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segunda-feira, 25 de julho de 2011

A música que vive em mim...

Sempre tive uma relação engraçada com a música. Não nasci em uma casa de musicistas, tão pouco de gosto musical apurado. Na verdade pouco me lembro de ter ouvido música na minha infância.

Lembro-me do rádio de pilha do meu pai com suas modas de viola, minha mãe com a rádio AM ligada ouvindo notícias da cidade e a música do ouvinte. Nunca fui apresentada aos grandes nomes da música, demorei para descobrir o que era MPB, Jazz e Blues. Contudo, acho que alguma coisa dentro de mim me despertava para a música.

Quando tinha meus dez anos, minha mãe levou a mim e a minha irmã até uma loja que comercializava discos de vinil e fitas cassetes. Deixou que cada uma de nós escolhesse uma fita e fiquei encantada com tantos nomes, tanta música que eu nem sequer imaginava existir.

Pouco tinha ouvido falar sobre Milton Nascimento, mas naquele dia era uma música dele que tocava na loja e foi aquela que pedi. Minha mãe ainda tentou me convencer a mudar de ideia, certa de que eu odiaria a fita e choraria pedindo a troca tão logo chegássemos em casa, mas decidida bati o pé e fiquei com a fita.

Ouvi mais de vinte vezes, seguidamente, até decorar todas as letras. Senti um nó na garganta quando ouvi uma ou duas músicas e pensei: que coisa estranha, essa música não me fez bem. E foi assim, no susto que aprendi a conversar com meus sentimentos e a identificar quais eram tocados por essa ou aquela melodia.

Quando tinha doze anos recém-completados, recordei-me do dia da loja de discos tão logo cheguei ao Hospital CAISM/Unicamp para visitar minha mãe que tinha passado por uma cirurgia recente. Ao entrar no saguão dei de cara com um painel enorme bem na entrada, onde estava estampada a letra da música “Maria, Maria”, na mesma hora pensei: isso é melhor que uma oração.

Enquanto aguardava a autorização para entrar no quarto, fui até uma capela do hospital e ajoelhada no banco não consegui rezar, a música não saia da minha cabeça. Lá fiquei cantarolando “Maria, Maria” como uma prece certa de que o efeito seria positivo, afinal era música e se me fazia bem porque não a Deus?!

Tenho infinitas músicas que marcaram minha história, algumas me fizeram rir, outras chorar, outras me dão saudade. A verdade é que aos poucos fui definindo meu gosto musical. No período da faculdade fui apresentada aos ícones da MPB. Lembro-me das discussões que tínhamos sobre o significado das letras de Chico Buarque que apontavam nas entrelinhas um protesto contra a ditadura, mas que tantos acreditavam: falavam de amor.

Quando me mudei para Sorocaba, entrei sem querer em um bar próximo da minha antiga casa certa sexta-feira e a partir daquela noite fiz de lá meu quintal. Aprendi muito sobre meu gosto musical naquele espaço. Foi lá que assisti a meu primeiro show de samba raiz, onde aprendi meu primeiro (e único, visto que não levo jeito) passo de samba-rock, onde vi um show de salsa e descobri o que era Blues.

Mudar de cidade me possibilitou acesso a mais eventos culturais, aqui as coisas acontecem com mais frequência e tudo parece ser mais intenso. No final da semana passada fui a uma ópera, La Traviata, incrível como mesmo sem entender todas as falas é possível saber exatamente o que está acontecendo, o tom de voz, a música, a interpretação dos cantores, tudo em uma sintonia incrível. Sai de lá com a sensação de que tudo é feito de música e mais do que isso, tudo pode virar música.

Nunca me recusei a ouvir nenhum tipo de música, mas hoje sei quais são minhas preferidas. Admiro quem tem o dom de tocar um instrumento musical ou de cantar, transformando poesia em som. Eu não me atrevo, prefiro ouvir, mas sempre que possível me enveredo nesse meio através do contato com amigos que tem vasto conhecimento e apurado gosto musical.

