Vote aqui! :)

domingo, 16 de janeiro de 2011

O silêncio é uma prece...


Confesso que nunca acreditei que o fim pudesse ser sinônimo de um recomeço. Geralmente os finais são cheios de decepções ou daquele gosto de quero mais que custa a sair da boca.
Fechei recentemente um ciclo em minha vida e imaginei que encontrar uma nova saída demoraria meses, quiçá anos, mas desta vez não.
Sinto-me leve como há tempos não me sentia, estou comigo apenas e percebo que isso já me basta.
Chego a transbordar de calma e contentamento nos últimos dias e por vezes me pego surpresa perguntando: Para onde foi toda aquela insatisfação? Para onde foi a preguiça e a falta de vontade de ir trabalhar? Para onde foi o sono pesado que me impedia de fazer qualquer coisa e insistia em me arrastar para a cama?
Para onde foi meu mau humor e a impaciência que entoaram tantas discussões no último ano e aquela tristeza sem causa que ia e vinha sem prévio aviso? Para onde foi meu medo de recomeçar e aquela vontade de desistir de tudo?
Perguntas, perguntas e mais perguntas... todas sem resposta. Sem por que e nem pra quê. As respostas neste caso não importam. O que vale mesmo é a transformação e esta se deu por inteiro.
Ganhei uma tela novinha, em branco, onde posso rabiscar minha nova história de qualquer cor, sem medo de faltar espaço ou das cores não se encontrarem.
Tentei por alguns instantes, mas não consegui me lembrar da última vez que havia ficado sozinha e acordada no meu apartamento. Geralmente usava todos meus minutos para dormir e achava mesmo que estava fazendo um ótimo negócio.
Hoje, fiz questão de abrir a cortina da sala para observar a chuva. Deitei no sofá, agora com nova cor, desliguei a televisão, o computador e fiquei ali, no silêncio comigo e ninguém mais.
Para minha surpresa não me senti sozinha. Senti-me serena, em paz, capaz de qualquer coisa para me sentir assim para sempre. No silêncio dos meus pensamentos percebi que algumas coisas e pessoas me atormentavam e que a paz que sempre busquei, dependia apenas de mim.
Retirei da estante um livro ainda embalado, comprado há anos e que nunca havia sido folheado. Iniciei o primeiro capítulo e adormeci tranquila, com as letras nas mãos e o barulho da chuva lá fora.
O medo de não conseguir encarar a solidão foi infundado. O silêncio me abraçou forte, como uma prece e, desta vez, não me fez chorar.
Com certeza é o recomeço do fim. Um fim doloroso, triste, mas que me despertou para algo que havia me esquecido: “quem procura se completar no outro, está vazio de si”. A felicidade, aquela plena e contínua só pode ser compartilhada com alguém depois de cultivada e regada internamente.
Dias felizes! Dias silenciosos, sem culpa ou barulho é o que desejo a todos nós, pois é assim que me sinto hoje neste silêncio: Feliz, simples assim!










domingo, 9 de janeiro de 2011

Cada acorde em seu lugar...


