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sábado, 14 de fevereiro de 2009

"Bons ventos para nós..."


Dentre inúmeras coisas que gosto de fazer, existe uma que me agrada de forma singular, é ela que me leva a direcionar muitas de minhas ações, controlar meus sentimentos, pensar, encontrar respostas para muitas perguntas e inspiração para escrever.
Adoro observar. Observo tudo e o tempo todo. Procuro olhar cada acontecimento com os olhos da alma e isso me dá a chance de conseguir ouvir uma conversa no ônibus e fazer com que isso se transforme em uma lição de vida, ou olhar um hidrante jorrando água e fazer disso poesia.
De tanto observar as coisas simples, não me surpreendo quando mesmo com os olhos fechados consigo descrever minuciosamente qual a cor do céu, a sensação de brisa fresca, o formato das nuvens que escondiam o sol e até mesmo os pássaros e flores vistas ao longo do dia.
Foi observando que comecei a me dar conta do quanto dou importância a coisas sem importância. Confuso? Pode parecer, mas não é. Tenho passado por uma fase bem complicada ultimamente, com muitas mudanças, e não é que reclame das mudanças, pelo contrário, não gosto é de rotina, mas muitas mudanças ao mesmo tempo me fazem desacreditar do meu poder de decisão e isso me deixa insegura.
É como se em um piscar de olhos a vida te lembrasse do quanto você é insignificante. E por mais que você queira viajar nas férias, ou comprar um carro ou ainda mudar de cidade, você não vai conseguir isso de forma tão simples. Eis que surgem os obstáculos e muitas vezes não os compreendemos.
Ainda hoje, depois de um mês dos encarrilhados acontecimentos tento entender o porquê de tudo isso, e como não encontrei nenhuma resposta pronta, me limitei a observar. Confesso que o empurrão crucial para esta atitude partiu de minha mãe. Depois de me ouvir lamuriar no telefone por quase uma hora ela soltou a sábia frase: “Pare de reclamar, você tem saúde, tem um bom emprego, logo tudo se ajeita”.
Não, eu não me calei. Naquele momento só queria colo e ainda tive a tola coragem de retrucar: “Mas não é porque eu tenho isso tudo que eu preciso me sentir realizada, tenho o direito de querer mais, de acreditar em coisas melhores”.
Ela não retrucou e eu, bem, eu me senti uma idiota. Foi, então, que comecei a olhar os meus problemas com outros olhos, foi ai que comecei a observar mais, ouvir mais, falar pouco e reclamar bem menos.
Ainda acho que não preciso me contentar com o que tenho e que tenho todo o direito de buscar coisas melhores, mas havia me esquecido de agradecer. Agradecer minha vida, minha saúde, minha família, meus amigos que tornam aquele monte de problemas, meramente insignificantes.
Acho que o maior problema está em nossas mentes, que não aceitam as contrariedades da vida. Acho ainda que se aceitássemos os acontecimentos tudo se resolveria de forma bem mais simples.
Parei de reclamar, não me lamento tanto, continuo tentando buscar soluções, e o segredo é não perder a esperança, afinal, dizem por ai que cedo ou tarde tudo segue bem. Concordei com essa afirmação no dia seguinte ao diálogo com minha mãe, após presenciar um acontecimento no mínimo intrigante.
No caminho para o trabalho, observei um pássaro chocar-se com o vidro do ônibus, bem ao meu lado. A sensação foi de que se não tivesse o vidro ele teria entrado pelo meu ouvido, mas tendo ali aquela barreira transparente tive a certeza de que ele havia morrido.
Qual não foi minha surpresa quando o vi voar rente ao ônibus uma vez mais e bater asas para longe dali, desta vez em sentido contrário ao que fazia quando se chocou com o ônibus, comigo e com os meus sentimentos.
Percebi então, que muitas, mas muitas vezes é preciso cair, bater a cabeça, se esborrachar, para depois parar, respirar bem fundo, levantar as asas e buscar coragem para redirecionar seu caminho...