Hoje recebi pelo correio meu CD do Chico Buarque, lançamento, comprei na pré-estreia e fiquei acompanhando diariamente os bastidores. Já escutei quatro vezes e a cada vez me surpreendo com um verso, com um arranjo, com uma melodia que me faz pensar: esse cara existe mesmo?

Enquanto ouvia o CD, recebi a visita de um querido amigo que veio me brindar com sua música. Trouxe-me a gravação de quatro músicas inéditas de sua autoria e pediu minha opinião. Apontei a ele minha preferida e fiz questão de saber a história de cada uma delas. Que maravilha poder conversar com pessoas como ele, que me arrastam para shows incríveis e me mostram um outro lado da música.

Alguns poderão dizer: mas que atrevimento! Essa garota falando de música! E realmente confesso que me sinto atrevida ao falar sobre isso, pois não tenho domínio de instrumento, nem de estilo musical algum, mas sei que tem algo que me move e me faz respirar melodia, talvez seja a única música que eu conheço: a música que vive em mim...

Desejos de uma semana melodiosa a todos nós!

"(...) Maria, Maria

É o som, é a cor, é o suor

É a dose mais forte e lenta

De uma gente que ri

Quando deve chorar

E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força

É preciso ter raça

É preciso ter gana sempre

Quem traz no corpo a marca

Maria, Maria

Mistura a dor e a alegria..."

(Maria, Maria – Milton Nascimento)

domingo, 17 de julho de 2011

Ai que dor de tornozelo!


A solidão é fera, a solidão devora. É amiga das horas prima irmã do tempo, E faz nossos relógios caminharem lentos, Causando um descompasso no meu coração. (Solidão – Alceu Valença)

Como se não bastasse o coração partido, ganhei no início do final de semana uma bela torção no tornozelo direito que me deixou, por assim dizer, sem chão.

A dorzinha que vinha se arrastando desde a última aula de boxe na quarta-feira, ficou mais intensa na quinta e sexta me obrigou a encarar o pronto atendimento, tão logo identifiquei uma bola instalada no meu tornozelo que parecia aumentar a cada passo dado.

Depois de quase três horas de espera fui atendida pelo ortopedista na clinica de emergência. Pediu que me sentasse na maca e tirasse o tênis, não colocou a mão no meu pé, apenas limitou-se a dizer:

- Nossa, está bem inchado.

- Disso eu já sabia – pensei. Mas e então? O que faço para melhorar?

O médico sentou-se na sua cadeira confortável, rabiscou algo em um formulário da clinica e me disse:

- Vamos ver o que tem de errado ai.

Depois de mais quarenta minutos de espera consegui tirar um raio - X que felizmente indicou a ausência de fratura, mas me fez voltar a sala do médico:

- Não tem fratura, é só uma torção mesmo. Você está conseguindo andar?

- Ando com dor, mas ando.

- Bom, então vamos imobilizar e vou te passar um remédio para a dor.

- Imobilizar?!!Por favor, não!

- Se não imobilizar vai demorar uns quinze dias para sarar.

- Doutor, eu moro sozinha, não tenho nenhum familiar aqui, não tenho condições de assumir um pé imobilizado hoje. Prefiro esperar os quinze dias.

- Então faça compressa fria e tome mais esse remédio. Se na semana que vem não melhorar, me procure.

Sai da clinica mancando, com dor, mas feliz por ainda poder contar com meu pezinho para chegar em casa. Passei na farmácia mais próxima e fui surpreendida por uma farmacêutica nada simpática que simplesmente disse não ter entendido a letra do médico e que consequentemente, não me venderia o remédio.

Tudo bem que a letra dele não era um exemplo de caligrafia a ser seguido, mas eu li perfeitamente e até soletrei para ela que insistiu em dizer:

- Para mim é um medicamento não identificado. Sinto muito não posso vender.

- Dane-se! Vou procurar outra farmácia – limitei-me a dizer.

Seis quarteirões depois consegui comprar o tal remédio e a bolsa para compressa fria, podendo em fim chegar em casa.

Foi um alivio estar de volta ao meu canto, poder tomar um banho quente, jantar, tomar a medicação e ficar de repouso na ânsia da dor passar logo e levar aquela bola embora do meu tornozelo.

