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domingo, 26 de abril de 2009

Anita


Anita gritou. Gritou tão alto que sua boca estremeceu e sentiu faltar o ar em seus pulmões. Gritou para livrar-se de tudo aquilo que lhe fazia mal. Gritou tão alto que as vidraças da vizinhança chacoalharam. Gritou tão forte que sentiu medo.
Anita chorou.
Colocou para fora toda a dor que havia suportado, mandou embora com o vibrar de suas pregas vocais sua indignação e contrariedade. Recusou todas as injustiças e formas de coerção com seu bradar.
Lembrou-se da última colher de brigadeiro que era sua por direito e da qual nem sentiu o cheiro, lembrou-se da bola colorida furada pelo vizinho sem nem ter tido tempo de com ela brincar, recordou os lanches roubados no colégio e as brincadeiras de mau gosto feitas por outras crianças. Crianças que sabem ser cruéis quando querem e sabem cutucar as feridas mais abertas. Feridas que deixarão marcas eternas em suas vítimas adultas.
Chorou mais alto e por mais tempo ao lembrar sua primeira decepção. Lembrou-se do primeiro amor não correspondido e das lágrimas derramadas por ele. Gritou ao lembrar-se de seus fracassos amorosos e de seu gosto amargo, sentiu medo de nunca mais conseguir sorrir.
Anita gritou chega. Chega de tanta injustiça e julgamento. Fora ofendida no que tem de mais precioso. Fora julgada por pessoas que nem sequer sabiam seu sobrenome. Anita chorou de raiva e amargor, não queria acreditar que ainda existiam seres humanos capazes da maldade pelo poder, capazes da maldade pelo prazer.
Anita desejou mudar-se, pediu para ir para bem longe, em um mundo onde não houvesse tanta injustiça e hipocrisia. Seu pedido fora atendido, foi levada para longe dos seus. Enterrada em cova profunda, em cerimônia simples e com poucos convidados.
Anita observou tudo e gritou mais uma vez. Contudo, agora, ninguém a ouvira. Sentiu um pesar e uma dor indecifrável, havia sido tudo em vão? Sua morte, seu bradar, seu sofrimento?
Anita chorou ao ver crianças dormindo nas calçadas e seus pais agredidos como vagabundos. Chorou ao ver pessoas de bem sendo julgadas injustamente, gritou ao ver tanta desigualdade. Anita quis voltar, mas não pôde.
Triste, adormeceu numa nuvem fofinha, foi amparada por anjos, acordou sobre caixas de papelão e coberta por jornais ao ouvir sons de sirenes nas ruas da grande cidade. Olhou para os lados e sorriu. Conseguiu sorrir e pensou: Que sonho terrível. Levantou-se e caminhou até seus pais e irmãos, foi amparada pelos braços sujos daquela que lhe dera a luz e lhe ensinara que não há bem maior que a honestidade e o trabalho. Dormiu serenamente pensando que nada é tão ruim que ainda não possa ficar pior.
Ingênua, nem imaginava a tempestade anunciada na previsão do tempo que se aproximava, muito menos a tristeza da morte que se instalaria naquela noite. Adormeceu ali ao relento, com um leve sorriso nos lábios. Adormecera Anita, a garota que gritou, e tentou mudar o mundo. Adormecera para nunca mais acordar.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Dia das Meninas Esporte Clube


