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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Promessas de um Ano Bom...


Confesso que não estou muito animada para as comemorações de passagem de ano, é claro que sempre é bom festejar e, estar com amigos e família nesta época torna tudo mais fácil, contudo o que me assusta não são as comemorações em si, mas as promessas para o ano que se inicia.
Sei que uma promessa pode simplesmente não ser feita e então com isso não teria que me preocupar, mas sem promessas quais seriam os primeiros passos de um ano que eu desejo e espero seja bom?
Poderia enumerar uma lista com mais de cem promessas para 2011, mas que significado teria isso para você? Creio que nenhum, pois as promessas não são nada mais do que autoconhecimento e reflexão interior.
Se você pede para ficar dez quilos mais magra é porque sabe que está acima do peso. Se pede um namorado novo é porque está sentindo-se sozinha. Se pede um emprego é porque sabe que não é possível viver em um sistema capitalista sem um tostão no bolso e assim vai...
O legal da promessa é que ninguém pode cumpri-la por você. E isso pode ser muito negativo, se considerar que frequentemente não é possível cumprir nem dez das cem promessas listadas, fato que nos causa um desânimo tão grande que pode se arrastar até o final do ano. Por outro lado, se só você pode realizá-la, seu caminho está em suas mãos e de mais ninguém, e então poderá fazer tudo do seu jeito, sem pressa nem aflição e isso é muito interessante.
Creio que o desespero e descrédito das promessas de início de ano são causados, pois as pessoas não sabem prometer. Geralmente prometem com contrapartida e isso nunquinha funciona. Eu prometo ser uma boa menina se conseguir comprar aquele carro zero. Prometo parar de fumar se encontrar o homem dos meus sonhos. Prometo fazer regime se conseguir uma promoção no trabalho e assim por diante.
Promessas deste tipo estão fadadas ao fracasso. Da mesma forma quando condicionamos sua realização a outras pessoas. Geralmente as pessoas lançam expectativas nos outros e isso é tão comum que muitas vezes é inconsciente, contudo quando não têm seus objetivos alcançados colocam a culpa no mundo e na conspiração do universo, mas nunca em si.
Oras, mas ninguém vive sozinho neste planeta e é impossível não envolver pessoas em nossos sonhos! É claro, concordo plenamente, mas não podemos fazer das pessoas nossos sonhos, isso é um erro grave e irreversível.
Então meus queridos, quando o relógio badalar o início de um novo ano, não olhe para os lados ou para cima, olhe para dentro de você e tente descobrir qual seu maior desejo, qual sua ambição, qual seu sonho e então feche os olhos e prometa com toda sua força ser feliz!
A felicidade é capaz de contemplar todas as promessas, mesmo aquelas mais esquisitas. Viver intensamente e não apenas por viver, viver por você e não por alguém, sorrir de você e não para alguém, amar você e não apenas alguém é muito mais importante que qualquer lingerie colorida, que pulinhos na praia e sementes de romã.
Dias felizes e coloridos em cada minutinho de 2011 é o que desejo a todos nós! Sejam eles repletos de promessas ou apenas vividos dia-a-dia, um minuto por vez...


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Enquanto o Natal não vem...


Estar de férias na época do Natal chega a ser estranho. Fazia muito tempo que não aproveitava a véspera das comemorações natalinas. Geralmente o Natal chegava em um sopro, na correria das rodoviárias, estradas carregadas e malas cheias.
Desta vez não. As férias me permitiram chegar mais cedo. Observar as luzes que surgiram aos poucos, tímidas de início, mas capazes de hipnotizar qualquer transeunte.
A noite da pequena cidade está mais colorida. Árvore de Natal na praça central, casa do papai-noel, auto de natal, iluminação em alguns prédios públicos e promoções, muitas, em todas as lojas. Um convite ao consumo e à manutenção da tradição natalina da troca de presentes.
Um olhar desatento, no entanto pode buscar o espírito natalino e não encontrá-lo. Para alguns o Natal não passa de marketing, época de maior lucro para o comércio e de desespero para os pais que parcelam em dez vezes o presente esperado pelo filho ou lhes escrevem cartinhas ao papai-noel na ânsia de ter seu pedido atendido.
Na televisão tudo lembra o Natal. Filmes cheios de neve e luzes coloridas. Famílias em pé de guerra que com um passe de mágica voltam a se entender graças ao milagre do Natal, do dito espírito natalino.
Tanto alvoroço para tudo acabar em uma mesa repleta de quitutes e em uma árvore cheia de presentes, isso é claro nas famílias que podem possibilitar isso aos seus. Para as demais será apenas mais uma noite, triste provavelmente e que se fará passar rápido em busca de um ano novo mais próspero, mais feliz.
O menino na manjedoura nem sempre é lembrado, tem sido substituído pelos bonecos de neve e pelos papais-noéis vestidos de qualquer coisa. Orações à meia-noite são substituídas por canções natalinas e brindes com espumante. E é assim que tem sido o nosso Natal.
Enquanto o Natal não vem tenho buscado o espírito natalino aqui e ali. Programando alguns sorrisos, muitas vezes por meio da oferta de presentes e olhando mais para lá do que para cá.
Afinal, estar de férias é ter tempo de encontrar o Natal antes mesmo do dia vinte e cinco de dezembro. E foi assim que percebi que o dito espírito natalino só pode ser encontrado nas pessoas, já que as coisas não o mantêm.
Estar com amigos verdadeiros, abraçar a família e ganhar um cafuné nos dias de tristeza é alimentar o espírito de Natal. Ele só existe se for cultivado, no dia-a-dia, em cada bom dia, nas histórias de final de semana e no céu azul de cada manhã. Harmonia do dia para noite só nas telas de cinema, não há espírito de natal capaz de transformar ódio em amor, rancor em carinho com uma música de Natal e um ho-ho-ho, depois do último badalar da meia-noite.
Descobri que o Natal está dentro de mim. Nem sempre alegre, nem sempre com boas lembranças, mas forte o suficiente para trazer paz, luz e um olhar colorido para as árvores da cidade.
Tive o prazer de ouvir um coral logo no meu primeiro dia de férias na pequena cidade. Para minha surpresa não foram apenas músicas de natal, mas quem foi que disse que o Natal não está em todas as músicas?
O cenário foi um antigo mercado municipal, com suas paredes brancas e o chão encardido. Cadeiras enfileiradas e um palco modesto logo à frente. Não havia muito público de início e tão logo entrei no local pensei: Mas nem uma luz decorativa? Nem um tapete no chão ou uma cortina nas janelas?
Fiquei à espera de uma apresentação comum, mais uma entre tantas outras que já havia presenciado e teria sido assim se o Natal não estivesse no coração dos coralistas.
Uma música atrás da outra invadindo minha alma. Trazendo sorrisos, lágrimas e uma vontade de ficar ali envolta por aquela energia o tempo todo. O espaço se encheu de luz, nem foi preciso decoração, cada azulejo foi iluminado pelos olhos brilhantes dos que cantavam e encantavam.
Uma senhora de cabelos brancos, toda maquiada e com um colar de pérolas no pescoço me chamou a atenção. Cantava feliz, sorrindo, com um prazer tão grande que pensei: Quando crescer, quero ser assim...
Bendito Natal que nos proporciona estes momentos de paz e alegria. Benditos artistas anônimos que nos fazer sorrir e chorar com suas vozes e sua vontade de cantar. Bendita cidade que me trouxe a paz de volta enquanto o Natal não vem.
Dias repletos do espírito natalino a todos nós, antes, durante e depois do Natal, é o que desejo, pois o Natal só persistirá se for cultivado o ano todo, em cada história contada, em cada sorriso dado, em cada prece ofertada a cada um de nós...
Ilustração de: Gabriel Vicente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

De tanto, restou tão pouco...


Abri os olhos e tudo estava cinza. Apesar do céu azul lá fora e do sol com seus raios amarelos invadindo meu quarto pela janela.
Fiz questão de me beliscar para ver se a cena era real, olhei em volta e reconheci meu quarto e a escuridão que havia permanecido desde a noite passada. Não, não era um pesadelo.
Um vazio me consumia. A falta na lembrança que se fazia presente em todos os cômodos, nos móveis e até na vista da janela.
Tudo cinza. Como fotos queimadas em uma fogueira no fundo do quintal. Como fuligem que se esvai com o vento soprando daqui e dali e manchando tudo o que vê pela frente.
A verdade é que o cinza nunca foi minha cor predileta. A verdade é que quando vejo tudo cinza é porque algo foi queimado dentro de mim.
Sonhos, planos, esperança, risos e promessas. Juras de amor, abraços apertados, passeio de mãos dadas, serenata, pôr-do-sol na beira do mar. Tudo cinza, tudo envolto por um véu de fumaça que me causa enjôo.
Não tenho respostas, nem certezas. Fui consumida pela confusão. Eu te amo, mas preciso pensar. Você é muito especial para mim, mas preciso ficar sozinho. Você é uma pessoa maravilhosa, mas...
Mas... sempre o mas. Sempre o talvez, o quem sabe. Um pedido de desculpas e a sombra invadiu meu mundo novamente.
Desculpe-me. Um erro? Tudo não passou de um erro? Desculpe-me por tê-la magoado. Mágoa. Antes fosse só mágoa. O que dói mais é a incerteza, as perguntas sem respostas.
Parece que o companheirismo se findou. Como se agora que estivesse andando com as próprias pernas nada do que aconteceu tenha tido valor. O apoio nas horas difíceis, o choro nas horas de decisão, o colo nos dias de tristeza e o incentivo para que caminhasse sozinho. Nada teve valor, não significou nada?
Tudo, nada, tão pouco, muito pouco... Não sei, creio que jamais saberei. Só sei que uma tristeza pronfunda me consome e começo a refletir se realmente é impossível morrer de amor... Realmente ninguém morre de amor, mas e da falta dele?
Não chore. Deixe-me chorar até cansar, lavar a alma, o riso e os gestos. Você vai ficar bem? Com certeza ficarei. Cedo ou tarde, tarde demais ou tão cedo a ponto de me causar espanto.
Vou me recompor, recobrar meu orgulho e seguir. Já passei por isso outras vezes. Vou sobreviver. Sou forte, frágil, corajosa, medrosa. Chega de lágrimas. Chega de incerteza. Vou gostar de quem gosta de mim. Vou gostar de mim, isso basta.
Chega de blasfêmias, de ilusões e blá-blá-blás, quero ser feliz para sempre. Desta vez sozinha. Comigo, para mim, por mim e apenas isso.
O que me entristece não é a falta, já que o tempo com certeza vai curar mais esta ferida. A dor fica pela falta de respostas. Pela incerteza do que hoje já é mais do que certo.
Você está com raiva de mim? Não. Raiva não. Acho que decepcionada, triste por ver que continua tão indeciso, diria até egoísta. Por isso desejos de felicidade. Sem raiva, de coração. Afinal, até mesmo quem partiu um coração tem o direito de amar e ser feliz.
Dias repletos de nostalgia e medo de amar a todos nós, é o que desejo, pois é isso também que nos move: a tristeza, tão incerta quanto os dias de sol e céu azul em meio a um mundo cheio de nuvens cinzas...

Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cobrança em dobro...