Creio que esta seja uma tarefa muito complicada, e que para o pássaro provavelmente tenha sido bem fácil, talvez por não se importar com os olhos de pena dos passageiros, ou ainda, com o pensamento de que ele não iria conseguir. Talvez por seguir apenas seu instinto e lutar por sua sobrevivência, ou quem sabe por acreditar que ainda valia a pena um novo bater de asas, um novo fôlego, mais um suspiro.
Independente de suas razões, aquele pássaro me fez pensar, e mais, me fez acreditar que, realmente, logo tudo se ajeita, pois, se ele conseguiu, eu também consigo e você também, e todos aqueles que ainda acreditam que vale a pena dar uma nova chance ao destino e viver todos os dias intensamente, mesmo que para isso seja necessário, em alguns momentos, voar para bem longe...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Bozo sim senhor!


Era sexta-feira, a última do mês, marcada por ser um dia repleto de obrigações, fechamentos, relatórios e visitas inusitadas. Uma sexta-feira que mesmo não sendo treze, mostrou-se atípica desde seu início. Na volta do trabalho, outro acontecimento estranho. Ele sentou-se ao meu lado, e as banalidades nos levaram a falar sobre o final de semana. Ter recebido um número de telefone e um desafio enquanto ele descia do ônibus e se despedia afoito seria apenas o início das estranhezas deste dia.
- Costuma sair muito aqui?
- Saía mais, agora estou mais caseira, mas de sexta-feira é sagrado.
- Hoje vai sair então?
- Com certeza.
- Aqui está.
- O que é isso?
- O número do meu telefone, tem coragem de me ligar?
- Por que não?
- Quero só ver.
O conheço a pouco mais de um mês, trabalhamos em prédios próximos, viajamos no mesmo ônibus todos os dias, nem sempre nos sentamos juntos, na verdade geralmente as conversas resumem-se a um “bom dia” ou “ainda bem que já é sexta-feira”. Desta vez conversamos um pouco mais e recebi esse desafio, logo eu que vivo desafiando o destino, não deixaria passar a oportunidade de conhecê-lo um pouco mais.
Liguei e fui convidada para ir a um jantar que ele não sabia onde seria, nem com quem, convite negado, ele decidiu juntar-se a mim e a meus amigos. Encontramo-nos e decidimos o destino da noite.
A primeira opção estava fechada, de lá nos dirigimos a outro local, mais uma mudança de planos e enfim o bar.
Éramos cinco pessoas. Três mulheres, um homem e o Bozo. Não, este não é o apelido dele, nem indica alguma característica física. Ele simplesmente é o cara mais engraçado que já conheci.
Apesar de dizer-se tímido, fez piada com todo mundo, apresentou-se, enturmou-se e fez com que déssemos grandes gargalhadas. Piadas não faltaram e intromissões nas nossas conversas também não, tudo ia muito bem até o momento em que ele colocou uma batata frita no nariz. Foi, então, que tive a certeza de estar sentada ao lado do Bozo.
Ele ali, com a batata no nariz continuou conversando com meus amigos e tomando cerveja, algum tempo depois a batata se foi, mas o Bozo não.
Não conseguia acreditar que podia existir alguém tão engraçado e simpático, ainda mais nesta cidade esquisita, onde as pessoas não se misturam e adoram julgar pelas aparências. Mas é claro que essas surpresas boas geralmente têm data prevista para acabar, ainda mais comigo.
Algumas cervejas a mais fizeram o Bozo transformar-se no Sérgio Malandro. Foi então que percebi que tinha caído em mais uma pegadinha de Santo Antônio, que com certeza é afim de mim.
Procurei pelas câmeras escondidas e já começava a ouvir: ”Rá-rá! Salsi-fu-fu! É pegadinha do Malandro!”, quando decidi voltar para minha realidade e para casa, afinal, brigar com um bêbado e com idéias machistas nunca valeu a pena:
- Você não vai me dar um beijo?
- Não.
- E por que não?
- Chamei você para sair comigo e com meus amigos para nos conhecermos, isso não quer dizer que vou beijar você, as coisas não são assim.
- Não acredito que eu deixei de ir no jantar com meu amigo, para vir aqui com você e você vai me ignorar.