Dois dias depois já estava bem melhor, com um pequeno inchaço apenas e com 90% menos de dor, indicando assim que em breve poderei voltar a minha rotina de exercícios físicos.

Acontece que a dor de tornozelo me fez pensar no quanto sou vulnerável. Nunca me importei por morar sozinha, gosto de ter minha privacidade, meu espaço, poder receber meus amigos sem dar satisfação a ninguém. Contudo, até então, não tinha percebido o outro lado da independência que escolhi.

Se precisar mesmo imobilizar esse pé não tenho absolutamente ninguém nos arredores que possa me ajudar com as coisas do dia-a-dia. Apesar de ter muitos amigos aqui, nenhum deles seria convidado a sair da sua rotina para manter a minha no lugar. Confesso que senti, mais do que comumente, falta da minha família, podendo até medir com uma longa fita métrica o tamanho da minha impotência.

Ir ao mercado, tomar banho, fazer um café, ir trabalhar, tudo se tornaria um grande desafio com o pé imobilizado. São nessas horas que percebo o quanto é impossível viver sozinha.

Escolher morar sozinha, ter minha individualidade preservada, nunca será sinônimo de isolamento do mundo e das pessoas. Seja para compartilhar sorrisos nos momentos de realização ou uma dor de cotovelo (ou de tornozelo como essa) nos dias de tristes surpresas.

E graças à existência de muitas boas almas em minha vida, apesar da exigência de repouso, não fiquei sozinha em casa neste final de semana. Fui literalmente carregada por vários amigos para almoçar fora, participar de festa julina, sem contar um show de tirar o fôlego que me fez esquecer até da torção. A companhia das pessoas que constroem comigo minha história garantiram nesse final de semana minha segurança, me fazendo acreditar que ao escolher morar sozinha, não escolhi viver sozinha.

Hoje me sinto livre, mas não só. Apesar de viver grande parte do dia assim, sei que sem nem mesmo pedir ou cogitar tenho verdadeiros anjos sem asas que me rodeiam insistentemente, me lembrando todo o tempo que mesmo quando preciso ou desejo estar só, nem que seja por telepatia, nunca estou sozinha.

sábado, 9 de julho de 2011

O que tenho de errado?


