Acordei com a sensação de que
ainda sonhava. É raro, mas às vezes isso acontece comigo e quando isso ocorre
sempre fico com a sensação de que não pertenço a este mundo.
O sonho desenhou-se claro,
colorido, cheio de aromas, gestos e sabores. Um sonho que desejava tanto
tornar-se realidade, mas a cada dia que passa mais se distancia do meu plano de
concretização.
Sonhar com outras pessoas envolve
este tipo de risco. No sonho podemos viver tudo o que desejamos, mas acordar de
um sonho com a lembrança é como cair de um muro bem alto, onde de um lado a
realidade te apresenta a inverdade do que passou nas últimas horas e de outro a
esperança inconsciente te abana, tendo o cuidado de soprar tudo, menos as
lembranças do que viveu dormindo.
Era um campo florido e já me
lembro de ter estado lá em outros sonhos. As flores soltavam grãos reluzentes,
feito purpurina a cada passo, a cada brisa. O céu de um alaranjado quase rosa
não se parecia nada com o azul daqui, mas me causava mais satisfação.
Olhei ao longe e percebi a
presença dele, caminhava tranquilo, com as mãos no bolso da calça branca. A
blusa de um azul claro reluzia seu sorriso que se abria a passos largos
enquanto de mim se aproximava.
Cada passo dado causava um
compasso no meu coração. Só de relembrar a cena, me chega a faltar ar. Aqueles
olhos marejados guiando seus sentidos para perto de mim, os braços agora
abertos me buscavam e eu só tinha força para sorrir enquanto naquele abraço me
entregava.
Podia sentir cada toque do seu
corpo ao me abraçar, os dedos um a um envolvendo meus ombros, os cotovelos
juntando-se à minha cintura e a nuca roçando meu pescoço. Uma sensação de
contentamento, de realização que me envolvia por inteiro. Meu corpo se arrepiou
dos pés a cabeça.
Olhei para ele, com os olhos
cheios de lágrimas e sorri. Foram poucas as palavras ditas, mas guardei-as como
se fossem as primeiras e únicas.
- Como posso ter ficado tanto
tempo longe de você?
- Então você também sentiu?
- O nosso abraço?
- Sim.
- Sinto sua alma tocando a minha
toda vez que te abraço.
Cada gesto trazia de volta o
encontro sereno de nossas almas. Almas perdidas, confusas, desencontradas, mas
que ali, naquele plano, naquele espaço poderiam viver eternamente juntas.
Acordar de um sonho desses com o
cheiro dele por perto, com a sensação dos braços pesados no meu ombro não me
fez bem. Não é fácil aceitar que esse encontro é surreal, vive apenas no meu
inconsciente, em outro plano que não é palpável a não ser no meu mar de
esperanças.
Por outro lado, descobri que
mesmo querendo, insistindo e tentando, não posso me desvencilhar daquela alma.
Estamos ligados por outros laços, há tempos nos conhecemos e esperamos por um
encontro e negá-lo, seria perder a oportunidade de esclarecer essa confusão, de
finalmente entender se é amor, se é amizade, se é gratidão ou sentimento
fraterno que me liga a ele dessa forma tão bruta e ao mesmo tempo tão sutil.
Já expressei meus sentimentos
diversas vezes, tentei esclarecer esta confusão, mas tudo foi em vão. Não cabe
a mim, nem a ele tal missão. Hoje já não tenho coragem de dizer-lhe o quanto
ele fez parte dos meus pensamentos neste dia, nem do quanto precisava tê-lo
visto logo pela manhã...
Contentei-me em deixar uma
mensagem simples, mas que para mim significava muito mais do que o anúncio de
um sonho, significava mais um capítulo do nosso encontro, desta vez em um
momento surreal: “bom dia, sonhei com
você...”.
2 comentários:
Texto publicado no Jornal Democrata, de São José do Rio Pardo/SP,no dia 31/03/2012. Espero que apreciem!! Aguardo comentários!!^^
Lindo texto!eu adoro essa palavra "surreal", é uma das minhas preferidas acredita?! acho q sonhar com essa descrição tão íntima e rica de sentimentos deve ser algo divino, aliás só pode ser né?Coisa de Deus, dos céus...
Enfim, lindo texto Tá!Saudades do blog!q bom q voltou com ele!
bjoo
Tamara
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