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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cobrança em dobro...


Semana passada fui consumida pelo trabalho e pela indisposição provocada, sobretudo pelo calor que tem castigado a cidade. Um ar quente, abafado, que dificulta até a respiração. Em dias assim o melhor a se fazer é ficar em frente ao ventilador acompanhado de muita água fresca, contudo, nem sempre isso é possível, especialmente em dias úteis, mais especificamente no meu local de trabalho.
Uma das minhas atribuições é realizar visita domiciliar. Confesso que não gosto muito desta prática profissional, acho invasiva e em muitos casos desconcertante, apesar de aceitar e compreender sua importância e utilidade. O fato é que não gostar não significa não fazer e em alguns casos minha presença faz-se inevitável e o que me resta é aproveitar a ocasião para algum aprendizado.
Em virtude da necessidade de renovar um benefício existente no município voltado a mães que tiveram no mesmo parto dois ou mais filhos, ou seja gêmeos, dirigi-me a uma residência onde já esperava encontrar pelo menos duas crianças, mal apertei a campanhia e logo vi uma cabecinha na porta dizendo:
- Quem é você?
Apresentei-me e pedi para que a garotinha de quatro anos chamasse a mãe. Não demorou muito para que a mãe da criança aparecesse na companhia da irmã gêmea. As duas garotinhas negras, com os cabelos cheios de trança, quatro anos completos e um sorriso largo no rosto, me puxaram pelas mãos mostrando as roupas idênticas e indicando o caminho da sala.
Enquanto entrevistava a mãe das crianças era constantemente interrompida. Pediam para ver meu crachá, minha caneta, o processo, o que eu estava escrevendo e porque fazia tantas perguntas para a mãe, previ que logo começaria o meu interrogatório e não demorou quase nada para que as perguntas explodissem:
- Você tem pai?
- Tenho sim.
- Esse aqui é meu pai – me dizia uma das meninas mostrando um porta-retrato.
- E onde está seu pai?
- Ele foi trabalhar. Sabia que eu adoro o meu pai?
- É mesmo? Ele é um bom pai?
- É sim, ele me levou no Mecjoni.
- Onde?
- No Mecjoni, você não conhece?
- Eu não. Onde fica?
- É bem longe, um dia eu peço para o meu pai te levar.
Vendo que eu realmente não estava entendendo nada sobre o Mecjoni a mãe das crianças me esclareceu que se tratava do Mc Donald's e que as crianças tinham estado no local na ocasião do aniversário da irmã mais velha.
Mistério esclarecido, eis que começou novo interrogatório:
- Tia, como chama sua filha?
- Eu não tenho filha.
- E seu filho, como chama?
- Eu também não tenho filho.
- Nem gêmeos?
- Não, nem gêmeos.
Certa de que minha explicação tinha sido suficiente continuei a preencher os papéis do formulário, até que novamente fui interrompida pela garotinha:
- Por que você não me conta o nome da sua filha?
- Porque eu não tenho filha.
- Nunca teve?
- Não.
-Mas por quê?
-Porque ainda não chegou a hora.
-E quando vai ser a hora?
Boa pergunta – pensei comigo. Mas antes de tentar responder o que não tinha resposta fui salva novamente pela mãe das crianças que com a face rosada de vergonha disse para as filhas:
-Ela ainda não tem uma filhinha, mas um dia ela vai ter.
Não satisfeitas com a resposta começaram novamente as interrogações:
-E como vai chamar?
-Não sei ainda.
-Sua filhinha não vai ter nome?
-Vai sim.
-E como vai ser?
-Não sei.
-Não sei é nome, tia?
-Não, disse que ainda não pensei nisso.
-Conta tia, como vai ser o nome?
-Cara – disse sem pensar, por ter escutado o nome no anúncio da novela, pouco antes da pergunta, na televisão ligada na sala.
-Clara?
- Isso.
- Credo tia, que nome mais feio!
Não segurei o riso. Tantas perguntas para ter a conversa encerrada com uma crítica. A mãe das meninas nesta altura já não sabia se sorria, se chamava a atenção das filhas ou se me pedia desculpas.
Sai daquela casa com um ar diferente, sem saber ao certo se estava bem ou não. Acho que até um pouco tonta. Na verdade assustada, afinal nunca imaginei ser cobrada em dobro por não conhecer o Mcjoni e por não ter filhas.
A verdade é que este encontro com as garotas me fez pensar nos anos que estão passando velozmente e nos meus sonhos futuros, que incluem filhos, quem sabe gêmeos. Sonhos esses que têm sido tão deixados de lado que já nem sabia o que responder quando questionada a dizer um nome. Sonhos tão impensados ultimamente que pareceram improváveis depois desta conversa.
Creio que na verdade o susto serviu para repensar algumas posturas e renovar alguns sonhos. Sonhos esses que vi estampados nos sorrisos largos e nos olhos de jabuticaba daquelas duas garotinhas gêmeas.



Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Foi o zíper!


Existem duas coisas que me tiram do sério, a primeira é fila e a segunda é fila em banco. Evito ao máximo ir ao banco em horário comercial, especialmente em dias de pagamento. Aquele monte de gente esperando sua vez e olhando no relógio da senha a cada toque, acreditando que a regra de apenas 15 minutos de fila será cumprida.
Uma fila de caixas eletrônicos, muitas vezes sem dinheiro disponível, fora de sistema ou com uma espera inacreditável. Isso, devido a necessidade de muitas pessoas ainda precisarem de ajuda para sacar seu dinheirinho na tal máquina.
Só enfrento um banco no início de mês em casos urgentes, urgentíssimos, tudo para evitar chateação na fila.
Esta semana sai do trabalho e fui ao banco pagar alguns boletos no caixa eletrônico, grande comodidade essa possibilidade. Basta digitar alguns números, encostar o papel no leitor e pronto, pagamento efetuado, sem nenhuma dificuldade.
Geralmente deixo para efetuar esses pagamentos no meio da semana e no final do expediente, quando as pessoas que rodaram pelas lojas do centro o dia todo já voltaram para suas casas cansadas e sem dinheiro no bolso.
Infelizmente desta vez errei no cálculo e cheguei ao banco 15:58h. Faltavam apenas dois minutos para a agência fechar e ser liberado apenas o acesso aos caixas eletrônicos. Por conta de dois minutos, acabei pagando um dos maiores micos já vividos, tudo por causa de um zíper.
É, isso mesmo, um zíper, na verdade o fecho do zíper que fica em um dos bolsos da minha bolsa...
Quando percebi a agência aberta decidi entrar pela porta principal para não perder tempo e me enfiei na porta giratória. Na primeira tentativa a porta travou e logo o segurança se aproximou:
- Tem alguma coisa na bolsa senhora?
- Um monte! – disse a ele enquanto tirava o celular e o colocava no porta-treco da porta.
Nova tentativa e novo impedimento:
- Tem mais alguma coisa senhora?
Tirei o guarda-chuva e as chaves. Quase entupi o porta-treco desta vez e quando tentei passar pela terceira vez a porta novamente não girou.
- O que foi dessa vez?!
- Não sei senhora, não foi a trava de segurança.
Tentava ir para trás e nada, para frente e nada e eu ali presa na porta de vidro sem saber o que estava acontecendo. Depois de muito tentar e de tirar o segurança de seu posto, fazendo-o forçar a porta, olho para o chão e vejo o fecho do zíper preso naquele minúsculo espaço entre a porta e o chão.
Tentava tirar o zíper, agachada no chão do jeito que dava naquelepequeno espaço, e nada. No meio disso tudo meu celular tocou e o segurança olhou para mim, para o celular, para o zíper, pensando se era um plano para assaltar o banco ou coisa do tipo, enquanto eu insistia com o tal fecho preso na porta.
Alguns minutos depois consegui me salvar. Dei muita risada e o segurança também não resistiu enquanto me dizia:
- Olha moça, já tinha visto de tudo nesse banco, mas um zíper voar da bolsae travar a porta é a primeira vez.
É...mal sabe ele das coisas que já me aconteceram.
Bem, para terminar a confusão, fiquei presa novamente, desta vez na área do caixa eletrônico. Verdade, não é invenção não. Mas desta vez, a culpa não foi minha e nem do zíper e durou apenas uns dois minutos enquanto travavam a saída principal e liberavam a outra.
Outros dois minutos...se tivesse esperado por dois minutos lá fora, não teria atrasado o fechamento do banco, muito menos passado por esse vexame. Mas também não teria esta história para contar. Em suma, acho que o balanço foi positivo!
Uma semana repleta de cuidado com as portas de banco, é o que desejo a todos nós!
Ilustração de: Gabriel Vicente.

sábado, 30 de outubro de 2010

A culpa é de quem?!


