no lugar do café, abra espaço para uma dose de amor, bem caprichada garçom, por favor.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Vai de busão! Vai na contramão!


“Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!”
(Grabiel O Pensador – Até quando?)

Praticamente todos os dias escuto a mesma pergunta:
- Por que você não compra um carro?
A resposta para esse questionamento vai do rápido: porque não quero, até o longo discurso que engloba minha repulsa por dirigir e o entendimento de que até o momento não preciso de um carro para viver.
Sempre andei com meus dois pés bem fincados no chão quando morava na pequena cidade, raramente precisava do carro para alguma coisa e nessas horas uma carona sempre era bem vinda. Nunca gostei muito de dirigir, na verdade esse desgosto beirou a fobia, mas hoje já foi superado.
Tenho carteira de habilitação, dirijo quando é preciso, mas não gosto. Para dizer bem a verdade, nem de andar de carro eu gosto. Tenho aflição, sempre acho que está rápido demais, ou que a vaga não tem tamanho suficiente e isso me dá aflição.
Quando mudei para a grande cidade percebi que andar a pé não seria uma solução, já que as distâncias passavam e muito dos seis ou dez quarteirões de antigamente. Então escolhi o transporte coletivo, também conhecido como ônibus ou “busão”, como meu meio de transporte diário.
Para que preciso de um carro se consigo chegar de ônibus ao meu destino, acomodada em um Mercedes Benz, com 42 lugares, bancos de couro e motorista particular? Sempre consegui chegar a todos os lugares de ônibus e quando o retorno por esse meio não era possível, um táxi resolveu bem o meu problema.
Mas tem muita gente que acha um absurdo não ter um carro e me privar desse conforto. Sinceramente em dias de chuva eu penso seriamente que essas pessoas têm razão, mas basta ver o sol se abrindo e aquela brisa fresca batendo no meu rosto enquanto caminho para casa que já mudo de ideia novamente.
É claro que é muito mais confortável andar de carro, mas não vejo problema nenhum em viajar de ônibus quando consigo um assento livre. E é aqui que está o “X” da questão.
Andar de ônibus não é o problema, complicado é você pagar o mesmo preço de tarifa de quem viaja sentado e ter que viajar em pé. Se equilibrando entre um monte de gente, feito sardinha em lata, correndo o risco de cair, se machucar, ser assediado ou assaltado.
Essa semana me enchi de orgulho ao ver as manifestações pelo Brasil afora. Claro que não é apenas pelos vinte centavos que acrescentaram na tarifa da passagem de ônibus. Claro que não é só pelo passe livre, mas esse já é um motivo forte para se iniciar uma reflexão que beira a revolução.
A esmagadora maioria dos brasileiros utiliza o transporte público, muitos deles não por escolha, mas por essa ser sua única opção. O sucateamento do transporte público, a diminuição de linhas, a ausência de dignidade de um lado e do outro o aumento da tarifa, a corrupção ativa e a política pobre para pobres tem sido retrato há décadas do que o povo brasileiro sofre diariamente.
Se o transporte é público por que é mantido por empresa privada? Por que é pago? Por que não é confortável e de livre acesso? Particularmente não reclamo do aumento da tarifa, o problema é que tudo aumenta, o ônibus, o aluguel, o arroz e o feijão, o combustível, o pão de cada dia, mas o salário do trabalhador continua lá, congelado.
Esse ano mesmo, a maioria dos trabalhadores não teve nem 1% de aumento real no seu salário, mas tudo teve elevação de tarifa, inclusive o ônibus. Tudo bem foram só vinte centavos. Vinte centavos, que para você que anda de carro pode parecer pouco, mas para quem utiliza quatro conduções no dia é quase o almoço no Bom prato.
Está na hora de deixar a crítica vazia de lado e levantar os braços, abrir bem a boca e exigir reforma tributária, punição aos corruptos, liberdade de manifestação. Chega de lavar o carro zero todo o final de semana e se esquecer que daqui seis meses ele já desvalorizou em 30%. Chega de achar que o “busão” lotado está de bom tamanho para o trabalhador pobre e xingar horas em um congestionamento.
Se um dia sentir a necessidade de ter um carro, vou adquiri-lo com consciência, sem me esquecer de todos os anos em que me utilizei do transporte público. Hoje eu falo não e não me calo. Chega de alienação.
Eu ando de ônibus e não me envergonho disso. O que me envergonha é a ausência de um transporte público digno, com qualidade. E se a minha indignação for considerada contrária as prerrogativas dos governantes, então já aproveito para informar que eu vou de “busão” e vou na contramão!

terça-feira, 9 de julho de 2013

Onde você guarda o seu?

A descrença e a negligência religiosas são um grande mal, porém o preconceito e as mentiras são ainda piores”. (Plutarco)

Essa semana fui surpreendida com a reação de um colega que me fez pensar no quanto ainda existe conservadorismo e preconceito quando o assunto é religião.
Conheço essa pessoa há pouco tempo e não acho que preciso colocar na minha ficha de apresentação meus preceitos religiosos, contudo, nunca quis escondê-los, pois os escolhi e agradeço todos os dias pelo conhecimento adquirido e por poder multiplicá-los. Mas nunca imaginei que poderia causar tanto espanto a alguém ao assumir minha opção religiosa.
Estávamos conversando quando ele perguntou o que faria à noite e disse que iria ao Centro:
- Mas você já mora no Centro!
- No Centro Espírita.
Silêncio.
- Alô?
- Oi...
- Te assustei?
- Não... Eu só não esperava.
- Algum problema?
- Não, eu continuo gostando de você do mesmo jeito, viu?
Vi. Na mesma hora pensei: Meu Deus! Será que ouvi direito?
Aquela frase me soava mais ou menos assim: Você tem esse defeito grave, mas eu vou continuar gostando de você, viu? Ou ainda, você faz essa coisa horrível, mas mesmo depois de saber disso, eu vou continuar gostando de você, viu?
Será que eu tinha que agradecer? Esse constrangimento me fez lembrar a primeira situação que vivenciei registrando intolerância à minha escolha religiosa.
Quando tinha meus dezesseis anos, estudava em uma escola técnica em uma cidade vizinha e conheci lá uma garota muito legal, tinha um coração enorme, era super simpática e companheira, então pensei: Caramba! Essa garota vai ser minha amiga para o resto da vida!
Construímos uma relação forte de amizade que foi rompida quando em uma aula de sociologia, a professora abordou o tema religião e cada aluno expressou sua crença. Ela que era testemunha de Jeová, quando soube que eu era espírita kardecista nem se despediu naquela tarde. E nos dias que se seguiram, foi ficando mais distante.
Lembro que sofri com a perda daquela amizade, mas tentei compreender as razões dela e segui, construindo minha vida nos princípios do amor e da caridade. Jamais me esqueci daquela situação e hoje isso voltou com força, quando escutei aquela frase que ficou ecoando na minha cabeça por horas.
Fico pensando que às vezes chega a me dar medo de afirmar minha doutrina, pois parece aos olhos de muitos que o que faço é errado. Mas porque temos que ser vistos assim? Não tenho nada contra nenhuma religião, já conheci quase todas até me identificar com a doutrina espírita, mas de verdade, é difícil entender o preconceito que se forma sobre o espiritismo.
Agora mesmo, posso apostar que alguns leitores que acompanham essa coluna há anos, poderão deixar de acompanhá-la, se é que já não o fizeram lá no quinto parágrafo. Acreditar em uma ou outra coisa, em um nome para Deus ou em outro muda minha essência? Muda meus valores?
Acredito que o preconceito vem do desconhecimento. Já me perguntaram se fazemos exorcismo ou rituais malignos por lá. Poxa, se você não conhece não julgue. Participe de um atendimento fraterno, de uma palestra, ou converse com quem é praticante e, se quiser permanecer longe dessa doutrina, então, sobretudo a respeite.
Muito se diz sobre evangélicos hoje em dia na mídia e tenho muitos amigos que seguem essa religião e eu os respeito. Assim como também tenho amigos católicos e ateus. E nunca, jamais falaria para um deles que apesar dele ser evangélico (católico, ateu ou qualquer coisa que desejar) continuarei gostando dele, porque isso me soa estranho, para não dizer incompreensível.
Pessoas fazem escolhas o tempo todo, com tudo! A maravilha da humanidade está na diversidade, a evolução dos homens está no fato de aceitar as escolhas feita por outros homens e respeitar suas diferenças. Mas parece que é mais fácil transformar a diferença em avença do que aceitá-la.
Ouvir isso hoje, em pleno século XXI, onde ainda milhares de pessoas morrem no mundo por fanatismo religioso, ouvir isso em uma cidade com quase seiscentos mil habitantes, onde existe uma comunidade espírita vasta e fortalecida, chega a me assustar.
O conservadorismo ainda existe e o preconceito o acompanha de braços dados.
Com esse episódio aprendi que as respostas chegam mais rápido do que as pedimos e que mais difícil do que esconder uma verdade é disfarçar um preconceito. Então, não o esconda, não o omita, não o guarde.
Quando se expõe o preconceito se abre a possibilidade de dialogar sobre isso, abre-se a oportunidade de romper estigmas e conquistar uma nova visão sobre determinado assunto. Ninguém é capaz de mudar uma pessoa, mas é possível mudar o jeito de olhar para ela, basta conhecê-la, e para isso é preciso despir-se de toda e qualquer forma de preconceito e pré-conceitos.
E então? Onde você guarda o seu? Vamos conversar mais sobre isso?