Nunca imaginei dizer isso logo no início do ano, mas por ironia do destino ou simples conspiração do universo, as promessas de um Ano Bom que eu imaginava nunca iriam se realizar, já começaram a se cristalizar antes mesmo da virada do ano.
Fazia tempo que não me sentia tão viva, tão em paz, tão amada e tão capaz de amar. Um vento leve soprou no meu ouvido que para ser feliz eu só precisava querer e foi querendo que abri espaço em muitos caminhos e me encontrei onde menos esperava.
Ainda estou me acostumando a esta sensação de felicidade plena. Uma alegria tão intensa que é capaz de transpor barreiras e me fazer rir depois de horas de lágrimas ao me ver com o dedão do pé todo enfaixado em plena virada do ano.
Uma vontade tão forte de estar comigo, seja aqui ou acolá, que me faz gargalhar com as histórias mais simples e me mostra que levar uma criança para brincar no parquinho da praça pode me trazer um prazer indescritível.
Estou feliz sem cobranças, sem a imposição de que é preciso ser feliz. Minha felicidade extrapola o limite do querer. Uma harmonia tão interessante que me fez arrepiar por inteiro ao final da oração de ano novo, naquele círculo de mãos dadas com pessoas tão queridas.
Um sorriso que não cabe mais na boca, capaz de eliminar todos os medos e angústias. Capaz de curar todas as feridas e dizer ao tempo: Desta vez superei seu poder de curar feridas... Um sorriso que surgiu contagiante ao ver os fogos de artifício pintarem o céu negro, enquanto o Cristo redentor de braços abertos também parecia gritar “viva” ao ano que se iniciava.
Fui invadida por uma onda de amor que não me dá medo. Um amor que vagou perdido durante anos e hoje se apresenta maduro, forte e prático. Já não penso mais no futuro, no que pode vir a ser, apenas vivo o hoje, o presente, tão colorido quanto papéis de embrulho dos presentes de Natal.
Fiz as pazes com o espelho, com meu corpo e todos seus quilos a mais, com meu espírito e todas suas angústias, com meu coração e toda sua insegurança. Não quero ser outra pessoa, preciso apenas continuar me encontrando, ser eu mesma e neste caso a cada reencontro poder dizer: você me surpreendeu, você está bem, muito bem mesmo...
A canção já não desafina, os acordes se encontram em música e já não me canso de ouvir repetidas vezes aquela letra que me fez acordar para a vida, para a minha vida. Que se dane a moda e o vício pela estética, a revolução da beleza neste caso é interna, é duradoura e não vai cair nem enrugar com o passar dos anos.
Não devo isso a uma pessoa apenas, mas a todas aquelas que me fortaleceram nos últimos tempos. Que me mostraram que sou livre e independente, sensível e engraçada, inteligente e bonita, deste jeitinho aqui, sem tirar nem pôr. Devo isso ao amor que me energizou as férias inteirinhas. Quantos amigos conquistei nesta caminhada, que família doce Deus me deu... E esse novo amor que me invade e me faz perder o chão, que coisa mais estranha e maravilhosa!
Amor que para alguns pode ser contínuo, para outros passageiro e que para mim tem sido sublime. O meu amor, o amor-próprio que descobri tenho e nunca mais vou deixar escondido dentro de uma crítica qualquer ou de um olhar mal humorado.
Dias repletos de amor é o que desejo a todos nós! Daquele amor puro, forte e contagiante que pode vir dos outros, mas também pode brotar bem ai, dentro do seu peito...
Ilustração de: Gabriel Vicente.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Promessas de um Ano Bom...


Confesso que não estou muito animada para as comemorações de passagem de ano, é claro que sempre é bom festejar e, estar com amigos e família nesta época torna tudo mais fácil, contudo o que me assusta não são as comemorações em si, mas as promessas para o ano que se inicia.
Sei que uma promessa pode simplesmente não ser feita e então com isso não teria que me preocupar, mas sem promessas quais seriam os primeiros passos de um ano que eu desejo e espero seja bom?
Poderia enumerar uma lista com mais de cem promessas para 2011, mas que significado teria isso para você? Creio que nenhum, pois as promessas não são nada mais do que autoconhecimento e reflexão interior.
Se você pede para ficar dez quilos mais magra é porque sabe que está acima do peso. Se pede um namorado novo é porque está sentindo-se sozinha. Se pede um emprego é porque sabe que não é possível viver em um sistema capitalista sem um tostão no bolso e assim vai...
O legal da promessa é que ninguém pode cumpri-la por você. E isso pode ser muito negativo, se considerar que frequentemente não é possível cumprir nem dez das cem promessas listadas, fato que nos causa um desânimo tão grande que pode se arrastar até o final do ano. Por outro lado, se só você pode realizá-la, seu caminho está em suas mãos e de mais ninguém, e então poderá fazer tudo do seu jeito, sem pressa nem aflição e isso é muito interessante.
Creio que o desespero e descrédito das promessas de início de ano são causados, pois as pessoas não sabem prometer. Geralmente prometem com contrapartida e isso nunquinha funciona. Eu prometo ser uma boa menina se conseguir comprar aquele carro zero. Prometo parar de fumar se encontrar o homem dos meus sonhos. Prometo fazer regime se conseguir uma promoção no trabalho e assim por diante.
Promessas deste tipo estão fadadas ao fracasso. Da mesma forma quando condicionamos sua realização a outras pessoas. Geralmente as pessoas lançam expectativas nos outros e isso é tão comum que muitas vezes é inconsciente, contudo quando não têm seus objetivos alcançados colocam a culpa no mundo e na conspiração do universo, mas nunca em si.
Oras, mas ninguém vive sozinho neste planeta e é impossível não envolver pessoas em nossos sonhos! É claro, concordo plenamente, mas não podemos fazer das pessoas nossos sonhos, isso é um erro grave e irreversível.
Então meus queridos, quando o relógio badalar o início de um novo ano, não olhe para os lados ou para cima, olhe para dentro de você e tente descobrir qual seu maior desejo, qual sua ambição, qual seu sonho e então feche os olhos e prometa com toda sua força ser feliz!
A felicidade é capaz de contemplar todas as promessas, mesmo aquelas mais esquisitas. Viver intensamente e não apenas por viver, viver por você e não por alguém, sorrir de você e não para alguém, amar você e não apenas alguém é muito mais importante que qualquer lingerie colorida, que pulinhos na praia e sementes de romã.
Dias felizes e coloridos em cada minutinho de 2011 é o que desejo a todos nós! Sejam eles repletos de promessas ou apenas vividos dia-a-dia, um minuto por vez...


