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sábado, 25 de julho de 2009

Plataforma vinte e três

Rodoviária é um canto engraçado do planeta, ora cansativo, ora acolhedor, ora estranho, ora triste, mas frequentemente engraçado.
As rodoviárias que costumo frequentar apresentam-se especialmente coloridas nos últimos dias, repletas de casacos de pele ou lã (cheios de bolinhas), de gorros e cachecóis, de malas e maletas de cores neutras ou berrantes, tudo isso desfilando em corpos desajeitados, assustados, apressados, surpresos, emocionados ou quem sabe, aliviados.
Já vi muitas cenas engraçadas, tristes e emocionantes nas rodoviárias. Hoje mesmo, enquanto escrevo atrás do guardanapo que cobria a bandeja onde acabei de comer, pude presenciar diversas delas, todas contempladas por estes olhos que enxergam além dos corpos desajeitados que compõem as imagens.
Poderia falar do rapaz que passou sem nenhuma mala ou mochila, mas carregando uma imensa prancha de surf, ou da mãe que oferecia ao filho a mamadeira em uma das mãos e na outra um pacote de batatas fritas.
Poderia ainda falar do homem bem vestido que passou por mim, seguido por dois homens (vestidos) de preto. Teve ainda o casal de namorados que se despediu com lágrimas nos olhos e meios sorrisos e em seguida caminhou de cabeça baixa em direção oposta.
Sem falar nos vendedores de assinaturas de revista que ficam no meio do saguão aos gritos, implorando por um minuto de atenção. Hoje lhes dei um minuto e de brinde ganhei uma revista que falava sobre dietas, muito produtiva, me fez refletir enquanto digeria o lanche, o copo de refrigerante, sem falar das batatas fritas, é claro.
Existem ainda aqueles sujeitos que parecem ter saído da novela das seis, com botas, cinturões e “blue jeans”, ou de filmes como “As patricinhas de Beverly Hills” com seus saltos finos de verniz e suas malas com estampas de oncinha, ou ainda de seriados mexicanos, pois posso jurar a vocês que já encontrei a Bete – a feia, e o próprio Chaves em uma dessas longas paradas.
Outra coisa que costumeiramente me chama a atenção são as bagagens que deslizam por aqui, creio que se algumas falassem teriam lindas histórias para contar, como aquele carrinho de quase dois metros escondido naquela enorme embalagem de papelão, ou aquela rede repleta de bolas coloridas arrastada com tanto esforço.
O choro ou o grito de crianças também é uma constante neste meio, sem falar nos celulares que tocam sem parar, perturbando muitas vezes o sossego de alguns viajantes que conseguem dormir, e até roncar, nos bancos duros da rodoviária. Aliás, registro aqui que a rodoviária é um dos melhores pontos de encontros ocasionais que já inventaram, sempre encontro com um amigo nas manhãs que marcam o início de feriados, é incrível como sempre nos encontramos da mesma forma, eu trazendo um café na mão e um semblante amarrotado no rosto e ele dormindo serenamente na poltrona ao lado, termino o café, aguardo ele acordar e colocamos o papo em dia, depois de meses sem nos ver.
São tantas idas e vindas nestes espaços, tantas histórias e imagens que poderia escrever incontáveis textos sobre o assunto, textos que descreveriam desde o relógio enorme que anuncia a hora nos terminais até as festas de boas vindas e as fotos tiradas em frente a um amontoado de malas e passagens.
Hoje, no entanto, me prendo a apenas uma imagem. Tão forte que provavelmente não serei capaz de aqui descrever, mas tão real que seria impossível passar despercebida.
Plataforma vinte e três e em sua frente o retrato mais real e triste que já presenciei. No mesmo instante resgatei na memória as obras de Cândido Portinari na sua série “Retirantes”. Aquela mulher com vestido florido, um lenço no cabelo e chinelo de chita, equilibrando um saco de roupas na cabeça, sem o apoio das mãos que serviam de colo para o filho caçula. Aquela mulher rodeada de crianças, com mais ou menos idade que se olhavam assustadas e admiravam a imensidão daquele lugar, olhos arregalados observando tanto espaço, tanta luz, tanta gente.
Gente como eu e você que mais pareciam animais assustados após serem libertos de suas jaulas. Jaulas deixadas com a esperança de um futuro melhor, de um emprego, em busca de paz e quem sabe, dignidade. Dignidade que não vi nos olhos daquela mulher que aflita olhava para o relógio e para os lados com medo de ali ter sido esquecida. Esquecida por mim, por você, pela sociedade que nos seus ternos e correria, possivelmente não notou aquele retrato, ou se notou pouco fez para torná-lo colorido, e aqui me incluo, pois me limitei a observá-la.
Observei e me lembrei dos inúmeros relatos que já escutei em atendimentos no trabalho, me lembrei dos sonhos desfeitos, do preconceito e do medo que todas as famílias transpassam nos olhos quando enfrentam essa situação e fiquei em estado de choque. Não saberia dizer o que senti, acho que impotência e talvez lamento, pois imaginei que cedo ou tarde poderia me deparar com aquela mulher solicitando as passagens de volta com aquele mesmo relato de sonho desfeito.
Contudo, não a impedi de tentar, não me atrevi a escolher as cores deste retrato, até porque a mim não caberia tal escolha. Foi então que percebi o quanto é mais fácil solucionar os problemas alheios, indicar caminhos aos outros e dar “sábios conselhos”, do que fazer nossas escolhas e assumir nossas renúncias. Mal tenho tido certeza das cores que quero na minha aquarela, mal tenho conseguido escolher os tons e contrastes dos meus dias, e mesmo em pensamento me senti no direito de invadir aquele retrato. Que tolice a minha.
Creio que só não fui mais tola, pois apesar de não ver o desfecho desta história aprendi mais uma lição. Deixei aquela família ali na plataforma vinte e três à espera da esperança ou quem sabe de um milagre que em breve deveria chegar e caminhei para o meu destino, não sem antes, olhar para trás e dar adeus a ela, aos meus preconceitos e a minha soberba. Não sem antes, trazer para junto de mim aquela vontade de dias melhores.

2 comentários:

ana flávia disse...

tô triste depois dessa... =(

Marly disse...

Linda mensagem a desta semana.
Toca realmente nosso coração.
Verdades que não gostamos de dizer que enxergamos.

bj no seu coração.