Há pouco mais de um mês, aderi à idéia de uma amiga e me filiei ao “Dia das Meninas Esporte Clube”. Não, não é um clube de campo, nem um clube aonde você vai se exercitar fisicamente, ou fazer pique-nique com a família nos feriados. Na verdade até aproxima-se um pouco disso, mas não é assim um Clube, é só um Clube.
Com certeza na sua época de infância já deve ter participado deste tipo de Clube, clubinhos fechados, onde só entravam meninos ou meninas e onde existiam várias regras: Aqui você pode falar palavrão, soltar pum e comer todo o chocolate que aguentar. Aqui você não pode estudar, olhar para a irmã do próximo e entrar se não tiver a senha.
Ah! A senha. Maldita senha que mudava toda semana, se faltasse a um encontro que fosse tinha que pagar um mico daqueles para conseguir a nova senha, isso quando ela não era o resultado de algum jogo de lógica, que você, simplesmente, não entendia.
Mas enfim, o “Dias das Meninas Esporte Clube”, ao qual chamamos carinhosamente de “Dia das Meninas”, surgiu da reunião de poucas, mas verdadeiras amigas que devido à rotina estressante e enlouquecedora do dia-a-dia não tinham tempo nem de pegar o telefone e dizer: oi amiga, estou viva. E isso não é exagero, ficávamos tanto tempo sem nos ver que uma das meninas que era morena ficou loira, a outra que era solteira casou-se e nós nem ficamos sabendo das peculiaridades dessa nova rotina.
Certo dia, conseguimos finalmente nos reunir e decretamos oficialmente o “Dia das Meninas Esporte Clube”, restrito às mulheres, que são amigas fiéis e leais e a quem você pode contar tudo, eu disse tudo. Não há segredos no “Dia das Meninas”, não há proibições ou censuras. É o dia reservado para a mais deliciosa e verdadeira fofoca.
É o momento que temos para falar bem ou mal dos namorados, maridos, pretendentes e daquele moço bonito que você esbarrou na fila do pão e que provavelmente nunca mais verá, mas que mexeu profundamente com você. Vale falar dos ex-namorados, dos colegas de trabalho, dos chefes, do síndico e da vizinhança, sem contar dos planos para as férias ou simplesmente para o próximo final de semana. É um espaço reservado para terapias em grupo, para discutir relações de afeto e amizade, ouvir conselhos, críticas, sugestões, elogios e, sobretudo, para tomar decisões.
Decisões. Esta é uma palavra chave do “Dia das Meninas”. Conversando com suas amigas, você descobre que sempre é hora de fazer escolhas e tomar decisões, decisões a seu favor e contra coisas e pessoas que te irritam profundamente. É hora de decidir-se sobre o fim de um relacionamento, ou sobre a possibilidade de entregar-se a um novo amor. É hora de criar coragem e pedir demissão do seu trabalho, ou quem sabe um belo aumento, ou ainda, fazer as malas e sumir para bem longe por alguns dias. E como é fácil tomar essas decisões quando se está em ótima companhia, como é fácil decidir-se quando você ao mesmo tempo em que leva puxões de orelha, também ganha colo.
O objetivo do “Dia das Meninas” é basicamente esse, você conseguir, mesmo que por uma noite, tomar suas decisões. Mesmo que depois de passar o efeito da cervejinha, ou depois de feita a digestão das gostosuras culinárias que acompanham esse momento, você se levantar e for embora certa de que no dia seguinte vai acordar e trabalhar como sempre. O importante foi que você conseguiu, mesmo que por um segundo visualizar seu futuro mais feliz, diferente e teve apoio pra isso. Creio que é assim que começam a realização de sonhos, com a mera capacidade de sonhar.
Mas por que estou dizendo isso tudo? Porque não há em uma reunião sequer que alguma de nós (senão todas) queira mudar algo em nossas vidas. Neste feriado de Páscoa, o encontro das meninas foi “exportado” para minha cidade natal, e mesmo em outra cidade, com outras meninas, com outras vivências os assuntos não foram muito diferentes.
Desilusões amorosas, insegurança no trabalho, namorados ciumentos que simplesmente não admitem uma mulher no bar com as amigas sem a sua companhia. Aliás, me sinto na obrigação de reforçar essa inquietante questão: por que os homens continuam a achar que tem mais direitos do que nós mulheres? Eles já não pagam mais as nossas contas, não criam nossos filhos e ainda se acham no direito de nos proibir de fazer algo que nos faz tão bem? E por que isso?
Creio que por simples e pura insegurança, mas eles jamais admitiriam isso, então, mulheres, não dêem ouvidos. Saiam sim com suas amigas, tirem um dia, uma tarde ou uma noite que seja para falar bobagens, dar risadas e esquecer dos seus compromissos, dos seus medos e daquele chato que vai estar te esperando com um bico enorme, mas tudo bem, você supera, igual a ele existem homens aos montes por ai, mas igual a você não, você é única.
Um cardiologista essa semana me disse que até uma panela de pressão precisa de uma válvula de escape e que eu precisava encontrar a minha, e sabe o que pensei no mesmo segundo? Eu já tenho a minha válvula de escape.
A minha melhor e mais segura válvula de escape é a minha liberdade. É ela quem me dá a possibilidade de concretizar sonhos, conhecer novas pessoas, tomar decisões, falar o que penso, sorrir e chorar sem censura, reunir as amigas verdadeiras e rir das piadas até o dia seguinte, sem medo de ser criticada.
Assim, deixo aqui essa sugestão, criem o seu “Dia das meninas (ou Meninos) Esporte Clube”, mas não se esqueçam de que a única regra inviolável para fazer parte deste grupo e que deve ser mantida sempre é ser livre...

sábado, 11 de abril de 2009

Toc, toc... Quem bate?


