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sábado, 11 de julho de 2009

Almoço de domingo


Domingo de céu emburrado, cinza, nublado. Vento frio, preguiça, vontade de ficar na cama o dia inteiro, mas o telefone toca e surge um convite:
- Taline? Já almoçou?
- Não, são dez horas da manhã!
- Você estava dormindo?
- Sim, hoje é domingo!
- Desculpe te acordar, mas sabe o que aconteceu? Comprei dois convites para um almoço beneficente e minha mãe não quer ir, vamos comigo?
- Hoje?
- É, daqui umas duas horas. O cardápio é feijoada e vai ter música ao vivo.
Pensei no dia frio, na vontade de ficar em casa, mas meu estômago falou mais alto.
- Está bem, eu vou.
- Olha, só que tem uma coisa.
- O que?
- Precisa levar prato e talher, porque lá não vai ter.
- Você está de brincadeira, não é?
- Pior que não, separa o quite almoço que logo chego ai.
Desliguei o telefone e pensei: só pode ser pegadinha. Mas vindo desse amigo não era nada impossível, vive me convidando para programas de índio, e eu nunca aprendo a lição, sempre aceito. Mas enfim, era almoço beneficente, ia ter música ao vivo e feijoada, não devia ser assim tão ruim.
Ele chegou e fomos para o ponto de ônibus, eu com os pratos e talheres em uma sacola de supermercado pensando no quanto aquilo era estranho, ir para um almoço e levar os pratos, é quase ter que levar os brigadeiros em uma festa infantil, ou a taça em um casamento.
Descemos do ônibus e antes de nos dirigir ao local do almoço ficamos observando do outro lado da rua as pessoas que entravam, todas com bolsas estilosas, sacolas térmicas, caixas enfeitadas carregando seus pratos e nós ali, com aquela sacola de plástico amarela do supermercado da esquina.
Entramos e fiquei em busca de alguém conhecido, de alguém com quem pudesse compartilhar todo aquele estranhamento, mas as pessoas ali pareciam bem à vontade com aquela situação, achei melhor entrar no clima e esquecer os pratos.
O salão estava bem arrumado, um lugar muito bonito, com uma área externa, várias mesas de oito lugares enfeitadas com flores e toalhas verdes. Encontramos uma mesa vaga e nos sentamos. Observei a disposição do caixa para bebidas e do aparadouro, apenas um, logo pensei na confusão que seria quando o almoço fosse servido.
Compramos algumas cervejas e um refrigerante e nos sentamos. A música começou a tocar, uma dupla afinada, mas pouco animada tocando MPB, surgiu aqui a primeira decepção, estava esperando um grupo de samba raiz, isso sim combina com feijoada. Mas enfim, quase uma hora depois de nossa chegada o almoço foi servido, uma fila enorme se formou, voltas e voltas de gente, com pratos na mão, era até bonito de se ver, pratos grandes, pequenos, fundos, rasos, coloridos, de porcelana, cada qual do seu jeito.
Minha observação foi interrompida por um casal que se aproximou e perguntou se poderiam juntar-se a nós. Imaginava que isso logo aconteceria, afinal estávamos em uma mesa de oito lugares, disse para eles que se sentassem e ficassem a vontade, e foi aqui que errei.
O casal sentiu-se mesmo bem à vontade! Tão a vontade que logo chamou mais dois casais para juntarem-se a nós. A mesa ficou cheia, de latas de cerveja, de gente, de gargalhadas e de incômodo. Os amigos deles que se aproximavam nos cumprimentavam como se fizéssemos parte do grupo, no início achei engraçada a situação, mas depois fiquei realmente incomodada.
Muitas cervejas a mais e um interrogatório se iniciou, e logo depois insinuações, como se eu e meu amigo fossemos um casal e não apenas amigos, como se amizade entre homem e mulher fosse utopia. Os homens da mesa começaram a dar conselhos machistas a ele de como me conquistar e ele, coitado, sem saber mais o que fazer, dizendo que era meu primo, e eu, já de saco cheio, dizendo que tinha namorado, mas nada disso parou com as piadinhas do tipo:
- Prima não é irmã! Vai fundo, a única coisa que você não deve fazer é contar com o não, porque ele já existe, o que vier além dele é lucro!
Ou ainda:
- Ah! Está namorando, mas não está casada! Quando eu comecei a investir na minha esposa, eu namorava a irmã mais velha dela, e hoje estamos casados há 40 anos!
Sorte sua e azar o dela, seu cafajeste! Pensei.
Bem, isso foi só parte da conversa que se fez presente ali. Diante de tanto constrangimento o que me restava? Almoçar. E lá fui eu. Coloquei-me no final da fila, e por lá fiquei, uns vinte minutos pelo menos, que passaram até rápido, pelo menos ninguém cuidava da minha vida ali.
A feijoada estava boa, bem temperada, apetitosa, mas o clima já não estava mais para feijoada, nem para música, nem para blá-blá-blá. Lembrava da minha casa, da minha cama e foi me dando uma vontade de dormir. Meu amigo saiu de lá sem almoçar, não aguentou ficar na fila, principalmente quando soube que o torresmo havia acabado.
Despedimo-nos dos casais, juntamos os pratos e talheres e saímos do prédio, tão aliviados que não saberia expressar aqui. Demos muitas risadas no elevador e no ponto de ônibus quando meu amigo me fez jurar que não estava com raiva dele.
Eu jurei e fui sincera, como poderia ter raiva de alguém que me permitiu este texto, que me permitiu lembrar dos almoços beneficentes de domingo da minha cidade e sentir saudades. Como poderia querer mal quem me fez rir até de pratos coloridos neste domingo cinza, emburrado e desajeitado.
Apesar dos pesares valeu a pena, pela companhia, pelas risadas, pela feijoada e por que não, pela boa ação.

4 comentários:

Taline Libanio disse...

Em homenagem ao querido amigo Osvaldo, que tem o dom te transformar nuvens cinzas em sorrisos...Adoro você!

Com carinho...

Anônimo disse...

Essa sacolinha amarela, já sei da onde é rsrsrsrsr, isso fez me lembrar lá na minha cidade todo ano faziamos e ainda faz até hoje o Chá beneficiente, que cada pessoa levava sua xicara, e no fim do chá , tinha um concurso da xicara mais bonita, era até bonito de se ver, cada xicara mais linda do que a outra, lembrei de vc querida amiga, bjs.......
GRAÇA

Marly disse...

kkk

num acredito que vc conseguiu almoçar.

kkk

As vezes nos deparamos com estas situações msm.

tem que levar pelo lado ironico msm.

abraços

Valeria disse...

taline...
amei esse seu texto...
isso demonstra que gente chata e formiga tem em todo o lugar...kkkkk
bj e saudades