Nunca tive medo de escrever sobre meus sentimentos, nem mesmo fiz questão de escondê-los de quem quer que fosse, por acreditar que todos nós, mesmo aqueles que tentam se esconder, são mais transparentes do que água cristalina.
Cedo ou tarde sempre a capa cai. Hora ou outra sempre deixamos escapar nosso sentimento, naquele sorriso forçado, na lágrima que escorre sem querer, no nó que se forma na garganta. É inevitável! Quando se fala de amor ou da falta dele, não há coração capaz de segurar sua expressão, ela foge e fica ali, na vista dos olhos de qualquer um.
É por isso que novamente me coloco na porta da frente para fazer deste espaço minha terapia, meu aprendizado e poder com as entrelinhas desse texto, amenizar mais uma decepção amorosa.
Existem amores que não escolhemos viver, que chegam a cavalo, de forma fulminante, nos tiram do chão e nos fazem acreditar que aquela história de felicidade eterna não é assim uma bobagem. Chegamos a acreditar que os problemas não existem e que os passarinhos verdes realmente ficam ao nosso redor, nos fazendo rir de tudo, mesmo sem motivo aparente.
Mas (e sempre tem um “mas”), muitos amores – mesmo esses que parecem de novela, não se suportam e desmoronam tal qual castelo de areia num piscar de olhos. E o motivo para tanta desilusão é... Qual é mesmo? Hum... Ainda não descobri, mas estou em uma pesquisa intensa para o entendimento desse sentimento que vive no meu encalço, mas que praticamente desconheço: o desamor.
E quando digo que dele pouco conheço, é justamente porque a mim sempre coube a parte de amar demais, é tanto amor que nunca senti desamor por ninguém. Acontece que o fato de amarmos alguém não quer dizer que teremos esse afeto retribuído, e se nos retribuem, não necessariamente é na mesma intensidade, e é assim que o desamor acaba se instalando... Por vezes sem nem mesmo ter me declarado ele se apresentava e dizia: Cai fora, aqui não tem amor para você!
Inúmeras vezes tentei ignorá-lo e fingir que estava tudo sob controle, deixando os dias nebulosos para traz e trazendo mais motivos para sorrir do que para pensar na possibilidade de um: Adeus, cai fora, se manda, dane-se, some da minha vida...
Mas o desamor quando chega, não deixa espaço para sentimento colorido algum. É um tal de carregar a tristeza e a impotência para dentro do peito e mandar a alegria e a coragem embora que vou te contar.
E quando ele chega é um Deus nos acuda! Uma necessidade de encontrar culpados, de deixar arrependimento, de derrubar a autoestima, de injetar mágoa, dor, saudade... Tudo em uma intensidade assustadora, capaz de fazer com que a mulher mais linda do mundo sinta-se a pior delas, um lixo, um zero a esquerda, um nada.
E por vezes, ainda existe uma tentativa de nos fazer sentir bem, nos obrigando a ouvir frases do tipo: eu não te mereço! Você é extraordinária, mas...! Eu tenho certeza de que vou me arrepender, mas...! Você merece alguém que te faça feliz!
E para cada uma dessas frases nasce um emaranhado de perguntas, muitas vezes sem resposta, entre elas: o que tenho de errado? Por que comigo? O que foi que eu fiz? Será que ele tem outra? Se sou tão maravilhosa assim, por que está terminando? Vai se arrepender? Então não termina!
E quando as perguntas acabam, começa o terrível sentimento de culpa: Não devia ter ficado com ciúme aquele dia; Não devia ter saído com as amigas; Não devia ter pintado o cabelo; Não devia ter comprado aquele sapato (tudo, até mesmo o sapato, acaba sendo motivo para o desamor); e por ai vai...
Quem nunca passou por isso antes?! Se não passou, lamento, mas vai passar, é inevitável. Assim como o primeiro amor, o primeiro desamor também é alheio a planejamento, não se sabe como, onde, nem por que, mas um dia ele aparece. Quando chega só nos resta viver, cada um desses sentimentos até o fim, da forma mais eterna possível, para que as perguntas acima não tenham um peso tão significativo caso o final não seja feliz.
É claro que viver o amor é bem mais interessante do que curtir um desamor. Mas se ele chegar o que você vai fazer? Morrer?! Nananinanão! Levante a cabeça, recolha os cacos do chão, pegue uma supercola (colo de mãe e papo com amigos funcionam bem) e deixe seu coração impecável, pronto para outro amor (mesmo que isso signifique um desamor a cavalo como sequência).
A verdade é que sou prova viva de que o que não nos mata nos fortalece. Já me decepcionei tanto, tantas vezes, já me contentei com tantas migalhas de amor, já me dediquei tanto ao outro, esquecendo-me muitas vezes de quem eu era que hoje me vejo mais fortalecida do que nunca.
Cheguei a acreditar que havia perdido a capacidade de amar, depois de tanta desilusão, mas a vida se apresenta nova a cada dia e eu quero primavera no meu coração, mesmo que para isso tenha que fazer do desamor um companheiro insaciável.
Então é isso... Com certeza terei uma crise de baixa autoestima, vou chorar rios de lágrimas e passar por todas as fases do desamor já citadas anteriormente, mas o que realmente importa é que eu nunca vou deixar de sonhar. E um dia, vou viver um amor real, daqueles de dar inveja até em roteiro de hollywood, ah se vou!

“ (...)Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo...”
(Trecho do Poema: O Amor - Gibran Kahlil Gibran)