- Sinto muito se você acha que perdeu seu tempo, estávamos nos divertindo com você, e achei que você também estava gostando de estar aqui, mas se não está é melhor ir.
- Não acredito que você vai fazer isso comigo
- Sabe o que não suporto em vocês?
- Em nós?
- É, nos homens. Vocês sempre precisam de algo em troca. A companhia, uma boa conversa, o estar presente não basta, sempre precisa ter algo mais para ter valido a pena. Isso é ridículo!
- Você está me chamando de ridículo?
- Não, você é que está se ridicularizando.
Não encontrei as câmeras, mas tive certeza que estaria nas telas do programa Silvio Santos no próximo domingo. No dia seguinte ele me ligou e perguntou o que havia acontecido, falou que estava de ressaca e com amnésia.
A amnésia é uma boa desculpa para esconder a ressaca moral, mas tudo bem, eu já tinha visto e escutado o suficiente, já estava satisfeita e não perderia meu tempo relembrando aquela tola conversa.
Creio que as conversas no ônibus, provavelmente, serão resumidas a um “olá” ou “até amanhã”. Uma pena, pois fazia tempo que um homem não me fazia rir tanto e tão espontaneamente...

sábado, 24 de janeiro de 2009

Tinta fresca


Era domingo, dia em que podia dormir até mais tarde, acordar com preguiça e dormir mais um pouco, mas não neste domingo. Acordou cedo e disposta. Pouco mais de oito horas da manhã, abriu os olhos, sentou-se na cama e olhou o céu azul lá fora, dia lindo, pensou, dará tudo certo.
Lembrou-se da breve conversa que tivera com ele na noite anterior, relembrava cada palavra, cada frase e ansiosa deixou que o otimismo a invadisse.
Havia aberto a ele seu coração, disse-lhe todo o amor que por ele sentia e que ali estava a sua espera. Disse a ele que cansada estava de enganar-se e que não poderia ter apenas sua amizade, queria mais, o queria por inteiro e estava decidida a conquistá-lo.
Os avisos de amigas relembrando os erros do passado e as lágrimas derramadas, a voz de seu coração que prenunciava uma nova cicatriz, nada disso bastou-lhe, queria, precisava viver esse sentimento plenamente.
O dia passou arrastado, tentou ficar mais bonita, escovou os cabelos, após tomar um banho demorado, pintou as unhas e perfumou-se delicadamente. Ligou o rádio e ouviu uma canção, leu seu horóscopo no jornal e agarrou-se em livros para passar o tempo.
Quando olhou novamente no relógio, já passavam das dez horas da noite. Pois é, ele não veio. Sentiu uma dor forte no peito e uma vontade de chorar. Em sua mente vieram as lembranças como em um filme: as risadas, o cafuné, os abraços e brincadeiras, o último beijo e a ilusão.
Despertou com o som do telefone. Correu para atendê-lo, era ele. Foi uma conversa breve. Ele reafirmou gostar dela, mas disse não estar preparado para um relacionamento, creio que ele nunca esteve, nem estará pronto para relacionar-se com ela, contudo, nunca deixou isso muito claro. Disse algumas coisas a mais depois disso, mas a dor fez com que ela perdesse a audição e a fala. As palavras, já sem sentido, saiam com dificuldade. A primeira lágrima escorreu em sua face e ela desligou o telefone.
Apagou as luzes da casa e sentiu-se sozinha como jamais havia se sentido. Entrou no quarto, sentou-se na cama e chorou silenciosamente. Ficou ali, estática, por horas, acreditando que junto com as lágrimas poderia tirar do peito esse amor não correspondido.
Sentia o peito abrir-se e uma angústia profunda a dominara. Precisava sufocar esse sentimento que a invadira, sabia que a única alternativa era esquecê-lo. Lembrou-se de todas as tentativas anteriores, das decepções e finalmente percebeu que aquela história precisava de um ponto final e que a caneta estava em suas mãos.
A noite nunca fora tão silenciosa e vazia, as lágrimas há tempos não tinham gosto tão amargo. Decidiu por pingar no final daquela noite um ponto firme e único. Deu com esse gesto adeus às ilusões. Prometeu naquele instante pintar-se de cinza e nunca mais apaixonar-se.
