Bem, como dizia na semana passada, existem coisas simplesmente inacreditáveis e imprevisíveis. Há quem diga que consegue planejar seus dias e prever o futuro, a eles diria com garantia que deveriam abrir algum negócio, pois com certeza seria lucrativo, visto que a única coisa certa nesta vida é a morte e nem isso pode ser planejado.
O estrago no veículo foi grande. Depois de chegarmos ao local e verificar o tamanho do prejuízo foi hora de começar a pensar em providências. Olhei em volta e não vi sinal de polícia, as viaturas que vivem rondando o quarteirão passaram bem longe naquela noite chuvosa, o jeito era acionar um veículo:
- Polícia Emergência.
- Boa noite, aconteceu um acidente de carro e gostaria de fazer um Boletim de Ocorrência.
- O acidente foi entre dois veículos senhora?
- Mais precisamente três, um carro bateu e acertou dois veículos estacionados.
- Existem vítimas no acidente, senhora?
- Não.
- Nesse caso o B.O. pode ser feito na segunda-feira a partir das seis horas da manhã, mais alguma dúvida?
- Todas! A dona do veículo que sofreu a batida não é daqui, ela precisa acionar o seguro, fazer o B.O. hoje, não pode mandar uma viatura ao local?
- Não senhora, este serviço fica disponível a partir de segunda-feira, só mandamos viatura se tiver vítima.
Na mesma hora pensei, logo vai ter uma aqui, minha amiga vai enfartar e eu junto. Sem saber mais o que falar, passei o telefone pra minha amiga e disse:
- A polícia não vem, o B.O. só na segunda.
Ela ainda tentou insistir, mas como viu que não teria sucesso o jeito foi tentar amenizar o prejuízo falando com jeitinho com o motorista maluco:
- Você está bêbado?
- Claro que não moça!
- E como você conseguiu a proeza de acertar meu carro ali, estacionado, você colocou meu carro na calçada!
- Eu tive que desviar de uma moto, e ai perdi o controle, moça, mil desculpas.
- Você tem seguro?
- Não.
Danou-se. Pronto, agora sim a confusão ia começar a tomar corpo. O Zé mané não dispunha de seguro, nem de sorte porque acertou os dois carros de uma só vez, sendo o alvo principal o carro da minha amiga.
Depois de muita explicação e conversinha avistamos a chegada dos agentes de trânsito, preocupados com a liberação da rua, visto que o carro havia ficado atravessado, atrapalhando a passagem. Nem quiseram saber de quem era o prejuízo. Perguntei a um deles sobre a história de não poder fazer BO nos finais de semana e a informação foi confirmada, depois vi enquanto perguntavam ao motorista como havia conseguido acertar dois carros ao mesmo tempo, naquela reta, mas mais uma vez o mistério pairou no ar...Acho que ninguém nunca vai saber exatamente o que aconteceu.
Bom, depois de tirar o carro do meio da rua, foram todos os agentes de trânsito embora e lá ficamos, eu, minha amiga e uma segunda amiga que veio tentar manter o controle da situação (aliás, ela fez ótimas fotos da batida que podem confirmar essa história que parece mentira, diga-se de passagem).
Depois de quase uma hora no telefone com a empresa do seguro, minha amiga conseguiu o envio de um guincho para que o carro fosse levado até a cidade dela. Nessas horas é que vemos se o serviço realmente funciona, o que ela comprou aparentemente era mesmo “seguro”, afinal, tudo pareceu correr bem.
Seguro acionado, restava fazer o acordo com o motorista que deve ter tirado carta em algum carrinho de batida de parques de diversões e esperar o guincho chegar. O motorista parecia apesar de Mané, ser de boa fé e estava disposto a colaborar com o que fosse preciso, então fui logo ao que interessava:
- Me empresta seu RG, preciso anotar seus dados.
- O número é tal, tal, tal.
- O senhor não entendeu, eu quero ver o número do RG e a Carteira de Habilitação.
- Por quê? Você não confia em mim?
- Ah! Mudou?!
- O quê?
- O senhor bate num carro estacionado, não tem seguro e eu tenho que confiar em você? Nós nem nos conhecemos, o mínimo que o senhor faz é passar todas as informações.
Depois dessa ele entendeu que estávamos dispostas a encerrar logo aquela confusão, passou nome, telefone, endereço, placa do carro, documento, tudo e ficou nos atormentando com um discurso que estava mais para filosofia de bar do que desculpas sinceras.
Mas o resto desta história eu conto na próxima semana, ao apresentar o último capítulo que infelizmente não foi o da novela, mas teve um final bem atípico, muito diferente dos que se costuma ver nos folhetins.
Ilustração: O estado caótico - J. Victtor. Disponível em: http://blog.jvicttor.com.br/2008/12/12/o-estado-caotico/