terça-feira, 18 de junho de 2013

Ah! O amor...

“Não quero mais
Ouvir quem diz
Que o amor é só
Pra ser feliz
Angústia ou paz
Prazer ou dor
Eu quero é mais
Morrer de amor”
(Dori Caymmi)

Semana do dia dos namorados, corações explodindo de alegria e de ar nas vitrines das lojas pela cidade. Balões em forma de coração, almofadas em forma de coração, porta-retrato em forma de coração, chocolate em forma de coração, tapete em forma de coração, assadeira de bolo em forma de coração e até coração em forma de coração.
Para falar a verdade, não consigo entender porque quando o assunto é dia dos namorados o coração tem que ser símbolo fundamental. Logo o coitado que é o primeiro a se estrepar quando o relacionamento desanda. Logo ele que vive cheio de curativos, partido, todo temeroso quando alguém bacana aparece. Por que logo ele tem que ser o carro chefe da festa no dia dos namorados?
Namorados costumam trocar corações o tempo todo, é pingente daqui, promessas dali, almofadinhas acolá. Simbologia perfeita do cuidado, mas se você pensar que muitas pessoas mal conseguem cuidar do seu próprio coração, aceitar a missão de cuidar de outro, cheio de vontades e manias estranhas é no mínimo arriscado.
Acontece que muitas pessoas esperam mais dos outros do que delas mesmas. E isso é perigoso. É terreno farto para decepções e conflitos. Digo isso, pois me incluo nesse grupo e sei que grande parte das vezes em que me percebi triste, não era por algo que eu tinha feito de errado, mas por decepção. Tristeza causada pela atitude de alguém que não ocorreu da forma como eu esperava.
Essa semana estava escutando uma palestra e o orador disse que as pessoas que tentam ser perfeitas demais, acabam buscando a perfeição nas outras pessoas com que se relacionam e o desfecho desse encontro é um fatídico desencontro, rumo à solidão, pois as pessoas não são perfeitas. Isso pode parecer óbvio, mas com certeza você já se pegou cobrando a mudança de atitude em alguém e se decepcionando por não tê-la conseguido, atribuindo ao outro toda a culpa.
Tentar fazer o bem sempre, agir da melhor maneira possível em todas as situações, nos colocam em um grau arriscado de criação de expectativas, pois ao acreditar que os outros fariam por nós o mesmo que faríamos por eles, cedo ou tarde, acabaremos inevitavelmente nos decepcionando.
E o motivo de tanta decepção é simples: as pessoas não são perfeitas. E mesmo aquelas que mais nos amam, um dia irão errar e nos decepcionar. O que podemos fazer é garantir a superação desta decepção cristalizando valores reais, de respeito, lealdade, amor, que farão a tristeza se esvair com o tempo, deixando apenas mais uma cicatriz no coração, sem consequências duradouras.
Eu que já vivi tantos “breves para sempre”, posso afirmar com propriedade que pior do que ser decepcionado por alguém é se decepcionar. Essa decepção sim é doída, difícil de passar, então não espere demais dos outros. Gaste sua energia priorizando ações que auxiliem na realização de seus sonhos, não os deposite nas mãos de outra pessoa, por melhor que ela seja, pois ela não é você, não sente como você, não sabe o que você espera e no que acredita.
Aproveite o dia dos namorados para conhecer melhor o coração da pessoa que está ao seu lado e se estiver sozinho, aproveite esta data para conhecer seu próprio coração. Avaliar todas as dores, os medos e as ideias absurdas que os sentimentos nobres nos provocam é um ótimo jeito de se preparar para um novo amor.
Tudo bem que os corações são fofinhos e atrativos, mas mais do que isso são parte do elo fundamental de uma relação duradoura, não deveriam ficar assim tão expostos em vitrines. Ali deveriam ter sorrisinhos, poemas, cartinhas de amor, rosas vermelhas, bochechas rosadas, olhos nos olhos, timidez e tudo mais que envolve a arte da conquista. O coração vem depois, bem depois, com o tempo, com a confiança e o respeito.
Geralmente chega de mãos dadas com a vontade crescente de ficar junto e com a saudade no meio do dia. Não acho que seja necessário ter ânsia de se chegar ao coração, quanto mais lento o acesso, mais duradoura a permanência.
Tente valorizar o que é estável, perene, isso é amor. Paixões se esvaem com o vento, com a beleza que o tempo leva, com as criticas e imperfeições que os dedos apontam. O amor não. Esse se fortalece nas tempestades de vento, nas rugas que o tempo aplica ao trazer sabedoria, nas reclamações diárias e na difícil arte de aceitar a diversidade e com ela conviver.

Então, fica a dica para o dia dos namorados, prefira os olhos nos olhos ao porta-retrato de coração,prefira o abraço apertado ao coração de pelúcia, prefira o beijo de olhos fechados ao chocolate em forma de coração. Em suma, diria: Apaixone-se menos e ame mais. Ame muito mais.

sábado, 8 de junho de 2013

Amor maior...