Temo que ela cumpra essa promessa e desacredite do amor para sempre. Temo mais ainda que esse ponto final seja um obstáculo para novas histórias de amor.
No mais, me resta observá-la todos os dias. Verei com cuidado qual é sua cor e no dia em que ela estiver cinza, chorarei tristemente a perda de, talvez, uma das últimas românticas deste mundo, restará então o cheiro de tinta fresca e um novo olhar para os casais apaixonados.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Um quarto de século...



Foi ouvindo o som dos pássaros e um galo cantando bem longe, que ela abriu os olhos e observou o relógio. Ainda era cedo. Sem coragem para levantar-se, espreguiçou-se demoradamente e deu um longo suspiro.
Olhou para o criado-mudo e encontrou um embrulho colorido, deu um sorriso e não teve tempo de abri-lo, a porta se abriu e ela escutou um agradável bom dia.
Junto com a saudação ganhou um beijo e um forte abraço materno. Sua mãe abriu a janela, que lhe mostrava o dia azul e a apressava para levantar-se. Com muito custo saiu da cama, olhou pela janela e sorriu. Que dia lindo, pensou.
Ainda de pijama foi até a cozinha e sentiu o cheiro de bolo no forno. Em cima da mesa uma vasilha com recheio. Ela provou, que delícia! Foi até o quintal, brincou com o cachorro e avistou a irmã molhando as plantas. Guerra de água, alguns safanões, abraço fraterno e gosto de acolhida.
Tomou um longo banho, escolheu uma roupa fresca e bem colorida, chinelos nos pés e um cheiro de lar. Observou seu pai pela janela, um rádio de pilhas tocando música caipira e ele abanando a churrasqueira. Abraço paterno e risadas sem fim. Foi assim que passei muitos aniversários da minha infância.
Hoje, distante da minha família, o dia não começou de forma tão agradável. Acordei atrasada, com o despertador tocando uma música latina, bem diferente do som dos pássaros. Não tive o abraço materno e o desejo de bom dia veio por telefone, de forma breve. Não tinha cheiro de bolo no forno, nem fumaça invadindo a casa.
No ônibus as pessoas não sabiam meu nome e muito menos que era meu aniversário, no trabalho alguns cumprimentos e um desejo de ser feriado. O abraço fraterno chegou via SEDEX, em embalagem colorida e números digitais.
O céu está azul, mas o dia sem graça. Nem mesmo as comemorações iniciadas no final de semana e os abraços e ligações dos novos amigos conseguiram trazer de volta aquela sensação da infância.
A nostalgia de aniversários anteriores me entristece um pouco, mas, não me deixa desgostar desta data, pois para mim o ano inicia-se realmente após a comemoração do meu aniversário. É nesta data que faço o balanço do ano anterior, que retomo alguns planos e excluo outros. É neste dia que sei com quem posso contar a vida toda, esteja longe ou perto. É aqui que inicio mais um recomeçar.
E como gostaria de recomeçar com a família, amigos de infância e novos amigos reunidos. Como seria bom se fosse mesmo feriado e pudesse estar mais próxima dos meus, mas não é. E o dia passou arrastado, sem muitas novidades ou transformações.
Um quarto de século, vinte e cinco anos de vida e nada de novo, senão a saudade da velha rotina. Nada de emocionante ou surpreendente, nada, até que...
Ela entrou tímida na sala onde eu trabalhava, com um sorriso no rosto, pouco mais de um metro de altura, cabelos e olhos pretos, toda vestida de cor-de-rosa. Trazia um copo de água nas mãos, puxou uma cadeira na minha frente e sentou-se:
- Oi!
- Oi, você está sozinha aqui?
- Sim, estou trabalhando um pouco e você?
Ela aponta para os presentes em cima da mesa e diz:
- Eu estou esperando minha mãe, ela está ali do lado. O que é isso?
- Alguns presentes.
- De quem são?
- São meus.
- E por que você ganhou presentes? O Natal já passou.