Ilustração disponível: www.umsabadoqualquer.com


sábado, 2 de julho de 2011

Fora de foco


Depois de um longo feriado em família que, diga-se de passagem, me rendeu inúmeras risadas e histórias para contar, voltei para casa com a alma fora de foco. A mudança brusca de temperatura no trajeto até em casa fazia par com meu coração que resfriava com o passar dos quilômetros.
O calor humano da família e dos amigos dissipou-se com as gotas de chuva que caíram sobre o para-brisa do carro anunciando uma nova frente fria. Entrei no pequeno apartamento carregando a mochila nas costas e sentindo-me completamente sozinha, tão sozinha como jamais havia me sentindo.
Nem mesmo o cágado deu-se o trabalho de sair do casco para me dar boas-vindas. Na altura do décimo segundo andar, nem mesmo o barulho do vento me fez companhia naquela noite. Eram apenas eu e meus sentimentos que gritavam alto anunciando mais um caos instalado.
Meu coração chora. Iniciou uma briga sem adversário e agora tenta um empate com a razão, pois desistiu de lutar e não quer novamente ser vencido. Minha alma esvaiu-se, desiludida, sem rumo, abraçou a solidão e hoje busca no silêncio uma resposta para seus por quês, cada dia mais complexos.
Retirei da gaveta meus medos, meus desejos e meus sonhos mais secretos. Espalhei um a um pelas paredes brancas do apartamento e os vi ganhar formas, cores, vida e transparência. Essa sou eu – pensei. Humana, repleta de sonhos, de desejos, de medos. Essa sou eu, carregada de esperança, de amor, de vida. Não seria justo simplesmente jogar tudo pela janela e viver vazia, seria?
Viver o presente sem condicioná-lo ao passado e remetê-lo ao futuro hoje me parece utopia. Viver o hoje sem sonhos e desejos parece último capítulo de novela, com roteiro pré-escrito, sem chance de adaptação. O futuro é incerto e disso não tenho medo, o que me apavora é não poder sequer nele pensar, é não conseguir cristalizar na mente um sonho, afinal para que fazer planos se me obrigo a acreditar que o futuro não existe?
Não pense que com isso pretendo levar uma vida de faz de contas, apenas de sonhos e nada mais. Pelo contrário, sempre acreditei que o real é o reflexo do nosso ideal. Só podemos viver o hoje, se tivermos um objetivo, um sonho, uma meta, um ideal para ser alcançado, se não a vida fica vazia e por vezes assim, fora de foco.
Ando sem foco ultimamente. Minha motivação para novos sonhos e planos sumiu e tento encontrá-la em algum canto de mim, mas até agora nadica. O borrão da ausência de foco está presente na vida profissional e afetiva, na dificuldade de realizar planos com os amigos e a família, sem contar na carga de incertezas e ilusões que não tem me permitido ver o que me restou para o amanhã, se é que ele existe.
A noite caiu trazendo uma chuva fraca que quebrou meu silêncio, as gotas batendo na janela me fizeram entender que a vida é bem mais do que meus sonhos, mas que desenha-la sem eles tem sido algo bem triste.
Meus olhos voltaram a sorrir ao receber um lindo presente, quase no meio da madrugada, uma chuva de fogos de artifícios, que explodiu bem ali, na vista da minha janela. Pintando o céu de azul, rosa, lilás, verde e prata, trazendo meu sorriso de volta e me fazendo acreditar que ainda resta uma fagulha de esperança. Esperança essa, que mesmo fora de foco nunca sai de cena...


“Ficou difícil
Tudo aquilo, nada disso
Sobrou meu velho vício de sonhar
Pular de precipício em precipício
Ossos do ofício
Pagar pra ver o invisível
E depois enxergar ..."

(Não vale a pena – Maria Rita)

domingo, 12 de junho de 2011

Tamo junto!