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Enquanto o Natal não vem...


Estar de férias na época do Natal chega a ser estranho. Fazia muito tempo que não aproveitava a véspera das comemorações natalinas. Geralmente o Natal chegava em um sopro, na correria das rodoviárias, estradas carregadas e malas cheias.
Desta vez não. As férias me permitiram chegar mais cedo. Observar as luzes que surgiram aos poucos, tímidas de início, mas capazes de hipnotizar qualquer transeunte.
A noite da pequena cidade está mais colorida. Árvore de Natal na praça central, casa do papai-noel, auto de natal, iluminação em alguns prédios públicos e promoções, muitas, em todas as lojas. Um convite ao consumo e à manutenção da tradição natalina da troca de presentes.
Um olhar desatento, no entanto pode buscar o espírito natalino e não encontrá-lo. Para alguns o Natal não passa de marketing, época de maior lucro para o comércio e de desespero para os pais que parcelam em dez vezes o presente esperado pelo filho ou lhes escrevem cartinhas ao papai-noel na ânsia de ter seu pedido atendido.
Na televisão tudo lembra o Natal. Filmes cheios de neve e luzes coloridas. Famílias em pé de guerra que com um passe de mágica voltam a se entender graças ao milagre do Natal, do dito espírito natalino.
Tanto alvoroço para tudo acabar em uma mesa repleta de quitutes e em uma árvore cheia de presentes, isso é claro nas famílias que podem possibilitar isso aos seus. Para as demais será apenas mais uma noite, triste provavelmente e que se fará passar rápido em busca de um ano novo mais próspero, mais feliz.
O menino na manjedoura nem sempre é lembrado, tem sido substituído pelos bonecos de neve e pelos papais-noéis vestidos de qualquer coisa. Orações à meia-noite são substituídas por canções natalinas e brindes com espumante. E é assim que tem sido o nosso Natal.
Enquanto o Natal não vem tenho buscado o espírito natalino aqui e ali. Programando alguns sorrisos, muitas vezes por meio da oferta de presentes e olhando mais para lá do que para cá.
Afinal, estar de férias é ter tempo de encontrar o Natal antes mesmo do dia vinte e cinco de dezembro. E foi assim que percebi que o dito espírito natalino só pode ser encontrado nas pessoas, já que as coisas não o mantêm.
Estar com amigos verdadeiros, abraçar a família e ganhar um cafuné nos dias de tristeza é alimentar o espírito de Natal. Ele só existe se for cultivado, no dia-a-dia, em cada bom dia, nas histórias de final de semana e no céu azul de cada manhã. Harmonia do dia para noite só nas telas de cinema, não há espírito de natal capaz de transformar ódio em amor, rancor em carinho com uma música de Natal e um ho-ho-ho, depois do último badalar da meia-noite.
Descobri que o Natal está dentro de mim. Nem sempre alegre, nem sempre com boas lembranças, mas forte o suficiente para trazer paz, luz e um olhar colorido para as árvores da cidade.
Tive o prazer de ouvir um coral logo no meu primeiro dia de férias na pequena cidade. Para minha surpresa não foram apenas músicas de natal, mas quem foi que disse que o Natal não está em todas as músicas?
O cenário foi um antigo mercado municipal, com suas paredes brancas e o chão encardido. Cadeiras enfileiradas e um palco modesto logo à frente. Não havia muito público de início e tão logo entrei no local pensei: Mas nem uma luz decorativa? Nem um tapete no chão ou uma cortina nas janelas?
Fiquei à espera de uma apresentação comum, mais uma entre tantas outras que já havia presenciado e teria sido assim se o Natal não estivesse no coração dos coralistas.
Uma música atrás da outra invadindo minha alma. Trazendo sorrisos, lágrimas e uma vontade de ficar ali envolta por aquela energia o tempo todo. O espaço se encheu de luz, nem foi preciso decoração, cada azulejo foi iluminado pelos olhos brilhantes dos que cantavam e encantavam.
Uma senhora de cabelos brancos, toda maquiada e com um colar de pérolas no pescoço me chamou a atenção. Cantava feliz, sorrindo, com um prazer tão grande que pensei: Quando crescer, quero ser assim...
Bendito Natal que nos proporciona estes momentos de paz e alegria. Benditos artistas anônimos que nos fazer sorrir e chorar com suas vozes e sua vontade de cantar. Bendita cidade que me trouxe a paz de volta enquanto o Natal não vem.
Dias repletos do espírito natalino a todos nós, antes, durante e depois do Natal, é o que desejo, pois o Natal só persistirá se for cultivado o ano todo, em cada história contada, em cada sorriso dado, em cada prece ofertada a cada um de nós...
Ilustração de: Gabriel Vicente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