- É que hoje é o meu aniversário.
- Ah é?! Parabéns! Quantos anos você está fazendo?
- Vinte e cinco.
- Nossa! Eu ainda tenho sete!
- E quando você faz aniversário?
- Só em setembro, ainda está longe.
- É, mas logo chega.
Olho para a porta e a mãe da garotinha a esperava dizendo:
- Pare de atrapalhar a moça! Vamos embora.
Nós duas sorrimos e ela despediu-se, antes, contudo, lhe perguntei:
- Qual seu nome?
- Taline e o seu?
- Também!
Ela sorriu, soltou das mãos da mãe, me abraçou e colocou o copo, já vazio, junto dos outros presentes.
- Para você!
- Obrigada! É um ótimo presente, muito útil!
Ela sorriu, deu um aceno de mãos e saiu da sala.
Nos olhos daquela criança e naquele abraço senti a sensação daquela acolhida da infância. Na cumplicidade de nomes iguais e tão raros. Na esperança de que um dia ela completasse seus vinte e cinco anos e eu voltasse aos meus sete anos de idade, nem que fosse só por alguns minutos. Foi assim que terminei meu dia de trabalho, com um quarto de século nos ombros e uma esperança infinita de dias melhores.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Folha em branco


Inspirar, respirar, expirar. Inspiração. Sem inspiração.
Não sei o que é pior, não ter inspiração ou encontrar inspiração nas coisas mais inusitadas. Hoje estou assim, sem saber se chove ou faz sol, se escrevo ou leio, se durmo ou acordo, se como ou bebo, se assisto um filme ou escuto música. Estou assim, sem sal nem açúcar. Numa ânsia de fazer qualquer coisa e com uma vontade enorme do ócio.
Mas a verdade é que preciso escrever. E escrever por obrigação nunca foi minha praia, muito menos meu campo, mas existem coisas que mesmo quando feitas sob obrigação nos dão prazer e escrever é uma delas.
Na verdade não foi difícil começar este texto, foi só olhar para a folha em branco e encontrar várias idéias: neve, boneco de neve, cenoura, salada, verão, sol, calor, chuva, frio, cobertor, suor, banho, nuvem, fumaça, neblina, montanha, grama, margarida, pomba, eca! Essa não, não suporto pombas, mas enfim, na minha mente as coisas funcionam assim, uma coisa puxa a outra.
Pode ser que todas as mentes funcionem assim, mas como não sei o que se passa na sua mente, nem se você mente quando diz sobre o que se passa na sua mente, falo só por mim.
Tenho ainda como agravante ter uma imaginação incrível, que torna o elo entre as coisas mais fortes. Na verdade acho que não existe muito sentido nessas ligações, o fato é que nem tudo precisa ter sentido. Esse texto mesmo não tem começo, nem fim, você pode lê-lo de cima para baixo, do meio para cima ou para baixo e se preferir a tradição comece do primeiro parágrafo. Tentou?
Aposto que muitos dirão que não deu certo, que não fez sentido nenhum, e não era para fazer mesmo, porque você é que constrói o sentido para o que está lendo, posso escrever qualquer coisa aqui e você vai entender de um jeito, e o fulano de outro, o sicrano vai se assustar e o beltrano achar engraçado, no fim, cada um escolhe seus significados, e isso acontece constantemente em cada segundo de nossas vidas.
Quando se está de mau humor um bom dia merece aquela resposta clássica: “só se for o seu”, ou, “o que têm de bom?” Mas se você teve uma noite maravilhosa e acordou com o som de pássaros, além de responder: “dia lindo, não?”. Vai colocar um sorriso enorme no rosto e deixar o indagador com uma pulga atrás da orelha.
Caso eu escreva que adorei a mangueira do fulano, você pode imaginar a borracha usada para lavar carros e garagens, uma árvore frutífera ou se tiver uma mente poluída outra bobagem qualquer. Do mesmo jeito que quando digo que não estou feliz com meu gato, você pode achar que não gosto de felinos, ou que não estou muito satisfeita com minha relação amorosa. Poderia ficar aqui o dia inteira escrevendo coisas desse tipo e te enlouquecer com essa tal polissemia, mas creio que já foi o suficiente para que você pensasse um segundo e tentasse descobrir outras palavras do tipo e principalmente outros sentidos para sua vida.