Hoje peço licença para dedicar este espaço a uma pessoa que dedica grande espaço de sua vida ao meu cuidado. Ela não é famosa, nem atleta olímpica, nem artista de televisão, mas para mim é o melhor exemplo a ser seguido. É dela meu maior abraço, meu sim, meu afago e meu amor maior.
Foi com ela que aprendi que as super mulheres não existem apenas nos desenhos animados, mas que é preciso superar as dificuldades de cabeça erguida para chegar perto de ser uma heroína. É nela que penso todas as vezes que um novo obstáculo se apresenta.
Foi ela quem me ensinou que o importante é ser bonito por dentro. A beleza exterior o tempo leva e os cosméticos camuflam. É nela que me inspiro quando começo a ver defeito onde não tem, por pura bobagem, ou quando penso em iniciar uma dieta maluca.
Foi ela quem me mostrou que não devemos abraçar o mundo todo, pois podemos não ter força para carregá-lo, mas que devemos ofertar nosso abraço a todas as pessoas do mundo que precisarem de nós. É dela o primeiro abraço quando volto de viagem e o último quando retorno para casa.
Foi ela quem me ensinou a ler e a contar, debruçada nos livros e nos feijões na mesa da cozinha enquanto fazia o almoço. Era ali que ela me fazia o ditado e perguntava como tinham sido meus dias na escola.
Foi ela quem despertou meu gosto pelas letras, ao me levar na biblioteca do antigo emprego, onde me deixava à vontade, encantada com dezenas de livros que me apresentaram um mundo novo. É para ela que faço um resumo de cada texto e de cada livro novo que termino de ler.
Foi ela quem me ensinou que legumes eram bons, apesar de não ter gosto de chocolate e foi dela que lembrei quando morei meu primeiro ano fora e comia até jiló na falta de dinheiro para o sanduíche na hora do almoço.
Foi ela quem me deu a primeira bronca e me mostrou que ter sempre razão, nem sempre significa vencer uma discussão. É nela que penso quando me deparo com conceitos e opiniões totalmente contrárias aos meus valores, e nessa hora conto até dez, respiro e me calo.
Foi ela quem me mostrou que as pessoas tinham mais valor que as coisas, mas que nem todo mundo entendia essa matemática. Foi dela que lembrei quando tive meu tapete puxado pela primeira vez, quando a ganância de algumas pessoas falou mais alto do que a amizade.
Foi ela quem me ensinou a voar, mesmo morrendo de medo de altura. Foi para ela o primeiro pensamento na primeira noite fora de casa, enquanto me lembrava do quanto tinha sido difícil para ela me deixar sair do seu aconchego para buscar novos rumos.
Foi ela quem me ensinou a rezar e me mostrou que a fé é o maior bem que alguém pode carregar. É dela a primeira oração que faço todos os dias.
Foi ela quem me ensinou que amor e respeito precisam andar de mãos dadas e que quando um falta, o outro, por mais que tente, não consegue suprimir essa ausência. É com ela que compartilho meus desamores enquanto ganho cafuné e um abraço gostoso.
Foi ela quem me ensinou que o amor-próprio deve ser cultivado diariamente e é dela que ganho colo para colar meus cacos, depois de um coração partido. É para ela o primeiro telefonema anunciando o fim ou o início de um relacionamento.
Foi ela quem me ensinou que o trabalho é o único meio aceitável de se conquistar bens materiais e reconhecimento profissional. É dela que me lembro todas as vezes que devolvo um troco errado, ou recebo um elogio.
Foi ela que me mostrou que família é quem a gente pode contar, sejam eles de sangue ou não, o importante é tê-los no coração. E que não importa quantos amigos construímos ao longo da vida, mas sim há quanto tempo você tem um amigo. É dela que me lembro quando penso no quanto é bom ter amigos verdadeiros e um lugar para onde retornar.
Foi ela quem me ensinou a amar minhas origens e a ter orgulho da minha terra, da minha gente, da minha história. É dela que me lembro quando olho para o céu daqui e não me esqueço que a mesma lua está sendo vista por lá.
Poderia passar dias aqui escrevendo cada detalhe, cada lição, cada significado que ela tem na minha vida e a cada dia teria um novo parágrafo para acrescentar. Termino aqui, com o coração apertado de saudade da pessoa que é a dona insubstituível do meu amor maior.
Mãe... É todo seu o meu amor maior.
Feliz dia das mães a todas as mamães desse mundo!
Foto de: Taline Libanio.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Pior que o não...


“Quase sempre a maior ou menor felicidade depende do grau de decisão de ser feliz” (Abraham Lincoln)

A vida nos prega algumas peças que nos faz pensar no porquê de certos acontecimentos e ações. Por vezes fazemos coisas que nunca deveriam ter saído do mundo das ideias e tão logo elas se concretizam viram um mar de arrependimento e conflitos.
Tenho me questionado nos últimos dias sobre o que tenho feito e o que deveria ter sido feito. O problema maior está no fato de muitas coisas acontecerem sem o meu consentimento. Geralmente é assim, quando menos se espera, sem nem mesmo aceitar lá está ela, outra situação posta. Algumas admito ter provocado, mas grande parte delas aparecem sem avisar, causando um grande transtorno.
Quando situações desse tipo acontecem geralmente são permeadas por dúvidas e tomadas de decisão. Acontece que em grande parte das vezes uma decisão vai interferir no rumo da vida de um monte de pessoas. É a velha história do alfinete caído aqui que pode provocar um furacão no Japão.
Nessa hora a dúvida impera e o medo de fazer a escolha errada, de machucar pessoas, de se arrepender parece tomar conta de todos os nossos sentidos, e digo todos, pois o sono demora a chegar, o apetite desaparece e até a respiração se altera.
Nunca tive tanta certeza de estar em dúvida como agora. Nunca esperei tanto uma atitude de outra pessoa para esclarecer minha dúvida. Acontece que sei que enquanto acreditar nisso, vou continuar me enganando.
Decisões preveem inevitavelmente renúncias e escolhas.  E a consequência de cada uma delas será de nossa inteira responsabilidade. Esperar do outro nessas situações é tapar o sol com a peneira, esconder a insegurança em um véu de tule.
Algumas pessoas acreditam que uma decisão pode ser revertida a qualquer tempo e isso faz com que se precipitem, se machuquem e se arrependam. Contudo, creio que uma decisão tomada jamais será reversível. Você pode até vivenciar novamente a mesma situação, com as mesmas personagens, mas o impacto da escolha não será o mesmo dessa vez, pois todos estão cheios de histórias, lembranças e cicatrizes. E é isso, na minha opinião, que faz com que todas as decisões sejam tão difíceis e importantes.
Arrependo-me de poucas coisas nessa vida. Creio que apenas uma delas teria mudado de forma radical minha vida. As demais poderiam ter causado uma emoção aqui, uma lembrança ali, uma lágrima acolá, mas nada que me fizesse lamuriar até a eternidade.
A escassez de arrependimentos deve-se ao fato de fazer quase sempre o que tenho vontade e não pense que isso é sinal de coragem e segurança, longe disso. Acontece que algumas coisas mal resolvidas me amarram, então prefiro deixar tudo às claras, para conseguir seguir.
Geralmente prefiro arriscar o sim a ficar na espera do: quem sabe um dia. Na minha modesta opinião, pior do que o não é o talvez. Pior do que o não viver é pensar todos os dias: e se eu tivesse vivido. Pior do que o deixar para depois, é a incerteza do amanhã.
Algumas pessoas contam que o tempo será capaz de auxiliá-las a tomar algumas decisões, mas cá entre nós, acredito que o tempo é um ajudante perigoso. Ao mesmo tempo em que pode contribuir para amadurecer um sentimento e uma certeza, costumeiramente tem a mania de deixar aos poucos tudo apagado, sem cor, até que caia no esquecimento e se torne num belo dia, mais um: “e se”, na nossa curta existência.
Ando cansada de tomar decisões, mas o que é a vida se não um emaranhado delas. Desde a roupa que vou vestir quando acordo, até a hora em que programo o despertador antes de dormir, tudo se resume a um mar de decisões.
Quando a decisão depende exclusivamente de nós, apesar de nada fácil, se torna mais simples, o problema é quando está diretamente ligada a atitude de outra pessoa. Nesses casos parece que só mesmo uma boa mágica para solucionar o problema e quando falo disso, penso que algumas coisas deveriam desaparecer ou nunca ter acontecido, assim evitariam essa inquietação que tira até o meu sono e confunde o ar enquanto respiro...