Lenita tem uma mania que a persegue desde criança. Na verdade, acho que é mais um defeito do que uma mania, mas como até hoje esse defeito perdura, creio que tornou-se parte de sua rotina, uma verdadeira e feia mania. Uma mania terrível de mentir.
Lenita sempre mentiu, mas mentia de um jeito que eu nunca tinha visto. Ela não mentia para a mãe ou os amigos, não mentia na escola ou no trabalho, ela mentia diariamente para ela mesma. Lenita mentia tanto que chegava a acreditar que suas mentiras eram verdades e a partir delas ia recortando pedaços de retalhos e costurando outros em sua vida. Tirava uma pessoa daqui, recortava um trabalho ali e ia costurando, cada coisa em seu lugar, cada pessoa fora do lugar, cada lugar dentro de uma pessoa.
Quando era criança adorava correr descalço pela grama verde, tomar banho de chuva e água bem gelada em pleno inverno. Até que um dia ela pegou uma dor de garganta daquelas e teve que tomar uma grande injeção, que a fez acreditar na primeira mentira. Daquele dia em diante ela mentiu para ela mesma que não gostava de andar descalço, nem de tomar banho de chuva ou água gelada. E repetiu essa mentira tantas vezes que acabou acreditando. Ainda hoje, ela não se dá esses pequenos prazeres, mesmo sabendo que a dor de garganta tem pouca ou nenhuma ligação com eles.
Quando entrou no colégio, ouviu uma história de que as meninas bonitas e vaidosas eram burras e que as meninas burras sempre acabavam sozinhas, sem namorados ou amigos. Ela tratou, então, de mentir para ela mesma que não era tão bonita e vaidosa, e mesmo hoje, vendo as garotas bonitas com muitos amigos e namorados, ela custa a acreditar que é bela, ao menos ainda crê na sua inteligência e preserva grandes amigos.
Certa vez, Lenita apaixonou-se muito. Um amor tão grande que parecia não caber no peito, fez planos, pensou no vestido de noiva, na cerimônia ao ar livre, nos cumprimentos, nos amigos e familiares reunidos, mas acabou por desmanchar cada arranjo do altar com as decepções que surgiram em seu caminho. Chorou rios de lágrimas e mais uma vez mentiu. Mentiu que não acreditava mais no amor, que não queria mais viver para sempre ao lado de alguém, muito menos se apaixonar. Mentiu tão forte que quase acreditou. Faltou muito pouco para Lenita nunca mais amar, foi quando recortava esse sentimento de sua vida e ali costurava um retalho cinza que foi surpreendida por um inquietante barulho:
- Toc, toc.
- Quem bate?
- É a felicidade!
- Felicidade? Até parece! Desde quando a felicidade bate duas vezes na mesma porta?
- Toc.
- Quem bate?
- Oras! É a felicidade! Posso entrar?
- Não me lembro de você, o que quer aqui?
- Vim te ajudar a costurar.
- A costurar? Mas essa colcha de retalhos é minha e de mais ninguém, gosto de fazê-la assim, sozinha.
- E até quando vai continuar achando que não precisa de ajuda para juntar seus retalhos? Pare de mentir para você mesma Lenita, me deixe entrar!
Lenita ficou sem respirar por alguns segundos e relembrou todas as mentiras, todos os sonhos desfeitos, os vidros quebrados, olhou os retalhos rasgados pelo chão, tesoura nas mãos e encontrou seu medo.
- Quem disse a você que minto? Eu não suporto mentiras! Já menti para você?
- Tantas vezes que até me afastei de você. Mentia sempre, para mim e para você. Mentia todas as vezes que buscava defeitos em você enquanto se olhava no espelho, todas as vezes que preferiu ficar sozinha por ter medo de arriscar, todas as vezes que deixou seus pré-julgamentos ditar suas regras e, principalmente, todas as vezes que privou-se de se apaixonar. Por que insiste em me afastar de você Lenita?
Lenita encostou-se na porta e pensou muito. Será que não era feliz? Mas que pergunta! Claro que era! Sempre foi feliz! Sempre foi a mais animada da turma, a piadista da família, sempre buscava manter o sorriso no rosto, claro que era feliz. É certo que às vezes ficava triste, sentia-se só, e para sentir-se melhor mentia para ela mesma. Será que a felicidade não entendia que as mentiras eram seus escudos?
Já havia escutado tanta mentira, já tinha se decepcionado tanto, com tanta gente que acabou entrando nessa onda também. Antes que alguém ameaçasse uma mentira, ela inventava uma mentira maior ainda, que a deixava segura por alguns segundos, e insegura pelo resto da semana.
Acabava pintando o homem mais romântico do mundo de um cafajeste, um conquistador barato, tudo por medo de se decepcionar. Fazia uma grande oportunidade de emprego parecer um serviço sem importância, com medo de mudar-se. E assim ela foi vivendo, mentia aqui, ali, costurava um retalho aqui, rasgava outro ali. Já estava acostumada com sua vida medrosa, pela metade. Não precisava de mais felicidade. Será que precisava?
- Como quer me ajudar a costurar? Meus retalhos acabaram.
- Pois te trouxe um retalho colorido, perfumado, que já te pertenceu, mas foi rasgado há algum tempo. Está remendado, com algumas marcas, mas continua belo e resistente.
- Que retalho é esse? Já tenho todos os que preciso aqui.
- É o retalho do sentimento mais nobre deste mundo.
- O retalho do amor?
- Esse mesmo. Deixe apaixonar-se Lenita! Vamos, me deixe entrar.
Lenita respirou fundo, não sabia se estava disposta a novos desafios, novas convivências e emoções. Não sabia se era a hora. Estendeu a colcha de retalhos no chão, e percebeu que faltava um retalho em seu centro. Olhou o retalho cinza em suas mãos, relembrou o passado, pensou no futuro e acreditou no presente.
- Toc.
- Quem bate?
- É a felicidade.
- Pode entrar. Entre e me ajude a costurar.