Na verdade só queria mesmo te fazer pensar. Pensar faz bem. Você pensa muito ou pouco? Eu penso bastante. Tanto que às vezes me esqueço do por que comecei a pensar.
Quando se pensa muito em alguma coisa, as situações ganham outros significados e muitas vezes perdem a relevância. É pensando que construímos sonhos, problemas e soluções, assim, sempre é bom pensar, mas na medida certa, nem muito, nem pouco, pense no ponto.
Pense em coisas que precisa pensar e em coisas que gosta de pensar. Pense acordado e acorde pensando, pense dormindo e durma pensando, pense e respire, respire fundo para pensar, pense rápido, lentamente pense, pense hoje, pensou ontem e pensará amanhã. Pensar no quê? Ah, isso é com você. E se não quiser pensar, lamento informar que você pode até tentar, mas não vai conseguir, pois até para pensar em nada é preciso pensar.
É isso, tão essencial e involuntário quanto o respirar é o pensar, e de tanto pensar e não encontrar inspiração acabei escrevendo esse texto sem pé nem cabeça, mas que me fez pensar e respirar um bocado! Ufa!

sábado, 3 de janeiro de 2009

Cadê o espírito natalino?


O Natal passou. O tão esperado Ano novo já chegou, as árvores de natal perderam seus presentes, as casas suas decorações, as crianças a expectativa pela noite de natal, os meses ganharam novas promessas, as pessoas novos rótulos e eu ainda não encontrei o espírito natalino.
Creio que o seu Natal deve ter sido como o de muitos anos anteriores, e diria, inclusive, que em todas as casas é possível notar alguma semelhança, pois me parece que essa data foi criada para acontecer da mesma forma em todas as casas, em todo o mundo, com “pequenas” exceções religiosas, culturais e socioeconômicas. Foi criada para que se parecesse com um “comercial de margarina”.
Uma mesa farta, com um belo peru, fios de ovos, cerejas, mesa de frutas, vinho, champanhe, cerveja, frutas secas e amêndoas. Uma árvore de natal com pisca-piscas, vários pacotes de embrulho no chão, o especial da Xuxa na TV, as crianças jogando na sala, outras dormindo no sofá, os pais, tios e tias bebendo um pouco a mais, os jovens bebendo escondido e apresentando seus novos namorados para a família, as avós felizes ao ver a família reunida, amigo secreto, sorrisos, satisfação, decepção, lágrimas, saudades de quem não está presente, uma oração, um discurso, muitas piadas, sono, final da bebida, restos de pernil, luzes apagadas, um vento leve que entra pela sala e apaga a última luz: Feliz Natal. É isso.
No dia seguinte, o Natal continua, mas já não tem mais graça, os preparativos agora estão voltados para o Ano novo. As comemorações continuam, as comilanças e bebedeiras também, mas a união, as gargalhadas e a vontade de rever alguém que mora longe já passou. Os assuntos já não são mais novidades, a ressaca física e moral impede outras piadas, as crianças brincam isoladas com seus novos brinquedos, os jovens discutem por algo que aconteceu na noite anterior, as velhas mágoas ressurgem com o apagar da última luz, despediu-se o espírito de natal.
E com o Ano novo não é diferente. Festas em clubes, chácaras, amigos e família reunida, roupas brancas, fogos de artifício, champanhe, promessas, simpatias, desejos, esperança e quando se acorda tudo continua igual. Você não perdeu peso, nem arrumou um namorado, não enriqueceu, nem arrumou um emprego novo e então você se acomoda e deixa as metas do dia primeiro para o mês de fevereiro e assim vai...
Confesso que tinha certeza de que meu Natal seria assim, como um falsete para as brigas, mágoas, rancores e dúvidas. Talvez por ter que trabalhar até as 12h00 da véspera de Natal e chegar em casa praticamente com o Papai-noel, talvez por que há algum tempo já tenha desacreditado de algumas coisas, talvez por que desde que me mudei desta cidade já não fazemos mais árvore de natal, nem colocamos guirlandas nas portas, já que isso era feito por mim.
