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terça-feira, 23 de março de 2010

Sem assunto...


Acabo de ligar para minha irmã. Não, ela não disse nada, nem atendeu. Na verdade nem eu teria muito assunto a tratar com ela, afinal faz tanto tempo que não a vejo e não somos lá muito íntimas, mas me deu vontade de ligar.
Não sei por quê, mas hoje queria ter falado com ela. Falar o quê?! Ah, sei lá, talvez nada. Nossas conversas não são muito longas. Mas pelo menos dizer um oi, como você está, essas coisas.
Perguntar do trabalho e da pós dela, mesmo sem esperar que ela retorne a pergunta. Saber se ela ainda está namorando e se montou um consultório, trocou o carro ou decidiu casar. Essas coisas que a gente deve saber sobre os irmãos, entende?
Mas ela não atendeu, então deixa para outro dia. Não, não tentei uma vez só, insisti várias vezes. Em casa umas três vezes pelo menos e outra no celular. Aposto que minha mãe quando chegar vai ver a ligação e me ligar achando que aconteceu alguma coisa, mas hoje só queria mesmo era falar com a minha irmã.
Tenho pensado bastante nela essa semana. Sempre penso em todo mundo de casa, é estranho não saber o que sua família está fazendo, se estão bem ou não, se estão rindo ou chorando, se assistiram o último capítulo da novela ou tomaram chuva no final da tarde. Essas coisas que a gente faz quando mora junto com a família, coisas que agente fica sabendo sem precisar perguntar, já que acompanha tudo.
Essas coisinhas, do tipo café com açúcar ou adoçante, bife ou frango, gelatina ou sorvete, enfim... Pequenas coisas, do dia a dia que te deixam tão próximo, mas tão próximo que te colocam dentro da vida de cada membro da sua família. Você sabe o que cada um jantou, que horas saiu e chegou, que roupa vestiu e o sapato que calçou.
E quando a gente se afasta, isso tudo, que era tão comum, torna-se alheio a nova rotina. No máximo consigo imaginar o que acontece por lá, mas tudo, tudinho, não isso eu já não sei. Até por que os pais têm a mania de nos poupar dos piores problemas, na verdade acho que essa é uma tática de família, também não conto todos meus pormenores para não acharem que estou enlouquecendo, mas é assim, se soubéssemos de tudo, tudinho, não conseguiríamos tocar a vida do lado de cá, tão longe e com a cabeça lá, perto deles e dos seus problemas.
Mas a distância não impede a saudade, pelo contrário, a provoca. Ainda há a vontade de fazer parte daquela rotina e para isso eu mando e-mail, ligo, às vezes recebo até cartas do meu pai. Mas têm dias que minha irmã não atende o telefone, ou minha mãe vê a ligação tarde demais.
Na verdade o que queria dizer é que queria ter falado com minha irmã hoje. Acho que é saudade. Se pudesse iria agora mesmo para lá e me jogaria na cama dela dizendo: Oi irmaaã! Logo em seguida lhe daria um beijo na bochecha (que ela detesta), só para ouvi-la dizer: Pára Taline!
Ia então olhar bem para ela e sorrir. Esse é o nosso diálogo mais frequente, um diálogo quase mudo, sem assunto, mas que significa tanto, tanto quanto o telefonema que ela não pode atender.
Nostalgia. Essa pequenina palavra tem consumido meus dias e as poucas horas que tenho reservo para me revigorar. Tenho me dado o direito de relembrar boas coisas do presente passado e isso tem me dado mais força, mais fôlego. Diria que tem diminuído a distância e aumentado a saudade.
Que coisa estranha... Não sou muito de dizer isso, mas caramba, que saudade da minha irmã!
Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 14 de março de 2010

Tolos multiplicadores de tempo


"A globalização não é apenas palavra da moda (...). Suas dimensões básicas, que estão revolucionando a atividade produtiva e o modo de vida neste fim de milênio, são a aceleração do tempo e a integração do espaço. O paradoxo é que embora façamos as coisas que desejamos em cada vez menos tempo, falte também cada vez mais tempo para fazer aquilo que desejamos. Quanto mais economizamos tempo, mais carecemos dele” (GIANNETTI DA FONSECA, Eduardo).