domingo, 5 de abril de 2009

Ilusões e blá-blá-blá


“Quando minhas filhas eram jovens, eu adorava levá-las na praia. Enquanto o pai delas dormia, eu as deixava sair para flertar. Sempre conheciam rapazes interessantes e diziam-se apaixonadas, demonstravam vontade de se casar, de ter filhos. Hoje, eu já não gosto mais de ir à praia, nem minhas filhas. Elas se incomodam com a areia e com a maresia. Estão separadas, sem filhos e nunca mais falaram de apaixonar-se. Acho que para mim um terço daquela ilusão acabou, mas para elas, muito mais”.
Ouvi esse relato de uma senhora de oitenta anos enquanto almoçava e me coloquei a pensar sobre muitas de minhas ilusões. Sobre todas aquelas que haviam sido concretizadas e todas as outras que se desfizeram neste um quarto de século.
Quando eu era criança brincava de casinha, sonhava em casar na Igreja, em ter filhos e em ser uma ótima dona-de-casa. Quando entrei na escola comecei a odiar os meninos e alguns desses planos se desfizeram. Eles eram chatos, quebravam nossos brinquedos e só sabiam jogar bola e nos colocar apelidos. Vivia correndo atrás deles com uma mochila cheia de cadernos nas mãos, com a intenção de surrá-los para valer.
Aos poucos o ódio tornou-se afeição e fazer amizade com os meninos parecia bem mais fácil do que com muitas meninas, invejosas e cheias de frescuras, que olhavam para o mesmo garoto e usavam mini-saia para conquistá-lo. Nessa época, as amigas eram raras, mas fiéis, do tipo que sabiam mais da sua vida do que você mesma e talvez por isso, sentiam-se no direito de escolher além do sabor de seu picolé, qual garoto deveria paquerar.
Na adolescência os sentimentos confundiam-se de tal forma que você era capaz de sentir o coração sair pela boca e suspirar toda vez que o professor de história entrava na sala e falava seu nome durante a chamada, do mesmo modo que sentia as pernas tremerem quando passava ao lado do garoto do terceiro ano, que nem sabia da sua existência, mas para você, isso não importava, a existência dele já lhe era mais do que suficiente.
É ainda neste período que os primeiros planos a dois começam a surgir, muitas vezes com o garoto do terceiro ano que nem imagina fazer parte deste sonho, mas isso não tem importância, pois, nessa época só se planeja, não se pensa em como cristalizar sonhos. E isso é tão bom! Você pode fantasiar estar casada, bem feliz, com filhos, numa casa linda, e com o garoto mais lindo do colégio, sem sequer se preocupar com as contas no final do mês, com a dor de barriga dos filhos, com seu excesso de peso após a segunda gestação ou com a careca do seu esposo. Você pode iludir-se à vontade, imaginar declarações de amor em público, rosas jogadas de um helicóptero, príncipes em cavalos brancos, tudo perfeito, lindo e sem problemas.
O problema é que quando você volta para a realidade, começa a pensar no quanto de tudo aquilo poderia tornar-se real e então perde “um terço da ilusão” ou mais. Perder um terço ou metade das ilusões não me parece tão preocupante, o que me inquieta é quando algumas pessoas chegam ao ponto de perdê-las por inteiro, e o pior, o fim de muitas ilusões dá-se frequentemente na fase em que teríamos maiores possibilidades de concretizá-las, com o perdão do neologismo, na “adultescência”.
Não acham que é muito triste mudar totalmente seus planos e deixar de sonhar por não ter conseguido comprar aquela casa linda, ou por não ter podido gerar um filho, ou ainda por que aquele garoto lindo do colégio nunca olhou para você? Pois é, mas isso acaba acontecendo constantemente e nas coisas mais simples do seu dia-a-dia, até que se torna rotina. Hoje você deixa de sonhar com o homem ideal, amanhã com o carro novo, daqui a um mês deixa de lado o sonho de ser mãe e logo em seguida o de dar a volta ao mundo em sete dias, e sabe o que isso significa?
Infelizmente tenho que dizer que você não deixou apenas de sonhar, deixou, sobretudo, de viver. Quando se perde o foco, o objetivo de nossos planos, passamos a ser meros coadjuvantes em nossas vidas, onde tudo está bom, nada precisa mudar, e só nos resta vê-la passar, de qualquer jeito, sem força para transformações ou novas ilusões. Escrevo esse texto, repetindo em voz alta cada palavra, pois tenho perdido muitas ilusões nos últimos tempos e isso é triste.
É hora de resgatar o restinho de esperança que ainda existe em cada ilusão e renová-las. É hora de relembrar o passado, criar o presente e planejar o futuro, sem medo de acertos ou erros, sem temor, apenas com uma vontade de dias melhores, repleto de novidades, de surpresas, de novos sons, gestos, gostos e prazeres.
Quando criança, os meninos quebravam nossos brinquedos, corríamos atrás deles com uma mochila nas mãos e lhes ensinávamos uma lição. Hoje, os homens partem nossos corações e nós os deixamos partir com nossa esperança em suas mochilas. E isso está certo?
Antes, quando o dono do bar da esquina te entregava uma bala a menos você reclamava e ganhava duas. Hoje somos roubados diariamente e não nos damos o trabalho de reclamar, pois isso requereria uma ação transformadora. Mas isso dá muito trabalho, não é?
Há algum tempo, quando colocavam apelidos em você, você bolava um bem pior para seu colega ou brigava com ele até ser levado à diretoria. Hoje, se te colocam apelidos ou te tratam mal, você vai para casa, tranca-se no quarto, olha-se no espelho e diz: será verdade?
Creio que já está na hora de voltarmos a nos indignar com todas as coisas e pessoas que se acham no direito de romper com nossas ilusões.
Crianças felizes não podem continuar se transformando em adultos amargos. Adultos infelizes não podem viver de lembranças da adolescência. Precisamos aprender a colocar pontos finais em nossas histórias, mas, sobretudo, virar a página e recomeçar a escrevê-las, com mais indignação, com novos planos, novas possibilidades e ilusões.
Vamos permitir que a esperança dos tempos de criança domine nossos dias, tardes e noites. Vamos consentir que o sorriso de sábado à tarde e o gosto do picolé de chocolate invada nosso coração diariamente. Vamos mais uma vez recomeçar, cair, sorrir, levantar, nos indignar e seguir em frente, sempre em frente.