E realmente, meu Natal foi comum, como de muitos outros anos. Família reunida na casa da avó, tios e primos, amigos, muita comida e bebida, um champanhe que não abria por nada deste mundo e que rendeu as gargalhadas mais gostosas da noite. Fotos e histórias antigas, recordações, lembranças, abraços, família. Cheiro de aconchego, de acolhida, gosto de carinho e satisfação.
Foi assim meu Natal, típico e atípico, com situações comuns, como meu tio declarando seu amor por nós depois de muitas cervejas e contando a mesma história por quatro vezes seguidas, e atípico por desta vez não ter um peru enfeitado na mesa, nem árvore de natal, mas por ter sido a noite mais prazerosa em família dos últimos anos. Confesso que não parecia Natal, e que se eu não tivesse pedido a champanhe talvez nem um brinde teríamos feito em homenagem a esta noite, e realmente não seria preciso.
O olhar, as risadas, as piadas e lembranças de outros natais permitiram que esta noite tivesse um brilho diferente. E arriscaria até dizer que havia encontrado o espírito natalino neste momento, não fosse pelo fato de nele não acreditar.
As promessas para o Ano novo ainda não consegui enumerar, preferi não pensar nisso, afinal, mais preocupante do que o que provavelmente eu não irei cumprir, é a busca pelo espírito natalino. E quando digo que dele já desacreditei, não quero dizer que não acredito mais no Natal, e sim que me decepciono quando vejo no que ele se transformou.
A essência do Natal, a união da família e amigos para lembrar o nascimento do menino Jesus há tempos perdeu seu significado, hoje é representado pelos presentes, pela comida e bebida em excesso, pelos compromissos de trabalho que nos impedem de entrar no “clima” desta data festiva.
O espírito de natal para mim nada mais é do que harmonia, paz, solidariedade, caridade e isso quando acontece apenas em uma noite festiva não me parece sincero, deveria acontecer constantemente, em cada bom-dia, em cada sorriso, em cada afago e na vontade de estar perto dos que amamos diariamente e não só nesta ou naquela data.
Infelizmente não tenho visto o espírito natalino, nem aqui, nem acolá, talvez por estar buscando nos lugares errados, talvez por já não acreditar tanto na humanidade, o fato é que essa reflexão não pertence ao Natal. Pertence a você e a mim em cada minuto de nossas vidas.
Sugiro que se junte a mim nesta busca, procure nos cantos da sala, embaixo das escadas e cadeiras, dentro das gavetas e armários, nos potes de açúcar da cozinha, e principalmente dentro de você, tente encontrá-lo ai, no seu peito, na sua razão, nos seus atos.
E caso você o encontre, me avise, ficarei imensamente feliz em reencontrá-lo em épocas distantes do Natal. Até lá, deixo a esperança de dias melhores, para mim e para vocês... Felizes semanas, meses e anos novos!

sábado, 20 de dezembro de 2008

Noite feliz?!



Não sei quanto a vocês, mas para mim os dias têm passado cada vez mais rápido. Claro que têm dias que você reza para o tempo passar e depois de ter ficado meia hora fazendo hora, olha no relógio e vê que só passaram-se dois minutos, mas estou me remetendo ao “voar” dos dias e dos anos.
De uns dez anos para cá, o ano tem parecido um mês, as semanas, dias e os dias que deveriam ter 48 horas para se dar conta de todos os afazeres, restringem-se a poucas horas, que geralmente são “aproveitadas” dormindo, comendo e trabalhando.
As horas dedicadas ao prazer, ao lazer e à diversão têm se tornado cada dia mais escassas. E falo isso por mim, inclusive. Geralmente nos lembramos de dedicar nosso tempo a atividades prazerosas em épocas festivas, e é por isso que acho que o tempo está passando tão rápido.