Para ser bem sincera nem sei muito bem como começar este texto. A idéia está aqui na cabeça, martelando há pelo menos uns dez dias, mas o assunto não é fácil, incomoda, a mim inclusive, então não sei de que forma abordá-lo sem parecer exagerada ou melindrosa.
Acontece que andei perdendo o equilíbrio nos últimos meses, uma ansiedade sem tamanho me dominou e para domá-la comecei a comer. Comi muito, muito mesmo e como resultado ganhei novos cinco quilos, que somados aos outros sete que tinha conquistado quando aqui cheguei já significam doze.
Doze quilos a mais, peso suficiente para que o meu manequim subisse dois números e meu reflexo apresentasse abertamente, a quem quisesse ver, o resultado de tanta comilança.
Confesso que estava incomodada, principalmente pelas roupas que perdi, afinal não tenho dinheiro de sobra para renovar meu guarda-roupa e tentar usar uma roupa de cinco quilos a menos é constrangedor, para não dizer humilhante. Mas o incômodo estava interno, apenas comigo e com meu espelho.
Na semana passada, contudo fui abordada de forma muito indelicada por uma pessoa que trabalha na mesma secretaria em que atuo, que se desviou do portal ao me ver chegar e disse:
- Deixe-me sair senão você não passa.
Eu apenas a olhei, não sorri, nem disse nada. E ela continuou:
- Você engordou hein?
Mais uma vez me abstive de qualquer comentário, até por tratar-se de uma pessoa que sempre gostei muito. E novamente escutei:
- Além de ter engordado está de mau humor? Isso não é culpa minha, viu?
Terminei o que estava fazendo e sai. Chateada, incomodada e pensando na última frase que ela disse. Ela tinha razão, ela não teve culpa nenhuma. Não foi ela que ocasionou meu excesso de peso, mas a ela devo minha chateação e incômodo.
Quanto ao peso fiquei pensando no causador disso tudo e só consegui me lembrar de amigas dizendo frases soltas:
- Estava vendo fotos antigas esta semana, todas nós engordamos muito!
- Estava indo na academia, mas desisti, chego tão cansada em casa!
- Depois dos trinta anos fica quase impossivel perder peso, é bem mais difícil!
- Comecei uma dieta esta semana, mas não sei até quando vou conseguir cumpri-la!
- Meu colesterol está alto, não sei mais o que fazer!
E blá-blá-blá, toda aquela conversa de mulher depois do almoço, com relatos de inúmeras decepções e nãos. Comecei a pensar então sobre a relação do meu sobrepeso com minha rotina, que de certa forma muito se aproxima da rotina de muitas das minhas amigas e cheguei à conclusão que a culpa pelo excesso de peso é realmente minha.
Seria fácil culpar o chefe, a falta de recursos, de equipe, de tempo para viajar, para rever os amigos e estar com minha família. Seria fácil culpar a pós-graduação e a falta de descanso no final de semana, mas nem tudo é assim tão simples.
Abdiquei dos exercícios físicos porque sempre estou tão cansada ao chegar em casa que me dói só de pensar em vestir roupa de ginástica. Comecei a comer lanches e congelados porque são mais práticos, não tomam meu tempo livre. Não substitui doce por frutas porque raramente consigo pegar o mercadão aberto antes de ir para casa. Enfim, desisti de me cuidar.
E alguns poderão dizer: então a culpa não é sua, é do excesso de coisas que você faz, da sobrecarga de trabalho. E poderia até concordar se vivêssemos na época da escravidão, mas apesar de muitas coisas serem impostas eu sempre tive a possibilidade de dizer: não.
E nunca o fiz. Por medo, ou talvez por acomodação, quiça por mera esperança de que um dia tudo venha a ser melhor. E pensar que era só dizer não... Não quero mais trabalhar nessas condições. Não vou privar-me de qualidade de vida para ficar fazendo relatórios. Não vou atender meu telefone fora do horário do expediente. Não quero, não vou, não faço. Uma palavrinha tão pequena e tão difícil de ser dita.
Hoje levantei e vi meu cágado dormindo, na mesma hora pensei: que vidão! Quisera eu dormir até a hora que eu bem entendesse. Mas tão logo me vi comparando a minha vida com a de um animalzinho, e novamente senti-me incomodada, humilhada, do mesmo jeito em que me senti ao ser chamada de gorda.
Acontece que a minha cobrança é a que mais me perturba. Cobro-me dia e noite uma mudança de vida e sempre me vejo estática. Chega uma hora que isso incomoda tanto que a gente coloca para fora de alguma forma, no meu caso de forma errada, exagerando na comida. Isso não está certo.
Acomodada sei que não estou, pois continuo prestando concursos, buscando novas possibilidades, concluindo as pós-graduações que poderão me abrir novos caminhos, mas ainda assim a roupa que não serve mais, os comentários das amigas, e a fala daquela pessoa me incomodam demais.
A bronca aqui não é para quem me chamou de gorda, se bem que acho que cada um devia cuidar da sua vida e ponto, ela nem sequer imagina o mal que me causou ao dizer isso. A bronca aqui é comigo, com mais ninguém, comigo apenas.
Às vezes dá vontade de me chacoalhar e dizer: Acorda menina, vai ser feliz em outro lugar! Mas falta força, apesar do excesso de peso.
Bem, acho que é isso. Muito mais um desabafo do que um texto para esta coluna. Creio que esta é minha melhor forma de me aproximar de pessoas que também se sentem assim e que não sabem como agir. Confesso que nem eu sei ao certo a forma de superar esta fase, mas só de saber que não estamos sozinhos quando a culpa vem, já é algo muito confortador.
Uma semana repleta de abraços gordinhos a todos nós, é o que desejo!



Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 24 de outubro de 2010

E o seu um terço?


Passei por uma longa capacitação sobre o enfrentamento da violência contra a mulher nesta semana. Curso pesado, daqueles que mexem com nossos valores, que chegam a ferir por dentro, mas de uma importância tão significativa que deveria ser estendido a todos, independente da profissão, do sexo, raça ou opção sexual.
A violência doméstica em todas suas faces foi o tema mais abordado. Já atendi vítimas de violência doméstica, mas confesso que nunca soube muito bem por onde começar nestes atendimentos. Talvez por identificar uma limitação de recursos institucionais para encaminhamentos, ou pela dificuldade de manter-me neutra diante das partes ou até mesmo por não ter a dimensão da conjuntura que desenha uma agressão.
Cheguei à conclusão que todos são vítimas de violência. Independente da discussão sobre genêro e das diferenças sociais existentes entre homens e mulheres, muito além ainda de nossas diferenças biológicas, o fato é que somos criados em uma sociedade que constrói a violência dia e noite.
A começar pelos padrões de civilidade adotados por nós, cheios de machismo, de conservadorismo e senso comum. Meninos brincam com carrinho, meninas ganham panelas e ferro de passar. Meninos jogam bola, meninas ganham bonecas e brincam de casinha.
Como quebrar estereótipos tão intrínsecos, alimentados em nós desde criança? Confesso que ao lembrar da minha infância o que mais me veio à mente foram as bonecas Barbie, felizmente ainda me lembrei de corridas em carrinho de rolimã, de pipas coloridas e de subidas em árvores no sítio, tudo graças a meu pai que por talvez sempre ter sonhado com um filho homem, acabou depositando sua expectativa nas duas mulecas que Deus lhe deu.
Mas nem sempre é assim. Já vi meninos apanharem por experimentar o sapato da mãe ou pegar a boneca da irmã no colo. Da mesma forma que já vi uma garota ser recriminada por não sentar de pernas cruzadas ou por não gostar de maquiagem.
Longe de julgar a criação de cada um, a grosso modo estou querendo apontar que somos nós, em nossos padrões, em nossa sociedade machista e feminista ao extremo que criamos mulheres submissas ou solitárias e homens frustados ou agressivos.
Parece que fazemos questão de não esquecer a função social decretada a homens e mulheres na antiguidade, onde ao homem cabia a função de caçador, reprodutor e mantenedor da família e a mulher cabia apenas a gestação e cuidado dos filhos.
Este conceito é algo ainda tão arraigado que muitas vezes fica difícil acreditar. Ouvi um relato esta semana que demonstra o quanto isso ainda é presente culturalmente na vida de homens e mulheres:
Conta-se que uma jovem, em período de amamentação do quarto filho, foi orientada por uma agente de saúde a realizar o planejamento familiar, sendo instruída sobre o uso do contraceptivo oral. Residia em uma região muito vulnerável, não trabalhava devido a impedimento do marido que era extremamente machista e agressivo. Alguns meses depois, ela volta à unidade de saúde na companhia do esposo, muito bravo, que aos gritos diz a enfermeira:
- Você nos enganou!
- O que aconteceu senhor?
- Você disse para minha mulher que se tomasse todos esses comprimidos aqui, um por dia, não iamos mais ter filhos, e ela está grávida novamente.
- Mas a senhora tomou sem falhar a pílula, todos os dias? – dirigiu-se a enfermeira para a jovem.
- Eu tomei tudinho! – respondeu aos berros o esposo, impedindo que a mulher abrisse a boca.
Pois bem, mesmo depois de 50 anos da Revolução da Pílula, que provocou mudanças de hábitos sexuais significativos nos casais do ocidente e principalmente possibilitou a mulher ter o direito de escolher pela reprodução, cabendo a partir de então, a ela, decidir se teria um ou dez filhos, parece que algumas coisas não mudam.
O homem do relato anterior, com toda sua vaidade e orgulho, jamais poderia admitir que coubesse a mulher a escolha de ter mais filhos e se era para impedir a reprodução ele que o faria, optando então por tomar as pílulas no lugar da mulher.
Ignorância, machismo, prepotência, submissão? Tudo isso e um pouco mais, diria apenas que foi uma violência.
Violência dele contra ela, por humilhá-la, substimá-la e impedi-la de tomar decisões apenas pelo fato de ser mulher. Uma violência da sociedade contra ele que foi criado em uma família machista, onde o pai agredia verbalmente e fisicamente a mãe e foi assim que ele reproduziu suas atitudes com sua família. Uma violência dela contra ela mesma, mesmo que inconsciente, em uma luta diária na busca pelo rompimento de um ciclo de violência que parece não ter fim.
E finalmente uma violência de todos nós contra eles, por atribuir à ignorância, à falta de oportunidades ou ao fator econômico a consequência disso. Por culpabilizar esta mulher e dizer por entre ombros: Está assim porque quer, porque gosta de apanhar. Por fecharmos nossos olhos e ouvidos e não movermos uma agulha ao presenciarmos ou suspeitarmos de um ato de violência.
Provavelmente alguém dirá: que baboseira, o que eu tenho com isso? E então lhe pergunto: se você não provocou esta situação então o que tem feito para amenizá-la, para suprimi-la? E o seu um terço? Parte da responsabilidade é do indivíduo, parte do Estado e parte da sociedade, certo? E então, qual seu um terço?
Não precisa me responder, aliás, não pretendo com este texto criticar ou julgar atos de terceiros, muito menos instigar a paz no mundo (por mais que seja este meu desejo). Tenho apenas procurado fazer minha parte e esta capacitação foi para mim tão importante que me senti na obrigação de deixar meu um terço aqui. Minha singela contribuição para uma discussão que nos provoca indignação e aquela vergonha moral que por vezes sentimos e deixamos passar...que desta vez ela não passe, persista e multiplique-se.
Se você já foi vítima de violência, denúncie. Se você é um agressor, procure ajuda. Se você presencia ou suspeita de atos de violência ofereça seu um terço.
Provocar a mudança é preciso, para começar basta um, para vencer precisamos de mais de um milhão!
Uma semana repleta de reflexões e de sementinhas de indignação a todos nós, é o que desejo!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 26 de setembro de 2010