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Jeito para tudo...


“(...) A vida significa tudo
o que ela sempre significou
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?
Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho...”
(Santo Agostinho)

Em uma consulta médica recentemente me deparei com um doutor bem diferente dos que se apresentam atualmente. Um senhor de pouco mais de 60 anos, cabelos brancos, voz forte e que dispensa da atenção e do tempo geralmente economizados pela maioria dos médicos.
Após me perguntar como me sentia, quando retornava de um período afastada, o senhor sentado a minha frente não se furtou a aceitar minha resposta e me deu conselhos em forma de histórias, mostrando-me outro lado da vida.
Contou-me sobre a improvável possibilidade científica de um besouro voar e de como sua aerodinâmica o impedia disso. Enquanto ele falava, me lembrava das inúmeras vezes que já tinha me assustado com um besouro caindo na minha cabeça no rancho do meu avô. Perguntou-me se eu acreditava que um besouro poderia voar, mesmo contradizendo as Leis da aerodinâmica e pensei que se eu não estava louca, já tinha presenciado muitos deles realizando tal feito.
Minha resposta então foi sim. Pois bem disse ele, você está certa. E acrescentou que o besouro só voava por não saber que ele não poderia conseguir fazê-lo, visto que ninguém teria lhe dito que seu peso, suas formas o impediriam de sair do chão e finalizou essa história com essa frase:
 - Para tudo nessa vida têm jeito, basta acreditar.
E quando menos percebi, havia acrescentado sem pensar:
- Menos para a morte.
Foi quando o vi arregalar os olhos, se ajeitar na cadeira e me dizer com toda a convicção do mundo:
- Será?
Cresci aprendendo que para tudo nessa vida tem um jeito, menos para a morte. Não sinto medo de morrer, mas morro de medo quando me deparo com a menor possibilidade de alguém próximo partir dessa para uma melhor. Ditado que também é questionável, já que não sabemos exatamente o que encontraremos do lado de lá, sendo difícil afirmar que será melhor do que aqui.
O fato é que seja por nós ou pelos outros acho que nunca estamos preparados para a morte. Morrer significa fechar um ciclo, partir, desligar-se da terra e dos seus bens e grande parte das pessoas simplesmente não se preparam e nem tem interesse de estar prontas para isso.
E isso é algo absurdo se pensarmos que é a única certeza da vida. Se é óbvio que vamos morrer, que para a morte não há jeito, por que não nos preparamos para ela? Por que insistimos em deixar com que ela nos derrube pelas costas e nos pegue desprevenidos? Por que não aceitar a morte como algo previsível e que pode ser transpassada com tranquilidade e sabedoria?
Creio que a resposta é uma só: porque ninguém gosta de perder. Aceitar a morte significa aceitar a perda. Perda de pessoas amadas, perda de bens, perda de momentos, perda de cheiros, sabores e imagens. Perda de risos, de colos e abraços.
Esse mesmo médico me contou outra história quando afirmei a previsibilidade da morte. Disse que tinha um vizinho relojoeiro que ficou paraplégico aos 18 anos e que afirmava não ter medo da morte. Dizia que a morte assustava quem não tinha tempo para realizar o que queria, o que gostava e que para ele, apesar de trabalhar com relógios, tempo era o que menos lhe importava, pois o tinha de sobra. Dizia que a morte poderia chegar mais cedo para ele do que para outros, devido a sua debilidade física, mas a única certeza que ele tinha é que estavam todos na mesma fila e que um dia voltariam a se encontrar.
A questão do tempo me fez repensar a morte. Entendi que ao ser questionada sobre a certeza da morte, poderia ter mil respostas, e que a única certa diria respeito ao que acredito. Se acreditar na eternidade a morte será só um estágio, se acreditar no fim com a morte, esta será o grande ponto final, se acreditar em reencarnação a morte será só mais um degrau para a evolução.
Independente de acreditar nisso ou naquilo acho que o que nos falta é valorizar em vida o que a morte nos apontará como perda. E para isso precisamos do tempo que o relojoeiro tem de sobra e a nós constantemente falta.
Valorizar os minutos com as pessoas e coisas que nos dão prazer não é aumentar a lista de perdas quando a morte chegar, pelo contrário, é encará-la de frente, dizendo a cada dia que está preparado para sua chegada, pois tem feito tudo o que tem vontade, o que dá prazer e principalmente ao lado das pessoas que ama.
Se amanhã ou depois você ou elas partirem a perda não será ausência, mas presença em forma de lembrança, em forma de cheiros, sabores e abraços que jamais serão esquecidos. A saudade tornará a perda dolorida, difícil de encarar, mas se você teve tempo para dedicar-se a pessoa que se foi, ou a fazer o bem enquanto esteve aqui, as boas lembranças transformarão aos poucos a saudade em nostalgia.
Hoje entendo o que aquele doutor de cabelos brancos quis me dizer. Não adianta sofrer pelo inevitável, mas podemos viver o previsível de forma a aproveitar cada minuto do nosso tempo com o que e com quem realmente importa.
E apesar da sua previsibilidade, a morte não tem data e hora marcada para chegar, então acho que devemos começar a partir de agora a redirecionar nosso tempo para as pessoas que amamos, para os sonhos e planos que a cada ano que passa ficam mais distantes.
Percebi ao sair do consultório que tinha iniciado meu reordenamento de tempo na semana anterior, antes mesmo dessa conversa, mas que ainda existe tempo de sobra para torná-lo preciso, detalhado, minucioso. Vou fazer um planejamento de dias felizes a curtíssimo prazo ao lado das pessoas que amo, pois se para a morte não existe jeito, para a vida tem... E como tem!

Foto de: Taline Libanio.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Veja por outro lado...