Semana passada fui consumida pelo trabalho e pela indisposição provocada, sobretudo pelo calor que tem castigado a cidade. Um ar quente, abafado, que dificulta até a respiração. Em dias assim o melhor a se fazer é ficar em frente ao ventilador acompanhado de muita água fresca, contudo, nem sempre isso é possível, especialmente em dias úteis, mais especificamente no meu local de trabalho.
Uma das minhas atribuições é realizar visita domiciliar. Confesso que não gosto muito desta prática profissional, acho invasiva e em muitos casos desconcertante, apesar de aceitar e compreender sua importância e utilidade. O fato é que não gostar não significa não fazer e em alguns casos minha presença faz-se inevitável e o que me resta é aproveitar a ocasião para algum aprendizado.
Em virtude da necessidade de renovar um benefício existente no município voltado a mães que tiveram no mesmo parto dois ou mais filhos, ou seja gêmeos, dirigi-me a uma residência onde já esperava encontrar pelo menos duas crianças, mal apertei a campanhia e logo vi uma cabecinha na porta dizendo:
- Quem é você?
Apresentei-me e pedi para que a garotinha de quatro anos chamasse a mãe. Não demorou muito para que a mãe da criança aparecesse na companhia da irmã gêmea. As duas garotinhas negras, com os cabelos cheios de trança, quatro anos completos e um sorriso largo no rosto, me puxaram pelas mãos mostrando as roupas idênticas e indicando o caminho da sala.
Enquanto entrevistava a mãe das crianças era constantemente interrompida. Pediam para ver meu crachá, minha caneta, o processo, o que eu estava escrevendo e porque fazia tantas perguntas para a mãe, previ que logo começaria o meu interrogatório e não demorou quase nada para que as perguntas explodissem:
- Você tem pai?
- Tenho sim.
- Esse aqui é meu pai – me dizia uma das meninas mostrando um porta-retrato.
- E onde está seu pai?
- Ele foi trabalhar. Sabia que eu adoro o meu pai?
- É mesmo? Ele é um bom pai?
- É sim, ele me levou no Mecjoni.
- Onde?
- No Mecjoni, você não conhece?
- Eu não. Onde fica?
- É bem longe, um dia eu peço para o meu pai te levar.
Vendo que eu realmente não estava entendendo nada sobre o Mecjoni a mãe das crianças me esclareceu que se tratava do Mc Donald's e que as crianças tinham estado no local na ocasião do aniversário da irmã mais velha.
Mistério esclarecido, eis que começou novo interrogatório:
- Tia, como chama sua filha?
- Eu não tenho filha.
- E seu filho, como chama?
- Eu também não tenho filho.
- Nem gêmeos?
- Não, nem gêmeos.
Certa de que minha explicação tinha sido suficiente continuei a preencher os papéis do formulário, até que novamente fui interrompida pela garotinha:
- Por que você não me conta o nome da sua filha?
- Porque eu não tenho filha.
- Nunca teve?
- Não.
-Mas por quê?
-Porque ainda não chegou a hora.
-E quando vai ser a hora?
Boa pergunta – pensei comigo. Mas antes de tentar responder o que não tinha resposta fui salva novamente pela mãe das crianças que com a face rosada de vergonha disse para as filhas:
-Ela ainda não tem uma filhinha, mas um dia ela vai ter.
Não satisfeitas com a resposta começaram novamente as interrogações:
-E como vai chamar?
-Não sei ainda.
-Sua filhinha não vai ter nome?
-Vai sim.
-E como vai ser?
-Não sei.
-Não sei é nome, tia?
-Não, disse que ainda não pensei nisso.
-Conta tia, como vai ser o nome?
-Cara – disse sem pensar, por ter escutado o nome no anúncio da novela, pouco antes da pergunta, na televisão ligada na sala.
-Clara?
- Isso.
- Credo tia, que nome mais feio!
Não segurei o riso. Tantas perguntas para ter a conversa encerrada com uma crítica. A mãe das meninas nesta altura já não sabia se sorria, se chamava a atenção das filhas ou se me pedia desculpas.
Sai daquela casa com um ar diferente, sem saber ao certo se estava bem ou não. Acho que até um pouco tonta. Na verdade assustada, afinal nunca imaginei ser cobrada em dobro por não conhecer o Mcjoni e por não ter filhas.
A verdade é que este encontro com as garotas me fez pensar nos anos que estão passando velozmente e nos meus sonhos futuros, que incluem filhos, quem sabe gêmeos. Sonhos esses que têm sido tão deixados de lado que já nem sabia o que responder quando questionada a dizer um nome. Sonhos tão impensados ultimamente que pareceram improváveis depois desta conversa.
Creio que na verdade o susto serviu para repensar algumas posturas e renovar alguns sonhos. Sonhos esses que vi estampados nos sorrisos largos e nos olhos de jabuticaba daquelas duas garotinhas gêmeas.



Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Foi o zíper!


Existem duas coisas que me tiram do sério, a primeira é fila e a segunda é fila em banco. Evito ao máximo ir ao banco em horário comercial, especialmente em dias de pagamento. Aquele monte de gente esperando sua vez e olhando no relógio da senha a cada toque, acreditando que a regra de apenas 15 minutos de fila será cumprida.
Uma fila de caixas eletrônicos, muitas vezes sem dinheiro disponível, fora de sistema ou com uma espera inacreditável. Isso, devido a necessidade de muitas pessoas ainda precisarem de ajuda para sacar seu dinheirinho na tal máquina.
Só enfrento um banco no início de mês em casos urgentes, urgentíssimos, tudo para evitar chateação na fila.
Esta semana sai do trabalho e fui ao banco pagar alguns boletos no caixa eletrônico, grande comodidade essa possibilidade. Basta digitar alguns números, encostar o papel no leitor e pronto, pagamento efetuado, sem nenhuma dificuldade.
Geralmente deixo para efetuar esses pagamentos no meio da semana e no final do expediente, quando as pessoas que rodaram pelas lojas do centro o dia todo já voltaram para suas casas cansadas e sem dinheiro no bolso.
Infelizmente desta vez errei no cálculo e cheguei ao banco 15:58h. Faltavam apenas dois minutos para a agência fechar e ser liberado apenas o acesso aos caixas eletrônicos. Por conta de dois minutos, acabei pagando um dos maiores micos já vividos, tudo por causa de um zíper.
É, isso mesmo, um zíper, na verdade o fecho do zíper que fica em um dos bolsos da minha bolsa...
Quando percebi a agência aberta decidi entrar pela porta principal para não perder tempo e me enfiei na porta giratória. Na primeira tentativa a porta travou e logo o segurança se aproximou:
- Tem alguma coisa na bolsa senhora?
- Um monte! – disse a ele enquanto tirava o celular e o colocava no porta-treco da porta.
Nova tentativa e novo impedimento:
- Tem mais alguma coisa senhora?
Tirei o guarda-chuva e as chaves. Quase entupi o porta-treco desta vez e quando tentei passar pela terceira vez a porta novamente não girou.
- O que foi dessa vez?!
- Não sei senhora, não foi a trava de segurança.
Tentava ir para trás e nada, para frente e nada e eu ali presa na porta de vidro sem saber o que estava acontecendo. Depois de muito tentar e de tirar o segurança de seu posto, fazendo-o forçar a porta, olho para o chão e vejo o fecho do zíper preso naquele minúsculo espaço entre a porta e o chão.
Tentava tirar o zíper, agachada no chão do jeito que dava naquelepequeno espaço, e nada. No meio disso tudo meu celular tocou e o segurança olhou para mim, para o celular, para o zíper, pensando se era um plano para assaltar o banco ou coisa do tipo, enquanto eu insistia com o tal fecho preso na porta.
Alguns minutos depois consegui me salvar. Dei muita risada e o segurança também não resistiu enquanto me dizia:
- Olha moça, já tinha visto de tudo nesse banco, mas um zíper voar da bolsae travar a porta é a primeira vez.
É...mal sabe ele das coisas que já me aconteceram.
Bem, para terminar a confusão, fiquei presa novamente, desta vez na área do caixa eletrônico. Verdade, não é invenção não. Mas desta vez, a culpa não foi minha e nem do zíper e durou apenas uns dois minutos enquanto travavam a saída principal e liberavam a outra.
Outros dois minutos...se tivesse esperado por dois minutos lá fora, não teria atrasado o fechamento do banco, muito menos passado por esse vexame. Mas também não teria esta história para contar. Em suma, acho que o balanço foi positivo!
Uma semana repleta de cuidado com as portas de banco, é o que desejo a todos nós!
Ilustração de: Gabriel Vicente.

sábado, 30 de outubro de 2010

A culpa é de quem?!


Para ser bem sincera nem sei muito bem como começar este texto. A idéia está aqui na cabeça, martelando há pelo menos uns dez dias, mas o assunto não é fácil, incomoda, a mim inclusive, então não sei de que forma abordá-lo sem parecer exagerada ou melindrosa.
Acontece que andei perdendo o equilíbrio nos últimos meses, uma ansiedade sem tamanho me dominou e para domá-la comecei a comer. Comi muito, muito mesmo e como resultado ganhei novos cinco quilos, que somados aos outros sete que tinha conquistado quando aqui cheguei já significam doze.
Doze quilos a mais, peso suficiente para que o meu manequim subisse dois números e meu reflexo apresentasse abertamente, a quem quisesse ver, o resultado de tanta comilança.
Confesso que estava incomodada, principalmente pelas roupas que perdi, afinal não tenho dinheiro de sobra para renovar meu guarda-roupa e tentar usar uma roupa de cinco quilos a menos é constrangedor, para não dizer humilhante. Mas o incômodo estava interno, apenas comigo e com meu espelho.
Na semana passada, contudo fui abordada de forma muito indelicada por uma pessoa que trabalha na mesma secretaria em que atuo, que se desviou do portal ao me ver chegar e disse:
- Deixe-me sair senão você não passa.
Eu apenas a olhei, não sorri, nem disse nada. E ela continuou:
- Você engordou hein?
Mais uma vez me abstive de qualquer comentário, até por tratar-se de uma pessoa que sempre gostei muito. E novamente escutei:
- Além de ter engordado está de mau humor? Isso não é culpa minha, viu?
Terminei o que estava fazendo e sai. Chateada, incomodada e pensando na última frase que ela disse. Ela tinha razão, ela não teve culpa nenhuma. Não foi ela que ocasionou meu excesso de peso, mas a ela devo minha chateação e incômodo.
Quanto ao peso fiquei pensando no causador disso tudo e só consegui me lembrar de amigas dizendo frases soltas:
- Estava vendo fotos antigas esta semana, todas nós engordamos muito!
- Estava indo na academia, mas desisti, chego tão cansada em casa!
- Depois dos trinta anos fica quase impossivel perder peso, é bem mais difícil!
- Comecei uma dieta esta semana, mas não sei até quando vou conseguir cumpri-la!
- Meu colesterol está alto, não sei mais o que fazer!
E blá-blá-blá, toda aquela conversa de mulher depois do almoço, com relatos de inúmeras decepções e nãos. Comecei a pensar então sobre a relação do meu sobrepeso com minha rotina, que de certa forma muito se aproxima da rotina de muitas das minhas amigas e cheguei à conclusão que a culpa pelo excesso de peso é realmente minha.
Seria fácil culpar o chefe, a falta de recursos, de equipe, de tempo para viajar, para rever os amigos e estar com minha família. Seria fácil culpar a pós-graduação e a falta de descanso no final de semana, mas nem tudo é assim tão simples.
Abdiquei dos exercícios físicos porque sempre estou tão cansada ao chegar em casa que me dói só de pensar em vestir roupa de ginástica. Comecei a comer lanches e congelados porque são mais práticos, não tomam meu tempo livre. Não substitui doce por frutas porque raramente consigo pegar o mercadão aberto antes de ir para casa. Enfim, desisti de me cuidar.
E alguns poderão dizer: então a culpa não é sua, é do excesso de coisas que você faz, da sobrecarga de trabalho. E poderia até concordar se vivêssemos na época da escravidão, mas apesar de muitas coisas serem impostas eu sempre tive a possibilidade de dizer: não.
E nunca o fiz. Por medo, ou talvez por acomodação, quiça por mera esperança de que um dia tudo venha a ser melhor. E pensar que era só dizer não... Não quero mais trabalhar nessas condições. Não vou privar-me de qualidade de vida para ficar fazendo relatórios. Não vou atender meu telefone fora do horário do expediente. Não quero, não vou, não faço. Uma palavrinha tão pequena e tão difícil de ser dita.
Hoje levantei e vi meu cágado dormindo, na mesma hora pensei: que vidão! Quisera eu dormir até a hora que eu bem entendesse. Mas tão logo me vi comparando a minha vida com a de um animalzinho, e novamente senti-me incomodada, humilhada, do mesmo jeito em que me senti ao ser chamada de gorda.
Acontece que a minha cobrança é a que mais me perturba. Cobro-me dia e noite uma mudança de vida e sempre me vejo estática. Chega uma hora que isso incomoda tanto que a gente coloca para fora de alguma forma, no meu caso de forma errada, exagerando na comida. Isso não está certo.
Acomodada sei que não estou, pois continuo prestando concursos, buscando novas possibilidades, concluindo as pós-graduações que poderão me abrir novos caminhos, mas ainda assim a roupa que não serve mais, os comentários das amigas, e a fala daquela pessoa me incomodam demais.
A bronca aqui não é para quem me chamou de gorda, se bem que acho que cada um devia cuidar da sua vida e ponto, ela nem sequer imagina o mal que me causou ao dizer isso. A bronca aqui é comigo, com mais ninguém, comigo apenas.
Às vezes dá vontade de me chacoalhar e dizer: Acorda menina, vai ser feliz em outro lugar! Mas falta força, apesar do excesso de peso.
Bem, acho que é isso. Muito mais um desabafo do que um texto para esta coluna. Creio que esta é minha melhor forma de me aproximar de pessoas que também se sentem assim e que não sabem como agir. Confesso que nem eu sei ao certo a forma de superar esta fase, mas só de saber que não estamos sozinhos quando a culpa vem, já é algo muito confortador.
Uma semana repleta de abraços gordinhos a todos nós, é o que desejo!



Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 24 de outubro de 2010

E o seu um terço?


Passei por uma longa capacitação sobre o enfrentamento da violência contra a mulher nesta semana. Curso pesado, daqueles que mexem com nossos valores, que chegam a ferir por dentro, mas de uma importância tão significativa que deveria ser estendido a todos, independente da profissão, do sexo, raça ou opção sexual.
A violência doméstica em todas suas faces foi o tema mais abordado. Já atendi vítimas de violência doméstica, mas confesso que nunca soube muito bem por onde começar nestes atendimentos. Talvez por identificar uma limitação de recursos institucionais para encaminhamentos, ou pela dificuldade de manter-me neutra diante das partes ou até mesmo por não ter a dimensão da conjuntura que desenha uma agressão.
Cheguei à conclusão que todos são vítimas de violência. Independente da discussão sobre genêro e das diferenças sociais existentes entre homens e mulheres, muito além ainda de nossas diferenças biológicas, o fato é que somos criados em uma sociedade que constrói a violência dia e noite.
A começar pelos padrões de civilidade adotados por nós, cheios de machismo, de conservadorismo e senso comum. Meninos brincam com carrinho, meninas ganham panelas e ferro de passar. Meninos jogam bola, meninas ganham bonecas e brincam de casinha.
Como quebrar estereótipos tão intrínsecos, alimentados em nós desde criança? Confesso que ao lembrar da minha infância o que mais me veio à mente foram as bonecas Barbie, felizmente ainda me lembrei de corridas em carrinho de rolimã, de pipas coloridas e de subidas em árvores no sítio, tudo graças a meu pai que por talvez sempre ter sonhado com um filho homem, acabou depositando sua expectativa nas duas mulecas que Deus lhe deu.
Mas nem sempre é assim. Já vi meninos apanharem por experimentar o sapato da mãe ou pegar a boneca da irmã no colo. Da mesma forma que já vi uma garota ser recriminada por não sentar de pernas cruzadas ou por não gostar de maquiagem.
Longe de julgar a criação de cada um, a grosso modo estou querendo apontar que somos nós, em nossos padrões, em nossa sociedade machista e feminista ao extremo que criamos mulheres submissas ou solitárias e homens frustados ou agressivos.
Parece que fazemos questão de não esquecer a função social decretada a homens e mulheres na antiguidade, onde ao homem cabia a função de caçador, reprodutor e mantenedor da família e a mulher cabia apenas a gestação e cuidado dos filhos.
Este conceito é algo ainda tão arraigado que muitas vezes fica difícil acreditar. Ouvi um relato esta semana que demonstra o quanto isso ainda é presente culturalmente na vida de homens e mulheres:
Conta-se que uma jovem, em período de amamentação do quarto filho, foi orientada por uma agente de saúde a realizar o planejamento familiar, sendo instruída sobre o uso do contraceptivo oral. Residia em uma região muito vulnerável, não trabalhava devido a impedimento do marido que era extremamente machista e agressivo. Alguns meses depois, ela volta à unidade de saúde na companhia do esposo, muito bravo, que aos gritos diz a enfermeira:
- Você nos enganou!
- O que aconteceu senhor?
- Você disse para minha mulher que se tomasse todos esses comprimidos aqui, um por dia, não iamos mais ter filhos, e ela está grávida novamente.
- Mas a senhora tomou sem falhar a pílula, todos os dias? – dirigiu-se a enfermeira para a jovem.
- Eu tomei tudinho! – respondeu aos berros o esposo, impedindo que a mulher abrisse a boca.
Pois bem, mesmo depois de 50 anos da Revolução da Pílula, que provocou mudanças de hábitos sexuais significativos nos casais do ocidente e principalmente possibilitou a mulher ter o direito de escolher pela reprodução, cabendo a partir de então, a ela, decidir se teria um ou dez filhos, parece que algumas coisas não mudam.
O homem do relato anterior, com toda sua vaidade e orgulho, jamais poderia admitir que coubesse a mulher a escolha de ter mais filhos e se era para impedir a reprodução ele que o faria, optando então por tomar as pílulas no lugar da mulher.
Ignorância, machismo, prepotência, submissão? Tudo isso e um pouco mais, diria apenas que foi uma violência.
Violência dele contra ela, por humilhá-la, substimá-la e impedi-la de tomar decisões apenas pelo fato de ser mulher. Uma violência da sociedade contra ele que foi criado em uma família machista, onde o pai agredia verbalmente e fisicamente a mãe e foi assim que ele reproduziu suas atitudes com sua família. Uma violência dela contra ela mesma, mesmo que inconsciente, em uma luta diária na busca pelo rompimento de um ciclo de violência que parece não ter fim.
E finalmente uma violência de todos nós contra eles, por atribuir à ignorância, à falta de oportunidades ou ao fator econômico a consequência disso. Por culpabilizar esta mulher e dizer por entre ombros: Está assim porque quer, porque gosta de apanhar. Por fecharmos nossos olhos e ouvidos e não movermos uma agulha ao presenciarmos ou suspeitarmos de um ato de violência.
Provavelmente alguém dirá: que baboseira, o que eu tenho com isso? E então lhe pergunto: se você não provocou esta situação então o que tem feito para amenizá-la, para suprimi-la? E o seu um terço? Parte da responsabilidade é do indivíduo, parte do Estado e parte da sociedade, certo? E então, qual seu um terço?
Não precisa me responder, aliás, não pretendo com este texto criticar ou julgar atos de terceiros, muito menos instigar a paz no mundo (por mais que seja este meu desejo). Tenho apenas procurado fazer minha parte e esta capacitação foi para mim tão importante que me senti na obrigação de deixar meu um terço aqui. Minha singela contribuição para uma discussão que nos provoca indignação e aquela vergonha moral que por vezes sentimos e deixamos passar...que desta vez ela não passe, persista e multiplique-se.
Se você já foi vítima de violência, denúncie. Se você é um agressor, procure ajuda. Se você presencia ou suspeita de atos de violência ofereça seu um terço.
Provocar a mudança é preciso, para começar basta um, para vencer precisamos de mais de um milhão!
Uma semana repleta de reflexões e de sementinhas de indignação a todos nós, é o que desejo!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 26 de setembro de 2010

A única certeza desta vida...

Em homenagem a querida Marly: “Até que nos encontremos novamente, que Deus te guarde na palma da sua mão”.