sábado, 28 de março de 2009

Panela de pressão que cutuca o coração



Era tarde da noite e ela ali na janela, olhava ao redor e nada de encontrar o ponto de partida daquele barulho. Um chiado constante e repetitivo que a inquietava há dias.
Saiu no quintal, olhou para o céu escuro, observou as estrelas que lá pipocavam, tantas que quase o pintavam de branco. Sentou-se em um tronco encostado na porta e imaginou, criou histórias e personagens, criou coisas e mundos diferentes onde aquele barulho poderia servir.
Imaginou um trem em alta velocidade, um garoto brincando com um chocalho, pedras raspando no chão fofo, mas nada se aproximava do chiado. Olhou fixamente para as casas vizinhas, podia ver a luz dos lampiões e sombras em seus interiores, mas não encontrou nada que poderia representar aquele som.
O ar frio começou a incomodar e ela retornou para casa, foi até a cozinha, colocou um bule no fogão a lenha e olhou hipnotizada para as brasas em chama. Transportou-se para um mundo imaginário, passou por guerreiros e princesas, andou em charretes e ouviu sinos badalarem, viu reinos incendiados e despertou com o chiado novamente: chiii,chiii,chiii,chiii.
Mas que diabos! Pensou irritada. Chegou a imaginar que poderia ser uma cigarra prestes a trocar de “casca”, ou grilos em festa, mas nada se comparava ao barulho que já lhe deixava sem dormir. Todos os dias, no mesmo horário, lá se instalava ele, iniciava tímido e logo em seguida disparava alto e constante: chiii,chiii,chiii, permanecia assim por cerca de um quarto da hora e depois sumia devagar.
Na ânsia de ouvi-lo novamente, ela ficava ali, atenta, de olhos e ouvidos bem abertos quase a noite inteira na espera de seu recomeçar, mas era em vão. O som só se ouvia uma vez, no final da tarde, quase à noitinha, quando se preparava para, assim como as galinhas, repousar.
Depois de duas semanas nessa inquietude, enquanto fazia um café bem forte para segurar-lhe o sono, não ouviu mais o chiado. Saiu no quintal, olhou ao redor, limpou os ouvidos, arregalou os olhos e nada, nem grilos, nem cigarras, nem trens, nem sinos, nem charretes, nem chocalhos, só o silêncio. Denso, tenso e triste. Preocupo-se e quis chorar.
Ajoelhou aos pés da santa no altar improvisado e murmurava o terço enquanto pedia a volta do chiado: Minha santa mãezinha, não me deixe aqui tão sozinha, traz de volta aquele barulhinho minha santinha! Repetiu a oração até adormecer, acordou exausta e com a sensação de que nunca mais ouviria aquele som.
Banhou-se demoradamente, colocou a roupa de missa, usada somente aos domingos quando se dirigia até a capela na vila e, para lá foi. Antes de iniciar a novena, passou pela casa do coronel e pediu sua ajuda. Queria por demais da conta ter de volta aquele chiadinho no final da tarde para lhe fazer companhia, repetia o som bem baixinho para não esquecê-lo: chiii, chiii, chiii.
Como nada nessa vida vem fácil, ela teria que retribuir os serviços de busca do coronel, não tinha posses, mas cozinhava muito bem, era conhecida pelos doces caseiros e pães que eram vendidos na vila. Com as vendas arrecadou pouco dinheiro, mas foi o suficiente para o início da tão esperada busca, o restante da dívida seria quitado pouco a pouco com as encomendas de pães e doces feitas pela filha gorda do coronel.