“(...) Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego
Uma flor ainda desbota
Ilude a polícia, rompe o asfalto
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
Garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe
Suas pétalas não se abrem
Seu nome não está nos livros
É feia. Mas é realmente uma flor”.
(A flor e a náusea – Carlos Drummond de Andrade)

Nessa semana um acontecimento, que para muitos pode parecer banal, fez com que mudasse meu jeito de olhar para o caos que se instalou aqui, dentro de mim, há pelo menos duas semanas.
Estava me arrumando para sair quando meu pai perguntou:
- Por que você não vai de carro?
Parei por um minuto antes de responder e disse:
- É perto daqui, não será necessário.
Não satisfeito com minha resposta, ele insistiu e parecendo adivinhar os montes de questionamentos e medos que passavam pela minha mente disse:
- Vai de carro, qual o problema?
- E se acontecer alguma coisa? Se eu não conseguir estacionar, ou acontecer algum acidente?
- E o seguro? Serve para quê?
Nessa hora me lembrei de uma conversa que tínhamos tido há 08 anos, logo que tirei minha habilitação e sofri meu primeiro (e único) incidente automobilístico.
Convém esclarecer que nunca gostei de dirigir. Quando completei 18 anos meus pais me incentivaram a tirar a carteira de habilitação, mas eu não gostava nem de tocar no assunto. Fui tirar a carta três anos depois, quando senti necessidade e fiz questão de não contar nada a ninguém.
Fiz todas as aulas, o exame, reprovei, fiz mais aulas, outro exame e só quando estava com a carteira em mãos reuni a família e contei do meu feito. Na época lembro-me que meus pais não acreditavam que eu tinha feito aquilo, sem contar nada a eles, já que morava em outra cidade e lá tinha poucos conhecidos.
Chegaram a insinuar que eu tivesse comprado a habilitação, mas não, posso afirmar que paguei sim por ela, mas cumpri todas as normas, incluindo o cursinho preparatório que na ocasião era novidade.
Bem, mas o meu feito de tirar habilitação não se resume apenas a isso, prometo contar detalhes dessa saga nas próximas colunas, por enquanto o que foi dito já é suficiente para dar continuidade a essa história.
Então, como ia dizendo, logo que tirei a carteira, juntei todas as minhas economias e convenci minha mãe a ser minha sócia na compra de um carro. Afinal de contas, quem casa quer casa e quem tem carteira de habilitação quer carro.
Pois bem, escolhemos o carro, um carro popular, mas em ótimas condições que fez minha alegria até o segundo dia em que decidi dirigi-lo sozinha. Estava a caminho de um consultório médico, estava atrasada, era em uma das muitas subidas que existem aqui na pequena cidade.
Consegui estacionar com um pouco de dificuldade, mas ao sair, não sei como (até hoje me pergunto como aquilo foi acontecer), consegui enroscar a roda da frente em um arbusto que estava na guia. Era um arbusto pequeno e torto que se enroscava cada vez mais, a cada tentativa de tirar o carro dali.
Sei que o resultado foi um risco na lataria e um amassado enorme que me fez chorar dois dias seguidos enquanto pensava: Meus pais vão me matar!
Cheguei em casa inconsolável, só chorava e mal conseguia explicar o que tinha acontecido. Minha mãe ficou chateada é claro, mas disse para eu me acalmar, pois não tinha sido nada.
Quando meu pai chegou e me viu chorando disse:
- Por que você está assim?
- Você viu o carro?
- Vi.
- Então, por conta do estrago que fiz.
- Minha filha, se não tivessem pessoas como você os funileiros iam morrer de fome.
Na mesma hora sorri e pensei: Não é que ele tem razão!
Às vezes passamos por fases tão difíceis, por dores intermináveis, que nos impedem de olhar para o outro, para o que está ao nosso redor.  Mas precisamos exercitar nosso olhar, para que até mesmo nas dificuldades possamos encontrar algo bom.
Tenho vivido uma fase difícil, acho que a pior dos últimos 29 anos e hoje quando guardava o carro na garagem depois de ter vencido meu medo, observei uma florzinha reluzindo no meio do concreto. Foi então que percebi que essa fase difícil também deve me trazer uma lição. Acho que ainda estou confusa com seu real significado, mas uma coisa eu já percebi, ela está me fazendo mais forte e menos medrosa.
Que possamos encontrar uma flor em cada pedra que é colocada no nosso caminho. Que tenhamos a coragem de olhar para os lados, para baixo e, sobretudo para o alto em busca de soluções, de respostas que nem sempre estarão na nossa frente.
Coragem, foco, força e fé é o que desejo para que possamos encontrar, mesmo diante dos piores dias, mesmo nas noites mais escuras e silenciosas, a sensibilidade necessária para achar graça da desgraça, como meu pai fez...

Foto de: Taline Libanio.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Disfarce para a alma...


“E guardemos a certeza pelas próprias dificuldades já superadas, que não há mal que dure para sempre” (Chico Xavier)

Eu não sei quanto a você, mas tenho uma dificuldade incrível de disfarçar meus sentimentos. Sempre fui do tipo que se entrega com o olhar, sem tempo para desculpas ou disfarces.
Sem contar que além dos olhos tenho duas companheiras que não fazem questão nenhuma de disfarçar quando o assunto é demonstrar o que estou sentindo. Minhas bochechas. Sempre foram grandes vilãs, me entregam em qualquer situação, quando estou com raiva, quando acabei de chorar, quando conto uma mentira ou quando me sinto envergonhada.
Não importa o lugar, tão logo algo do tipo aconteça já sinto o sangue subir bem rápido e se concentrar bem ali, nas bochechas, que já são enormes e conseguem ficar ainda mais evidentes com a nova cor rosada.
Meus olhos também falam por si. Dificilmente quem me conhece realmente se convence com o meu: tudo bem, quando meus olhos estão apagados. É esse o termo que minha mãe utiliza para começar uma conversa ao perceber que algo não vai bem. Diz ela que eles perdem o brilho e ficam por assim dizer, sem vida, vazios.
A verdade é que os sentimentos não aceitam embalagem, nem disfarces. São maiores que nós, que nosso corpo e precisam ganhar espaço saindo por ai de alguma maneira. Às vezes em forma de lágrimas, outras por cores, por vezes utilizam os olhos como meio de transporte, ou a boca para anunciar que algo está fora do previsto.
Acredito que essa seja uma estratégia da humanidade. Exalar o sentimento nos possibilita a aproximação com outras pessoas, seja para compartilhar nossa felicidade ou para dividir uma dor.
Expressar bons sentimentos faz bem para a alma, nos traz auto-estima e permite vibrações tão poderosas, que são capazes de contagiar outras pessoas. O amor, a alegria que vaza pelo nosso corpo não faz bem só para nós, permite também que aqueles que nos amam e nos querem bem, sintam-se felizes.  Quem passa por momentos de extrema alegria não consegue tirar o sorriso do rosto e ganha aquele brilho diferente nos olhos que faz com que todos digam: Hum...Esse viu passarinho verde!
Já os sentimentos ruins, quando se tornam transparentes, servem como um grito de socorro. Ninguém escolhe sentir-se mal e, controlar a tristeza é bem mais difícil do que conter a euforia de uma boa notícia. Chorar quando se está triste, reclamar, lamuriar-se não vai trazer resultado para o problema, mas entendo que essa possa ser a única forma para quem está sofrendo, de livrar-se da dor.
Acontece que grande parte das pessoas tem uma dificuldade imensa de encarar o negativo, o pessimista. Se estão em uma fase boa preferem afastar-se para não se contaminar com a dor do outro. Se estão em uma fase ruim preferem isolar-se, pois a dor do outro não lhe interessa. E assim, infelizmente, alguns laços que pareciam fortes vão se rompendo.
Como já escrevi aqui em outra oportunidade, colocar-se no lugar do outro é impossível e isso não tem que ser questionado, mas respeitar a dor do outro é possível e diminuí-la também, e se quer saber, não custa nada, é de graça.
Um abraço apertado, a escuta atenciosa, uma mensagem de carinho, um pensamento positivo, uma oração, são coisas que fazem um bem danado para quem não está em uma fase muito fácil. Mas até isso para algumas pessoas parece complicado demais.
De verdade, acredito que esse tipo de gente seja o único que consegue usar disfarces para a alma. São pessoas que sofrem sozinhas, não se incomodam com o sofrimento do outro. Que raramente são felizes e quando são, não compartilham sua felicidade por medo da inveja alheia.
Quando se disfarça uma imperfeição física é possível enganar outra pessoa, o disfarce de uma dor da alma só traz engano para quem o vestiu. Se todas as pessoas assumissem seus sentimentos e permitissem olhar ao redor de vez em quando teríamos um mundo muito mais leal. E daí que as imperfeições não são atrativas? Que atire a primeira pedra quem não as têm, quem nunca passou por um dia difícil, ou gritou de alegria e foi taxado de maluco.
Particularmente não recomendo disfarces para a alma, são caríssimos e podem custar nosso maior bem: a felicidade de uma vida. Não sinta vergonha de chorar, não tenha medo de pedir ajuda, não finja estar feliz. As pessoas que realmente importam vão preferir seus olhos inchados de tanto chorar do que vê-los carregados de maquiagem.
 E tratando-se de maquiagem, é bom lembrar que até mesmo as definitivas sempre terão que ser retocadas, é trabalho demais para pouco tempo de vida, vamos ser nós mesmos e viver. Simples assim: vi-ver!