Sim, o assunto é delicado. Não, não terá graça alguma. Sim, com certeza você saberá do que estou falando. Não, ninguém precisa levar este assunto a ferro e fogo.
Morrer. Desencarnar, perder a vida, exalar o último suspiro, falecer, finar-se, expirar, fazer a longa viagem, perecer, abotoar o paletó, adormecer no Senhor, apagar, assentar o cabelo, bater as botas, bater o prego, comer capim pela raiz, dar a alma a Deus, dar a alma ao Criador, dar o último alento, defuntar, desaparecer, descansar, descer à terra, desviver, dizer adeus ao mundo, embarcar deste mundo para um melhor, empacotar, entregar a alma a Deus, esticar a canela, expirar, fazer passagem, fechar o paletó, fechar os olhos, fenecer, ir para a Cucuia, ir para a cidade dos pés juntos, ir para bom lugar, ir para o beleléu, ir para o outro mundo, passar desta para melhor, pifar, render o espírito, vestir o paletó de madeira, extinguir-se, acabar-se, findar. Interromper.
Morte, é este o assunto do dia, isso tudo porque, novamente, fui aproximada da única certeza desta vida. Logo eu que não sei lidar com esta situação (e quem sabe?). Nestes momentos faltam palavras, falta coragem, falta lugar para colocar as mãos, falta força para abraçar e sobram lágrimas.
Apesar de ser a única certeza da vida, ninguém sabe quando esta hora vai chegar. Ninguém consegue prever e calcular. E acho que é por isso que quando alguém morre todos ao seu redor param e veem-se obrigados a recomeçar, a reorganizar sua vida.
Seja porque aquela pessoa era sua base, seja porque era seu exemplo, sua alegria, ou ainda porque você se lembra que inclusive você e todos os que amam estão suscetíveis à morte. E isso dói. Afinal ninguém fica pensando ou planejando o dia do adeus, não é?
Espero que não me entenda mal, afinal não desejo que ninguém fique remoendo este assunto um dia inteiro, mas precisava aproveitar este espaço para mostrar o meu ponto de vista sobre isso tudo e colocar para fora o resto da minha tristeza.
É claro que a dor, o medo de não conseguir suportar, a incerteza de como serão as coisas daqui para frente são comuns a todos e é fato que depois que a perda acontece, não temos o poder de fazer o tempo voltar(bom seria se fosse possível). Mas existe um outro lado que dificilmente percebemos, seja por estar tudo turvo demais ou pela dor ser tão intensa que nos impede de ver o lado bom das coisas em um momento tão triste.
Oras! E existe lado bom na morte?! Aprendi a acreditar que sim. Principalmente por entender que a morte na verdade é só a interrupção da vida. Uma pausa para que possamos nos reorganizar e voltar para junto dos nossos, em outra forma talvez, com outro jeito, mas sempre, sempre dispostos a encontrar e cuidar de nossas almas companheiras, de nossas almas gêmeas.
A morte causa lembranças que nenhum outro sentimento é possível de provocar. Você se lembra de coisas de décadas atrás e consegue se lembrar do quanto era bom estar com aquele alguém, você consegue sorrir relembrando uma conversa, um afago e isso é bom. Bom para sua alma que ganha novas forças, bom para seu coração que aos poucos vai se cicatrizando.
A dor que a morte nos provoca realmente é perene. É uma dor que não tem cura, mas tem acalento. Datas festivas, objetos, pessoas, roupas, cheiros, tudo isso será capaz de trazer a dor de volta, mas com o tempo ela vai se acalmando e se transforma em boas recordações e naquela saudade gostosa de quem viveu tanta coisa boa.
Não tinha um convívio diário com a pessoa que nos deixou na semana passada, mas os poucos momentos que passamos juntas me deixaram deliciosas lembranças e é isso que me consola. Posso ainda afirmar que era uma pessoa tão querida que os anjos na certa fizeram fila para acompanhá-la e que agora ela está muito bem.
E é disso que estou falando, não importa o tempo que você passou ou passa ao lado das pessoas que ama, o que vale mesmo é a intensidade destes encontros. Não temos que viver cada dia como se fosse o último e jogar tudo para o alto, mas podemos aproveitar o melhor da vida a cada dia, para que quando chegar a nossa única certeza desta vida também possamos deixar boas lembranças e exemplos dignos de plágio.
A morte é parte do nosso trato com Deus. Cláusula obrigatória no contrato, impossível de modificação, isso é fato. O que é passível de mudança é a forma como a encaramos. Não é o fim do mundo é o recomeço. Para quem foi e principalmente para quem fica.
É na dor da morte que descobrimos quem somos, é ali que amadurecemos e criamos coragem para recomeçar, para mudar hábitos e posturas, para pedir perdão e dizer eu te amo. Só Deus mesmo para fazer um sentimento tão triste nos provocar mudanças tão maravilhosas... Uma semana repleta de vida a todos nós, é o que desejo.

Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 12 de setembro de 2010

O que os olhos não veem o coração sente...


Depois de um longo feriado que me rendeu muitas histórias, imaginei um retorno pacato à rotina. Um dia comum, sem muitas surpresas, sem fortes emoções ou mudanças.
No trabalho tudo bem, nada além do esperado, alguns imprevistos brevemente sanados, enfim, nada capaz de tirar meu controle e minha paz.
O final do dia chegou rápido, quatro dias longe de tudo me deu a sensação de ter ficado longe da cidade por um ano. O feriado passou rápido e o dia subsequente mais rápido ainda. Ao tentar voltar para casa consegui perder três ônibus. Dizia para mim em pensamento: Mas será possível? Três ônibus em menos de cinco minutos, só você mesmo!
Acabei entrando no primeiro ônibus que encontrei depois destes desencontros, certa de que seria o caminho mais curto até em casa. É claro que não foi assim tão curto, já que o motorista percorreu dois bairros inteiros antes de se dirigir ao meu destino final.
Só não perdi a calma graças ao prolongado descanso físico e mental e especialmente por ter entendido mais uma vez o porquê de ter perdido três ônibus antes de parar dentro deste.
Andávamos há pouco mais de quinze minutos quando o ônibus parou em um ponto sem muito movimento, vi a porta se abrir e um garoto gritar:
- Calma pai, já pedi para o motorista esperar.
Em seguida observo um senhor de quarenta e poucos anos subir os degraus com cuidado, segurando nas mãos uma guia utilizada por deficientes visuais. O garoto, de uns onze anos aproximadamente, que havia entrado primeiro, segurou a mão do pai e o levou até o banco mais alto da condução.
- É aqui que vamos sentar?
- É, daqui dá para ver melhor lá fora pai.
- Por mim tudo bem.
Sentaram-se bem atrás de mim, deste modo, mesmo que não quisesse foi inevitável escutar a conversa que se seguiu:
- Nossa, esse ônibus está vazio pai. Só nove pessoas.
- Com a gente?
- Isso, e já contando o motorista. Tem uma moça na nossa frente, uma outra moça com duas crianças do lado, um senhor lá na frente,uma menina com roupa do meu colégio do outro lado e o motorista.
- Está vazio mesmo. E o que nós vamos fazer na “cidade” (aqui as pessoas ainda têm costume de dizer que o centro é a cidade, independente do bairro em que vivam)?
- Ah, sei lá. Queria ficar um pouco sozinho com o senhor, tem coisa que não gosto de falar na frente da vovó.
- Mas quer falar sobre o quê?
- É que eu conheci uma garota na escola hoje. Tão bonita pai. Mas depois te conto que agora vou escutar essa música.
Olhei brevemente para trás e vi o garoto colocar o fone de ouvido e cantarolar alguma coisa, enquanto o pai mantinha um leve sorriso no rosto.
Pouco antes do ponto final, o garoto olha pela janela e diz:
- Nossa! Não acredito!
- O que foi filho?
- A garota pai, passando ali na calçada em frente da loja de pesca.
- A garota bonita?
- É pai, olha lá.
- Olhar para quê?
- Ah, sei lá, se não quiser olhar então imagina.
- Então me diz como ela é.
O garoto começou a detalhar a garota passo a passo, dos sapatos até o arranjo no cabelo, dizia a cor da roupa, dos olhos e até o gesto que ela fazia. Fiz questão de olhar a jovem que subia distraída rumo ao calçadão no centro, realmente uma bela garota. A descrição da jovem foi interrompida pelo questionamento do pai:
- Não passamos o ponto filho?
- Nossa! Já estamos quase, bem perto já.
- Acabou se distraindo, não é?
- É, mas acho melhor a gente dar outra volta. Não quero que ela me veja agora e ainda tenho muita coisa para te contar, pode ser?
- Por mim sem problemas – disse o pai rindo enquanto trazia o garoto para junto de si, num forte abraço.
E assim permaneceram sentados no ônibus enquanto eu descia no ponto final. Na certa fariam o caminho inverso todinho para que tivessem tempo suficiente para compartilhar aquele segredo tão importante para pai e filho.
O pai, provavelmente nunca verá o rosto, nem a roupa da linda menina que em breve será a ele apresentada pelo garoto, mas com certeza poderá advinhar seu cheiro, imaginar seu sorriso e a cor da boca pelos olhos do filho que, muito mais do que seu guia, hoje se tornou seus olhos.
Enquanto observava o ônibus se afastar, agradeci a Deus pelos meus olhos saudáveis e por ainda existir esse amor sincero e cúmplice neste mundo que anda cada vez mais cinza... Um ótimo exemplo para iniciar esta curta semana de volta à rotina.




Ilustração de: Gabriel Vicente.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Secretário do lar, sim senhora!


Realmente nunca é tarde para mudanças de concepção e esta semana tive mais uma vez a confirmação desta certeza. Acredito que as pessoas se formam de acordo com os valores e exemplos que adquirem durante toda sua vida. É por isso que pais, educadores e todas as pessoas que estão em contato direto com as crianças são tão importantes para a construção e o fortalecimento de suas personalidades.
Acontece que mesmo com o passar do tempo algumas concepções, alguns valores continuam arraigados na nossa alma como tatuagens e mesmo que se vivencie novas experiências, conheça novos conceitos, ainda assim algumas verdades continuarão eternas para cada um de nós.
Cresci em uma geração onde a mulher ainda era a única responsável pelos afazeres domésticos: lavar, passar, cozinhar, enfim, das bisavós até as mães sempre foi assim. É claro que ao longo do tempo muitas mudanças apresentaram-se, algumas incríveis, como a possibilidade da mulher trocar de papéis com o homem em algumas funções ou concorrer livremente com ele em uma oportunidade de emprego, contudo, ainda assim mesmo com a mulher invadindo o mercado de trabalho, salvo exceções, ainda é dela a responsabilidade dos afazeres domésticos.
Muitas mulheres hoje têm a possibilidade de contratar alguém para cuidar da casa, da roupa, contudo ainda assim lhes resta a função da escolha do funcionário, mostrar o que quer que seja feito,de que forma, e para isso, já dizia minha avó: só sabe mandar quem sabe fazer. É cultural as meninas brincarem de fazer comidinha e de casinha e os meninos de jogadores de futebol ou motoristas de carro de corrida. Eu pelo menos nunca vi um menino dizer que vai brincar de papai, você já?
Não quero afirmar que ainda vivemos em uma sociedade completamente machista, até por conhecer vários homens que minha avó chamaria de prendados, capazes de cuidar da sua roupa, da sua comida, da casa, mas mesmo que seja para coordenar a organização destes afazeres domésticos sempre existirá por trás deste homem uma mulher, pode ser a avó que o ensinou a fritar o ovo, ou a mãe que ensinou a utilizar a máquina de lavar, dificilmente o que sabem foi lhes ensinado por um homem.
Não acho que seja um cargo do qual devamos nos orgulhar, afinal reflete a submissão sofrida por inúmeras mulheres em um período incontável que perdura da formação da humanidade até hoje, mas este espaço, imaginava eu, sempre seria nosso.
Imaginava até hoje. E é daqui que retomo a discussão iniciada anteriormente sobre nossa mudança de valores, de concepções. Sempre que busquei uma diarista para atender a limpeza do meu apartamento solicitava uma moça de confiança, sempre assim, uma mulher que pudesse cuidar de tudo, sem me deixar com medo de chegar em casa e encontrar o apartamento vazio.
No meu trabalho sempre tive auxiliares de limpeza mulheres e nunca houve nenhum tipo de estranhamento, com a exceção das fofocas comuns onde existem muitas mulheres juntas (isso é inevitável e tenho que admitir), contudo semana passada soube da mudança da empresa de limpeza no meu local de trabalho e fui avisada que teríamos uma nova auxiliar.
No primeiro dia de trabalho da nova funcionária estava em uma reunião externa e não demorou para meu celular tocar com a auxiliar administrativa toda preocupada com a seguinte informação:
- A nova funcionária da limpeza chegou.
- Que bom! Já mostrou o prédio para ela?
- Já. Mas tem uma coisa.
- O quê? Algum problema?
- Não sei se é um problema. Mas é que quem se apresentou hoje aqui é um rapaz.
- Um homem?
- É.
- Interessante.
Confesso que me surpreendi. Não pelo fato de ser um homem simplesmente, afinal já presenciei vários homens em firmas de limpeza da cidade realizando seu trabalho como qualquer uma de nós, mas a surpresa veio quando cheguei ao prédio no dia seguinte.
O toldo da entrada estava brilhando, os vidros impecáveis, chão encerado, aquele cheirinho de limpeza que invadia o prédio todo, me apresentei enquanto o via limpar o fogão.
Um homem novo, de uns 40 anos aproximadamente, quieto e muito prestativo. O comentário no prédio entre as outras funcionárias era apenas um:
- Você viu que belezinha esse moço? Limpou tudinho!
- Pois é, nem dá tempo de pedir e ele já está limpando.
- Além de tudo é organizado.
- E o melhor de tudo, não faz fofoca.
Não faz fofoca, mas virou a fofoca da semana. Uma fofoca boa, daquelas que me fez mais uma vez repensar meus pré-conceitos e admitir que neste cargo, que foi culturalmente delegado exclusivamente a nós mulheres, existem homens que superam a muitas de nós.
Eu nunca gostei dos afazeres domésticos, sei fazer de tudo um pouco porque fui ensinada a isso, mas confesso que estou longe de limpar tão bem uma geladeira como aquele rapaz, que durante uma conversa e outra ainda me contou já ter trabalhado como diarista:
- É mesmo? Trabalhava em casa de família?
- É, antes de entrar na firma eu era secretário.
- Secretário?
- Secretário do lar, sim senhora!
E foi assim que conheci mais um personagem da minha própria história, capaz de me fazer refletir sobre um pouco de tudo e sobre o quanto ainda não sei de nada.