Recentemente fui convidada para participar de uma reunião aberta do NA (Narcóticos Anônimos), na verdade não tinha sido o primeiro convite, por outras vezes já tinham me dito que seria bem vinda ao local, mas nunca me senti segura para fazer parte deste encontro.
Confesso que não sabia ao certo o porquê do incômodo, mas depois de ter estado lá descobri que se tratava apenas do medo do desconhecido.
Antes que se iniciem boatos sobre minha ida ao NA, convém esclarecer que apesar de todos estarmos suscetíveis ao desenvolvimento da dependência química, não faço, felizmente, parte deste grupo. Contudo, trabalho diariamente com famílias que apresentam essa doença em seu contexto familiar e mais do que isso, tenho amizade próxima com duas pessoas que me ensinaram que a dependência química pode matar, mas de acordo com a atitude que se toma em relação a ela, pode também nos fortalecer.
O convite partiu de uma dessas pessoas, por quem tenho elevada estima e poderia hoje dizer, admiração. A reunião iniciou-se em um domingo, no final da tarde. Fui acolhida pelos amigos e desconhecidos de igual maneira. Não precisei me pronunciar, não precisei me explicar, não precisei sequer disfarçar minha ansiedade, pois ali o que era mais previsível caia por terra logo na primeira partilha.
A reunião organizada pelos membros do NA, foi iniciada com o pronunciamento de um deles, seguida pela apresentação dos presentes. Qual não foi minha surpresa ao receber uma salva de palmas, num ritmo bem acolhedor, ao afirmar que aquela era minha primeira participação no grupo.
Assim como eu, outras pessoas se apresentaram e ninguém nos perguntou se estávamos ali por alguém, por nós ou pela dependência química. O encontro seguiu seu curso com o depoimento, ou partilha como costumam dizer, dos membros ali presentes, que de acordo com sua vontade e interesse declaravam um pouco da sua história, da sua semana, da sua luta diária contra o vício, reafirmando o tempo todo a consciência de serem dependentes químicos em recuperação.
Foram muitos relatos emocionados, alguns de recém-chegados que ali estavam há poucos dias, outros de quem ali estava há mais de quatorze anos, o fato é que todos eles, sem distinção apresentavam-se com o nome e garantiam que só por aquele dia estavam livres do vício, alguns seguiam a fala elencando os demais dias, meses e anos, mas deixando claro que o mais importante era o hoje.
Ao darem seu depoimento foram acolhidos pelos demais membros com falas do tipo: “me identifico; obrigado amigo; tamo junto” e outras que reafirmavam o envolvimento do grupo não só com a história de vida de cada um dos que ali estavam, mas especialmente com a guerra diária contra uma doença que é incurável, mas tem tratamento e posso hoje afirmar, funciona.
Confesso que me identifiquei com muitos dos relatos ali expostos, foram conflitos familiares, de relacionamento, profissionais e, sobretudo de identidade que os levaram a buscar nas drogas uma fuga dos embates cotidianos.
Para mim, o mais marcante foi o depoimento de um rapaz de pouco mais de quarenta anos que disse não saber até hoje quem ele é. Utilizava-se da dependência química para encarar as dificuldades e preconceitos, vestia, como ele mesmo disse, uma máscara a cada dia, não sendo a ele permitido moldar sua identidade, descobrir-se, aceitar-se. Fiquei então pensando: Oras, será que eu sei quem sou?
Percebi então que a única coisa que me diferenciava deles era o fato de não ter buscado nas drogas a resposta para minhas inquietações. Minha válvula de escape é a escrita, o colo de mãe, o barulho do vento e as noites estreladas, mas no mais, sem tirar nem pôr, poderia dizer sem indecisão alguma que me identifiquei com um pouco de cada um dos membros daquele grupo.
Fui agradecida publicamente por duas pessoas durante a reunião pelo meu apoio nos períodos de crise e pela força para que aderissem ao tratamento. Só consegui dizer que o mérito não era meu, pois minha mente fazia uma viagem longa para dentro do que eu acreditava ser parte de mim. Nunca tinha tido a noção do impacto que tinha causado na vida dessas duas pessoas, mas naquele dia pude sentir, pois tinha acabado de sofrer o mesmo impacto, agora reverso, por parte deles na minha vida.
O encontro finalizou-se com a recepção a dois novos membros que decidiram naquele dia travar uma luta contra a dependência química, foram ovacionados e receberam um informativo do grupo com o telefone de todos os membros, para que pudessem ligar em qualquer dia e horário, evitando assim uma recaída.
Foi assim que entendi o ciclo do NA, quem hoje chega fragilizado amanhã é o padrinho que fortalece. Ninguém é melhor ou pior que ninguém, são todos iguais, compartilhando suas angústias, seus medos, suas histórias e conquistas. Humanos, cheios de erros e na busca de acertos, assim como eu e você, só isso, nada mais que isso.
Confesso que sai da reunião mais leve, com uma sensação de que nada nesse mundo é impossível, basta buscarmos a possibilidade dentro de nós. Para tanto, muitas vezes, precisamos de apoio, outras de nos encontrar e em todas elas precisamos da serenidade para aceitar e entender as respostas que a vida nos dá...