Foto de: Taline Libânio.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Para toda dor... Um remédio?!


“Chega de saudade
A realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai”
(Chega de saudade – Tom Jobim)

Unha encravada, cólica de rim, dor de estômago, enxaqueca, fratura, queimadura, sapato apertado, parto normal, picada de animal peçonhento, ralado em pedregulho, dor de dente e por ai vai... São tantas as dores dessa vida que por vezes imploramos para que elas nunca mais se repitam, mas como a vida é um ir e vir em estrada tortuosa e cheia de obstáculos, por vezes nos deparamos com alguns que nos derrubam literalmente.
Mas pior que qualquer dor física creio que ter na alma uma cicatriz seja o pior dos desafios a se superar. As dores da alma não são contidas com analgésico e antitérmicos, nem mesmo com massagens e dieta especializada.
Quando uma alma se fere, provoca dores que invadem o corpo físico e chegam a nos provocar sensações que antes nunca tinham sido vividas. Um coração partido chega a doer tanto quanto se tivesse sido apunhalado, da mesma forma que uma ofensa pode nos doer como um tapa na cara. Sem contar aquela que eu classifico como a pior dor da alma, a que nos deixa sem ar e advém de uma notícia ruim.
Notícia ruim quebra a gente, parte o coração, deixa um vazio, nos faz reviver medos adormecidos e faz com que o chão saia do lugar. O inesperado nos faz perder o fôlego e por vezes nos obriga a estatizar, ficar paradinhos, sem nenhum movimento, para que a alma se recomponha e faça o corpo voltar a funcionar.
Essa semana tive uma sensação desse tipo. Notícia ruim, daquelas bem difíceis de engolir. Notícias que não deveriam nunca ser dadas, que nem deveriam existir. Notícia que mexe com a alma e o coração da gente.
Quando essa notícia faz referência a alguém querido, parece que a dor se triplica, e nem mesmo a melhor palavra de consolo é capaz de amenizá-la. Nesses momentos é até estranho quando alguém diz: Sinto muito. Pois na verdade, nenhuma palavra faz o menor sentido. A dor é tão grande que não é possível olhar para mais nada.
Nessas horas a impressão que se tem é que não existe saída. A vontade que se tem é de tomar o lugar do outro e guardá-lo junto com todas as outras pessoas que ama, em uma bolha de vidro, para que nunca, nunquinha precisem sofrer e possam viver eternamente.
Sempre fui uma defensora da vida, adoro viver e desejo viver pelo menos uns 100 anos, e acho que os anos a que cada um tem direito deveriam ser melhor distribuídos. Conheço um monte de gente que vive reclamando de tudo, que não dá valor a nada do que tem e que implica até com o fato de ter nascido, mas que vive longamente, são por ai chamados de vasos ruins (os que nunca quebram). E outras pessoas que amam viver, que valorizam cada respiro, que passam maus bocados e nunca desistem, que tem a maior fé e confiança do mundo e estão ali, sempre sendo testadas e partindo mais cedo que muitos rabugentos por ai...
A verdade é que acho que algumas pessoas deveriam ser eternas. Mãe em primeiro lugar. Pai e avós também. Quem nos dá a vida deveria ter a escolha de acompanhar cada etapa da nossa jornada, deveriam ser merecedores de viver até cansar, sem testes, sem dor, seja ela física ou da alma. Daria minha vida para que isso pudesse virar realidade. Daria todos os meus suspiros para que eles pudessem ser eternos.
Pode parecer egoísmo, mas ainda não me sinto preparada para viver sozinha neste mundão de provas e expiações. O que me ergue, me segura e ampara, o que cura minha alma e acalma meu coração é o abraço de mãe, o sorriso de pai, o colo dos avós...É disso que preciso para viver até os 100 anos, então espero que logo se crie uma forma de fazê-los viver até os 200 anos pelo menos.
Ou quem sabe, para acabar de vez com tanta incerteza e sofrimento, seja possível produzir latas com beijos de mãe, caixas de abraços de avó, sacos de risada de pai, bolsas de conselhos de mãe... E o mais importante, algum remédio bem poderoso e baratinho para acabar com a saudade, a pior dor da alma já diagnosticada e ainda sem remédio, nem solução...

Foto de: Taline Libânio.

domingo, 14 de abril de 2013

Coloque-se!


