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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

De mala cheia!

Passei meu carnaval em terras mineiras neste ano. Viajei rumo a Uberaba, desta vez sem axé ou funk, sem rebolation ou matinê. Levei na mala minha curiosidade e a vontade de esclarecer alguns males entendidos.
Parti receosa, sem saber ao certo onde estaria, quanto seria morosa minha chegada, como seria minha recepção e os dias que lá se seguiriam. Viajei quase sem rumo, apenas com a cara, a coragem e a saudade que me impulsionou a iniciar mais este capítulo, repleto de histórias que agora compartilho com vocês.
Logo na rodoviária de Campinas, ao realizar o embarque decidi me certificar de que o ponto final do ônibus seria em Uberaba e ao questionar o motorista sobre isso tive minha primeira surpresa:
- Boa noite, o ponto final desta linha é em Uberaba?
- Não senhora. Este ônibus saiu do Rio de Janeiro e só finaliza seu percurso em Cuiabá.
- E o senhor pode me avisar quando chegar a Uberaba? Nunca fui para lá.
- Quando chegarmos em Ribeirão Preto te aviso, ai você fica acordada porque vai ter troca de motorista e seu ponto já será o próximo.
- Mas tem risco do motorista seguir viagem comigo no ônibus? É que talvez eu durma...
- Ah, isso só aconteceu umas vinte vezes, é raro acontecer.
Vinte vezes. Pronto, brincadeira que ao aliar-se à minha ansiedade foi suficiente para me deixar acordada como uma coruja durante toda a viagem. De olhos atentos naquela estrada comprida, que parecia não ter fim, aguentei um calor terrível que mesmo durante a noite deixou o ar abafado e me deixou suando, com a sensação de já estar em Cuiabá. Momento pouco propício para uma pane no ar condicionado do ônibus, mas depois de dez horas tranquilas de viagem alguma coisa teria que acontecer, senão não teria graça, senão não seria comigo.
Dito e feito, restavam as duas últimas horas do percurso até Uberaba quando o ar condicionado do ônibus decidiu entrar de greve, sem prévio aviso, soltou um cheirinho de queimado e parou de funcionar. Logo imaginei que seria só o início de uma viagem com muitas histórias para contar e foi dito e feito.
Ao chegar à rodoviária de Uberaba fui recebida por meu namorado e seus pais, que me acolheram num abraço forte e me fizeram me sentir quase em casa.
No dia seguinte descobri que meus dois celulares não funcionavam em terras mineiras e que estava praticamente sem contato com as terras paulistas, exceto é claro pelo telefone fixo da casa que me acolheu por estes dias.
Fui apresentada à cidade por um guia que não estava lá muito atualizado e que me fez dar boas risadas com sua falta de informação. Tão desinformado estava, que mesmo morando lá há 14 anos, só pode me assegurar que em uma lanchonete chamada Ilha do Açai, eu encontraria açai. Além disso, nada mais.
Conheci pouco da cidade, notei que é bem arborizada e repleta de estranhices,como toda cidade que se preza e precisa ter histórias para contar.
Descobri que as tampas dos bueiros são em sua maioria quadradas e que em uma das ruas ainda funciona a mão inglesa, descobri uma igreja de estilo néo-gótico, construída em 1895 por padres dominicanos, que me fez parar de respirar por alguns segundos com sua altivez.
Conheci o delicioso macarrão na chapa, o biscoito Carolina que não tem recheio de creme nem cobertura de chocolate e provei deliciosos pães de queijo.
Visitei a terra dos dinossauros, onde me arrepiei só de imaginar aqueles bichos enormes vivos. Puxei a cauda de um deles, enquanto comia doce de leite ninho e comprava doce de leite com amora.
Conheci o Museu Chico Xavier, onde pude olhar seus pertences, as roupas e os móveis na casa onde viveu tanto tempo, conheci seu filho, que foi muito receptivo e me falou sobre as obras da instituição, me indicou a Casa da prece e me vendeu dois CDs que em breve serão dados a minha mãe. Caminhei por quase trinta minutos em um cemitério até encontrar o memorial Chico Xavier, fiz uma breve oração e voltei com os pés doendo.
Conheci os irmãos do meu namorado, fui presenteada com uma nova amiga com nome de flor e descobri histórias de sua infância que me fizeram gargalhar por horas. Comi doce de leite com queijo fresco e churrasco até cansar. Provei uma pimenta que não era para ser ardida, mas que ardeu até o céu da boca.
Ganhei a muda de um cacto e de uma suculenta para aumentar meu jardim no pequeno apartamento. Ganhei um cágado que ainda não sei se é macho ou fêmea,mas seguindo o conselho da minha cunhada deve ter um nome feminino com apelido masculino, assim quando soubermos o sexo ela não terá crise de identidade (no começo achei um tanto quanto estranha esta história, mas depois de saber que suas Florzinha e Docinho transformaram-se em Floc e Doc comecei a entender).
Atravessei a ponte que faz a divisa entre os estados de Minas Gerais e São Paulo e que corta o rio Grande, me admirei com a largura do rio, e entendi o porquê de seu nome, êta rio grande mesmo. Coloquei meus pés em suas águas e entendi porque o rio Pardo é pardo, as águas do rio Grande são quase cristalinas, não tem aquela cor de barro tão comum a nós riopardenses. Não quis andar de canoa, pois o sol estava forte demais, mas aproveitei a sombra de uma árvore frondosa que derrubou umas sementes duras na minha cabeça quando a brisa soprou forte.
Por ironia do destino conheci nas margens do rio Grande uma moça de Mococa e uma senhora de Casa Branca que depois de algumas horas de conversa me mostrou como esse mundo é pequeno. Conheci mais uma criança encantadora que em breve se tornará personagem de um de meus textos.
Recebi declarações de amor do alvorecer ao anoitecer, na mesa do almoço e do jantar. Recebi abraços apertados o tempo todo e tanto carinho que só de lembrar já sinto saudades.
Assisti ao filme do George Clooney por apenas R$2,50 e olhei no relógio para ver se ainda dava tempo de uma outra sessão. Aluna de pós-graduação também paga meia-entrada em terras mineiras.
Passei por ruas tão largas que comportariam desfiles de uma escola de samba do primeiro escalão, e o mais interessante sem sinalização horizontal. Nenhuma linha para dividir a pista, nadinha. Fiquei pensando que ali poderiam andar pelo menos cinco carros no mesmo sentido, lado a lado e a confusão que isso traria em uma curva. Senti medo do "morro da onça" que me deu mais frio na barriga do que andar de montanha russa.
Entrei na Catedral e ajoelhei aos pés de Santo Antônio em homenagem a uma amiga que já virou até a igreja do santo de cabeça para baixo e até agora não recebeu nenhum sinal, ou se recebeu não conseguiu lê-lo. Descobri neste dia que o verdadeiro santo casamenteiro é o Santo Expedito, o das causas impossíveis e que Santo Antônio só serve para casamento caipira. Contudo, acho que esta afirmação é contestável, já que uma das minhas amigas enterrou o Santo Antônio de cabeça para baixo e hoje está casada. Se bem que com tanta pressão, é provável que qualquer santo faça o sacrifício de interceder por uma união. Será?!
Coloquei os pés na grama enquanto me sentava no banco do jardim e refiz minhas impressões, minhas emoções e minha mala.
Voltei com a bagagem repleta de histórias, de novas pessoas, novos sabores e ótimas recordações. Recordações bem diferentes das de carnavais passados, nem melhores, nem piores, apenas diferentes que me permitiram conhecer um pouco mais de algumas pessoas, mas, sobretudo, mais de mim mesma e me impulsionaram a seguir em frente mesmo que para isso seja preciso, em alguns momentos, frear alguns tratores...
Ilustração de: Gabriel Vicente.

