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domingo, 5 de abril de 2009

Ilusões e blá-blá-blá


“Quando minhas filhas eram jovens, eu adorava levá-las na praia. Enquanto o pai delas dormia, eu as deixava sair para flertar. Sempre conheciam rapazes interessantes e diziam-se apaixonadas, demonstravam vontade de se casar, de ter filhos. Hoje, eu já não gosto mais de ir à praia, nem minhas filhas. Elas se incomodam com a areia e com a maresia. Estão separadas, sem filhos e nunca mais falaram de apaixonar-se. Acho que para mim um terço daquela ilusão acabou, mas para elas, muito mais”.
Ouvi esse relato de uma senhora de oitenta anos enquanto almoçava e me coloquei a pensar sobre muitas de minhas ilusões. Sobre todas aquelas que haviam sido concretizadas e todas as outras que se desfizeram neste um quarto de século.
Quando eu era criança brincava de casinha, sonhava em casar na Igreja, em ter filhos e em ser uma ótima dona-de-casa. Quando entrei na escola comecei a odiar os meninos e alguns desses planos se desfizeram. Eles eram chatos, quebravam nossos brinquedos e só sabiam jogar bola e nos colocar apelidos. Vivia correndo atrás deles com uma mochila cheia de cadernos nas mãos, com a intenção de surrá-los para valer.
Aos poucos o ódio tornou-se afeição e fazer amizade com os meninos parecia bem mais fácil do que com muitas meninas, invejosas e cheias de frescuras, que olhavam para o mesmo garoto e usavam mini-saia para conquistá-lo. Nessa época, as amigas eram raras, mas fiéis, do tipo que sabiam mais da sua vida do que você mesma e talvez por isso, sentiam-se no direito de escolher além do sabor de seu picolé, qual garoto deveria paquerar.
Na adolescência os sentimentos confundiam-se de tal forma que você era capaz de sentir o coração sair pela boca e suspirar toda vez que o professor de história entrava na sala e falava seu nome durante a chamada, do mesmo modo que sentia as pernas tremerem quando passava ao lado do garoto do terceiro ano, que nem sabia da sua existência, mas para você, isso não importava, a existência dele já lhe era mais do que suficiente.
É ainda neste período que os primeiros planos a dois começam a surgir, muitas vezes com o garoto do terceiro ano que nem imagina fazer parte deste sonho, mas isso não tem importância, pois, nessa época só se planeja, não se pensa em como cristalizar sonhos. E isso é tão bom! Você pode fantasiar estar casada, bem feliz, com filhos, numa casa linda, e com o garoto mais lindo do colégio, sem sequer se preocupar com as contas no final do mês, com a dor de barriga dos filhos, com seu excesso de peso após a segunda gestação ou com a careca do seu esposo. Você pode iludir-se à vontade, imaginar declarações de amor em público, rosas jogadas de um helicóptero, príncipes em cavalos brancos, tudo perfeito, lindo e sem problemas.
O problema é que quando você volta para a realidade, começa a pensar no quanto de tudo aquilo poderia tornar-se real e então perde “um terço da ilusão” ou mais. Perder um terço ou metade das ilusões não me parece tão preocupante, o que me inquieta é quando algumas pessoas chegam ao ponto de perdê-las por inteiro, e o pior, o fim de muitas ilusões dá-se frequentemente na fase em que teríamos maiores possibilidades de concretizá-las, com o perdão do neologismo, na “adultescência”.
Não acham que é muito triste mudar totalmente seus planos e deixar de sonhar por não ter conseguido comprar aquela casa linda, ou por não ter podido gerar um filho, ou ainda por que aquele garoto lindo do colégio nunca olhou para você? Pois é, mas isso acaba acontecendo constantemente e nas coisas mais simples do seu dia-a-dia, até que se torna rotina. Hoje você deixa de sonhar com o homem ideal, amanhã com o carro novo, daqui a um mês deixa de lado o sonho de ser mãe e logo em seguida o de dar a volta ao mundo em sete dias, e sabe o que isso significa?
Infelizmente tenho que dizer que você não deixou apenas de sonhar, deixou, sobretudo, de viver. Quando se perde o foco, o objetivo de nossos planos, passamos a ser meros coadjuvantes em nossas vidas, onde tudo está bom, nada precisa mudar, e só nos resta vê-la passar, de qualquer jeito, sem força para transformações ou novas ilusões. Escrevo esse texto, repetindo em voz alta cada palavra, pois tenho perdido muitas ilusões nos últimos tempos e isso é triste.
É hora de resgatar o restinho de esperança que ainda existe em cada ilusão e renová-las. É hora de relembrar o passado, criar o presente e planejar o futuro, sem medo de acertos ou erros, sem temor, apenas com uma vontade de dias melhores, repleto de novidades, de surpresas, de novos sons, gestos, gostos e prazeres.
Quando criança, os meninos quebravam nossos brinquedos, corríamos atrás deles com uma mochila nas mãos e lhes ensinávamos uma lição. Hoje, os homens partem nossos corações e nós os deixamos partir com nossa esperança em suas mochilas. E isso está certo?
Antes, quando o dono do bar da esquina te entregava uma bala a menos você reclamava e ganhava duas. Hoje somos roubados diariamente e não nos damos o trabalho de reclamar, pois isso requereria uma ação transformadora. Mas isso dá muito trabalho, não é?
Há algum tempo, quando colocavam apelidos em você, você bolava um bem pior para seu colega ou brigava com ele até ser levado à diretoria. Hoje, se te colocam apelidos ou te tratam mal, você vai para casa, tranca-se no quarto, olha-se no espelho e diz: será verdade?
Creio que já está na hora de voltarmos a nos indignar com todas as coisas e pessoas que se acham no direito de romper com nossas ilusões.
Crianças felizes não podem continuar se transformando em adultos amargos. Adultos infelizes não podem viver de lembranças da adolescência. Precisamos aprender a colocar pontos finais em nossas histórias, mas, sobretudo, virar a página e recomeçar a escrevê-las, com mais indignação, com novos planos, novas possibilidades e ilusões.
Vamos permitir que a esperança dos tempos de criança domine nossos dias, tardes e noites. Vamos consentir que o sorriso de sábado à tarde e o gosto do picolé de chocolate invada nosso coração diariamente. Vamos mais uma vez recomeçar, cair, sorrir, levantar, nos indignar e seguir em frente, sempre em frente.