"Cada um sabe a dor 
E a delícia 
De ser o que é..."
(Dom de Iludir - Caetano Veloso)

“Coloque-se no meu lugar! Queria ver se fosse com você!”.
Posso apostar que você já disse isso ao menos uma vez na vida. Geralmente a frase supracitada é utilizada em momentos de raiva, indignação, onde o sentimento de injustiça fala alto e o mundo simplesmente parece tornar-se um grande inimigo, onde ninguém, absolutamente ninguém te compreende.
Eu já cometi esse erro diversas vezes. Não sei nem por quantas vezes me utilizei da frase acima para tentar justificar alguma angustia, utilizando-a como o prefácio de uma explicação que geralmente acabava com lágrimas e muito arrependimento.
Recentemente inclusive, ao me indispor com uma amiga fiz uso da máxima: e se fosse com você, iria gostar? Mas acontece que a pimenta nos olhos do outro, pode até não ser refresco, mas não faz diferença alguma para o acusador. Não ter vivenciado uma situação, faz com que ela torne-se totalmente indiferente para a maioria das pessoas e isso significa ser alheio a sentimentos e suas consequências.
É justamente por isso que acredito que utilizar essa frase é cometer um erro. Diria ainda que se trata de erro gravíssimo, visto que por mais que você detalhe, desenhe e suplique,  o outro (seja ele homem, mulher, sua melhor amiga ou namorado) jamais irá entender o que você está sentindo.
A verdade é uma só, não se pode exigir do outro o conhecimento de situações que só você vivenciou. Cada um sabe o que viveu, como viveu e o que cada palavra, cada ação trouxe como consequência para sua vida. Uma ofensa ou apelido na infância pode ser tirado de letra por um garoto despachado, mas pode trazer crise de baixa estima eternamente para uma garota tímida.
As pessoas até podem imaginar, supor e respeitar o que você está sentindo, mas jamais saberão qualificar a intensidade daquela emoção. Não poderão avaliar o quão dolorosa e insistente ela é, pois simplesmente não viveram nada daquilo.
A dificuldade maior está em aceitar que o outro não tem a obrigação de saber como você se sente. É aqui que acabamos nos sentindo injustiçados, traídos, toda vez que algo que foge do nosso controle acontece. Ter essa atitude vinda de alguém que se quer bem então! É como se o mundo parasse de girar e te desse um belo puxão de tapete.
Mas para tentar superar essa dor vale lembrar de todas as vezes em que você também já ouviu essa frase. Quantas vezes alguém já não te pediu para colocar-se em seu lugar e imaginar-se em uma ou outra situação. Na certa você, assim como eu, fez um esforço absurdo e até imaginou-se vivendo cada momento, mas aposto que no final pode ter dito: e o que tem demais nisso? Se fosse comigo tudo bem.
E é aqui que começam as maiores, mais agressivas e intermináveis brigas de relacionamento. E quando digo que a arte da vida é relacionar-se não falo estritamente da relação afetiva. Relacionamo-nos 24 horas por dia, seja em casa, no trabalho, na fila do banco, no ponto de ônibus. Estar vivo, viver em sociedade significa relacionar-se e isso nem sempre é fácil.
Acontece que as maiores mágoas acontecem por parte daqueles que nos são mais próximos e isso pode parecer estranho, mas no fundo é um tanto quanto óbvio. Quando alguém tece uma crítica ou faz algo que não aprovamos isso nos dói, mas se essa ação vem de um estranho temos mais facilidade de deixar pra lá. Já quando parte de alguém próximo chega a rasgar a alma enquanto você pensa: mas logo você que me conhece tão bem foi capaz de fazer ou dizer isso?
E então eu volto ao início desse texto. Essa pessoa que te chateou e te conhece tão bem e quer tanto o seu bem, já deve ter ouvido sua história mil, cem mil vezes, já pode ter se sensibilizado com alguma coisa que te aconteceu, mas por mais que ela te conheça, que ela te ame, que ela tente, ela jamais conseguirá sentir o que você sentiu nos piores e melhores dias de sua vida.
Essa intensidade é única, e ainda bem. É ela que faz com que as pessoas sejam diferentes, que cada um sinta e pense de forma diferente diante de uma situação. É ela que faz que algumas pessoas gostem de calor e outras de frio. Que algumas amem a lua e outras morram de medo do escuro, que algumas adorem aparecer em fotos e outras não consigam se enxergar fotogênicas nem em um book profissional.
Então meu querido leitor, antes de usar essa frase e apontar o dedo para o seu umbigo, lembre-se que (feliz ou infelizmente) ainda não possuíamos a capacidade de nos colocar no lugar do outro, por melhores que sejam nossas intenções. Coloque-se no seu centro, no seu limite, no seu lugar e abra espaço para que o outro não ocupe seu lugar, mas esteja ao seu lado, de mãos dadas, tentando compartilhar a dor e deixando aos poucos que as sensações ruins um dia tornem-se apenas más impressões.
É o que pretendo fazer de hoje em diante. É o que desejo, de coração, para mim, para você e para todos aqueles que já tentaram e não conseguiram estar no lugar do outro. E se existir algum cientista interessado em criar uma máquina que seja capaz de transferir sentimentos, diria que é melhor deixar para lá, já temos problemas demais com as nossas “delícias e dores” cotidianas...

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Cinco fatos...


"(...) Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor"
(A banda - Chico Buarque)

Dia desses um amigo me pediu para elencar os cinco fatos que seriam mais marcantes em uma vida. A pergunta era parte de uma pesquisa e em breve deveria tornar-se uma bela poesia se bem o conheço, aliás, me orgulho de ter amigos que vivem da arte, ou pelo menos reservam parte do seu dia para não deixar que ela sucumba.
Tenho amigos músicos, compositores, desenhistas, poetas, contistas, pintores, fotógrafos e aqueles que fazem arte com sua fala, sua risada e seu jeito de deixar o mundo mais colorido com um olhar diferenciado. Creio inclusive, que a característica comum a todos esses artistas seja o olhar diferenciado. Aquele olhar que vai além das aparências, que sobrepõe a primeira impressão e consegue captar sentimentos até em pedras.
Mas voltando ao desafio colocado pelo amigo poeta e desenhista, diria que me fez pensar que a vida é muito maior do que cinco fatos marcantes e que seria injusto citar um ou dois acontecimentos de forma que parecessem mais especiais que outros.
Acontece que mesmo tentando, não consegui separar apenas cinco fatos que poderia considerar os mais marcantes da minha vida. Tentei então, ampliar o horizonte e elencar cinco fatos que seriam os mais marcantes na vida de qualquer pessoa. E confesso que a tarefa mostrou-se ainda mais complicada.
Ao visionar uma vida que não era a minha cai no difícil dilema de escolher algo que nunca tinha sido vivido e não poderia ser avaliado como positivo ou não. Pensei que um fato marcante na vida de uma pessoa seria o nascimento de um filho, por exemplo, mas como poderia assegurar isso se nunca o vivi e mais, tenho relatos de amigos que afirmam categoricamente a riqueza da maternidade/paternidade e já presenciei mães rejeitar os filhos e transformar a maternidade em algo incrivelmente tenebroso.
Acho que o que acontece é que temos a mania (a terrível mania) de confundir bons momentos com desejos não realizados. Temos o costume de exaltar algo como primordial até que ele aconteça, pois depois do primeiro segundo efetivado parece que vai desgastando, perdendo a cor e o que era pra ser a realização do maior sonho do mundo, torna-se apenas mais uma conquista.
Talvez seja por isso que tive tanta dificuldade de elencar cinco fatos marcantes. Ao lembrar-me de algo incrível que já tinha vivido, logo me passava pela cabeça algo mais recente e depois algo que ainda não tinha se concretizado, mas que com certeza deveria ser uma sensação e tanto.
Vou dar um exemplo claro, quando tentei responder a pergunta nem sequer citei meu primeiro salto de paraquedas. Acontece que esse era um sonho de adolescência e tornou-se a vitória do século, até que veio o segundo salto e depois o salto de paraglyder e transformaram aquele desejo maior do mundo em apenas mais uma ação realizada. Como se saltar de paraquedas fosse como ir à padaria e pedir dois pães todos os dias.
Cheguei a criticar o amigo pesquisador dizendo que perguntas desse tipo não deveriam ter limite de resposta, por crer que cada momento, cada sensação, cada ação é única e mesmo que seja repetida, mesmo que seja novamente idealizada nunca mais será como a primeira vez. Então seria injusto e praticamente impossível comparar a entrada na faculdade com a vista do primeiro pôr-do-sol, ou a primeira grande viagem com o nascimento de um filho, por exemplo. Ter que enumerar o que seria mais ou menos marcante acarretaria em deixar buracos na colcha de retalhos que costumeiramente chamamos de vida.
Mas pensando bem, a dificuldade em elencar os fatos deu-se justamente pelo contrário. Não pelo valor que cada conquista teve, mas pela perda de seu valor após ter sido conquistada. E quando percebi isso, fiquei extremamente incomodada.
O incomodo maior surgiu porque a vida continuará sendo feita de momentos, de escolhas, de sensações e emoções, contudo pode findar-se amanhã e não ter tido valor nenhum, pois ao invés de colocar as conquistas na estante temos o péssimo costume de colocá-las embaixo da cama, na intenção de sobrar na estante mais espaço para novas conquistas. E isso não é de todo mau, o único problema é que quando não valorizamos as conquistas e focamos apenas no que ainda queremos conquistar parece que nossa vida não valeu de nada.
É como se nadasse, nadasse e morresse na praia todos os dias, já que nenhuma conquista é lembrada, nenhum esforço foi válido, nenhuma escolha fez sentido e a vida vai ficando chata, sem graça, cinza e você vai ficando desanimado, triste, chateado e o pior, atribui isso tudo a qualquer coisa menos ao real motivo.
Então, meus caros leitores e amigos, vou fazer questão de iniciar uma lista não com cinco, mas com cinco mil fatos marcantes que fazem parte da minha vida. E o verbo no presente aqui é proposital, pois não é porque já aconteceram que deixaram de ser importantes, qualquer fato é e sempre será responsável por eu ser quem sou hoje. E desses cinco mil surgirão outros cinco e mais cinco e poderão me mostrar o quanto venci, o quanto conquistei e o quanto valeu a pena todo e qualquer esforço. Que tal começar sua lista também?