Oração da serenidade
Concedei-nos Senhor a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos e,
Sabedoria para distinguir uma da outra.



terça-feira, 31 de maio de 2011

Depois da tempestade, há calmaria?!



Tenho vivido dias tumultuados, cansativos, turbulentos, dias de prova. Andei dizendo que estou numa fase de má sorte, mas acho que é bem mais que isso. Poderia com tranquilidade dizer que estou passando por mais um inferno astral e isso não é de todo mau.
Das últimas vezes em que fui afligida por algo do tipo tive bons momentos para recordar depois do furacão, bem ali, onde dizem existir a calmaria. O complicado é sobreviver firme e serena ao tornado, mais difícil ainda é rir dos tropeços e empurrões que tenho levado da vida e administrar a vontade de sumir com a necessidade de persistir.
Tenho ouvido com frequência a palavra resiliência e creio que ela tem forte impacto nos meus últimos trinta ou quarenta dias. Superação, dia após dia, das coisas mais simples às mais difíceis de engolir, tudo na expectativa de dias melhores.
Posso parecer melancólica ou exagerada, mas o fato é que passar por um problema é natural, por dois vá se lá, mas por uma tempestade deles ao mesmo tempo não é para qualquer um, muito menos para mim.
Assim, escrever sobre isso, foi a maneira que encontrei para conseguir pensar em toda essa tromba d’água que me atingiu e buscar uma forma de começar a levantar os móveis e colocar as roupas no varal.
Essa maré de azar tem custado a passar e é isso que começa a me preocupar... Começou lá atrás, quando levei um grande susto com minha saúde. Logo em seguida passei por uma mudança brusca na minha rotina de trabalho, acompanhada por uma ordem de despejo, com prazo de 20 dias para desocupar o imóvel a pedido da proprietária.
Além disso, destaca-se a insistente dificuldade em entender a cabeça masculina, bem como respirar fundo e dizer em alto e bom som: “Não é possível!”, ao perceber que o gás da cozinha insistiu em acabar bem nesta semana, assim como o pneu do ônibus estourou logo na viagem de final de semana.
Isso é claro sem contar as preocupações advindas de longe, com problemas de pessoas queridas, além das manchas de molho e leite com chocolate nas blusas brancas, da sandália arrebentada no meio do caminho, da picada de formiga que levei ontem no pé ou dos ônibus que perdi por conta de dois minutos de atraso.
De tudo, o que mais me incomoda é o fato de não saber quando isso vai acabar. Parece mentira, mas todos os dias levanto com o pé direito, falo bom dia para o céu e para as plantas, orando por um dia bom. Mas, nem sempre o dia se fecha colorido, têm dias em que o desânimo é tão intenso que não tenho forças para juntar bilhetes em caixas de papelão, ou separar as revistas novas do jornal velho, minha única vontade é estalar os dedos e me deparar com tudo pronto.
Diria ainda que até da minha rotina tenho sentido falta, é tanto imprevisto que nunca sei o que vai acontecer depois do primeiro passo, e isso até seria bom se o dia viesse recheado de boas surpresas, mas quase nunca é assim... O que me resta é aproveitar o tempo salvo de imprevistos para organizar meu caos e minha mudança.
Aliás, diga-se de passagem, administrar uma mudança é uma chatice, especialmente quando não se sabe para onde vai, nem quando ao certo, só sei que tenho perdido noites de sono, sonhando com a ordem de despejo, mesmo sendo uma inquilina exemplar.
E de que adianta ser exemplar hoje em dia?! Que ironia! Nessa sociedade isso não tem valido muito mesmo, ser honesto, bom pagador, ter nome limpo garante a consciência tranquila na hora do repouso (o que para mim é essencial), mas não abre porta nenhuma, nem mesmo a do PROCON.
A verdade é que o desenrolar dessa história parece estar longe de acabar, provavelmente ainda terei outros imprevistos a superar, até que a calmaria venha, se bem que desde ontem tenho me perguntado se realmente há calmaria depois de tanta tormenta...
E se ela existe, espero que dure não só o tempo necessário para que eu coloque os móveis no lugar e me desfaça das caixas de papelão, mas que me permita pintar as paredes, pendurar os quadros e olhar da nova janela, não só as pedras, mas o mundo inteiro, com os olhos de quem acredita que sempre existe algo de bom no final do caminho e que se ainda não ficou bom é porque o fim está distante de se apresentar...