Aquela história de aceleração do tempo me deixou bastante aflita. Confesso que já me preocupava em excesso com a organização e o aproveitamento do meu tempo e que depois deste milionésimo de segundo a menos senti a necessidade de analisar minha vida inserida na relação espaço e tempo.
Calma. Não farei nenhuma análise científica, muito menos me atreverei a falar de física, até porque nunca fui uma boa aluna nesta matéria. Até hoje não consigo entender muitas das fórmulas apresentadas em sala de aula e me basta saber que ao conseguir calcular inconscientemente a possibilidade de atravessar uma rua, sem ser atropelada, já estou utilizando de cálculos da física.
Peço licença para utilizar alguns exemplos da minha vida para ilustrar esta reflexão e mais, peço que tentem incluir seus exemplos no decorrer deste texto, pois só assim poderemos realizar uma reflexão coletiva.
Tenho passado por dias angustiantes, que se desenrolam em uma única questão: o que fizeram com as minhas 24 horas do dia?
A sensação de que o dia já foi e que nem metade da lista de tarefas foi cumprida é opressora, angustiante e diria mais, torturante.
Para entender essa angústia precisei listar todas as atividades realizadas diariamente e então ficou fácil saber para onde as 24 horas foram.
Dedico-me atualmente ao cargo de assistente social em um setor público, que raramente me permite o cumprimento de apenas 6 horas diárias, estipuladas no edital do concurso, adicionam-se as 2 horas diárias no transporte público e lá se foram 8 horas.
Além disso, preciso estudar para atender a minha teimosia de realizar duas pós-graduações simultâneas. Considerando que não tenho pique diário para a leitura de livros científicos, quando não estou estudando me dedico a pesquisas na internet e outras distrações. Estudo e computador consomem aproximadamente 3 das minhas horas restantes, e lá se foram 11 horas.
Faço questão ainda de passar pelo menos 1 hora do dia lendo o jornal local e pesquisando notícias curiosas do Brasil e do mundo que servirão de inspiração para a coluna da semana, soma-se ai mais 1 hora de elaboração e revisão dos textos, e lá se foram 13 horas do meu dia.
Há que se considerar que eu preciso me alimentar pelo menos três vezes ao dia, e que cada refeição exige tempo de preparo e de louças limpas, assim lá se foram mais 3 horas, computando 16 horas!
Lembrando que, com a conquista das mulheres no último século, tive a oportunidade de me tornar independente financeiramente e morar sozinha. Para tanto, pensando na manutenção da minha saúde, do meu nome e da minha casa torna-se indispensável encarar filas de banco e sessões de fonoterapia, discutir com a atendente da NET, trocar a lâmpada da sala, além das habituais tarefas designadas historicamente às mulheres: limpar a casa, lavar e passar roupa e fazer pelo menos uma sobremesa por semana. Dividindo estas tarefas em dias diria que lá se foram pelo menos mais 2 horas, totalizando 18.
Como ninguém é de ferro também gosto de ir ao cinema, sair com meu namorado, visitar minha família, cuidar da minha tartaruga ou ficar estendida no chão da sala escutando música sem pensar em nada. Confesso que tem sobrado pouco tempo para essas atividades, mas em termos, poderia dizer que dedico outras 2 horas diárias a esses prazeres, e enfim 20 horas!
Infelizmente ainda não sou um ser extremamente desenvolvido e necessito do sono para repor as baterias, deste modo, quando o raro silêncio da rua me permite utilizo minhas últimas 4 horas do dia para descansar.
Depois de fazer e refazer estes cálculos percebi que tenho dedicado muitas horas a coisas que podem ser importantes para outras pessoas, mas não são tão importantes para mim.
Lembro-me que quando me instalei nesta cidade, passei 8 meses me dedicando apenas ao trabalho e viajei com freqüência, conheci novas cidades e culturas, sai aos finais de semana, fiz muitos amigos, experimentei novos sabores, fui a peças de teatro e a shows em praças públicas, mas um insistente sussurro vivia dizendo que eu precisava me dedicar a outras atividades.
Não demorou muito para arrumar um outro emprego e fazer uma dupla jornada de trabalho e tão logo saí de lá iniciei uma pós-graduação e seis meses depois a outra. E hoje, olhando para isso tudo me sinto envergonhada por perguntar para onde foram minhas 24 horas.
Eu as consumi! E não da forma mais prazerosa ou mais rentável, as consumi multiplicando minhas tarefas, com a falsa ilusão de que assim conseguiria multiplicar o tempo. A verdade é que GIANNETTI está correto, “quanto mais economizamos tempo, mais carecemos dele”. Carecemos de tempo para subdividi-lo ao atendimento de nossas múltiplas tarefas.
O fato é que quanto mais atividades temos, mais querermos ter, numa enganosa impressão de que o tempo irá multiplicar-se para atender nossos ditames. Quão tolos somos! A humanidade adora brincar de Deus e tem arriscado até multiplicar o tempo na última década.
Gostaria de ter a percepção, e de que esta fosse coletiva, do resultado de tanta correria, pois ao avaliar ponto a ponto do meu dia, percebi que tenho tido pouco tempo para cuidar de mim e das pessoas de quem eu gosto, e isso tudo para agradar ao futuro, que pode apresentar-se promissor, mas que não me dá garantias.
A única certeza que tenho agora, a única garantia que é palpável é que o tempo não para e cabe a mim, e a você dentro da sua rotina, não multiplicá-lo, mas consumi-lo com as melhores coisas desta vida, é isso que faz o tempo render, é isso e nada mais!

Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 7 de março de 2010

O dia em que a Terra acelerou...

Li no jornal desta semana que os dias na Terra ficaram mais curtos desde a madrugada do último sábado. Logo pensei no horário de verão e achei que poderia existir alguma relação com o escurecer mais breve e a menor quantidade de horas claras para se dedicar aos afazeres cotidianos.

Mas ao continuar a leitura da manchete, não demorou muito para me surpreender com a notícia de que os dias mais curtos são uma consequência do terremoto que devastou o Chile na última semana. Os cálculos, feitos por um Laboratório da NASA, indicam que os dias ficaram 1,26 microssegundos mais curtos.

Considerando que os dias terrestres possuem cerca de 86.400 segundos, pode parecer pouco, ou quase nada. Contudo, o fato de pensar que a força de um terremoto é capaz de acelerar ou reduzir a rotação da Terra, tornando os dias mais curtos ou mais longos de acordo com a redistribuição da massa do planeta após seu tremor, me deixou tensa.

Quando era criança estudei sobre o movimento de rotação e translação da Terra, mas ninguém me disse que isso era passível de mudança... Aliás, sempre imaginei que a Terra estivesse “presa” em um eixo imaginário, seguindo seu ritmo rotineiramente a fim de nos garantir nossos dias e noites.

E agora essa novidade... Novidade que para muitos não passou de mais uma manchete sem sentido e que pouco ou nada impressionou, mas que me fez pensar em algumas coisas

Como é possível um tremor no Chile acelerar os dias da humanidade inteira? A quem devemos “cobrar” esse milionésimo de segundo que nos foi tirado? Será que os atrasos no trabalho poderão ser justificados com a aceleração da Terra daqui por diante? Chego a imaginar como serão as desculpas em um futuro breve:

- Desculpe chefe, é que o planeta acelerou na madrugada passada e eu não acertei meu relógio.

- Estava marcada para antes do tremor, mas acabei me atrapalhando com a aceleração da Terra.

Dias atrás estava preocupada com o fim do planeta, com medo de que o mundo acabasse em água ou coisa assim, mas hoje vejo que não é nada difícil a Terra sair “rodando” por ai, depois de um tremor daqueles. Imagine que loucura, o planeta rodopiando como uma bola de gude pelo espaço?

Claro que estou exagerando, mas imaginar os dias mais curtos, mesmo que com uma mudança quase imperceptível na relação tempo-espaço, me faz aumentar ainda mais minha cobrança sobre minhas certezas. Sobre de que modo tenho aproveitado meus dias, meus milionésimos de segundo e que mundo estou construindo para a nova geração.

Terremotos, enchentes, calor excessivo, nevascas, as pessoas tem morrido de desastres naturais hoje em dia. Não se fala mais de morte por velhice ou acidente de trânsito, quiçá de câncer ou AIDS. Nos noticiários os índices de mortalidade apresentados são causas de efeitos da natureza, isso é o que podemos chamar de “morte natural”.

É bem possível que com tanto espaço na mídia, em breve existirão “empreendedores” utilizando-se da desgraça alheia para lucrar. Do mesmo modo que já ouvi dizer que turistas de outros países pagam para fazer um tour pelas favelas cariocas, não me assustarei se em breve aparecerem anúncios do tipo: Conheça um tornado de perto! Ou: Venha viver a emoção de um terremoto! Ou ainda: Faça seu passeio de bote na marginal (coletes inclusos).

Brincadeiras à parte, o fato é que frequentemente direcionamos nossa energia para coisas que em pouco tempo deixam de ter sentido. Aproveitamos os dias (curtos ou não) com pouca intensidade, valorizamos negócios que prejudicam nossa existência, pouco nos importamos com mudanças que afetam a humanidade.