Foto de: Taline Libanio.

A vidraça



Já tinha ouvido falar que não existe nada tão ruim que não possa ficar pior, que desgraça pouca é bobagem e que se existe a possibilidade de algo dar errado, dará e da pior maneira possível. Aliás, o primeiro texto desta coluna falava justamente sobre essa máxima de Edward Murphy.
No dia em que me mudei para o apartamento onde moro, percebi que uma vidraça da janela da sala estava trincada. Apontei essa informação na vistoria e solicitei a troca, mas ouvi do corretor que não se fazia necessário e que quando quebrasse eu poderia solicitar o pedido novamente.
Fiquei por quase dois anos com a vidraça trincada. Em dias de chuva forte até sentia um frio na espinha com o barulho provocado pelo vento que chacoalhava o vidro e sempre pensava: de hoje não passa.
Mas como disse anteriormente, se é pra dar errado que dê no dia em que as coisas já estão todas fora do lugar. E foi assim, no dia em que tive a minha primeira (e espero última) crise de labirintite que a vidraça quebrou.
Diante da impossibilidade de andar em linha reta, pensar na troca da vidraça foi algo que realmente passou longe de meus planos durante os dez dias em que fiquei acamada. Mas de volta a rotina, tratei de correr atrás do reparo e qual não foi minha surpresa quando descobri que seria muito mais difícil trocar essa vidraça do que subir com um sofá nas costas por doze andares de escada.
Fiz contato com seis vidraçarias, apenas uma dispôs-se a encaminhar um funcionário para verificar se o serviço poderia ser feito, as demais negaram inclusive a visita, logo de cara. Tantas negativas deram-se pelo fato do vidro estar na janela do 12° andar de um prédio que não tem sacada.
Uma das vendedoras me disse que em prédios antigos é mais difícil realizar o serviço, pelo fato do vidro ser colocado com massa e ter que ser trocado de fora para dentro. Ela ainda disse que entendia minha dificuldade, mas devia o empecilho da visita ao risco de queda.
Fiquei pensando depois das ligações que a dificuldade de hoje, deu-se pelo cuidado do passado. Antigamente as coisas eram feitas para durar (inclusive as não materiais). Não se pensava nas substituições e reparos. Diferente de hoje que a maioria das relações são superficiais e os móveis vêm com etiqueta de garantia e termo de validade, cogitar a troca de um vidro colocado no 12° andar em uma estrutura de ferro não se fazia necessário.
O fato é que a vidraça ainda continuava quebrada e ninguém queria se arriscar a fazer o serviço. O jeito foi agir por conta própria. Se desejar uma coisa bem feita, faça você mesmo. Certo? Correto, mas apesar de adorar desafios, não foi dessa vez que me pendurei no alto do 12° andar. Tratei de usar meu poder de argumentação e exigir uma ação da imobiliária para que tudo fosse resolvido, pois já tinha passado um apuro com uma chuva de vento que adorou invadir minha sala pela fresta quebrada da vidraça.
Consegui através da imobiliária, que pela primeira vez em dois anos agiu de forma rápida, um senhor, perto dos setenta anos que gostava de brincar de homem aranha e não se importou em ficar pendurado, com parte do corpo dentro e parte fora do prédio para realizar a troca.
O senhor olhou o vidro com cuidado e foi cortando pedaço por pedaço, até retirá-lo por completo. Depois, mediu o vidro que havia trazido, fez alguns recortes, passou a massa em volta de toda a moldura e... Bem, quando ele colocou a ponta do vidro na janela, presenciei uma cena de desenho animado. O vidro trincou-se inteirinho.
Muito sem graça, o senhorzinho virou-se pra mim e disse: Eu troquei uns vinte vidros semana passada e não aconteceu isso, a senhora me desculpe, mas vou ter que buscar outro.
Enquanto o acompanhava até a porta me senti culpada por não tê-lo alertado de que seria estranho se o vidro não trincasse, visto que as coisas comigo sempre acontecem no nível hard de dificuldade, mas achei melhor evitar outras explicações e quiçá a cobrança pelo vidro trincado devido a minha suposta “falta de sorte”.
Depois de cinquenta minutos ele voltou com um vidro mais grosso e garantindo que aquele ali era o melhor, seria trinta reais mais caro, mas não ia quebrar nunca mais. Olhei bem para os seus quase setenta anos e acreditei. Afinal antigamente as coisas eram feitas para durar e as pessoas costumavam ter mais palavra do que hoje em dia.
Finalmente o vento deixava de entrar sem ser convidado na minha sala. Agora posso olhar a vista em dias de frio sem cicatrizes, enquanto penso no que dentro de mim também deve ser feito para durar, como as coisas de antigamente e aquilo que devo colocar para fora, junto com os cacos da antiga vidraça...

Foto de: Taline Libanio.