Os peões e capangas que trabalhavam para o coronel entraram de casa em casa, sempre ao entardecer, faziam as pessoas retirarem tudo dos armários, repetirem em voz alta o som e buscar nos arredores da casa qualquer coisa que fizesse aquele chiado: chiii, chiii, chiii. Mas nada era parecido com o som que inquietava aquela moça.
Ao chegar a uma das últimas casas de sua vizinhança, descobriu ali um desconhecido morador. Rapaz alto, moreno, rosto sisudo, mas de sorriso largo que lhe abriu a porta e colocou-se a disposição para ajudá-la na busca.
Enquanto os homens do coronel vasculhavam a residência, os dois sentaram-se na simples cozinha e prosearam longamente. Ela soube que ele havia passado muito tempo fora do estado, onde havia conhecido pessoas e coisas novas e voltara para continuar seu ofício em paz, dizia-se inventor. Ela interessou-se muito pela conversa, talvez mais pelo moço do que pela prosa, mas ali, atenta, despediu-se dos capangas e continuou a prosear.
A noite quase se aproximava e ele lhe mostrou diversas invenções, algumas que a ela não faziam o menor sentido, mas encantada com a eloqüência do rapaz, com seu sorriso e simpatia, ficou ali, escutando atenciosamente cada palavra, de vez em quando soltava um sorriso tímido e dizia: que engraçado, ou que interessante.
Quando já se aprontava para voltar para casa ele lhe pediu que aguardasse um pouco mais, ainda restava uma invenção, a melhor delas segundo ele. Entrou em um pequeno quarto e de lá saiu com uma panela de ferro redonda em uma das mãos e na outra uma tampa bem esquisita.
- Sabe o que é isso?
Ele deve estar de brincadeira, ela pensou.
- Claro que sei, é uma panela.
- Não, não é uma simples panela, ela é uma panela mágica.
- Mágica? Como mágica?
- Quanto tempo você demora para cozer algumas espigas de milho?
- Creio que quase duas horas.
- Pois é, com essa panela você conseguiria isso em poucos minutos.
Ela sorriu e disse:
- Acho que você começa a imaginar coisas.
- É verdade! Tenho utilizado essa panela há duas semanas para cozinhar milhos e mandiocas. Parei nos últimos dias, pois havia acabado a lenha, mas hoje posso mostrar-lhe.
Ela sentou-se calmamente e em seus pensamentos dizia: coitado, tão lindo e insano. Que desperdício!
Ele encheu a panela de água, colocou as espigas de milho dentro dela, lacrou com a tampa e sentou-se ao seu lado. Ficaram ali por uns dez minutos, observando a labareda que se fazia abaixo da panela.
Em poucos minutos a panela começou a soltar fumaça por uma das válvulas presas na tampa, e logo em seguida um som, que para ela era muito familiar: chiii,chiii,chiii.
Ela sorriu admirada, levantou-se da cadeira e começou a saltitar pela cozinha. Ele, sem entender nada, sorriu e questionou o que havia acontecido. Ela não lhe disse nada, o abraçou e com ele rodopiou por toda a casa, ao som daquele chiado que havia lhe tirado o sono e a inquietado por tantos dias.
Ela nunca mais se afastou dele, casaram-se e ela tornou-se uma quituteira famosa, ele continuou a inventar coisas, mas a panela nunca saiu daquela cozinha, era colocada para chiar todos os dias no mesmo horário, momento em que deixavam os afazeres de lado, e dançavam pela casa ao som do: chiii,chiii,chiii, daquela panela de pressão que por toda a vida cutucou seu coração.

domingo, 22 de março de 2009

Fast Cliente?