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(No meio do Caminho - Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Solidão? Que nada...

Tenho passado por mais um período de mudança nas últimas semanas. A mudança que seria apenas de apartamento, bem ali, logo no andar de cima, veio acompanhada de um turbilhão de incertezas, dúvidas e desilusões.
Minha fase astral de insegurança e rompimento de expectativas insistiu em juntar-se a bagunça das caixas de papelão e me convidou a refletir sobre o que espero do futuro, e diria mais, a quem ou a que devo direcionar meus planos futuros.
Foram algumas horas de conversa e muitos planos desfeitos. O castelo que dessa vez parecia de pedra, espedaçou-se em areia fina, bem na frente dos meus olhos. O coração na boca, um turbilhão de emoções e mais uma vez, ela ali, a desilusão, me esperando de braços abertos.
Dias antes tinha escutado algo que parecia não fazer muito sentido, mas que na ocasião serviu como uma luva. Alguém me disse que as desilusões são boas, já que quando se está desiludido é sinal de que deixou de estar iludido. Significaria, pois, o abandono de uma ilusão e o olhar direcionado para algo, enfim real.
Pensando assim, realmente é melhor estar desiludido do que iludido. Mas por outro lado me questiono: o que é real hoje em dia? Será que podemos viver emoções e sentimentos reais? A palavra que antes era questão de honra e valia muito mais do que todo o ouro do mundo, caiu no desuso, fala-se uma coisa hoje e amanhã já se contraria o dito.
Abraçam-se planos e sonhos em uma semana e na seguinte os planos e sonhos já não incluem nada além de interesses pessoais. Como saber então se o real é ilusão ou se a ilusão um dia pode tornar-se real, a menos que nos vejamos desiludidos?
Cansei de fazer planos e refazer caminhos, de incluir pessoas e necessidades nos meus sonhos. E hoje questiono se ainda é permitido sonhar.
Perguntei a algumas pessoas nesta semana se elas sobreviveriam sozinhas e algumas me disseram que sim, que já são sozinhas e assim pretendem ficar.
Ao serem questionadas como estariam daqui a dez anos, não souberam responder, ou não quiseram... Confesso que também não sei dizer como estarei daqui a dez anos, mas saberia dizer com certeza como gostaria de estar, mas não disse. Preferi me calar e conter minha ilusão, já que a realidade, aquela nua e crua tem se mostrado cada vez mais palpável, me fazendo acreditar que o amanhã, realmente não existe.
Então, para que planos e sonhos?! Viver o hoje e nada mais. Esquecer o futuro, viver o presente, mas e o passado?
Insistentemente o ranço do passado invade o presente com toda sua vasta experiência e causa medo de que velhas histórias se repitam com novas pessoas. Os erros do passado e suas incertezas passam a pautar não só o presente, mas também o futuro, e é isso que até hoje não consigo entender.
Viver o presente é a vontade de todos nós... Só por hoje. Mas é possível viver o hoje sem encarar o passado e temer o futuro? E diria mais: é possível viver o hoje e planejar o amanhã, sem condicioná-lo ao passado?
O medo do futuro redesenhar o passado, de termos mais dor do que amor, mais ônus do que bônus, mais guerra do que paz, faz por vezes com que deixemos o hoje passar. O presente acaba então, por desenhar-se cinza, sem cor, sem emoção, tão solitário quanto um cantor de bolero...



“Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão
Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão.
Camélia ficou viúva, Joana se apaixonou
Maria tentou a morte por causa do seu amor
Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado
Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado...”



Música: Dança da solidão - Marisa Monte( Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=Xzxgjhi2eNU )