A única certeza desta vida...

Em homenagem a querida Marly: “Até que nos encontremos novamente, que Deus te guarde na palma da sua mão”.

Sim, o assunto é delicado. Não, não terá graça alguma. Sim, com certeza você saberá do que estou falando. Não, ninguém precisa levar este assunto a ferro e fogo.
Morrer. Desencarnar, perder a vida, exalar o último suspiro, falecer, finar-se, expirar, fazer a longa viagem, perecer, abotoar o paletó, adormecer no Senhor, apagar, assentar o cabelo, bater as botas, bater o prego, comer capim pela raiz, dar a alma a Deus, dar a alma ao Criador, dar o último alento, defuntar, desaparecer, descansar, descer à terra, desviver, dizer adeus ao mundo, embarcar deste mundo para um melhor, empacotar, entregar a alma a Deus, esticar a canela, expirar, fazer passagem, fechar o paletó, fechar os olhos, fenecer, ir para a Cucuia, ir para a cidade dos pés juntos, ir para bom lugar, ir para o beleléu, ir para o outro mundo, passar desta para melhor, pifar, render o espírito, vestir o paletó de madeira, extinguir-se, acabar-se, findar. Interromper.
Morte, é este o assunto do dia, isso tudo porque, novamente, fui aproximada da única certeza desta vida. Logo eu que não sei lidar com esta situação (e quem sabe?). Nestes momentos faltam palavras, falta coragem, falta lugar para colocar as mãos, falta força para abraçar e sobram lágrimas.
Apesar de ser a única certeza da vida, ninguém sabe quando esta hora vai chegar. Ninguém consegue prever e calcular. E acho que é por isso que quando alguém morre todos ao seu redor param e veem-se obrigados a recomeçar, a reorganizar sua vida.
Seja porque aquela pessoa era sua base, seja porque era seu exemplo, sua alegria, ou ainda porque você se lembra que inclusive você e todos os que amam estão suscetíveis à morte. E isso dói. Afinal ninguém fica pensando ou planejando o dia do adeus, não é?
Espero que não me entenda mal, afinal não desejo que ninguém fique remoendo este assunto um dia inteiro, mas precisava aproveitar este espaço para mostrar o meu ponto de vista sobre isso tudo e colocar para fora o resto da minha tristeza.
É claro que a dor, o medo de não conseguir suportar, a incerteza de como serão as coisas daqui para frente são comuns a todos e é fato que depois que a perda acontece, não temos o poder de fazer o tempo voltar(bom seria se fosse possível). Mas existe um outro lado que dificilmente percebemos, seja por estar tudo turvo demais ou pela dor ser tão intensa que nos impede de ver o lado bom das coisas em um momento tão triste.
Oras! E existe lado bom na morte?! Aprendi a acreditar que sim. Principalmente por entender que a morte na verdade é só a interrupção da vida. Uma pausa para que possamos nos reorganizar e voltar para junto dos nossos, em outra forma talvez, com outro jeito, mas sempre, sempre dispostos a encontrar e cuidar de nossas almas companheiras, de nossas almas gêmeas.
A morte causa lembranças que nenhum outro sentimento é possível de provocar. Você se lembra de coisas de décadas atrás e consegue se lembrar do quanto era bom estar com aquele alguém, você consegue sorrir relembrando uma conversa, um afago e isso é bom. Bom para sua alma que ganha novas forças, bom para seu coração que aos poucos vai se cicatrizando.
A dor que a morte nos provoca realmente é perene. É uma dor que não tem cura, mas tem acalento. Datas festivas, objetos, pessoas, roupas, cheiros, tudo isso será capaz de trazer a dor de volta, mas com o tempo ela vai se acalmando e se transforma em boas recordações e naquela saudade gostosa de quem viveu tanta coisa boa.
Não tinha um convívio diário com a pessoa que nos deixou na semana passada, mas os poucos momentos que passamos juntas me deixaram deliciosas lembranças e é isso que me consola. Posso ainda afirmar que era uma pessoa tão querida que os anjos na certa fizeram fila para acompanhá-la e que agora ela está muito bem.
E é disso que estou falando, não importa o tempo que você passou ou passa ao lado das pessoas que ama, o que vale mesmo é a intensidade destes encontros. Não temos que viver cada dia como se fosse o último e jogar tudo para o alto, mas podemos aproveitar o melhor da vida a cada dia, para que quando chegar a nossa única certeza desta vida também possamos deixar boas lembranças e exemplos dignos de plágio.
A morte é parte do nosso trato com Deus. Cláusula obrigatória no contrato, impossível de modificação, isso é fato. O que é passível de mudança é a forma como a encaramos. Não é o fim do mundo é o recomeço. Para quem foi e principalmente para quem fica.
É na dor da morte que descobrimos quem somos, é ali que amadurecemos e criamos coragem para recomeçar, para mudar hábitos e posturas, para pedir perdão e dizer eu te amo. Só Deus mesmo para fazer um sentimento tão triste nos provocar mudanças tão maravilhosas... Uma semana repleta de vida a todos nós, é o que desejo.

Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 12 de setembro de 2010

O que os olhos não veem o coração sente...