Não temos tido tempo de aproveitar os minutos de nossas vidas, do nosso dia-a-dia, e ficamos esperando um feriado, uma data comemorativa para extravasar as energias e colocar antigos planos em prática, e para que isso ocorra fingimos que os demais dias não têm importância.
Sobrecarregamo-nos de afazeres, de coisas sem sentido, só para que a noite chegue rápido e possamos dormir (quando não ficamos insones) e o outro dia chegar logo, e vamos fazendo isso até o próximo feriado.
É mais ou menos assim: “Nossa ainda é segunda-feira, mas tudo bem, na próxima terça-feira é feriado, então eu vou suportar essa semana”. E você passa os dias contando as horas para chegar terça-feira, e faz planos, e se mata de trabalhar e quando chega na terça o dia passa que você nem vê e na quarta-feira, você se levanta vai para o trabalho e pensa: “daqui um mês tem carnaval”.
E com isso perdemos muitas vezes o significado das festas, dos feriados e principalmente dos nossos dias comuns. Lembro-me que quando era criança o Natal demorava uma vida para chegar e era uma expectativa tão grande que os preparativos vinham durante o ano todo, me comportando bem, sendo boa aluna e boa filha para receber o tão esperado presente.
E quando começava a contagem regressiva no SBT, ou aquela música (que particularmente acho triste): “Noite feliz, noite feliz! Oh, Senhor Deus de amor...", já me dava um frio na barriga.
Com o passar dos anos as emoções eram ativadas com outros sinais da proximidade do Natal como as propagandas dos ursos brancos e os caminhões iluminados da coca-cola que, ainda hoje, cortam o país.
Sem falar naquela melodia irritante que algumas pessoas adoram ouvir, pelo menos 10 vezes, durante a ceia de natal e que te faz perder o espírito natalino e querer quebrar o rádio na cabeça de alguém: "Então é Natal, e o que você fez? O ano termina e nasce outra vez".
Mas enfim, os dias custavam a passar naquela época. Hoje, quando ouvi a mensagem de final de ano de uma emissora de televisão, percebi o quanto muitas destas coisas, inclusive nossos dias, já perderam o significado para muitos de nós.
Criar mensagens de final de ano virou merchandising barato, tornou-se especulação, e não sei quanto a vocês mas ouvir que: “Hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou...”, desde a década de setenta, já é demais para mim. Causa-me a impressão de que com a virada do ano todos os problemas e dificuldades serão simplesmente eliminados.
O que tenho mais ouvido nos últimos dias é a súplica para que o ano termine. E para quê? O que você pretende para o próximo ano que não conseguiu concluir neste ou que não possa iniciar nestes dias que ainda restam? Iniciar um ano novo, não significa deixar os sonhos e problemas de lado, e sim reafirmá-los, encará-los de frente. E isso você pode fazer hoje, agora, neste instante, sem que seja necessário pular sete ondas, comer sopa de lentilha ou vestir lingerie cor-de-rosa.
Não quero parecer amarga com essas palavras, nem lhes causar desânimo, pretendo apenas mostra-lhes (mostrar-me) que o tempo é um ótimo conselheiro e pode resolver muitas coisas, quando aproveitado intensamente.
Querer adiantar nossos dias não significa resgatar esperanças e sonhos, me parece muito mais medo do que se pretende deixar para depois. É como escolher uma Noite feliz e renunciar a uma Vida plenamente feliz.
Assim, por que deixar para o ano que vêm ao invés de colocar hoje, um ponto final em coisas que nos causam dores de estômago e de cabeça? Por que esperar mais um mês ou o final do ano para mudar seu estilo de vida? Por que concentrar todas suas energias em uma noite ou em uma data comemorativa, se tem todos os dias pela frente? Por que não cortar o cabelo hoje e vestir aquela roupa nova comprada há um mês na espera no Ano novo?
Recuso-me a concluir este texto, pois estas perguntas precisam de respostas e é a vocês que as peço. Deixo aqui esse texto sem fim para que você reflita e, além dos meus votos de um Feliz Natal e um Ano Novo maravilhoso, irei desejar-lhes incansavelmente felizes dias, felizes tardes e felizes noites!
E é isso, todo o resto é com vocês.