Ilustração de: Gabriel Vicente.

sábado, 28 de agosto de 2010

A marvada gripe!


Começo a ter certeza de que algo aqui dentro não vai bem. Sinto como se todos os meus músculos ficassem se engalfiando, em um estica e puxa que faz tudo formigar. Minha cabeça está pesada, cheia de ar eu presumo, já que meu nariz fechou a passagem de qualquer coisa nesta direção. A boca está seca e a cada copo de água é como se pedisse mais e mais.
Parece que às vezes vou cair, uma tontura esquisita que aparece sempre ao final de um espirro. Odeio espirrar, meus olhos quase saltam do rosto e o alívio imediato não é suficiente para sanar a aflição.
Minha garganta apresenta sinais de irritação, ainda não reclama da água, nem do leite quente, mas já começa a ameçar o bloqueio de um pedaço de pão. Imagino milhares de microrganismos em uma luta sem fim dentro de mim. Soldados brancos e vermelhos tentando decifrar o nome do inimigo, enquanto sugam minhas forças.
O termômetro indica estado febril. Começo a lembrar das propagandas de antitérmicos que vi recentemente. Três em um, quatro, sete em um. Será possível que um comprimidinho de nada consegueria acabar com todo esse mal estar?
Tento controlar o início da inflamação com muita água e alguns comprimidos de vitamina C. Tenho me dado prazos para melhorar, se em dois dias não tiver sinal de melhora procuro um médico. Não consigo ficar nem por meia hora concentrada nos livros, minha cabeça dói e meu nariz implora por um lenço limpo.
Penso que deveria ter uma lei que proibisse as pessoas neste estado de sair de casa. Seria muito mais digno esperar isso tudo passar deitada na minha cama quente, do que espirrando no ônibus e espalhando vírus no meu trabalho.
Sem falar no mau humor que me assola e desta vez não me culpo. Quem consegue ficar disposto em dias assim? Quem pode sorrir se não lhe sobra força nem para olhar no espelho enquanto pensa: você está um bagaço, bom dia.
Felizmente estou vacinada contra a gripe A (H1N1). Desta acho que me livrei. Mas será que isso é gripe mesmo? Talvez seja apenas o tempo seco, agravado pelas queimadas que tem feito meus olhos arder e intensificado, pouco a pouco, a sensação de falta de ar.
O jornal apontava logo pela manhã um alerta sobre a baixa umidade do ar na região em que me encontro. Altas temperaturas, baixa umidade, nem sinal de chuva. Tenho seguido as recomendações a risca: evito exercícios físicos (se bem que isso independe da umidade do ar), tenho bebido mais de dois litros de água por dia, até porque outros alimentos têm sido rejeitados pela garganta irritadinha e o vício de hidratar o nariz, agora se estendeu aos olhos também. Ainda assim, não me sinto bem, deve mesmo ser gripe.
Já recebi diversos diagnósticos no meu trabalho, que variam de gripe a renite. Além disso, não me faltaram receitas caseiras contra a suposta doença: chá de gengibre com cravo, canela com limão, limão com mel e alho, tanta mistura esquisita que chego até a acreditar que realmente funcione, na certa maltratam tanto o corpo que até o vírus decide debandar.
Mas na verdade eu só queria repousar. Ficar deitada o dia todo, por três dias se fosse preciso, tomando uma sopinha leve e um leite quente com açúcar queimado. Para tanto, teria que importar minha mãe para cá, porque ficar doente sem colo de mãe, mesmo em casa, com folga do trabalho, não tem graça nenhuma.
E para quem ainda não foi acometido pelos sinais descritos anteriormente, meus parabéns, já para os demais, que se cuidem, pois deve mesmo ser gripe e daquelas bem “marvadas”!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 15 de agosto de 2010

Pé na estrada!


Enquanto escolhia o tema desta semana para a coluna, dentre a imensidão de estranhices que me perseguem diariamente, comecei a perceber que não é de hoje que este jeitinho esquisito me acompanha.
Lembrei-me das inúmeras vezes em que me senti envergonhada, assustada ou confusa quando era criança diante de tantas situações inusitadas. Realmente já tenho sido treinada desde sempre para enfrentar com bom humor as peças que a vida me prega.
Dentre tantas histórias, pude voltar no tempo em pelo menos três situações que se repetiram recentemente. Claro que tudo em seu devido contexto e com seus importantes personagens, mas o motivo foi o mesmo, creio que banal, pois posso afirmar que todo mundo já passou por isso antes e se não passou provavelmente irá passar. Quem nunca teve um carro enguiçado no meio de uma estrada, afinal?
Voltando no tempo consegui me lembrar com detalhes de uma vez em que fiquei na beira de uma estrada de terra com minha avó, minha irmã e meu tio, na porta do sítio do meu avô depois do carro ter decidido parar de funcionar, bem na hora de voltar para casa, com a noite caindo, o frio chegando e os morcegos se aproximando cada vez mais de nós. Tinha meus seis para sete anos e o sítio que nem é tão longe da cidade, parecia distante demais para que alguém nos salvasse, linha telefônica em área rural naquela época nem existia, muito menos celular.
Consigo lembrar do barulho do vento nas árvores, dos barulhos de bichos do mato que pareciam monstros para uma garota no escuro. Na ocasião fomos salvos por um sitiante da vizinhança que nos colocou na traseira da caminhonete, em meio a sacos de milho e latões de leite e nos trouxe para casa sãs e salvas.
Depois deste ocorrido outros acontecimentos do tipo surgiram, foram inúmeras às vezes em que ajudei uma amiga a empurrar um fusca amarelo imperial ladeira a cima, já que o pobre carro vivia sem bateria e combustível era no conta gotas. Sem falar nas vezes em que fiquei na estrada por um pneu furado e em uma das ocasiões a motorista nem sabia informar onde ficava o tal do pneu step. Sabe como é, carro novo, com aqueles suportes, que mais parecem esconderijos secretos, tão secretos que nem os donos dos veículos sabem onde estão.
Foram tantas histórias! E a mais recente delas me surpreendeu na semana passada. Depois de um final de semana prolongado na cidade natal tive que voltar para a rotina e contei com a carona da minha querida mãe. Eu e meu namorado combinamos de voltar com ela e pegar uma carona até Campinas/SP, seguiriamos então para Sorocaba/SP e ela para São Paulo/SP.
Tudo ia bem até a luz do óleo começar a piscar no painel do veículo. Pisca daqui, dali e o motorista com um ar de preocupado decidiu avisar minha mãe de que algo não ia bem. Paramos em um posto de gasolina na beira da estrada, olhamos o óleo, a água, o combustível, aparentemente tudo certo. Já que o relógio não pára decidimos tentar chegar ao menos em Campinas e voltamos estrada afora.
Cinco quilômetros depois o carro começou apresentar um barulho estranho, um tipo de: tec,tec,tec, que começou a incomodar. É...decididamente seria impossível seguir viagem. Paramos no acostamento e minha mãe acionou o seguro. Com sorte trariam um gincho e um carro extra em aproximadamente duas horas, tempo mais do que suficiente para perdermos o ônibus em Campinas.
Acostumada com tantos desencontros olhei para o céu, vi o céu azul, com poucas nuvens e pensei: pelo menos não está chovendo. Não fiquei brava, nem com medo, mas com certeza tive a certeza de que algo estava por vir.
Não demorou muito para que minha mãe avistasse um ônibus no final da rodovia em nossa direção. Sem pensar duas vezes ela quase se jogou na frente do veículo acenando sem parar até que o motorista parou e nos permitiu embarcar.
Foi uma loucura. Aquele monte de malas tentando se ajeitar no interior do ônibus, já que o bagageiro estava fechado. As pessoas olhando assustadas, tentando entender o que tinha acontecido com aqueles malucos no meio da estrada. Eu e meu namorado esbaforidos, rindo como bobos e relembrando as idas e vindas até o momento.
Enfim chegamos a Campinas, mais tarde no que deveríamos,é claro, o que nos rendeu um chá de cadeiras de mais de duas horas até a chegada ao nosso destino. No final do dia soube que minha mãe havia chegado em segurança também, me contou rindo que voltou para casa de guincho. É...tem coisa que se contar ninguém acredita. Mas é isso, faça chuva ou faça sol, fé em Deus e pé na estrada!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 8 de agosto de 2010

Ah! Se São Tomé fosse vivo...


Confesso que antes de sentar na frente deste computador estava certa de que lhes escreveria algo realmente raro, inusitado, inacreditável, mais uma daquelas coisas que só acontecem comigo ou quando estou por perto. Mas desta vez o mérito não é só meu, dei uma rápida pesquisada na internet e descobri que meu conto inédito é na verdade mais comum do que se imagina.
Contudo, não é assim tão comum que não mereça um relato, então vou prosseguir, certa de que este texto servirá ainda como um alerta aos motoristas de plantão. Explicações dadas, vamos aos fatos.
Não retornava para a cidade natal há quase um mês, quando cheguei tive pouco tempo para tantas novidades, mas ainda assim tentei ao máximo aproveitá-las, afinal cada dia ao lado da família é sagrado, especialmente quando se mora longe do “lar doce lar”.
Na ânsia de poder falar o tempo todo com todo mundo acompanhei minha irmã em uma das tardes em suas andanças pela cidade me aproveitando da sua companhia e de sua habilidade no volante para atender algumas necessidades: supermercado, farmácia, visita aos tios, enfim.
Depois de rodar por quase quatro horas de cá e de lá, aqui e acolá estacionamos na garagem de casa e ao descer do carro sentimos um cheirinho estranho. Não chegava a ser cheiro de queimado, mas era quase. Resolvemos por bem chamar meu pai para dar uma olhadinha no carro, afinal não conheço nada de mecânica automobilística e talvez pudesse ter algum truque que desconheciamos.
Meu pai chegou perto do carro, afirmou que sentia o tal cheirinho, andou pelos lados do automóvel e nos disse:
- Já abriram o capô?
- Não. Será que tem algo de errado?
- Vamos abrir para ver.
Não me atrevi a abrir o capô, mas estava ali, de olhos bem abertos quando ele foi aberto e além do motor e de todo o resto pude ver um gato, isso mesmo, um gato preto, peludo e enorme enfiado no motor.
No mesmo instante meu pai deu um pulo tentando desviar do meu vulto e dos meus gritos que me acompanhavam enquanto corria para a sala e quase me escondia atrás do sofá, certa de que tinha visto um gato morto.
Felizmente o bichano não havia morrido, creio que deva ter perdido apenas uma ou duas das sete vidas que dizem possuir, pois correu bem vivo quando foi cutucado por uma vassoura.
Confesso que fiquei em estado de choque por alguns instantes. Mas será possível um gato dentro do motor do carro? Tudo bem que ali é quentinho, mas nem estava tão frio assim. Sem contar o sufoco que ele passou por todo o tempo que andávamos de cá e de lá pela cidade. Por que ele não miou?! Será que estava gostando do passeio?!
Não sei a resposta para nenhuma destas perguntas, mas me tranquilizei ao saber que isso é mais comum do que se imagina. Já estava achando que era perseguição, uma sexta-feira, de agosto (e olha que não era treze), um gato preto enorme enfiado no meio do motor do carro, parece mandinga, não é?
Mas não é. Encontrei inúmeras reportagens de cobras, ratos e muitos, muitos gatos que se enfiaram no motor de automóveis em busca de calor ou de uma aventura qualquer (quem vai saber?).
Apesar do susto, que rendeu risadas o último dia deste longo final de semana tenho certeza que tirei disso tudo uma grande lição. Antes de sair verifique o óleo, a água, o farol e o gato. Caso não esteja bem posicionado o acomode bem, afinal o bichano também é filho de Deus e tem todo o direito de dar suas voltinhas e arriscar-se como qualquer um de nós, pobres mortais.
Ah! E para quem não acreditou na história, tenho provas e testemunhas do fato. Não perdi a oportunidade de fotografar a cena antes do gato ser acordado, afinal tenho uma mãe que é pior que São Tomé, só vendo para crer, e ela merecia saber com detalhes desta história!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