Depois de um longo feriado que me rendeu muitas histórias, imaginei um retorno pacato à rotina. Um dia comum, sem muitas surpresas, sem fortes emoções ou mudanças.
No trabalho tudo bem, nada além do esperado, alguns imprevistos brevemente sanados, enfim, nada capaz de tirar meu controle e minha paz.
O final do dia chegou rápido, quatro dias longe de tudo me deu a sensação de ter ficado longe da cidade por um ano. O feriado passou rápido e o dia subsequente mais rápido ainda. Ao tentar voltar para casa consegui perder três ônibus. Dizia para mim em pensamento: Mas será possível? Três ônibus em menos de cinco minutos, só você mesmo!
Acabei entrando no primeiro ônibus que encontrei depois destes desencontros, certa de que seria o caminho mais curto até em casa. É claro que não foi assim tão curto, já que o motorista percorreu dois bairros inteiros antes de se dirigir ao meu destino final.
Só não perdi a calma graças ao prolongado descanso físico e mental e especialmente por ter entendido mais uma vez o porquê de ter perdido três ônibus antes de parar dentro deste.
Andávamos há pouco mais de quinze minutos quando o ônibus parou em um ponto sem muito movimento, vi a porta se abrir e um garoto gritar:
- Calma pai, já pedi para o motorista esperar.
Em seguida observo um senhor de quarenta e poucos anos subir os degraus com cuidado, segurando nas mãos uma guia utilizada por deficientes visuais. O garoto, de uns onze anos aproximadamente, que havia entrado primeiro, segurou a mão do pai e o levou até o banco mais alto da condução.
- É aqui que vamos sentar?
- É, daqui dá para ver melhor lá fora pai.
- Por mim tudo bem.
Sentaram-se bem atrás de mim, deste modo, mesmo que não quisesse foi inevitável escutar a conversa que se seguiu:
- Nossa, esse ônibus está vazio pai. Só nove pessoas.
- Com a gente?
- Isso, e já contando o motorista. Tem uma moça na nossa frente, uma outra moça com duas crianças do lado, um senhor lá na frente,uma menina com roupa do meu colégio do outro lado e o motorista.
- Está vazio mesmo. E o que nós vamos fazer na “cidade” (aqui as pessoas ainda têm costume de dizer que o centro é a cidade, independente do bairro em que vivam)?
- Ah, sei lá. Queria ficar um pouco sozinho com o senhor, tem coisa que não gosto de falar na frente da vovó.
- Mas quer falar sobre o quê?
- É que eu conheci uma garota na escola hoje. Tão bonita pai. Mas depois te conto que agora vou escutar essa música.
Olhei brevemente para trás e vi o garoto colocar o fone de ouvido e cantarolar alguma coisa, enquanto o pai mantinha um leve sorriso no rosto.
Pouco antes do ponto final, o garoto olha pela janela e diz:
- Nossa! Não acredito!
- O que foi filho?
- A garota pai, passando ali na calçada em frente da loja de pesca.
- A garota bonita?
- É pai, olha lá.
- Olhar para quê?
- Ah, sei lá, se não quiser olhar então imagina.
- Então me diz como ela é.
O garoto começou a detalhar a garota passo a passo, dos sapatos até o arranjo no cabelo, dizia a cor da roupa, dos olhos e até o gesto que ela fazia. Fiz questão de olhar a jovem que subia distraída rumo ao calçadão no centro, realmente uma bela garota. A descrição da jovem foi interrompida pelo questionamento do pai:
- Não passamos o ponto filho?
- Nossa! Já estamos quase, bem perto já.
- Acabou se distraindo, não é?
- É, mas acho melhor a gente dar outra volta. Não quero que ela me veja agora e ainda tenho muita coisa para te contar, pode ser?
- Por mim sem problemas – disse o pai rindo enquanto trazia o garoto para junto de si, num forte abraço.
E assim permaneceram sentados no ônibus enquanto eu descia no ponto final. Na certa fariam o caminho inverso todinho para que tivessem tempo suficiente para compartilhar aquele segredo tão importante para pai e filho.
O pai, provavelmente nunca verá o rosto, nem a roupa da linda menina que em breve será a ele apresentada pelo garoto, mas com certeza poderá advinhar seu cheiro, imaginar seu sorriso e a cor da boca pelos olhos do filho que, muito mais do que seu guia, hoje se tornou seus olhos.
Enquanto observava o ônibus se afastar, agradeci a Deus pelos meus olhos saudáveis e por ainda existir esse amor sincero e cúmplice neste mundo que anda cada vez mais cinza... Um ótimo exemplo para iniciar esta curta semana de volta à rotina.




Ilustração de: Gabriel Vicente.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Secretário do lar, sim senhora!