Domingo é sempre dia de preguiça, dia de pensamentos e movimentos lentos, dia em que você se levanta com sono e com a sensação de que alguém roubou seu final de semana. É quando você pensa que felizmente tem o dia todo para ficar sem fazer nada, mas que infelizmente no dia seguinte a rotina irá te devorar com suas garras e sermões.
Domingo é sempre assim. Você pode dormir até tarde, acordar, cochilar um pouco mais e esperar um convite para almoçar. Acontece que algumas vezes o convite se perde nos cinco minutinhos a mais de sono e para saciar seu estômago, que já está dando sinais sonoros de fome, te implorando um almoço bem caprichado, cabe a você tirar suas amigas da cama mais cedo do que elas gostariam e, finalmente, ir almoçar.
Outro fator importante a ser definido é o local. O ideal seria o serviço na cama, em meio aos travesseiros e a vontade de dormir um pouco mais, mas como isso ainda não é possível, sugeriu-se um local tranquilo, com ar condicionado, onde se pudesse comer sem pressa, e já que a fome sempre é muita, que a comida, fosse boa e chegasse rápido. Essas características foram suficientes para definirmos a opção: restaurante fast food, de comida italiana, com garantia de atendimento rápido e com qualidade, o ideal para três moças famintas e preguiçosas.
Local arejado, com ar condicionado, uma mesa perto da janela, vista para a rua, céu azul, crianças brincando na calçada, balões coloridos, famílias reunidas, cheiro de macarrão e de domingo na casa da avó, tudo muito calmo até que se aproximaram os garçons.
Muitos, muitos garçons, iniciantes, experientes, simpáticos, quietos, falantes, falantes, falantes, lentos, ágeis, ágeis, muito ágeis. O excesso de garçons nos fez achar que estávamos em um almoço de negócios em plena segunda-feira.
Mal sentamos e já se aproximou um com o cardápio, tivemos tempo de abrir a carta de opções e após folhear a primeira página já surgiram outros dois garçons para anotar o pedido:
- Com licença, já escolheram?
- Não, acabamos de sentar.
Tudo bem que a rede fast food prevê um atendimento rápido, mas queríamos pelo menos o sossego de domingo de volta, para podermos escolher com calma o almoço.
Cinco minutos depois e ele voltou:
- Posso anotar o pedido?
Se disséssemos que não, ele acabaria escolhendo por nós, então fechamos os olhos e apontamos o cardápio:
- Um suply al telefono para ela, uma empada de palmito para mim, outro desse para ela. Uma salada e três massas. Anotou?
- Confirmando: um “suplico telefônico” (não, ele, não disse isso, mas soou mais ou menos assim) para você, um desse para ela, outro desse para aquela, uma salada e três massas, é isso?
- Sim, é isso.
O garçon vira-se, sorrimos e começamos a melhor parte do almoço de domingo: a fofoca. Espaço aberto para compartilhar acontecimentos da semana inteira, para as risadas e para as observações alheias, espaço brutalmente invadido por outro garçon que trouxe as bebidas.
Retomamos o assunto, que mais uma vez ficou sem conclusão, pois se aproximou outro garçon com a salada. Desistimos de falar e decidimos comer. Última garfada da salada e brota um garçon do chão:
- Posso tirar os pratos?
Quase engasguei com a agilidade do rapaz. Nem tinha acabado de mastigar e ele ali, plantado ao meu lado.
Não será novidade dizer que as massas chegaram em menos de dois minutos, ao som da marcha dos garçons e dos gritos de: rápido, coma rápido, rápido, mais rápido, que já haviam invadido nossa mente. Enquanto comíamos um dos gerentes se aproximou e disse:
- Será que podem me ajudar?
Fiquei confusa nesse instante, geralmente é o oposto, eles é que perguntam se podem nos ajudar, mas enfim, nem tivemos tempo de responder e ele disparou a falar, falou, falou e finalizou com a entrega de um questionário de avaliação do atendimento.
Será que ele imaginou que éramos críticas de alguma revista de gastronomia famosa? Será que era por isso que todos os garçons pareciam estar apenas nos servindo?
Pelo sim, pelo não, preenchemos o formulário e como sugestão colocamos a redução do excesso de agilidade, do excesso de atenção, do excesso de rapidez, que nos deixou totalmente desconfortáveis, do exagero de perguntas e ofertas que nos fez perder o apetite e ter crises de ansiedade.
Cinco minutos após a entrega da avaliação, surge outro gerente e começa a justificar-se pelo atendimento, e depois dele outro responsável, e mais um, concluímos que até para desculparem-se pelo excesso eles costumam se exceder.
Algumas risadas para descontrair e logo em seguida, a sensação de estarmos cheias. Cheias de tantas perguntas, de tanta conversa, de tanta explicação. Olhamos ao redor e era nítida a rotina fast do restaurante. Correria dali, pedidos daqui, pessoas devorando sua refeição sem nem olhar para a frente ou para o lado, clientes já adaptados ao ritmo fast do lugar.
Creio que domingo não seja um bom dia para almoçar em locais deste tipo, a menos que nos assumamos como “fast clientes”, assim, talvez, seja possível superar a agilidade dos garçons e ter um tempinho para reclamar do atendimento demorado, fazendo uma piadinha do tipo: Arrá, te peguei! Acabei esse refrigerante há 2 minutos e você não me ofereceu mais nada!
Sei que no final do almoço já não estávamos mais com preguiça, nem com vontade de dormir, mas também não queríamos mais falar.
Tanto blá-blá-blá dos garçons e gerentes, nos fez perder a vontade de fofocar e a melhor parte do almoço de domingo tornou-se a saída do restaurante, onde pudemos olhar umas para as outras e dizer:
- Escuta...Ufa! Que silêncio...
Creio que da próxima vez não seja uma má idéia perder a preguiça e fazer almoço em casa, lá, pelo menos, as fofocas e risadas fluiriam. Que mundo maluco, não? Nem para almoçar no dia mais preguiçoso da semana se tem sossego...

domingo, 1 de março de 2009

Êta coração burro!




