
Não faz muito tempo que mantinha uma mania boba, uma mania que não sei de onde surgiu, só sei que já me fez perder muitos bons momentos e me impediu de aproveitar tantos outros intensamente.
Tinha uma mania boba de deixar a melhor parte para o final. Em tudo, absolutamente tudo. Tinha uma mania boba de achar que a melhor parte deveria ser deixada para o último instante, acreditava que assim, fecharia com chave de ouro qualquer acontecimento deixando o melhor para o fim.
Fazia planos incríveis e sempre escolhia sua melhor parte e a deixava para depois, planejava uma viagem mas sempre deixava para o final (do ano, da faculdade, do curso, da formatura). Pensava em um lugar que sempre quis estar e deixava para a lua-de-mel, para viajar com os futuros filhos, enfim, os melhores planos sempre eram deixados para os momentos que eu julgava serem os mais importantes, os insubstituíveis e que, portanto, deveriam ser perfeitos.
Comprava uma roupa nova e separava para uma ocasião especial, geralmente ela nem existia ainda, mas se um dia aparecesse lá estaria. Costumava separar minhas roupas em roupa para sair, para trabalhar e para ficar em casa, era inconcebível usar uma blusa novinha em folha para ir trabalhar, “gastar a roupa”? De jeito nenhum!
Escolhia um pastel ou uma empada pelo recheio, mas comia primeiro as bordas, todas elas, aquele monte de massa, até que sobrava só o recheio e então comia, mas já não tinha o mesmo sabor, também, depois de comer tanta massa que graça teria o recheio?
Antes do almoço escolhia a sobremesa e nunca me atrevia a experimentá-la antes da comida, não sei se por conta das broncas que já levei na infância por mordiscar doces antes da refeição, ou pelo simples fato de deixar o melhor para o final.
Acontece que um dia a morte apareceu na minha vida. Como num pulo breve e ágil levou em seus braços alguém muito querido, alguém que eu achava que ia viver 200 anos, e que eu considerava a pessoa mais saudável desse mundo, não bebia, não fumava, não comia carne, praticava esportes, era muito paciente e feliz, com uma família linda. Mas para a morte não existe argumento que baste, quando ela cisma, o que nos resta é reforçar nossa fé e seguir. Confesso que já soube de muita gente que morreu assim ou assado, aqui ou acolá, de “morte morrida ou matada”, mas nunca tinha parado para refletir sobre isso, até este momento.
Tem pessoas que adoecem e se vão, deixam saudades, mas a doença prepara o coração dos seus para um adeus mais ameno, para esses a morte permite um fim mais longo,arrastado, contudo, geralmente mais doloroso. Outros partem sem avisar, são levados pelos braços sem nem mesmo conseguir dizer adeus, deixam corações aflitos, planos por terminar, deixam contas a pagar e coisas para fazer. Simplesmente vão, muitas vezes pela metade, sem ter tido tempo de deliciar-se com a sobremesa, de declarar seu grande amor ,de vestir a roupa nova ou de chegar ao recheio.
O que quero dizer com isso é que tantas vezes adiamos nossos melhores planos, deixamos de nos sentir bonitas e atraentes guardando uma roupa no armário, nos martirizando com o trabalho, deixando para outro dia ou para mais tarde o cinema, os amigos, a família e a sobremesa, com a certeza de que no final do ano, ou da semana, ou do dia a gente realiza o programado e no entanto nos esquecemos de que nem tudo é passível de planejamento com hora, dia e ano certo para acontecer.
Então, use sua melhor roupa para ir até o supermercado, você pode encontrar o amor da sua vida na fila do pão. Use salto alto para ficar em casa e sempre que tiver vontade trabalhe de chinelos. Passe batom e escove os cabelos antes de dormir. Coma a sobremesa e todo o resto que quiser quando sentir vontade, e se o recheio é a melhor parte, então, coma primeiro.
Não faça planos longos demais, feche os olhos e aponte o mapa, coloque roupas na mochila e compre a passagem de ônibus, vá, arrisque-se, viva intensamente. Declare-se, não dispense um amor verdadeiro, tente, dê uma chance a quem gosta realmente de você, lute pelo que acredita.
Trabalhe, não muito e nem pouco, o suficiente para que possa viver bem. Gaste seu dinheiro com coisas que te dão alegria, com pessoas que te fazem bem, os banqueiros não dão a mínima para você, apreciam apenas sua conta bancária. Enfim, viva cada dia, cada segundo, de modo que ele dure o tempo suficiente para que tenha valido a pena, para que tenha ao menos deixado algo de bom!
E se for para morrer, que seja de tanto rir, que seja de amor, de alegria, de prazer e em último caso que seja de saudade. Saudade de pessoas e de momentos que pudemos compartilhar e viver intensamente. Momentos em que pudemos aproveitar tudo, por inteiro, as bordas, o recheio, cada migalha, o começo, o meio e o fim.
Resumindo, diria que devemos nos apropriar da frase utilizada pelo poeta e filósofo Horácio, que desde os anos 20 a.C., aproximadamente, já nos dizia: “carpe diem quam minimum credula postero” (colha o dia, confia o mínimo no amanhã). Isso é o que desejo. É o que preciso colocar em prática, é o que sempre soube, mas nunca tive coragem de fazer...