Que tipo esquisito nos tornamos... As crianças são bem mais interessantes que nós. A “adultescência” nos faz perder alguns dos valores mais interessantes desta vida. Por essas e outras, que se fosse possível gostaria de desacelerar não só a Terra, mas também o tempo, com tanta intensidade que retornaria para a calmaria dos meus cinco anos, onde a Terra não saia do eixo, muito menos a humanidade.

Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Quem não arrisca não petisca?!


"... os riscos têm que ser corridos, pois o maior perigo na vida é não arriscar nada. A pessoa que não arrisca nada não faz nada, não tem nada e não é nada. Pode evitar o sofrimento e o pesar, mas não pode aprender, sentir, mudar, crescer, viver ou amar. Acorrentados por suas certezas e vícios, é um escravo. Sacrificou o seu maior predicado, que é a sua liberdade individual. Só a pessoa que arrisca é livre." (Leo Buscaglia)

Estou em um momento de crise. Não, não é crise financeira, também não é crise de risos ou de choro. Estou em um momento de crise existencial.
Escutei esta semana uma história que me deixou com uma confusão de sentimentos difícil de explicar.
Soube que um querido amigo deu uma reviravolta em sua vida da noite para o dia. "Chutou o balde" sem se importar com as opiniões alheias, sem esperar algo em troca. Buscava apenas sua liberdade, seu reencontro e isso ele conseguiu.
Um homem novo, recém formado, inteligente, atuando em uma área alheia à sua formação, mas que lhe garantia um bom emprego, com um ótimo salário. Tinha uma companheira, animais de estimação, viagens aos finais de semana e tudo o que o dinheiro podia comprar. Contudo, descobriu um dia que estava para sufocar, que a casa cara não era um lar, que a companheira não era a mulher ideal, que o dinheiro não comprava felicidade e que o trabalho que dignifica um homem é aquele que lhe dá prazer.
Largou tudo. A mulher, a casa, o emprego, o dinheiro, TUDO. Voltou para a casa de sua mãe, com um gato a tira colo e uma vontade louca de recomeçar.
Voltou livre, voltou leve e cheio de sonhos. Voltou a sorrir, a assoviar, a reencontrar os amigos de antes e a querer conquistar novos amigos.
Uma reviravolta. Sem começo, meio e fim. Apenas uma pausa para um novo fôlego, para uma nova vida.
Quando soube do ocorrido me admirei e custei a acreditar no que tinha acontecido. Não conseguia entender como alguém poderia deixar o certo pelo duvidoso, como alguém poderia assumir um risco tão grande, sem certeza alguma, mas depois de muito pensar consegui entender a essência disso tudo.
Diria que tudo não passou de coragem. Coragem de recomeçar, de burlar o senso comum e a vontade dos genitores, dos professores, dos padres e assumir riscos.
Riscos que eu, com minha covardia nunca tive coragem de assumir. Sempre tomei as decisões com os dois pés firmes no chão, sem dúvidas, sem chance de me surpreender com o inesperado.
Tenho tido vontade de assumir alguns riscos. De jogar tudo para o alto e recomeçar, do zero, de um ponto de partida que eu escolherei.
Vontade de sair do emprego e deixar currículos em livrarias ou em jornais. Vontade de gastar todas as minhas economias com a viagem dos meus sonhos e deixar o apartamento para depois. Vontade de começar uma faculdade de artes plásticas e ganhar a vida cristalizando meus sentimentos em arte. Vontade de passar o dia em uma cachoeira e a noite em um acampamento, sem relógio por perto, sem regras, nem cronogramas.
Tenho vivido de forma tão monótona. Trabalho, estudo e o que mais?! Alguns dirão, e o que mais você quer? E eu poderia responder se a pergunta fosse: E o que mais você precisa?
Preciso de histórias para contar, de novos personagens, de novos sabores e cheiros. Preciso de aventuras e de conhecimento. Preciso de novas gargalhadas e de um novo lugar para recomeçar, onde as paredes não tenham sempre a mesma cor, onde os carros não me acordem de madrugada e, sobretudo, onde eu tenha tempo para cuidar de mim.
Já perdi a conta das vezes que ameacei me matricular em um academia, ir ao cardiologista, ao dermatologista e aos outros "istas" desta vida. Tenho deixado o minuto do batom de lado para dormir um pouco mais. Tenho trocado o pão na chapa por um lugar no ônibus. Tenho preferido meu sofá ao cinema com o namorado. Tenho trocado a viagem de férias por boletos bancários. Tenho trocado um jantar com as amigas pelo fundo para o apartamento.
E quando me reconheci assim, tão sem vida recebi o seguinte questionamento: O que você valoriza em sua vida?O quê?
Minha vida. É isso que mais valorizo em minha vida e confesso que a tenho deixado um tanto quanto de lado. Afinal o que é viver? Não é aproveitar cada minuto e não deixar as oportunidades escaparem?
Deixei muitas oportunidades se esvaírem por entre meus dedos, como areia de praia. E tudo isso por ter medo, por não ter coragem.
Medo de quê? Medo de perder o que todos chamam de seguro, mas que tem me deixado extremamente insegura. Medo de perder o trabalho estável, o relacionamento duradouro, as amizades de infância. Que tolice... Medo de perder algo que eu escolhi, que eu construí.
Vocês entenderam a gravidade disso? Tenho medo de arriscar a única coisa que está sob meu controle: minhas escolhas.
Porque todo o resto pode ser tirado de mim a qualquer momento, não é? Posso ser mandada embora amanhã e me sentir uma tola por ter desperdiçado uma outra oportunidade de emprego há seis meses atrás, posso perder meu namorado para outra mulher mais jovem e menos confusa, posso ser traída pelos meus amigos, mas também posso levá-los comigo no coração para onde eu for.
Então... medo de escolher?!É isso que eu tenho?!
Sim. Medo de arriscar e não petiscar, medo de deixar o destino me guiar e me arrepender. Meu amigo não se arrependeu, teve coragem de assumir sua escolha, mesmo sem saber se foi boa ou má, o fato é que neste momento foi a melhor que poderia ter feito. Uma coisa de cada vez, uma escolha de cada vez, simples assim.
Poderia dizer, então, que a covardia é o medo de arrepender-se? E que o arrependimento surge de uma escolha mal feita? E se é assim, creio que para se fazer escolhas é preciso coragem.
Coragem, ausência de covardia. Coragem, não ter medo de arrependimentos. Coragem para escolher uma coisa de cada vez. Coragem é disso que preciso e nada mais.
Ilustração de: Gabriel Vicente.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

