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sábado, 6 de dezembro de 2008

Guajira, guantanamera. Guajira, quanta lamera!



O meu trabalho apresenta algumas peculiaridades, além do que lhe é comum, tenho alguns dias de plantão, e não é um plantão médico, é um plantão da defesa civil. Em casos de emergência, calamidades e tragédias gregas somos acionados.
O bom é que posso ficar em casa e sou chamada só em caso de ocorrência, o ruim é que fico presa na cidade e não posso me distanciar muito daqui. O bom é que recebo hora-extra quando as ocorrências surgem e o ruim é que quando isso acontece alguém perdeu tudo do pouco que possuía. Isso me lembra uma conversa que tive com um querido amigo esses dias, diz ele que precisou imobilizar o pé após uma cirurgia e enquanto a enfermeira o engessava ele perguntou:
- Engessando muitas pernas?
- Graças a Deus, foi o que ela respondeu.
Mas enfim, era um sábado, como qualquer outro se não fosse pela chuva torrencial que caiu na sexta-feira à noite e pelo fato do plantão ser meu. Às 8:00h o telefone toca e meu chefe, bem humorado, diz:
- Taline? Já está de galochas?
- Não, não tenho galochas aqui. Tem ocorrência?
- Sim, precisa de quanto tempo pra ficar pronta?
É quando me vejo de pijama, com muito sono e de mau humor, lembro do café da manhã que não tomei e do banho que preciso pra despertar, preciso de no mínimo cinco horas, o que acha?
- Trinta minutos, pode ser?
- Pode.
- Quem vem me buscar?
- A guarda municipal.
- Ok.
- Boa sorte.
Sorte. Sorte teria se não tivesse ocorrência, teria mais sorte ainda se pudesse ter dormido pelo menos até às dez. Mas é assim, não adianta resmungar, o jeito é optar pelo café ou pelo banho e aproveitar bem meus trinta minutos. Escolho o banho e um copo de leite, já que tomar café da manhã e dormir até passar o mau humor em trinta minutos não seria possível.
Procuro um sapato que seja compatível com a situação e não encontro as galochas, escolho um tênis, calça jeans e uma camiseta branca. Crachá no pescoço, colete da defesa civil, prancheta e caneta, nas mãos, é, estou pronta.
A guarda municipal chega e os companheiros de plantão além do interfone, optam pela buzina e pela sirene. Entro na viatura e observo os vizinhos do prédio na janela, no mínimo pensando que cometi algum crime ou que a culpa pelo aumento da conta de água do condomínio ou ainda pela fome no mundo é minha, mas é assim, não teria nem tempo nem disposição de explicar a situação, melhor deixar que pensem qualquer coisa, já tinha problemas demais à vista.
Pergunto onde é a ocorrência e escuto a comunicação no rádio da viatura:
- Fulano de tal, residente no bairro tal, localizado onde Judas perdeu as meias.
- É hoje, pensei.
Imagine um lugar longe, agora some a distância de São José do Rio Pardo/SP a Casa Branca/SP, foi ainda um pouco à frente que me vi depois de quarenta minutos sentada no banco de traz de uma viatura da guarda municipal que acabava de parar bruscamente:
- O que aconteceu?
- Não posso seguir, tem muita lama.
- Como assim não pode? Onde é a casa?
- Acho que daqui umas duas quadras.
- E como eu vou chegar lá no meio dessa lama?
- Ah não sei, só sei que não vou colocar a viatura lá, é muita lama.
- E qual dos dois vai me acompanhar?
- Par!
- Ímpar!
A porta se abre e eu desço. Lama, muita lama, mal conseguia andar. Um dos guardas me acompanha, aquele que perdeu no par ou ímpar, quase caio sentada na lama e penso nas galochas que não tenho, no tênis que com certeza não seria recuperado e no meu estômago roncando.
Os vizinhos se amontoavam e ridicularizavam a cena, eu e o guarda municipal nos equilibrando na rua como se fosse em uma pista de sabão. Com muito custo encontramos a residência invadida pela lama. Fui recebida por uma pessoa muito nervosa e por vizinhos curiosos. Recepção calorosa, pensei.
O telefone toca e é meu chefe perguntando como estou. Eu estou ótima, mas a casa, o dono dela e a vizinhança estavam irritados e eu buscando uma saída para algo que aparentemente não tinha solução.
Aos poucos fui dando os encaminhamentos necessários e deixando o caos sob controle. Nada que quatros horas de conversa e negociação não se resolva. Bom, trabalho cumprido, hora de voltar para casa e para meu sábado.
- Vamos?
- Acabou? Achei que não ia embora hoje.
- Avisei que ia demorar, é assim mesmo.
- Mas eu estou com fome. Já são 13:00h e eu não almocei.
- Pois eu também não almocei, nem tomei café da manhã.
- Mas agora você vai para casa e a gente fica de plantão até as 18:00h.
- Agora eu vou para casa fazer relatórios, conseguir doação de móveis, roupas, material de escola e alimentos, isso se não tiver outra ocorrência, pois meu plantão vai até a meia-noite.
Ele não se atreveu a retrucar. Fim de papo, chego em casa, com o pé cheio de lama, desço da viatura, alguns vizinhos na sacada. Tiro o tênis, que é puro barro, dou adeus à viatura e entro no prédio. Escuto uns buchichos dos vizinhos e o melhor deles, que me fez subir as escadas de meias e sorrindo foi:
- Nossa, devem ter dado uma prensa boa nela, desde aquela hora e com o pé todo sujo de lama. Coitada!
Minha vizinha passou a manhã toda daquele sábado esperando o desfecho desta história, ou melhor, da história que ela criou, pois desta, ela provavelmente nunca ficará sabendo. E eu achando que tinha perdido meu sábado...Que gente mais engraçada e ociosa! Vizinhos!

4 comentários:

Taline Libanio disse...

Em homenagem a alguém muito especial que me mostrou num dia cinza a cor de um dia de sol e me fez sorrir...
Essa é para você, com beijos e beliscões...rs

Luis F. disse...

Olaaa!!!

Realmente, Taline, vc está muito bem servida de vizinhos....Hehehe...Já tive a oportunidade de verificar isto pessoalmente....

Mas também, chegar para lhe levar ao trabalho pela Guarda-Municipal, de uam certa forma, "aguça" a imaginação popular...

Mas cada um tem que se preocupar com a sua própria vida também não é mesmo?

Hehehe...!!


Bjos! Saudades sempre!

Alexandre disse...

Ai amore como me divirto com suas historias, em feverero qdo for quero conhecer suas vizinhas curiosas...hahaha
Gosto de ver como reclama do seu trabalho, ñ era isso q vc queria qdo começou a faculdade? agora aguentaaaaa....ao menos tem um trabalho q te paga bem, deixe de reclamar da vida e vai logo escrever a cronica da semana q vem, q ja to loco pra ler...huhuhuh
bjus amo vc!!!

Marly Meyre disse...

hehehehehehehe

vc não tem as visinhas que tenho...
Elas viriam na minha casa, nem que fosse pra pedir açucar e se informarem da situação.
Feliz de vc...
bjus