sábado, 24 de julho de 2010

A ponte caiu! É verdade!

Pode dizer que não é possível, que só podia ser comigo, que você só acreditaria se visse com seus próprios olhos e que se contar ninguém acredita, mas o fato é que foi tudo verdade. Mais uma vez presenciei uma situação que pode parecer incrédula para muitos, mas para mim foi só mais um sustinho, e desta vez com inúmeras testemunhas.
Tinha tudo para ser uma deliciosa festa Julina, regada a muita comida típica, barracas de brincadeiras, música caipira e quadrilha. Seria um encontro entre jovens de vários bairros da cidade, participantes de um dos programas que acompanhamos no trabalho. E na verdade foi assim mesmo que começou. Uma grande festa Julina, que reuniu além dos técnicos, cerca de setenta jovens.
Minha aventura começou logo na saída do bairro para o local onde seria a festa. Sabe como é moçada, não é? Ficaram em um alvoroço para se arrumar e tirar foto antes de sair que dava até medo. Reuniram-se todos na frente do prédio e fui tirar uma foto do grupo de treze jovens que me acompanhavam, quando um dos garotos levantou o braço e acertou o nariz de uma das meninas.
Pronto, aqui começa a grande história. Foi uma correria só, ela com o nariz sangrando, a boca inchada correndo para o banheiro, ele atrás pedindo desculpas, o restante do grupo tirando sarro e eu correndo de cá e de lá como uma barata tonta. Entre mortos e feridos, felizmente, salvaram-se todos e finalmente conseguimos entrar na van e seguir viagem.
Viagem sim, não foi exagero nenhum. Quase trinta minutos em uma van lotada com treze adolescentes cantando funk, dando gargalhada, mexendo com as pessoas na rua e escutando bronca do motorista. Pareceu uma eternidade, mas enfim chegamos.
O local da festa estava uma beleza, todo enfeitado com bandeirinhas coloridas, com barracas de pescaria, argola e no salão uma imensa mesa com deliciosos quitutes. Confesso que matei a saudade do lugar, pois a festa foi realizada no meu antigo local de trabalho. Revi meus colegas de trabalho, a população que atendia, soube de algumas fofocas, dei muitas risadas e tudo ia muitíssimo bem até que...
Não, não foi uma ponte que caiu. Foi quase isso. Um eucalipto, enorme, com mais de cinco metros de altura, que já tinha chamado minha atenção ao entrar no prédio, por estar tortinho, nos causou uma grande dor de cabeça.
Não sei por que, nem por quem o corpo de bombeiros decidiu aparecer bem no meio da nossa Festa Julina e pedir a evacuação do prédio em um (isso mesmo, um) minuto, pois havia risco eminente de queda da gigantesca árvore, sobre o prédio onde a festa acontecia.
A notícia foi dada a uma amiga de trabalho que conseguiu manter a calma e chamou o restante das técnicas para uma reunião de meio segundo. Cada qual reuniu seu grupo e com toda a calma do mundo fomos retirando os setenta jovens do prédio que logo em seguida foi interditado.
Claro que não foi assim tão simples, já que precisávamos salvar a festa, e ai é que a correria começou, caixa de pipoca de cá, formas de bolo de lá, potes de paçocas acolá, uma correria daquelas para tentar resgatar pelo menos o espírito caipira, já que a decoração, as barracas e o som estavam perdidos.
Conseguimos um salão emprestado para dar continuidade à festa, mas antes disso ficamos andando com os jovens de um prédio a outro tentando mantê-los unidos e tranquilos. O outro espaço era bom, mas não teve mais tanta graça, nem parecia mais uma festa Julina, afinal o essencial, o suor de quem havia preparado tudo, tinha ficado lá, trancado no prédio, no suspense do eucalipto cai ou não cai.
Ainda assim foi uma festa deliciosa, e mesmo sem as roupas típicas e o lugar enfeitado aconteceu a famosa quadrilha. Entrei nessa dança também e quase morri de rir ao escutar alguém gritar: A ponte caiu! É mentira, seguido por: O eucalipto caiu! É verdade!
Não pude ver a queda do gigante, pois precisei retornar ao bairro com os jovens, mas me disseram que foi até bonito. Os moradores todos em volta do carro de bombeiros, observando enquanto a árvore era derrubada, ao som de um longo grito de: Madeeeiraaaaaaaaaa.
E foi assim que se encerrou uma das mais estabanadas e divertidas festas julinas da minha vida. E viva São Pedro!

Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 18 de julho de 2010

Supermercado realmente é isso!


A cena se repete, praticamente um ano depois. Lembro-me de ter publicado algo aqui no ano passado a respeito das filas de supermercado e da má impressão que tenho deste estabelecimento, principalmente pela falta de respeito dos clientes e excesso de paciência dos funcionários.
Pois bem, novamente pude confirmar minha teoria de que os supermercados são locais extremamente apropriados para surtos.
Quarta-feira cheia, com cara de segunda por excesso de trabalho e gosto de sexta pelo acúmulo de cansaço. Dia chuvoso, frio, um dia daqueles. Perfeito para ficar em casa, enfiado embaixo do cobertor, com uma caneca de chocolate quente do lado e o controle da televisão do outro.
Mas como ainda não ganhei na mega-sena nem fiquei famosa a ponto de poder trabalhar em casa, ou rica a ponto de deixar de trabalhar, não tive escolha. Reforcei o agasalho, peguei meu velho guarda-chuva e fui trabalhar às sete da manhã.
Sim, me molhei, mais uma vez. Sim, tinha um monte de gente me esperando quando cheguei. Sim, mais uma vez não consegui sair no meu horário. Sim, só para variar perdi o ônibus de costume e tomei mais chuva enquanto esperava a outra condução. Sim, precisei passar no supermercado antes de ir para casa, por fortes motivos, estava quase sem comida depois do longo feriado.
Felizmente tenho um supermercado próximo de casa. Infelizmente ele atende varejo e atacado. Felizmente ele tem ótimos preços. Infelizmente vive cheio por conta disso.
Hoje não foi diferente. Antes de entrar analisei todos os caixas e me dediquei a pegar apenas o necessário para hibernar por todo o resto da semana, tentando assim fugir das filas. Mas nem tudo é tão simples assim, especialmente em dias de chuva. A impressão que tenho é que as pessoas precisam de algum lugar para se esconder e se enfiam no supermercado, abarrotando os corredores e enchendo as filas do caixa.
Juro que não demorei mais do que 15 minutos para escolher tudo o que precisava, uns 6 itens no máximo. Corri para a fila do caixa rápido, onde tinha uma cartolina amarela com os dizeres: de 8 a 14 volumes no máximo e ali fiquei. Na minha frente uma mulher com um carrinho cheio, fiz questão de contar os volumes enquanto ela os tirava do carrinho e colocava no caixa: 43 no total.
Na mesma hora pensei, ou ela não sabe ler, ou não tem vergonha. Respirei fundo e disse:
- Senhora, este caixa é rápido. No máximo 14 volumes.
- E quem foi que disse?
Percebi que ela não era boa gente para um papo amigável, mas ainda assim me mantive firme:
- O cartaz disse e eu estou dizendo.
- E quem você pensa que é?
Nesse momento a operadora de caixa e os outros clientes na fila arregalaram os olhos na minha direção à espera de uma boa resposta. Confesso que me arrependi de tentar exercer meus direitos, mas lembrei-me de todo discurso dito aos usuários pela manhã e continuei:
- Sou apenas uma cliente, como a senhora e todos os demais que aqui estão e que querem ser respeitados, inclusive no meu direito de ter atendimento rápido, no caixa indicado para esse fim.
- Olha aqui menina, cuida da sua vida que da minha cuido eu.
Com vontade de derramar um litro de leite na cabeça da adorável senhora, respirei fundo, mantive a calma, olhei para a operadora de caixa e disse:
- Eu não vim aqui para discutir com ninguém, muito menos para te prejudicar, mas no mínimo tinha que ter um funcionário para orientar as pessoas que não leêm os cartazes a pegar outra fila e respeitar o caixa rápido, porque não é a primeira vez que isso acontece e tudo o que eu quero é cuidar da minha vida, mas para isso preciso pagar minhas compras e sair daqui.
A distinta senhora na minha frente não disse mais nada, pegou as compras e foi embora, já a funcionária do supermercado engoliu em seco e disse:
- Sabe o que é moça, se a gente fala que tem mais volumes eles brigam com a gente e mandam chamar o gerente e nesse caso sobraria é para mim.
Pois é, se não sobrou para ela, nem para a educada senhora que não respeitou as regras, muito menos para o supermercado, na certa tinha que sobrar para alguém, ou seja, para mim.
Os demais clientes murmuravam aqui e ali alguma coisa, mas nenhum deles atreveu-se a interferir na discussão, mesmo aqueles que concordavam comigo e sentiam-se tanto quanto eu injustiçados. Talvez por achar que não tinham direito de interferir na vida dos outros, ou por já ter feito isso antes e entender a digníssima senhora, ou quem sabe por simplesmente não saberem reivindicar seus direitos.
O que eu ganhei com isso? Aborrecimento antes de tudo, mas principalmente consegui reforçar meus valores, meus princípios e não há nada mais importante do que isso. Pude ser eu mesma, pude demonstrar com educação minha indignação e mostrar que existem outras formas de agir e de pensar. Se foi bom ou não para o supermercado ou para os outros clientes eu não sei, mas para mim foi ótimo.
Ah! Só para constar, você acredita que a distinta senhora estava comprando, além de um monte de comida e bobagens, 8 potes plásticos e 2 formas para bolo? Bem na minha frente, numa quarta-feira chuvosa e no caixa rápido. E isso é dia de comprar forma para bolo?! Só para tomar meu tempo mesmo... Elaiá!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Morrer de amor?!