Depois de mais uma vez me declarar, dizer o que meu ingênuo e burro coração pedia, e novamente não ser correspondida, comecei a pensar em que tipo de relação existe entre a loucura, a culpa e o fim de um relacionamento. Particularmente, acredito que as três coisas se entrelaçam profundamente com uma quarta, a acomodação.
A loucura deve ser entendida como o ápice, o início de tudo, aquele ponto de partida que muda completamente nossas vidas e consequentemente a vida das pessoas que abraçamos pra viver a intensidade de um momento, muitas vezes, insano.
Pensando nisso, um impulso negativo, pode levar as pessoas a cometerem loucuras cruéis, desumanas e inacreditáveis, como por exemplo, comer aquela última colher de brigadeiro antes de avisar aos presentes que o doce se findara, ou ainda dizer-se apaixonado por alguém sem realmente sentir isso do fundo do seu coração.
Eu mesma já cometi essas loucuras algumas vezes e garanto a vocês que até hoje não me arrependi. Primeiro porque o brigadeiro estava mesmo uma delícia e porque eu lavaria a louça no final, então merecia esta recompensa. E segundo porque naquele momento acreditava mesmo estar apaixonada. E acho que é aqui que encontramos a relação entre os conceitos sugeridos acima.
Quando acreditamos realmente em algo, aquilo se torna tão forte que vira verdade, pelo menos pra nós. É como se naquele instante o seu sentimento fosse o maior do mundo e, pode apostar que ele era, porque era o único que você sentia. A intensidade era provocada por sua vontade de querer dar certo e pela forma como isso poderia trazer mudanças significativas no seu dia-a-dia.
Creio que funciona mais ou menos assim, o primeiro passo para mudar sua vida solteira para uma em união estável, é acreditar que isso pode acontecer, o segundo passo é querer que isso aconteça, e o terceiro, mais difícil, é encontrar alguém que compartilhe do mesmo desejo que você – o que no caso de mulheres heterossexuais torna-se praticamente irrealizável, pois precisamos encontrar isso tudo em um homem!
Pois bem, digamos que você encontrou essa pessoa disposta e que ela se mostre mesmo muito afim de que as coisas se ajeitem, o que você faz? Estraga tudo perguntando, no primeiro encontro, quantos filhos ela gostaria de ter, e se já pensou em algum nome. Pronto. Você acaba de deixar seu pretendente em estado de alerta, com um pé na frente e dois atrás.
É aqui que entra o conceito de culpa. Antes que comecem as críticas, quero ressaltar que não estou dizendo que nós mulheres somos as culpadas pelo fim dos relacionamentos, mas que muitas vezes não deixamos nem que eles se iniciem, com questionamentos inseguros, ilusões adolescentes, planos imaturos e principalmente, por depositarmos grande expectativa em uma pessoa que nunca se interessou nem por saber seu sobrenome.
Ok, ok, eu sei que nós mulheres costumamos perguntar, planejar e principalmente falar mais dos nossos sentimentos, creio que com a intenção de cristalizar nossos planos, inclusive e principalmente pra nós mesmas, e digo que falamos mais porque os homens também pensam nisso, só que guardam para eles, e resgatam só quando acham ser realmente a hora certa, e neste momento geralmente a frase soa mais ou menos assim: “Você gostaria de se casar comigo?”. E termina com um: “Sim”, em algum altar por ai ou diante de algum juiz de paz.
E é aqui que entra o quarto elemento, a acomodação. A acomodação dos homens em um relacionamento dá-se depois dele estar muito cristalizado, mais ou menos depois da lua-de-mel ou para alguns, depois das bodas de ouro. Para as mulheres não, basta um sorriso, um buquê de rosas, um afago, um: “eu também”, depois de verbalizar um: “eu te amo”, para que ela sinta-se a mulher mais feliz do mundo e acredite que encontrou o homem de sua vida. É quando ela começa a fazer planos e a desconsiderar os piores defeitos, injustiças e indiferenças daquele homem.
E isso, muitas vezes é inconsciente. E digo isso, por mim mesma. Finalmente, hoje, caiu a ficha da ilusão que estava vivendo há quase um ano. Entre idas e vindas, lágrimas e risos, despedidas e boas vindas, encontrei minha acomodação e felizmente, o fim de um relacionamento que existiu por todo esse tempo só aqui, dentro de mim.
Percebi que é muito mais fácil, dizer-se apaixonada por essa ou aquela pessoa e não ter que olhar para os lados. Mesmo que o cara por quem se diz apaixonada não esteja retribuindo esse sentimento, só o fato dele não te deixar “livre” já é o suficiente para você alimentar uma ilusão e construir sonhos, planos e imagens de um futuro que nunca vai existir, porque além de você, ninguém mais quer cristalizá-lo.
Engraçado que comecei a escrever este texto na primeira desilusão deste relacionamento, há uns dez meses, e hoje, me deparei com as frases inacabadas e encontrei essa resposta.
Louca ficaria se me deixasse acomodar por mais um dia nesse relacionamento. Culpada seria da minha loucura. Acomodada seria deixando de viver um dos mais belos e nobres sentimentos que conheço.
E é isso. É o fim. Finito! Enfim livre, sem culpa, sem loucura ou acomodação. Livre para esquecer e recomeçar. Livre para gostar de quem gosta de mim... Isso, é claro, se esse coração burro permitir...