De mala cheia!

Passei meu carnaval em terras mineiras neste ano. Viajei rumo a Uberaba, desta vez sem axé ou funk, sem rebolation ou matinê. Levei na mala minha curiosidade e a vontade de esclarecer alguns males entendidos.
Parti receosa, sem saber ao certo onde estaria, quanto seria morosa minha chegada, como seria minha recepção e os dias que lá se seguiriam. Viajei quase sem rumo, apenas com a cara, a coragem e a saudade que me impulsionou a iniciar mais este capítulo, repleto de histórias que agora compartilho com vocês.
Logo na rodoviária de Campinas, ao realizar o embarque decidi me certificar de que o ponto final do ônibus seria em Uberaba e ao questionar o motorista sobre isso tive minha primeira surpresa:
- Boa noite, o ponto final desta linha é em Uberaba?
- Não senhora. Este ônibus saiu do Rio de Janeiro e só finaliza seu percurso em Cuiabá.
- E o senhor pode me avisar quando chegar a Uberaba? Nunca fui para lá.
- Quando chegarmos em Ribeirão Preto te aviso, ai você fica acordada porque vai ter troca de motorista e seu ponto já será o próximo.
- Mas tem risco do motorista seguir viagem comigo no ônibus? É que talvez eu durma...
- Ah, isso só aconteceu umas vinte vezes, é raro acontecer.
Vinte vezes. Pronto, brincadeira que ao aliar-se à minha ansiedade foi suficiente para me deixar acordada como uma coruja durante toda a viagem. De olhos atentos naquela estrada comprida, que parecia não ter fim, aguentei um calor terrível que mesmo durante a noite deixou o ar abafado e me deixou suando, com a sensação de já estar em Cuiabá. Momento pouco propício para uma pane no ar condicionado do ônibus, mas depois de dez horas tranquilas de viagem alguma coisa teria que acontecer, senão não teria graça, senão não seria comigo.
Dito e feito, restavam as duas últimas horas do percurso até Uberaba quando o ar condicionado do ônibus decidiu entrar de greve, sem prévio aviso, soltou um cheirinho de queimado e parou de funcionar. Logo imaginei que seria só o início de uma viagem com muitas histórias para contar e foi dito e feito.
Ao chegar à rodoviária de Uberaba fui recebida por meu namorado e seus pais, que me acolheram num abraço forte e me fizeram me sentir quase em casa.
No dia seguinte descobri que meus dois celulares não funcionavam em terras mineiras e que estava praticamente sem contato com as terras paulistas, exceto é claro pelo telefone fixo da casa que me acolheu por estes dias.
Fui apresentada à cidade por um guia que não estava lá muito atualizado e que me fez dar boas risadas com sua falta de informação. Tão desinformado estava, que mesmo morando lá há 14 anos, só pode me assegurar que em uma lanchonete chamada Ilha do Açai, eu encontraria açai. Além disso, nada mais.
Conheci pouco da cidade, notei que é bem arborizada e repleta de estranhices,como toda cidade que se preza e precisa ter histórias para contar.
Descobri que as tampas dos bueiros são em sua maioria quadradas e que em uma das ruas ainda funciona a mão inglesa, descobri uma igreja de estilo néo-gótico, construída em 1895 por padres dominicanos, que me fez parar de respirar por alguns segundos com sua altivez.
Conheci o delicioso macarrão na chapa, o biscoito Carolina que não tem recheio de creme nem cobertura de chocolate e provei deliciosos pães de queijo.
Visitei a terra dos dinossauros, onde me arrepiei só de imaginar aqueles bichos enormes vivos. Puxei a cauda de um deles, enquanto comia doce de leite ninho e comprava doce de leite com amora.
Conheci o Museu Chico Xavier, onde pude olhar seus pertences, as roupas e os móveis na casa onde viveu tanto tempo, conheci seu filho, que foi muito receptivo e me falou sobre as obras da instituição, me indicou a Casa da prece e me vendeu dois CDs que em breve serão dados a minha mãe. Caminhei por quase trinta minutos em um cemitério até encontrar o memorial Chico Xavier, fiz uma breve oração e voltei com os pés doendo.