De tanto, restou tão pouco...


Abri os olhos e tudo estava cinza. Apesar do céu azul lá fora e do sol com seus raios amarelos invadindo meu quarto pela janela.
Fiz questão de me beliscar para ver se a cena era real, olhei em volta e reconheci meu quarto e a escuridão que havia permanecido desde a noite passada. Não, não era um pesadelo.
Um vazio me consumia. A falta na lembrança que se fazia presente em todos os cômodos, nos móveis e até na vista da janela.
Tudo cinza. Como fotos queimadas em uma fogueira no fundo do quintal. Como fuligem que se esvai com o vento soprando daqui e dali e manchando tudo o que vê pela frente.
A verdade é que o cinza nunca foi minha cor predileta. A verdade é que quando vejo tudo cinza é porque algo foi queimado dentro de mim.
Sonhos, planos, esperança, risos e promessas. Juras de amor, abraços apertados, passeio de mãos dadas, serenata, pôr-do-sol na beira do mar. Tudo cinza, tudo envolto por um véu de fumaça que me causa enjôo.
Não tenho respostas, nem certezas. Fui consumida pela confusão. Eu te amo, mas preciso pensar. Você é muito especial para mim, mas preciso ficar sozinho. Você é uma pessoa maravilhosa, mas...
Mas... sempre o mas. Sempre o talvez, o quem sabe. Um pedido de desculpas e a sombra invadiu meu mundo novamente.
Desculpe-me. Um erro? Tudo não passou de um erro? Desculpe-me por tê-la magoado. Mágoa. Antes fosse só mágoa. O que dói mais é a incerteza, as perguntas sem respostas.
Parece que o companheirismo se findou. Como se agora que estivesse andando com as próprias pernas nada do que aconteceu tenha tido valor. O apoio nas horas difíceis, o choro nas horas de decisão, o colo nos dias de tristeza e o incentivo para que caminhasse sozinho. Nada teve valor, não significou nada?
Tudo, nada, tão pouco, muito pouco... Não sei, creio que jamais saberei. Só sei que uma tristeza pronfunda me consome e começo a refletir se realmente é impossível morrer de amor... Realmente ninguém morre de amor, mas e da falta dele?
Não chore. Deixe-me chorar até cansar, lavar a alma, o riso e os gestos. Você vai ficar bem? Com certeza ficarei. Cedo ou tarde, tarde demais ou tão cedo a ponto de me causar espanto.
Vou me recompor, recobrar meu orgulho e seguir. Já passei por isso outras vezes. Vou sobreviver. Sou forte, frágil, corajosa, medrosa. Chega de lágrimas. Chega de incerteza. Vou gostar de quem gosta de mim. Vou gostar de mim, isso basta.
Chega de blasfêmias, de ilusões e blá-blá-blás, quero ser feliz para sempre. Desta vez sozinha. Comigo, para mim, por mim e apenas isso.
O que me entristece não é a falta, já que o tempo com certeza vai curar mais esta ferida. A dor fica pela falta de respostas. Pela incerteza do que hoje já é mais do que certo.
Você está com raiva de mim? Não. Raiva não. Acho que decepcionada, triste por ver que continua tão indeciso, diria até egoísta. Por isso desejos de felicidade. Sem raiva, de coração. Afinal, até mesmo quem partiu um coração tem o direito de amar e ser feliz.
Dias repletos de nostalgia e medo de amar a todos nós, é o que desejo, pois é isso também que nos move: a tristeza, tão incerta quanto os dias de sol e céu azul em meio a um mundo cheio de nuvens cinzas...

Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cobrança em dobro...


Semana passada fui consumida pelo trabalho e pela indisposição provocada, sobretudo pelo calor que tem castigado a cidade. Um ar quente, abafado, que dificulta até a respiração. Em dias assim o melhor a se fazer é ficar em frente ao ventilador acompanhado de muita água fresca, contudo, nem sempre isso é possível, especialmente em dias úteis, mais especificamente no meu local de trabalho.
Uma das minhas atribuições é realizar visita domiciliar. Confesso que não gosto muito desta prática profissional, acho invasiva e em muitos casos desconcertante, apesar de aceitar e compreender sua importância e utilidade. O fato é que não gostar não significa não fazer e em alguns casos minha presença faz-se inevitável e o que me resta é aproveitar a ocasião para algum aprendizado.
Em virtude da necessidade de renovar um benefício existente no município voltado a mães que tiveram no mesmo parto dois ou mais filhos, ou seja gêmeos, dirigi-me a uma residência onde já esperava encontrar pelo menos duas crianças, mal apertei a campanhia e logo vi uma cabecinha na porta dizendo:
- Quem é você?
Apresentei-me e pedi para que a garotinha de quatro anos chamasse a mãe. Não demorou muito para que a mãe da criança aparecesse na companhia da irmã gêmea. As duas garotinhas negras, com os cabelos cheios de trança, quatro anos completos e um sorriso largo no rosto, me puxaram pelas mãos mostrando as roupas idênticas e indicando o caminho da sala.
Enquanto entrevistava a mãe das crianças era constantemente interrompida. Pediam para ver meu crachá, minha caneta, o processo, o que eu estava escrevendo e porque fazia tantas perguntas para a mãe, previ que logo começaria o meu interrogatório e não demorou quase nada para que as perguntas explodissem:
- Você tem pai?
- Tenho sim.
- Esse aqui é meu pai – me dizia uma das meninas mostrando um porta-retrato.
- E onde está seu pai?
- Ele foi trabalhar. Sabia que eu adoro o meu pai?
- É mesmo? Ele é um bom pai?
- É sim, ele me levou no Mecjoni.
- Onde?
- No Mecjoni, você não conhece?
- Eu não. Onde fica?
- É bem longe, um dia eu peço para o meu pai te levar.
Vendo que eu realmente não estava entendendo nada sobre o Mecjoni a mãe das crianças me esclareceu que se tratava do Mc Donald's e que as crianças tinham estado no local na ocasião do aniversário da irmã mais velha.
Mistério esclarecido, eis que começou novo interrogatório:
- Tia, como chama sua filha?
- Eu não tenho filha.
- E seu filho, como chama?
- Eu também não tenho filho.
- Nem gêmeos?
- Não, nem gêmeos.
Certa de que minha explicação tinha sido suficiente continuei a preencher os papéis do formulário, até que novamente fui interrompida pela garotinha:
- Por que você não me conta o nome da sua filha?
- Porque eu não tenho filha.
- Nunca teve?
- Não.
-Mas por quê?
-Porque ainda não chegou a hora.
-E quando vai ser a hora?
Boa pergunta – pensei comigo. Mas antes de tentar responder o que não tinha resposta fui salva novamente pela mãe das crianças que com a face rosada de vergonha disse para as filhas:
-Ela ainda não tem uma filhinha, mas um dia ela vai ter.
Não satisfeitas com a resposta começaram novamente as interrogações:
-E como vai chamar?
-Não sei ainda.
-Sua filhinha não vai ter nome?
-Vai sim.
-E como vai ser?
-Não sei.
-Não sei é nome, tia?
-Não, disse que ainda não pensei nisso.
-Conta tia, como vai ser o nome?
-Cara – disse sem pensar, por ter escutado o nome no anúncio da novela, pouco antes da pergunta, na televisão ligada na sala.
-Clara?
- Isso.
- Credo tia, que nome mais feio!
Não segurei o riso. Tantas perguntas para ter a conversa encerrada com uma crítica. A mãe das meninas nesta altura já não sabia se sorria, se chamava a atenção das filhas ou se me pedia desculpas.
Sai daquela casa com um ar diferente, sem saber ao certo se estava bem ou não. Acho que até um pouco tonta. Na verdade assustada, afinal nunca imaginei ser cobrada em dobro por não conhecer o Mcjoni e por não ter filhas.
A verdade é que este encontro com as garotas me fez pensar nos anos que estão passando velozmente e nos meus sonhos futuros, que incluem filhos, quem sabe gêmeos. Sonhos esses que têm sido tão deixados de lado que já nem sabia o que responder quando questionada a dizer um nome. Sonhos tão impensados ultimamente que pareceram improváveis depois desta conversa.
Creio que na verdade o susto serviu para repensar algumas posturas e renovar alguns sonhos. Sonhos esses que vi estampados nos sorrisos largos e nos olhos de jabuticaba daquelas duas garotinhas gêmeas.



Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Foi o zíper!


Existem duas coisas que me tiram do sério, a primeira é fila e a segunda é fila em banco. Evito ao máximo ir ao banco em horário comercial, especialmente em dias de pagamento. Aquele monte de gente esperando sua vez e olhando no relógio da senha a cada toque, acreditando que a regra de apenas 15 minutos de fila será cumprida.
Uma fila de caixas eletrônicos, muitas vezes sem dinheiro disponível, fora de sistema ou com uma espera inacreditável. Isso, devido a necessidade de muitas pessoas ainda precisarem de ajuda para sacar seu dinheirinho na tal máquina.
Só enfrento um banco no início de mês em casos urgentes, urgentíssimos, tudo para evitar chateação na fila.
Esta semana sai do trabalho e fui ao banco pagar alguns boletos no caixa eletrônico, grande comodidade essa possibilidade. Basta digitar alguns números, encostar o papel no leitor e pronto, pagamento efetuado, sem nenhuma dificuldade.
Geralmente deixo para efetuar esses pagamentos no meio da semana e no final do expediente, quando as pessoas que rodaram pelas lojas do centro o dia todo já voltaram para suas casas cansadas e sem dinheiro no bolso.
Infelizmente desta vez errei no cálculo e cheguei ao banco 15:58h. Faltavam apenas dois minutos para a agência fechar e ser liberado apenas o acesso aos caixas eletrônicos. Por conta de dois minutos, acabei pagando um dos maiores micos já vividos, tudo por causa de um zíper.
É, isso mesmo, um zíper, na verdade o fecho do zíper que fica em um dos bolsos da minha bolsa...
Quando percebi a agência aberta decidi entrar pela porta principal para não perder tempo e me enfiei na porta giratória. Na primeira tentativa a porta travou e logo o segurança se aproximou:
- Tem alguma coisa na bolsa senhora?
- Um monte! – disse a ele enquanto tirava o celular e o colocava no porta-treco da porta.
Nova tentativa e novo impedimento:
- Tem mais alguma coisa senhora?
Tirei o guarda-chuva e as chaves. Quase entupi o porta-treco desta vez e quando tentei passar pela terceira vez a porta novamente não girou.
- O que foi dessa vez?!
- Não sei senhora, não foi a trava de segurança.
Tentava ir para trás e nada, para frente e nada e eu ali presa na porta de vidro sem saber o que estava acontecendo. Depois de muito tentar e de tirar o segurança de seu posto, fazendo-o forçar a porta, olho para o chão e vejo o fecho do zíper preso naquele minúsculo espaço entre a porta e o chão.
Tentava tirar o zíper, agachada no chão do jeito que dava naquelepequeno espaço, e nada. No meio disso tudo meu celular tocou e o segurança olhou para mim, para o celular, para o zíper, pensando se era um plano para assaltar o banco ou coisa do tipo, enquanto eu insistia com o tal fecho preso na porta.
Alguns minutos depois consegui me salvar. Dei muita risada e o segurança também não resistiu enquanto me dizia:
- Olha moça, já tinha visto de tudo nesse banco, mas um zíper voar da bolsae travar a porta é a primeira vez.
É...mal sabe ele das coisas que já me aconteceram.
Bem, para terminar a confusão, fiquei presa novamente, desta vez na área do caixa eletrônico. Verdade, não é invenção não. Mas desta vez, a culpa não foi minha e nem do zíper e durou apenas uns dois minutos enquanto travavam a saída principal e liberavam a outra.
Outros dois minutos...se tivesse esperado por dois minutos lá fora, não teria atrasado o fechamento do banco, muito menos passado por esse vexame. Mas também não teria esta história para contar. Em suma, acho que o balanço foi positivo!
Uma semana repleta de cuidado com as portas de banco, é o que desejo a todos nós!
Ilustração de: Gabriel Vicente.