Certa vez me disseram que quando arrumasse um namorado não teria mais assunto para escrever. Admiti na ocasião que escrevia muito mesmo sobre relacionamentos, talvez por estar em um momento de intensa decepção afetiva, ou pelo simples fato de me serem apresentadas situações dignas de relato.
Depois de tanta decepção meu coração está ocupado e ainda continuo, felizmente, tendo assunto para escrever, que bom! E isso significa que a vida não é feita só de amor ou da falta dele.
Significa ainda que ninguém morre de amor. Sei que existem muitos crimes motivados pela passionalidade, por um amor não correspondido, por ciúme, traição ou quiça simples obsessão. Mas de amor, de amor mesmo acho que nunca ninguém morreu.
Quando falo em morrer de amor, refiro-me aquela dor que chega a afundar o peito, fazendo faltar o ar toda vez que se lembra do ser amado que se foi. Aquele sentimento esquisito que consome a alma e nos faz parecer insignificantes diante da imensidão do mundo. Aquela sensação de que nunca mais será possível amar outra vez e que a vida definifivamente perdeu seu sentido. Sabe do que estou falando, não é?
Creio que sim. Difícil encontrar alguém que nunca sofreu por amor. Homens, mulheres, jovens, idosos, todos sofrem por amor. Seja por falta ou excesso dele, seja por tê-lo encontrado ou perdido, o fato é que todo mundo já sentiu esta dor, mas morrer de amor, morrer mesmo, bem acho que de amor ninguém morreu.
Ou achava. Até encontrar um artigo da BBC News, de 2007, onde pesquisadores da Universidade de Glasgow na Escócia, afirmam: Morrer de amor é possível. Na matéria em questão os pesquisadores divulgam o resultado de pesquisa baseada na evolução do relacionamento de quatro mil casais com idade entre 45 e 64 anos de idade, entre o início da década de 70 e 2007, onde afirmam que o coração destroçado pela perda da pessoa amada pode conduzir a morte: “Comprovamos que a dor do impacto da perda somada aos fatores individuais pode sim aumentar os riscos de mortalidade dos viúvos” – assegura a Dra. Carole Heart, chefe da equipe.
Depois desta notícia dediquei um pouco de meu tempo para encontrar mais informações sobre o assunto e encontrei vários relatos de casais que faleceram no período de até seis meses em relação a morte do companheiro, além disso, li algumas pesquisas que vinculam o surgimento de doenças mentais e até mesmo câncer a perda da pessoa amada, seja por luto ou divórcio.
Ao terminar a pesquisa fiquei pensando no quanto é perigoso amar. Não é atoa que tanta gente abdica deste sentimento e prefere a solidão ou breves relacionamentos a dedicar-se a pessoa amada. O índice de rejeição afetiva e de retorno de seus sintomas é muito alto, uma vez sentido na certa não demorará muito para recobrar o gosto amargo da desilusão, a não ser é claro que se encontre o amor correspondido, mas isso já é assunto para outro texto.
Toquei neste delicado assunto, pois tive o prazer de conhecer um homem com o coração partido hoje. Não me entendam mal. O prazer foi por saber que ainda existem homens que amam e que sonham com um amor para a vida toda, e não pela desilusão que me foi apresentada.
Tinha tudo para ser um atendimento de dez minutos, apenas uma breve orientação, mas sabe-se lá porque ele utilizou minha sala para desabafar. Não era jovem, nem velho, devia ter no máximo uns cinquenta e cinco anos, cabelo quase grisalho, bigode, rosto magro e sisudo. Não parecia ser de muita conversa, mas foi tocar no assunto estado civil para que ele começasse:
- Sabe moça, até uns dez dias atrás eu era casado. Vivi por trinta anos com a mesma mulher, nunca brigamos. Tivemos seis filhos fortes, mas ela quis separar. Sei lá o que aconteceu, acho que ela encontrou outra pessoa, não era mais feliz comigo, na verdade ainda não entendi direito. Olha para te falar a verdade foi duro aguentar. Hoje que consegui sair de casa, estou me acostumando, mas que é duro é. Ela era minha mulher. Mas talvez a culpa tenha sido minha, eu nunca fui muito de falar o quanto ela era uma boa mãe, uma boa mulher, quando ela cortava o cabelo e fazia a unha ou colocava um vestido de estampa azul que eu acho lindo. Nunca falei isso para ela, mas agora já é tarde. Fazer o quê!
Deixei ele falar tudo o que queria. Se não tinha podido desabafar para a esposa, quem sabe poderia aliviar ali a dor no peito. Escutei histórias lindas e outras tristes dos dois e fiquei pensando se esse amor ainda seria capaz de matar esse homem.
Imaginei o quanto deixamos de amar e ser amados por não falar. Por deixar um elogio para mais tarde ou um convite para semana que vem. Por não ouvir as reclamações do outro ou por escutar mais a televisão do que o companheiro.
Esta história serviu de lição para mim e poderia ser mandada para o mundo todo que com certeza seria aproveitada por alguém. Espero que tenha feito algum sentido para você também e, sobretudo que tenha te dado ânimo para falar mais, olhar mais, elogiar mais a pessoa que se dedica a você.
Em uma simples palavra creio que pode estar a salvação para um relacionamento e arriscaria ainda dizer, para evitar mortes prematuras e corações partidos.
Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 4 de julho de 2010

Gorda, gordinha, gordona


Jussara é uma moça jovem, bem clarinha, olhos verdes, sorriso largo e uma preocupação constante: perder peso. Vive obcecada pela perda de peso há aproximadamente três anos.
Não somos amigas, tão pouco a conheço muito bem, mas hoje pude conversar com ela por pouco mais de trinta minutos e escutá-la dizer por muito mais que trinta vezes o quanto precisava perder peso.
Contou-me que engordou dezessete quilos em um mês e ao mesmo tempo foi tirando fotos e mais fotos da bolsa, mostrava-me aflita o quanto era magra aos treze, aos dezoito, aos vinte e dois e aos vinte e três anos. E em seguida apontava-se e dizia : Mas agora olha isso!
Confesso que o sobrepeso de Jussara era visível, mas nada demais, já vi pessoas bem mais gordas que aquela moça e aquela ânsia pelo peso começou a me incomodar.
Falou que já fez milhões de dietas, já foi ao médico, já tomou remédios e nada adiantou. Esbravejou que o Centro de Saúde ainda não tinha liberado seus exames, pois na certa finalmente deviam ter encontrado a causa de seu aumento de peso.
Colocou a culpa na gestação e no mesmo instante desculpou-se: Todo mundo tem uma desculpa, não é? Essa bem que podia ser, mas não é a minha. Meu filho, tadinho, é um anjo não me causou esse mal.
E eu ali, meio sem saber o que falar quando ela me perguntava: Estou muito gorda, preciso emagrecer, não acha?
Questionei se ela tinha algum problema de saúde e ela negou todos, nada de colesterol alterado, nem diabetes, nem alteração hormonal ou hipertensão, nadinha que justificasse a preocupação incessante com a perda de peso.
Justificou a incompreensão do peso atual com seu cardápio saudável diário, detalhado item a item e por fim culpou o marido por sua “desgraça”: Quando separei dele perdi muito peso, mas foi só voltar para ganhar tudo outra vez. Voltar com marido engorda. Você tem marido?
Nem me atrevi a responder e tentando auxiliá-la a entender a causa de seu ganho de peso sugeri que passasse em atendimento psicológico. Mas que falha a minha, no mesmo instante ela me lembrou de que o problema dela era o peso e não a cabeça: Psicóloga para quê? Meu problema é com nutricionista, mas nenhuma delas acertou até hoje. Você conhece alguma boa?
Conheço várias pensei, inclusive uma de minhas melhores amigas, mas nem me atrevi a responder, pois definitivamente não poderia ajudar Jussara a perder seu excesso de peso. Não só pela minha falta de conhecimento específico no assunto, ou pelo excesso de compreensão com sua preocupação, mas principalmente pelo simples fato deste ser praticamente a única razão de sua vida neste momento.
Tirar de Jussara seu peso extra seria como tirar-lhe a vida. Só seria prudente tal ação depois de mostrar-lhe quantas coisas boas ela tem e que tornariam esta obsessão obsoleta.
Jussara é jovem, apesar do sobrepeso tem saúde, tem um filho lindo, tem um emprego, lindos olhos verdes e um sorriso contagiante, apesar de raro. Jussara poderia conquistar o mundo, mas para que isso ocorra, precisa antes de perder peso ganhar auto-estima.
Conheço muitas Jussaras e com certeza você conhece tantas outras, para esta marquei um atendimento de retorno para fortalecer o vínculo, ganhar sua confiança, mas para as outras gordinhas, gordas e gordonas resta a (falta de) atenção, desta sociedade que insiste em viver na era da revolução da beleza.
Para que perder peso quando se é feliz? Antes de perder peso e ganhar auto-estima, creio que Jussara precisa reencontrar a felicidade, nos olhos do filho, no abraço do marido ou no apoio de tantas mulheres que não se sentem completamente perfeitas com seu corpo, mas que como eu, conseguem viver perfeitamente bem com uns quilinhos a mais, sem se importar com as modelos de revista e com as artistas globais.
Jussara não feche a boca, abra, mostre seu sorriso lindo. Não feche os ouvidos, abra-os, e escute os incentivos e bons conselhos. Não feche os olhos, abra-os diante do espelho e descubra a maravilhosa mulher que existe em você.
É isso, para o ouvido mais perto que é o meu e para todas as Jussaras desta vida...
Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 20 de junho de 2010

Êta povo esquisito!


