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domingo, 12 de junho de 2011

Tamo junto!


Recentemente fui convidada para participar de uma reunião aberta do NA (Narcóticos Anônimos), na verdade não tinha sido o primeiro convite, por outras vezes já tinham me dito que seria bem vinda ao local, mas nunca me senti segura para fazer parte deste encontro.
Confesso que não sabia ao certo o porquê do incômodo, mas depois de ter estado lá descobri que se tratava apenas do medo do desconhecido.
Antes que se iniciem boatos sobre minha ida ao NA, convém esclarecer que apesar de todos estarmos suscetíveis ao desenvolvimento da dependência química, não faço, felizmente, parte deste grupo. Contudo, trabalho diariamente com famílias que apresentam essa doença em seu contexto familiar e mais do que isso, tenho amizade próxima com duas pessoas que me ensinaram que a dependência química pode matar, mas de acordo com a atitude que se toma em relação a ela, pode também nos fortalecer.
O convite partiu de uma dessas pessoas, por quem tenho elevada estima e poderia hoje dizer, admiração. A reunião iniciou-se em um domingo, no final da tarde. Fui acolhida pelos amigos e desconhecidos de igual maneira. Não precisei me pronunciar, não precisei me explicar, não precisei sequer disfarçar minha ansiedade, pois ali o que era mais previsível caia por terra logo na primeira partilha.
A reunião organizada pelos membros do NA, foi iniciada com o pronunciamento de um deles, seguida pela apresentação dos presentes. Qual não foi minha surpresa ao receber uma salva de palmas, num ritmo bem acolhedor, ao afirmar que aquela era minha primeira participação no grupo.
Assim como eu, outras pessoas se apresentaram e ninguém nos perguntou se estávamos ali por alguém, por nós ou pela dependência química. O encontro seguiu seu curso com o depoimento, ou partilha como costumam dizer, dos membros ali presentes, que de acordo com sua vontade e interesse declaravam um pouco da sua história, da sua semana, da sua luta diária contra o vício, reafirmando o tempo todo a consciência de serem dependentes químicos em recuperação.
Foram muitos relatos emocionados, alguns de recém-chegados que ali estavam há poucos dias, outros de quem ali estava há mais de quatorze anos, o fato é que todos eles, sem distinção apresentavam-se com o nome e garantiam que só por aquele dia estavam livres do vício, alguns seguiam a fala elencando os demais dias, meses e anos, mas deixando claro que o mais importante era o hoje.
Ao darem seu depoimento foram acolhidos pelos demais membros com falas do tipo: “me identifico; obrigado amigo; tamo junto” e outras que reafirmavam o envolvimento do grupo não só com a história de vida de cada um dos que ali estavam, mas especialmente com a guerra diária contra uma doença que é incurável, mas tem tratamento e posso hoje afirmar, funciona.
Confesso que me identifiquei com muitos dos relatos ali expostos, foram conflitos familiares, de relacionamento, profissionais e, sobretudo de identidade que os levaram a buscar nas drogas uma fuga dos embates cotidianos.
Para mim, o mais marcante foi o depoimento de um rapaz de pouco mais de quarenta anos que disse não saber até hoje quem ele é. Utilizava-se da dependência química para encarar as dificuldades e preconceitos, vestia, como ele mesmo disse, uma máscara a cada dia, não sendo a ele permitido moldar sua identidade, descobrir-se, aceitar-se. Fiquei então pensando: Oras, será que eu sei quem sou?
Percebi então que a única coisa que me diferenciava deles era o fato de não ter buscado nas drogas a resposta para minhas inquietações. Minha válvula de escape é a escrita, o colo de mãe, o barulho do vento e as noites estreladas, mas no mais, sem tirar nem pôr, poderia dizer sem indecisão alguma que me identifiquei com um pouco de cada um dos membros daquele grupo.
Fui agradecida publicamente por duas pessoas durante a reunião pelo meu apoio nos períodos de crise e pela força para que aderissem ao tratamento. Só consegui dizer que o mérito não era meu, pois minha mente fazia uma viagem longa para dentro do que eu acreditava ser parte de mim. Nunca tinha tido a noção do impacto que tinha causado na vida dessas duas pessoas, mas naquele dia pude sentir, pois tinha acabado de sofrer o mesmo impacto, agora reverso, por parte deles na minha vida.
O encontro finalizou-se com a recepção a dois novos membros que decidiram naquele dia travar uma luta contra a dependência química, foram ovacionados e receberam um informativo do grupo com o telefone de todos os membros, para que pudessem ligar em qualquer dia e horário, evitando assim uma recaída.
Foi assim que entendi o ciclo do NA, quem hoje chega fragilizado amanhã é o padrinho que fortalece. Ninguém é melhor ou pior que ninguém, são todos iguais, compartilhando suas angústias, seus medos, suas histórias e conquistas. Humanos, cheios de erros e na busca de acertos, assim como eu e você, só isso, nada mais que isso.
Confesso que sai da reunião mais leve, com uma sensação de que nada nesse mundo é impossível, basta buscarmos a possibilidade dentro de nós. Para tanto, muitas vezes, precisamos de apoio, outras de nos encontrar e em todas elas precisamos da serenidade para aceitar e entender as respostas que a vida nos dá...

Oração da serenidade
Concedei-nos Senhor a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos e,
Sabedoria para distinguir uma da outra.



7 comentários:

Taline Libanio disse...

Em homenagem a todos aqueles que tiveram a coragem de travar uma luta contra a dependência química, contra seus medos e receios...Tamo junto!

Guto disse...

Amiga, achei lindo demais o seu escrito. Tantas pessoas travam batalhas diárias que nós não conhecemos. São tão fortes e nós não sabemos...
Parabéns pela iniciativa. Assim vc conheceu muito melhor algo tão importante no seu trabalho e na vida de tantos. Vou repassar esse texto pra molecada da universidade; posso??
Bjs!!
Flávio Lira

Anônimo disse...

HEHEH
puxa que demais Tá... vc consegue traduzir emoções em suas palavras..
te admiro muito e tamo junto!
bjo Daniel

Kelson disse...

Gostei do texto...

Isabel disse...

que lindo tá...tamo junto !!!

Taline Libanio disse...

Oi Flávio!
Que bom ter você por aqui!!
Claro que pode divulgar, são nessas pequenas ações que acabamos fazendo a diferença de alguma maneira!
Beijos e ótima semana!

Anônimo disse...

Concordando com o que todos disseram, o texto é mesmo lindo e profundo. Adorei e acredito que todos que leram se sentiram tocados de alguma forma, eu me senti!=]
bjs Tamara