Conheci os irmãos do meu namorado, fui presenteada com uma nova amiga com nome de flor e descobri histórias de sua infância que me fizeram gargalhar por horas. Comi doce de leite com queijo fresco e churrasco até cansar. Provei uma pimenta que não era para ser ardida, mas que ardeu até o céu da boca.
Ganhei a muda de um cacto e de uma suculenta para aumentar meu jardim no pequeno apartamento. Ganhei um cágado que ainda não sei se é macho ou fêmea,mas seguindo o conselho da minha cunhada deve ter um nome feminino com apelido masculino, assim quando soubermos o sexo ela não terá crise de identidade (no começo achei um tanto quanto estranha esta história, mas depois de saber que suas Florzinha e Docinho transformaram-se em Floc e Doc comecei a entender).
Atravessei a ponte que faz a divisa entre os estados de Minas Gerais e São Paulo e que corta o rio Grande, me admirei com a largura do rio, e entendi o porquê de seu nome, êta rio grande mesmo. Coloquei meus pés em suas águas e entendi porque o rio Pardo é pardo, as águas do rio Grande são quase cristalinas, não tem aquela cor de barro tão comum a nós riopardenses. Não quis andar de canoa, pois o sol estava forte demais, mas aproveitei a sombra de uma árvore frondosa que derrubou umas sementes duras na minha cabeça quando a brisa soprou forte.
Por ironia do destino conheci nas margens do rio Grande uma moça de Mococa e uma senhora de Casa Branca que depois de algumas horas de conversa me mostrou como esse mundo é pequeno. Conheci mais uma criança encantadora que em breve se tornará personagem de um de meus textos.
Recebi declarações de amor do alvorecer ao anoitecer, na mesa do almoço e do jantar. Recebi abraços apertados o tempo todo e tanto carinho que só de lembrar já sinto saudades.
Assisti ao filme do George Clooney por apenas R$2,50 e olhei no relógio para ver se ainda dava tempo de uma outra sessão. Aluna de pós-graduação também paga meia-entrada em terras mineiras.
Passei por ruas tão largas que comportariam desfiles de uma escola de samba do primeiro escalão, e o mais interessante sem sinalização horizontal. Nenhuma linha para dividir a pista, nadinha. Fiquei pensando que ali poderiam andar pelo menos cinco carros no mesmo sentido, lado a lado e a confusão que isso traria em uma curva. Senti medo do "morro da onça" que me deu mais frio na barriga do que andar de montanha russa.
Entrei na Catedral e ajoelhei aos pés de Santo Antônio em homenagem a uma amiga que já virou até a igreja do santo de cabeça para baixo e até agora não recebeu nenhum sinal, ou se recebeu não conseguiu lê-lo. Descobri neste dia que o verdadeiro santo casamenteiro é o Santo Expedito, o das causas impossíveis e que Santo Antônio só serve para casamento caipira. Contudo, acho que esta afirmação é contestável, já que uma das minhas amigas enterrou o Santo Antônio de cabeça para baixo e hoje está casada. Se bem que com tanta pressão, é provável que qualquer santo faça o sacrifício de interceder por uma união. Será?!
Coloquei os pés na grama enquanto me sentava no banco do jardim e refiz minhas impressões, minhas emoções e minha mala.
Voltei com a bagagem repleta de histórias, de novas pessoas, novos sabores e ótimas recordações. Recordações bem diferentes das de carnavais passados, nem melhores, nem piores, apenas diferentes que me permitiram conhecer um pouco mais de algumas pessoas, mas, sobretudo, mais de mim mesma e me impulsionaram a seguir em frente mesmo que para isso seja preciso, em alguns momentos, frear alguns tratores...
Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Tratores e corações não combinam...