Hoje tive a felicidade de observar a movimentação dos brasileiros em dia de jogo do Brasil na Copa do mundo. Que maluquice! No bairro onde trabalho uma das ruas foi praticamente fechada, com a bandeira do Brasil pintada no asfalto, bandeirinhas brigando por espaço com os fios de alta tensão e crianças competindo com o barulho das buzinas ao soprarem suas vuvuzelas.
Que barulho ensurdecedor. Maldita mania esta dos sul africanos. Cornetas não eram tão famosas em outros mundiais. Pelo que me lembro, os brasileiros inventavam gritos de guerra, aguçando a criatividade de qualquer um e garantiam seu barulho no gogó.
Não vi muitas demonstrações de confiança durante meu trajeto para o trabalho. Logo pela manhã as camisas amarelas, se é que existiam, estavam cobertas por cachecóis e casacos que não demonstravam nenhum tipo de empolgação. Para dizer a verdade a não ser pelo barulho das crianças na rua, e pelo fim do expediente ao meio período nem parecia que seria um grande dia para os brasileiros.
Mudei bruscamente de opinião ao retornar para casa, quase três da tarde, e dar de cara com um congestionamento de dar inveja a São Paulo. Bandeirinhas, bandeirões, faixas, blusas, brincos e até unhas em verde e amarelo pintaram as ruas. Vuvuzelas a mil, buzinaço e uma alegria de final de campeonato, simplesmente contagiante.
O motorista de ônibus com o radinho de pilha na sintonia, o porteiro do prédio com a TV ligada no celular, todos unidos para torcer pelo Brasil. Telão na praça central, a economia do país parada, fábricas fechadas, intervalos para assistir ao jogo e vamos lá Brasil!
Assiti ao jogo na casa de uma amiga, onde não faltaram vuvuzelas para animar a monótona partida que pintou o primeiro tempo. Superstições a parte, concordamos em mudar o lugar dos presentes para melhorar as vibrações e pudemos gritar gol por duas vezes no decorrer do segundo tempo.
Mas no caminho de volta, dentro do ônibus é que pude perceber tudo voltando ao normal. As pessoas escondiam na bolsa o verde e amarelo, falavam sobre a aula ou o trabalho, nem se importando com o resultado do tão esperado jogo.
Entrei em casa pensando: Brasileiro é um povo esquisito mesmo. Passo de seis a oito horas do meu dia orientando famílias sobre seus direitos sociais, incentivando a união, a participação popular, tentando mostrar-lhes sua força para a transformação de sua realidade. No máximo que já consegui reunir até hoje foram umas trinta pessoas, que se reduziram para quinze no segundo encontro e para cinco no último, como se fosse uma grande perda de tempo falar sobre direitos e lutar por sua efetivação.
Mas para o jogo do Brasil, só na praça central da cidade reuniram-se quase mil pessoas. Para quê? Para torcer oras! Por quem? Pelo time do Brasil é claro! Por quê? Por que ele nos representa lá fora.
Por que não nos reunimos para reivindicar melhorias sociais, por nós mesmos, pelo povo oprimido, pelo simples fato de sermos cidadãos livres e merecermos o mínimo de dignidade para nossa sobrevivência?
Por que não perdermos tempo com isso? Não pretendo aqui desmerecer o jogo do Brasil e a importância disso para a nação, mas sim questionar o valor que damos a nossa pátria ultimamente.
Os noticiários dedicam integralmente seu tempo a falar sobre a copa do mundo, falam sobra a África do Sul, mas não mostram nossa miséria; falam sobre a jabulani, mas não falam sobre os candidatos à eleição; repetem e até sopram no ar as vuvuzelas, mas não divulgam as greves no país e guerras civis pelo mundo. É como se todo o planeta estivesse em standby. Pausado, na espera de divulgar uma enorme alegria ou uma grande decepção que com certeza interferirá no humor de cada brasileiro.
Mais uma vez repito: Que maluquice! Parece que nos orgulhamos de ser brasileiros e brigamos pelo nosso país, até com socos e pontapés se por preciso, só a cada quatro anos, e olha que nem me refiro ao período de eleições.
Se tivessemos tanta garra para escolher nossos políticos como palpitamos na escalação da seleção brasileira, se fossemos as ruas cobrar as promessas de campanha, como fazemos com os jogadores no final de cada jogo, com certeza este país teria muito mais para se orgulhar.
E salve o Brasil, com todo seu povo alegre, guerreiro e esquisito!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 13 de junho de 2010

Sou seu fã!



Em homenagem ao leitor Marcelo, filho da Dona Isméria e à Professora Nívea.

Bem que podia ter sido só mais um final de semana em casa, ou quem sabe um grande final de semana com muitas fotos e histórias para contar. Podia simplesmente ter sido um feriado em família ou ainda dias repletos de lembranças e quitutes saborosos. Este feriado me revelou tudo isso e um pouco mais.
Costumo compartilhar frequentemente com vocês minha rotina maluca, meus medos, minhas angústias, minhas alegrias e anseios. Para algumas pessoas isso é loucura, visto que me exponho de tal maneira que até mesmo quem nunca me viu poderia me definir em palavras, mas para mim este espaço mais do que uma atividade semanal é uma verdadeira terapia, então se me faz bem e não atrapalho ninguém, já que quem não gostar do texto pode recusar-se a lê-lo, por que não ser assim?
E é por este motivo que mesmo nos dias mais difíceis me obrigo a sentar na frente do computador e olhar para a folha em branco até que ela se pinte com letrinhas que podem não significar muito para alguns, mas que para mim são partes da minha história, contada em fascículos, passo a passo como uma novela mexicana.
Confesso que nos últimos dias pensei seriamente em abrir mão deste espaço e me tornar uma colaboradora esporádica deste jornal, não por alguém ou alguma coisa, mas pela minha falta de tempo. Ausência esta que me impede de dedicar tantos minutos quanto gostaria nesta atividade que tanto me faz bem. Por várias vezes pensei em desistir, então me sentava na frente do computador e dizia: “se em cinco minutos não tiver nenhuma inspiração esta semana irei faltar com o jornal”, mas como mágica, felizmente, sempre tive momentos maravilhosos ou angústias suficientes para relatar neste espaço e nesta semana não foi diferente.
Estava na rodoviária da cidade natal, depois de três dias deliciosos com minha família e amigos, na fila de um guichê em busca de uma passagem de volta à rotina. Era uma tarde de sábado comum, fria e seca, com um solzinho tímido, não tinha muita gente circulando pelo local, apenas uma senhora no guichê e outros passageiros sentados. Aproximei-me da fila e enquanto aguardava minha vez, um rapaz, com aproximadamente quarenta anos, de boné, óculos escuros e casaco de moletom se aproximou de mim e disse:
- Desculpe, mas você é a Taline?
- Sim – respondi enquanto o observava tirar o boné, os óculos e me estender sua mão:
- Muito prazer, sou seu fã!
No mesmo instante senti minhas bochechas corarem e por um segundo não soube o que dizer. Enquanto tentava me recompor ele prosseguiu:
- Gosto muito dos seus textos, leio todos. Admiro o jeito como escreve, deixando transparecer suas emoções, isso torna sua escrita diferente. Desculpe meus trajes, mas se eu soubesse que iria te encontrar teria me arrumado melhor.
Eu sorri, não achando nada de errado na bermuda com o moletom. Agradeci, sem saber muito o quê dizer no instante em que ele virou-se para a senhora que estava à minha frente no guichê e disse:
- Mãe, esta é a Taline. Não falo para a senhora que a gente nunca pode sair de casa de qualquer jeito, olha o jeito que eu estou bem no dia em que a conheci.
Cumprimentei a simpática senhora que confirmou o interesse de seu filho pelos meus textos e após a compra da passagem voltei para casa. Voltei não como ali havia chegado, voltei renovada, com novos ares. Voltei principalmente com o acréscimo de uma pequena esperança que ainda existe aqui, com a vontade de um dia tornar esta atividade que me faz tão bem minha rotina e ter mais tempo para momentos tão agradáveis.
Neste mesmo final de semana tive a felicidade de rever uma querida professora da terceira série que disse guardar um caderno com minhas produções de texto até hoje, onde adiciona agora os recortes de jornal. Que coisa, pensei, não tinha a dimensão de que era capaz de interferir de alguma forma na vida das pessoas, mesmo estando tão longe.
Seja pelos segundos que cada um reserva lendo meus textos, seja pelos minutos que passam colecionando meus recortes ou pelas horas que dedicam a pensar nas palavras que desenho semanalmente.
Longe disso tudo, fico sem saber se para mais alguém, além de mim, estas palavras fazem sentido e significam alguma coisa, e é disso que tenho precisado nos últimos dias, destas críticas, destes elogios e das sugestões para que possa fazer parte da vida de cada um destes leitores que já me conhecem tão bem.
Não tenho palavras para agradecer tanta afeição, registro aqui minha vontade desta troca recíproca, de novas opiniões, seja pelo blog, e-mail, cartinhas manuscritas ou datilografadas em antigas máquinas de escrever e encaminhadas ao jornal... O importante é a presença, mesmo que seja há trezentos quilômetros de distância.
Desejo um maravilhoso final de semana a todos que chegaram ao final deste texto e me deram um pouquinho do seu tempo. Tempo que tem valido mais que ouro nos dias de hoje e que quando bem aproveitado pode causar sensações tão maravilhosas, tão incomparáveis que não há dinheiro nenhum neste mundo que as pague...
Ilustração de: Gabriel Vicente.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Uma sensação não sei de quê...

Às vezes sou invadida por um sentimento estranho. Uma pressão no peito que faz o coração diminuir e a angustia apertar. Um misto de aflição e incômodo, como se fosse incapaz de explicar se o que me aflige é algo que me foi dito, a consequência de um ato, um presságio ou simplesmente uma sensação.
Tem dias que a tristeza se envolve com a saudade e me deixa sem saber o que estou sentindo. Um misto de medo, com nostalgia e alegria. Tem dias que a única coisa que não quero ouvir é alguém me perguntar: “como você está?”. Não por maldade ou falta de vontade, simplesmente por não saber explicar.
Tem dias que o sol parece forte demais, o vento frio demais e a noite escura demais. Tem dias que o silêncio incomoda. Tem noites que parecem não ter lua, e dias que insistem em não ter sol.
Tem dias que acordo assim, estranha, com um nó na garganta, impossível de ser explicado. Tem dias em que os acontecimentos vão me indicando aflições e angustias, tem dias que nem isso. Tem dias que apenas faço passar, correndo, contando cada minuto, na espera de que logo acabe para em um longo suspiro poder dizer ao coração: “não era nada demais, se acalme, está tudo bem”.
Tem dias que nem tento explicar, mas tenho a certeza que algo irá acontecer. Alguma coisa que vai mudar minha rotina, me trazer sorrisos ou lágrimas, alguma coisa que irá me tirar do controle.
Tem dias que me questiono sobre o caminho a seguir, sobre por onde ir e mudo minha rotina por instinto, vou de escada e deixo o elevador, caminho por oito quadras e não pego o ônibus, esqueço a bolsa e me atraso por dois minutos. Tem dias que com certeza recebo uma mãozinha do destino...
Não sei se acreditam nisso ou não, só sei que nesta semana as mãozinhas do destino tem sido verdadeiros tapas na minha nuca. Uma sensação não sei de quê, realmente inexplicável.
Talvez pela avalanche de acontecimentos que invadiram meu relacionamento nas últimas semanas, me tornando comprometida, solteira e novamente comprometida com direito a anel no dedo em curtos espaços de tempo. Talvez pelo fato de mesmo depois disso tudo, alguém ter decidio viajar para bem longe neste momento tão delicado, ou ainda pela minha ansiedade em saber definitivamente se deixarei ou não de ser uma dúvida em algumas situações.
Pode ser ainda pela simples e deliciosa ansiedade de rever, depois de mais de dois meses, minha família. Quem sabe seja apenas vontade de jogar conversa fora o final de semana inteiro com minhas amigas, e de ganhar colo de mãe enquanto a coloco a par de tantos desencontros.
Pode ser que na verdade até saiba bem o que esta coisa signifique, mas para que nomear algo que ainda não sei se me fará bem ou não? Melhor ficar com esta sensação não sei de quê por estes dias que se aproximam, sem a certeza do que será o depois do feriado. Fugir do controle em alguns momentos me faz bem, especialmente quando as decisões a serem tomadas não dependem exclusivamente de mim.
Só não me perguntem o que não sei explicar, enquanto fico aqui com esta sensação não sei de quê, até que os dias retomem a rotina que tem me engolido tantas sensações.
O importante é o fim disso tudo, o início é sempre de alguma forma provocado e o meio ninguém nunca consegue mesmo explicar, então chega de tantas certezas... Pelo menos até que o feriado se finde, me deixe aqui com esta sensação não sei de quê.