5 comentários:

Taline Libanio disse...

Em homenagem a todos aqueles que ainda acreditam nas ilusões de um recomeçar...

Lígia Nogueira disse...

Taline, li essa prosa no jornal, nesse fim de semana e entrei aqui pra comentar que gostei muito! Um dizer que nos instiga a não deixar que as frustrações nos apaguem para a vida. Contra a resignação!Bom demais, parabéns!

Anônimo disse...

Oi amiga, como sempre vc se supera, mais discordando um pouco de vc, eu na minha modesta opinião, acho que temos que viver, não importa como, essa dávida que Deus nos deu, que é a vida, seja ela boa ou ruim, isso somos nós que decidimos, se queremos viver bem ou mal, as ilusões fazem parte. pq sem elas seria um pouco difícil, o importante é que estamos tendo a oportunidade de mais um chanse, para nos melhorar, td o que nos acontece é para o nosso aperfeiçoamento, o difícil e nós aceitarmos as coisas que nos deixam mal, mais o importante é não sermos a causadora do mal, e fazer a nossa parte, pois td o que é nosso virá até nós, como disse o nosso Mestre E td mais vos será acrescentado, Desculpe-me amiga acho que me empouguei, um grande beijo a vc. saudades.....

FS disse...

Sonhador!
Louco!
Inquieto!
Inconformado!
Rebelde!
São alguns adjetivos usados para pessoas que não desistem de sonhos e ilusões!
Mas você já pensou se nós desistirmos um terço, um quarto ou um inteiro?
Quem é que vai salvar nosso planeta, oras?
Remar contra a maré pode ser duro, mas vai te deixar forte.
Adorei.
Beijos.
PS. Estava sumido, mas já te alcancei novamente.

Anônimo disse...

Como é bom ler um e renovar as esperanças né... pelo menos foi issu que causou em mim ... Tá acho que vc sempre deve escrever sobre esse tema por que alem de escrever muito bem.. vc consegue passar a mensagem .. e as vezes podemos estar por um triz pra cometer algo estupido .. e refletimos com o texto e vimos que não vale a pena... Tá gosto muito de vc.. bjo fika com Deus!