Meu coração está partido. Partido ao meio, em pedaços, nas pontas e dos lados. Mais uma vez partido.
Desta vez o pobre coração não caiu, não levou solavanco, nem flechadas. Para dizer a verdade, nem sei ao certo o que aconteceu, talvez um mal entendido, ou quem sabe a distância, quiçá a insegurança ou ainda a incompreensão.
O fato é que se partiu e agora dói.
Não é um ferimento profundo, daqueles incapazes de curar. Nem tampouco me causa desespero ou desânimo, apenas dor. Um ferimento que provavelmente deixará uma cicatriz rala, para lembrar-me do quanto é perigoso amar.
Um ferimento que custa fechar, mas que irá sarar, pois tem sido cuidado com muito apreço.
Meu coração foi vítima de um atropelamento. Passaram por ele tratores de ofensas e injustiças. Tratores cegos e agressivos que nem me deixaram dar um passo à frente ou atrás. Tratores que me atropelaram e me fizeram chorar.
Hoje tive a certeza de que tratores não combinam com corações.
Quisera ter passado por aquele campo de batalha imune. Quisera não ter sofrido nenhum arranhão, mas o amor é assim. Faz-nos tropeçar, nos reerguer e logo em seguida nos empurra aos berros: Segue em frente!
Ainda não sei qual caminho seguir. A dor ainda não passou, estou receosa de voltar e dar "de coração", digo, "de cara" com outro trator, mas ao mesmo tempo temo seguir e passar por cima de um coração que me foi dado.
Quisera que as pessoas entendessem de uma vez por todas que tratores e corações não combinam!
Quisera tanto que as pessoas passassem a abrir passarelas em campos floridos ao invés de estradas de terra. Queria mesmo que um dia as pessoas entendessem as faces do amor e dele não mais se estranhassem.
Amizade, fraternidade, irmandade, amor, humanidade. Sentimentos separados por uma linha tênue, tão tênue que alguns não conseguem enxergar, uma linha tão sutil que impede a tantos outros decifrá-la.
Quisera que as pessoas entendessem que não há amor maior ou menor, apenas diferentes formas de amar. Que não existe amor de mãe maior que de amigo e de namorado maior que de irmão. Que cada forma de amar encontra sua forma em cada coração. Que cada coração dá seu formato ao amor que recebe e dele se apropria da melhor maneira possível.
Existem aqueles que pouco demonstram, mas sabem que o amor está lá. Existem outros que escancaram toda sua emoção, transparentes, capazes de em um abraço apertado ou de em um sorriso sincero dizer constantemente: amo você, quero-te bem, você é especial.
Quisera que as pessoas aprendessem a valorizar mais o amor que têm e deixassem de medi-lo com o que vêem. A intensidade do amor que você recebe está nos gestos, no ato e na história que você construiu com cada doador de um pouco de amor.
Quisera que todos nós aprendêssemos a nos dedicar a cada sementinha de amor que nos é dado e deixássemos de nos preocupar com as sementes dos outros.
Quisera que ao invés de atropelar corações, os tratores tirassem todo o mau olhado e as ervas daninhas que fazem morrer tantos amores.
Por que usaste logo o trator?! Eu só precisava de um pouco de água para regar o amor que tinhas me doado...

Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Balas de Coco

Tento escrever sobre alguma coisa boa, bonita ou engraçada que tenha observado na última semana, mas nada me vem à mente. Puxo na memória as figuras com que esbarrei nos pontos de ônibus, nas calçadas esburacadas e no meio da praça, mas nenhuma delas me parece digna de citação.
Algumas imagens, algumas pessoas, alguns relatos invadiram minha mente nos últimos dias com suas aflições reais, com seu mal estar e sua ira e é a eles que devo me referir.
Não só a eles, mas a todos nós, que construímos estas tragédias, que formamos esta humanidade tão desumana. Presenciei catástrofes naturais bem distantes daqui, longe do meu nariz, dos meus olhos e do meu entendimento, e tão logo os escombros começaram a se reerguer, desvelando vítimas de um terremoto no Haiti, a chuva decidiu castigar aqui, bem perto de mim, tão próximo do meu nariz que desta vez pude sentir o odor da destruição, molhar os pés na lama e estender minhas mãos.
Famílias que perderam tudo, móveis, roupas e parte da dignidade. Famílias que se perderam. Famílias que tentam buscar forças para se reerguer, recomeçar, sem saber ao certo onde fica o ponto de partida. Pessoas comuns que perderam sua casa, seus bens mais preciosos, parte de seu coração e quiçá de sua alma.
Não tenho conseguido me desligar destes incidentes naturais, nem tão pouco consigo entendê-los como uma fatalidade. Ao homem a culpa, ao homem o castigo.
A natureza revolta-se, aflita com tanta falta de percepção. Enquanto nas escolas trabalha-se a educação ambiental, nos rios são despejadas toneladas de lixo. Enquanto se realiza um plantio de árvores na pista de caminhada e ensina-se o valor do ar puro para as crianças, grandes áreas são desmatadas pondo fim ao sonho de um mundo ecologicamente correto no futuro.
Creio que de imediato, precisamos pensar e sonhar apenas com a manutenção do mundo. Começo a entender o impacto que as previsões de fim do mundo, que antes pareciam chacota, hoje resultam nas pessoas. O fim do mundo assusta mais que o bicho papão, mais que a inflação.
Em uma destas tardes chuvosas percebi nitidamente esta aflição em um senhor que entrou no meu local de trabalho. Não queria orientação, não solicitou recurso nenhum, apenas entrou na sala, com uma cesta nas mãos e antes de oferecer o produto escondido por um pano de prato, me perguntou:
- É verdade que o mundo vai acabar?
Fiquei pensando por alguns instantes antes de responder. Se fosse há alguns anos atrás provavelmente teria achado graça da pergunta e dito com certeza que não, mas desta vez hesitei:
- Com essa chuva parece que o mundo está acabando mesmo, não é?
- Ouvi dizer que o mundo vai acabar em 2012, está perto, não é?
- Essa é a história de um filme, mas não sei se é real.
- Mas a senhora acha que o mundo vai mesmo acabar?
- Sinceramente eu espero que não.
Ele saiu dali com duas balas de coco a menos na sua cesta, com dois reais a mais no bolso e com uma angustia agora compartilhada por mim, ao imaginar o fim do mundo.
Quem sou eu para dizer se sim ou se não, mas que temos buscado isso diariamente me parece que está nítido. Parece que aqueles que têm mais de cinquenta anos não se preocupam com o que será do futuro, pois já não pretendem estar aqui. Aqueles que acabaram de nascer já se acostumaram com a poluição e nem sabem mais a cor real da natureza, e para aqueles que ainda pretendem um dia aqui estar, eu desejo boa sorte e balas de coco.
Para finalizar, deixo um texto que me faz refletir muito sobre o que esperamos do mundo e principalmente de nós mesmos, ao proliferar a existência de nossos insetos interiores e destruir o que temos de mais valoroso, a vida:

“Notas de um observador:

Existem milhões de insetos almáticos.
Alguns rastejam, outros poucos correm.
A maioria prefere não se mexer.
Grandes e pequenos.
Redondos e triangulares,
de qualquer forma são todos quadrados.
Ovários, oriundos de variadas raízes radicais.
Ramificações da célula rainha.
Desprovidos de asas,
não voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
repousam-se no lodo,
lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são.
Assim são os insetos interiores.
A futilidade encarrega se de 'mais tralos'.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.
Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa.
A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, "infértebrados".
Arrancam as cabeças de suas fêmeas,
Cortam os troncos,
Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos.
Esquecem-se de si.
Pontuam-se
A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam-se assim:
Na morte e na merda.
Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estômago.
Uma sensação de: o que é mesmo que se passa?
certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro...caem.
Desacordam todos os dias, não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.
Assim são os insetos interiores”.

(Insetos Interiores – O Teatro Mágico)
Ilustração de: Gabriel Vicente