5 comentários:

Paulo disse...

Agora vc conheceu o beraba hehe. Qm sabe da proxima vez eu me atualize mais dos lugares e vc volte com mais lembranças hehe.
Ficou maravilhosa a historia q vc contou de sua vinda e os detalhes q vc colocou no texto.
Adorei

Graça disse...

É AMIGA, VC É UMA PESSOA INCRIVEL, SUA IMAGINAÇÃO SUA CRIATIVIDADE ESTÃO CD VZ MAIS SE APRIMORANDO, PENA QUE NÃO SEREMOS (PARENTES) MAIS, PQ ADORARIA TER VC EM MINHA FAMULIA, MAIS DEUS SABE O QUE FAZ, E EU QUERO QUE VC SEJA MUITO FELIZ, VC MERECE....

PS(SÓ FIQUEI COM INVEJA, PQ EU ADORARIA CONHECER UBERABA, VISITAR O MUSEU DO GRANDE MESTRE CHICO XAVIER, MAIS QUEM SABE.......UM DIA.)

UM GRANDE BEIJO

GRAÇA

Marly Meyre disse...

Oie!!!

Lendo o contexto de seu carnaval 2010, deu pra perceber que vc capta bem todas as informações, mesmo aquelas ditas tão rapidamente.
Nós gostamos muito de sua presença em nosso lar. Volte sempre. Sempre será Bem-Vinda.
Gostei muito mesmo do texto.
bjus com muito Amor.

Nhunha disse...

Olá Taline, tudo bem?

Foi interessante ler sobre como foi o seu carnaval...Que memória fotográfica ein! Você conseguiu memorizar todos estes detalhes porque com certeza deve ter sido intensa e bacana a sua ida até la, e isso é o que importa não é?
Beijos!
Luis F.

Fernanda disse...

Muito bom o texto amiga!!! Graças às dicas já estou providenciando uma Novena a Santo Expedito, embora minha mãe diga que o verdadeiro santo casamenteiro seja São José, protetor da família!!! Quer saber... com tantas informações divergentes vai logo uma Novena a Todos os Santos! Hehe!Ado0rei!