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domingo, 22 de junho de 2008

Minguante: meio-cheia ou meio-vazia?



Realçando meu lado observador e minha fértil imaginação estive a pensar no quão semelhante somos com um satélite que admiro muito, a lua.
Desde criança me colocava a olhar para o céu e imaginava se era mesmo possível ter um Santo e um dragão dentro daquela bola iluminada. A interrupção no repasse de energia sem prévio aviso, freqüentes na minha rua de infância, eram motivo de desespero para meus pais, que se revezavam atrás de velas e lanternas, mas de alegria para a garotada, inclusive para mim. Adorava deitar nestes minutos na calçada e olhar para o céu. As estrelas pareciam se reproduzir na minha frente, milhares delas, e o negro da noite tornava-se quase claro. Mas mais gostoso que sentir a brisa no rosto e tentar contar as estrelas era observar a lua.
Como será possível uma bola, tão luminosa, em plena noite e com tantas formas. Nova, crescente, cheia e minguante. Sempre gostei mais da lua cheia, vistosa, pálida, a dona do céu. Mas a lua crescente também sempre me chamou muito a atenção, aquele fiozinho tímido que aos poucos ia aumentando até chegar à fase mais esperada, a cheia. A lua minguante sempre me confundiu, nunca soube se era uma lua meio-cheia ou meio-vazia, então a deixava de lado. E a nova, bem, essa era misteriosa demais para meus oito anos de idade.
Hoje, com alguns anos a mais, mas nem tantos assim, começo a olhar este satélite com outros olhos. Os olhos de quem vive observando atitudes humanas e imaginando de onde elas surgiram. Começo a acreditar que copiamos a natureza, ações boas são cópias de lindas paisagens, ações ruins são cópias da devastação.
E pensando nisso me coloquei a imaginar, se eu fosse a lua, que lua seria? Se tivesse meus oito anos responderia sem pressa: a lua cheia! E se me questionasse por que, seria fácil responder: é a mais bonita, oras!
Mas e hoje? Que lua seria eu?
Ainda gosto muito da lua cheia e pensando nos quilos a mais que adquiri nos últimos meses poderia me enquadrar perfeitamente em seu semblante. Mas sua altivez que antes me encantava, hoje me assusta. Ser admirada demais, observada demais causa incômodo e sempre gostei mais dos bastidores do que dos palcos, exceto na minha formatura, mas aquilo, bem, aquilo foi...melhor deixar para lá, uma explicação renderia outra crônica. Assim, pensando por este lado não seria uma lua tão cheia, mas se pensar por outro lado poderia ser sim, uma lua cheia de planos, sonhos, conflitos, escolhas, renúncias, assim como você, eu aposto.
Então você pode me dizer que eu gostaria de ser a lua crescente. Tímida, que aos poucos vai ganhando seu espaço, atrás das cortinas mas não dos aplausos, pois é, ela poderia ser um bom palpite. Crescer! Coisa de gente grande! Mas crescer demais ainda não está nos meus planos, pelo menos não por agora, então, a crescente seria uma lua a se pensar, mas não a escolhida.
E a lua nova? Quase transparente, como a alma de toda pessoa boa, quase invisível como àqueles que oferecem sem cobrar, quase insignificante para aqueles que não sabem observar as pequenas e boas coisas da vida. Escondida atrás do clarão do dia é imperceptível na noite, mas se olhar bem, mesmo sem vê-la saberá que ela está lá. É como uma guardiã, dá seus sinais, sopra os caminhos e se esconde pois não gosta de platéia. Sem passado, sem futuro, é ela e apenas ela, nova, limpa, cada dia como se fosse única. Meu passado ainda é bastante presente e o futuro faz parte dos meus planos, e longe estou de tanta transparência, mas que algo de nova existe em mim, isso eu sei, assim como aposto que também existe em você.
E aquela lua estranha que eu nunca entendi, a minguante, hoje me mostra um lado bem marcante da humanidade. Aquela dúvida de estar sempre meio-cheia ou meio-vazia reflete a vida de muitos de nós. A minha e a sua em alguns ou muitos momentos. Nem sempre sabemos se estamos meio-cheios ou meio-vazios com as coisas. Cheios de raiva ou vazios de afeição. Cheios de ódio ou vazios de amor. Cheios de alegria ou vazios de tristeza. Cheios de calmaria ou vazios de angústia. Cheios de barulho ou vazios de silêncio. Cheios do mundo ou vazios da paz. Cheios de dinheiro ou vazios de dívida. Cheios de fome ou vazios de alimento. Cheios de nós mesmos ou vazios de esperança.
E é assim mesmo. Um dia meio cheio outro meio vazio, um dia bem outro nem tanto, um passo a frente dois para traz e assim é que se vive. É no meio desses rompantes que fazemos nossos planos, que os reconstruímos, que conhecemos pessoas especiais e logo em seguida as desconhecemos.
São nessas idas e vindas que amadurecemos, que crescemos, minguamos, inovamos e nos enchemos de todos os sentimentos e aflições humanas. E é por isso que ainda hoje não consegui me decidir.
Acho que seria um misto de todas as luas, ou ainda um eclipse lunar, pois este ocorre apenas com a lua cheia, mas a deixa crescente e minguar antes de torná-la nova, bem ali, num piscar de olhos. Façamos de nossa vida um eclipse lunar, a cada decisão, a cada dia, a cada ano, assim poderemos aproveitar a melhor fase de nossas luas e aprender com o pior delas, e quando um dia você for detentor de um vasto “auto-conhecimento” poderá enfim me responder: que lua é você?

3 comentários:

Cristiano Oliveira disse...

Taline, poucos textos despertaram-me a genuína vontade de ler, identificando-me com suas idéias e, paralelamente, esbaldando-me em sensações diversas de humor e tristeza causadas pelo estereótipo da realidade em que vivemos (mas, por vezes, esquecemos de fazer viver). Beijos

Duli disse...

Oi Tá... naum resisti e tenho q comentar... lá no fundinho temos uma Síndrome de Pauquinho, né?! a exemplo da formatura... ah! auto-conhecimento: redescoberta diária do que somos... tbém naum sei qual lua eu sou ou em qual fase estou... mais sei q sou espectoradora de mim mesma... bjus saudosos.

Alexandre disse...

Em que fase estas? Em que fase estou? Se a cada dia que passa me surpreendo com as pessoas,e ate comigo mesmo, enfim...
Belissimo texto!!!