Tinha uma mania boba de deixar a melhor parte para o final. Em tudo, absolutamente tudo. Tinha uma mania boba de achar que a melhor parte deveria ser deixada para o último instante, acreditava que assim, fecharia com chave de ouro qualquer acontecimento deixando o melhor para o fim.
Fazia planos incríveis e sempre escolhia sua melhor parte e a deixava para depois, planejava uma viagem mas sempre deixava para o final (do ano, da faculdade, do curso, da formatura). Pensava em um lugar que sempre quis estar e deixava para a lua-de-mel, para viajar com os futuros filhos, enfim, os melhores planos sempre eram deixados para os momentos que eu julgava serem os mais importantes, os insubstituíveis e que, portanto, deveriam ser perfeitos.
Comprava uma roupa nova e separava para uma ocasião especial, geralmente ela nem existia ainda, mas se um dia aparecesse lá estaria. Costumava separar minhas roupas em roupa para sair, para trabalhar e para ficar em casa, era inconcebível usar uma blusa novinha em folha para ir trabalhar, “gastar a roupa”? De jeito nenhum!
Escolhia um pastel ou uma empada pelo recheio, mas comia primeiro as bordas, todas elas, aquele monte de massa, até que sobrava só o recheio e então comia, mas já não tinha o mesmo sabor, também, depois de comer tanta massa que graça teria o recheio?
Antes do almoço escolhia a sobremesa e nunca me atrevia a experimentá-la antes da comida, não sei se por conta das broncas que já levei na infância por mordiscar doces antes da refeição, ou pelo simples fato de deixar o melhor para o final.
Acontece que um dia a morte apareceu na minha vida. Como num pulo breve e ágil levou em seus braços alguém muito querido, alguém que eu achava que ia viver 200 anos, e que eu considerava a pessoa mais saudável desse mundo, não bebia, não fumava, não comia carne, praticava esportes, era muito paciente e feliz, com uma família linda. Mas para a morte não existe argumento que baste, quando ela cisma, o que nos resta é reforçar nossa fé e seguir. Confesso que já soube de muita gente que morreu assim ou assado, aqui ou acolá, de “morte morrida ou matada”, mas nunca tinha parado para refletir sobre isso, até este momento.
Tem pessoas que adoecem e se vão, deixam saudades, mas a doença prepara o coração dos seus para um adeus mais ameno, para esses a morte permite um fim mais longo,arrastado, contudo, geralmente mais doloroso. Outros partem sem avisar, são levados pelos braços sem nem mesmo conseguir dizer adeus, deixam corações aflitos, planos por terminar, deixam contas a pagar e coisas para fazer. Simplesmente vão, muitas vezes pela metade, sem ter tido tempo de deliciar-se com a sobremesa, de declarar seu grande amor ,de vestir a roupa nova ou de chegar ao recheio.
O que quero dizer com isso é que tantas vezes adiamos nossos melhores planos, deixamos de nos sentir bonitas e atraentes guardando uma roupa no armário, nos martirizando com o trabalho, deixando para outro dia ou para mais tarde o cinema, os amigos, a família e a sobremesa, com a certeza de que no final do ano, ou da semana, ou do dia a gente realiza o programado e no entanto nos esquecemos de que nem tudo é passível de planejamento com hora, dia e ano certo para acontecer.
Então, use sua melhor roupa para ir até o supermercado, você pode encontrar o amor da sua vida na fila do pão. Use salto alto para ficar em casa e sempre que tiver vontade trabalhe de chinelos. Passe batom e escove os cabelos antes de dormir. Coma a sobremesa e todo o resto que quiser quando sentir vontade, e se o recheio é a melhor parte, então, coma primeiro.
Não faça planos longos demais, feche os olhos e aponte o mapa, coloque roupas na mochila e compre a passagem de ônibus, vá, arrisque-se, viva intensamente. Declare-se, não dispense um amor verdadeiro, tente, dê uma chance a quem gosta realmente de você, lute pelo que acredita.
Trabalhe, não muito e nem pouco, o suficiente para que possa viver bem. Gaste seu dinheiro com coisas que te dão alegria, com pessoas que te fazem bem, os banqueiros não dão a mínima para você, apreciam apenas sua conta bancária. Enfim, viva cada dia, cada segundo, de modo que ele dure o tempo suficiente para que tenha valido a pena, para que tenha ao menos deixado algo de bom!
E se for para morrer, que seja de tanto rir, que seja de amor, de alegria, de prazer e em último caso que seja de saudade. Saudade de pessoas e de momentos que pudemos compartilhar e viver intensamente. Momentos em que pudemos aproveitar tudo, por inteiro, as bordas, o recheio, cada migalha, o começo, o meio e o fim.
Resumindo, diria que devemos nos apropriar da frase utilizada pelo poeta e filósofo Horácio, que desde os anos 20 a.C., aproximadamente, já nos dizia: “carpe diem quam minimum credula postero” (colha o dia, confia o mínimo no amanhã). Isso é o que desejo. É o que preciso colocar em prática, é o que sempre soube, mas nunca tive coragem de fazer...