Realmente nunca é tarde para mudanças de concepção e esta semana tive mais uma vez a confirmação desta certeza. Acredito que as pessoas se formam de acordo com os valores e exemplos que adquirem durante toda sua vida. É por isso que pais, educadores e todas as pessoas que estão em contato direto com as crianças são tão importantes para a construção e o fortalecimento de suas personalidades.
Acontece que mesmo com o passar do tempo algumas concepções, alguns valores continuam arraigados na nossa alma como tatuagens e mesmo que se vivencie novas experiências, conheça novos conceitos, ainda assim algumas verdades continuarão eternas para cada um de nós.
Cresci em uma geração onde a mulher ainda era a única responsável pelos afazeres domésticos: lavar, passar, cozinhar, enfim, das bisavós até as mães sempre foi assim. É claro que ao longo do tempo muitas mudanças apresentaram-se, algumas incríveis, como a possibilidade da mulher trocar de papéis com o homem em algumas funções ou concorrer livremente com ele em uma oportunidade de emprego, contudo, ainda assim mesmo com a mulher invadindo o mercado de trabalho, salvo exceções, ainda é dela a responsabilidade dos afazeres domésticos.
Muitas mulheres hoje têm a possibilidade de contratar alguém para cuidar da casa, da roupa, contudo ainda assim lhes resta a função da escolha do funcionário, mostrar o que quer que seja feito,de que forma, e para isso, já dizia minha avó: só sabe mandar quem sabe fazer. É cultural as meninas brincarem de fazer comidinha e de casinha e os meninos de jogadores de futebol ou motoristas de carro de corrida. Eu pelo menos nunca vi um menino dizer que vai brincar de papai, você já?
Não quero afirmar que ainda vivemos em uma sociedade completamente machista, até por conhecer vários homens que minha avó chamaria de prendados, capazes de cuidar da sua roupa, da sua comida, da casa, mas mesmo que seja para coordenar a organização destes afazeres domésticos sempre existirá por trás deste homem uma mulher, pode ser a avó que o ensinou a fritar o ovo, ou a mãe que ensinou a utilizar a máquina de lavar, dificilmente o que sabem foi lhes ensinado por um homem.
Não acho que seja um cargo do qual devamos nos orgulhar, afinal reflete a submissão sofrida por inúmeras mulheres em um período incontável que perdura da formação da humanidade até hoje, mas este espaço, imaginava eu, sempre seria nosso.
Imaginava até hoje. E é daqui que retomo a discussão iniciada anteriormente sobre nossa mudança de valores, de concepções. Sempre que busquei uma diarista para atender a limpeza do meu apartamento solicitava uma moça de confiança, sempre assim, uma mulher que pudesse cuidar de tudo, sem me deixar com medo de chegar em casa e encontrar o apartamento vazio.
No meu trabalho sempre tive auxiliares de limpeza mulheres e nunca houve nenhum tipo de estranhamento, com a exceção das fofocas comuns onde existem muitas mulheres juntas (isso é inevitável e tenho que admitir), contudo semana passada soube da mudança da empresa de limpeza no meu local de trabalho e fui avisada que teríamos uma nova auxiliar.
No primeiro dia de trabalho da nova funcionária estava em uma reunião externa e não demorou para meu celular tocar com a auxiliar administrativa toda preocupada com a seguinte informação:
- A nova funcionária da limpeza chegou.
- Que bom! Já mostrou o prédio para ela?
- Já. Mas tem uma coisa.
- O quê? Algum problema?
- Não sei se é um problema. Mas é que quem se apresentou hoje aqui é um rapaz.
- Um homem?
- É.
- Interessante.
Confesso que me surpreendi. Não pelo fato de ser um homem simplesmente, afinal já presenciei vários homens em firmas de limpeza da cidade realizando seu trabalho como qualquer uma de nós, mas a surpresa veio quando cheguei ao prédio no dia seguinte.
O toldo da entrada estava brilhando, os vidros impecáveis, chão encerado, aquele cheirinho de limpeza que invadia o prédio todo, me apresentei enquanto o via limpar o fogão.
Um homem novo, de uns 40 anos aproximadamente, quieto e muito prestativo. O comentário no prédio entre as outras funcionárias era apenas um:
- Você viu que belezinha esse moço? Limpou tudinho!
- Pois é, nem dá tempo de pedir e ele já está limpando.
- Além de tudo é organizado.
- E o melhor de tudo, não faz fofoca.
Não faz fofoca, mas virou a fofoca da semana. Uma fofoca boa, daquelas que me fez mais uma vez repensar meus pré-conceitos e admitir que neste cargo, que foi culturalmente delegado exclusivamente a nós mulheres, existem homens que superam a muitas de nós.
Eu nunca gostei dos afazeres domésticos, sei fazer de tudo um pouco porque fui ensinada a isso, mas confesso que estou longe de limpar tão bem uma geladeira como aquele rapaz, que durante uma conversa e outra ainda me contou já ter trabalhado como diarista:
- É mesmo? Trabalhava em casa de família?
- É, antes de entrar na firma eu era secretário.
- Secretário?
- Secretário do lar, sim senhora!
E foi assim que conheci mais um personagem da minha própria história, capaz de me fazer refletir sobre um pouco de tudo e sobre o quanto ainda não sei de nada.

Ilustração de: Gabriel Vicente.