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domingo, 24 de outubro de 2010

E o seu um terço?


Passei por uma longa capacitação sobre o enfrentamento da violência contra a mulher nesta semana. Curso pesado, daqueles que mexem com nossos valores, que chegam a ferir por dentro, mas de uma importância tão significativa que deveria ser estendido a todos, independente da profissão, do sexo, raça ou opção sexual.
A violência doméstica em todas suas faces foi o tema mais abordado. Já atendi vítimas de violência doméstica, mas confesso que nunca soube muito bem por onde começar nestes atendimentos. Talvez por identificar uma limitação de recursos institucionais para encaminhamentos, ou pela dificuldade de manter-me neutra diante das partes ou até mesmo por não ter a dimensão da conjuntura que desenha uma agressão.
Cheguei à conclusão que todos são vítimas de violência. Independente da discussão sobre genêro e das diferenças sociais existentes entre homens e mulheres, muito além ainda de nossas diferenças biológicas, o fato é que somos criados em uma sociedade que constrói a violência dia e noite.
A começar pelos padrões de civilidade adotados por nós, cheios de machismo, de conservadorismo e senso comum. Meninos brincam com carrinho, meninas ganham panelas e ferro de passar. Meninos jogam bola, meninas ganham bonecas e brincam de casinha.
Como quebrar estereótipos tão intrínsecos, alimentados em nós desde criança? Confesso que ao lembrar da minha infância o que mais me veio à mente foram as bonecas Barbie, felizmente ainda me lembrei de corridas em carrinho de rolimã, de pipas coloridas e de subidas em árvores no sítio, tudo graças a meu pai que por talvez sempre ter sonhado com um filho homem, acabou depositando sua expectativa nas duas mulecas que Deus lhe deu.
Mas nem sempre é assim. Já vi meninos apanharem por experimentar o sapato da mãe ou pegar a boneca da irmã no colo. Da mesma forma que já vi uma garota ser recriminada por não sentar de pernas cruzadas ou por não gostar de maquiagem.
Longe de julgar a criação de cada um, a grosso modo estou querendo apontar que somos nós, em nossos padrões, em nossa sociedade machista e feminista ao extremo que criamos mulheres submissas ou solitárias e homens frustados ou agressivos.
Parece que fazemos questão de não esquecer a função social decretada a homens e mulheres na antiguidade, onde ao homem cabia a função de caçador, reprodutor e mantenedor da família e a mulher cabia apenas a gestação e cuidado dos filhos.
Este conceito é algo ainda tão arraigado que muitas vezes fica difícil acreditar. Ouvi um relato esta semana que demonstra o quanto isso ainda é presente culturalmente na vida de homens e mulheres:
Conta-se que uma jovem, em período de amamentação do quarto filho, foi orientada por uma agente de saúde a realizar o planejamento familiar, sendo instruída sobre o uso do contraceptivo oral. Residia em uma região muito vulnerável, não trabalhava devido a impedimento do marido que era extremamente machista e agressivo. Alguns meses depois, ela volta à unidade de saúde na companhia do esposo, muito bravo, que aos gritos diz a enfermeira:
- Você nos enganou!
- O que aconteceu senhor?
- Você disse para minha mulher que se tomasse todos esses comprimidos aqui, um por dia, não iamos mais ter filhos, e ela está grávida novamente.
- Mas a senhora tomou sem falhar a pílula, todos os dias? – dirigiu-se a enfermeira para a jovem.
- Eu tomei tudinho! – respondeu aos berros o esposo, impedindo que a mulher abrisse a boca.
Pois bem, mesmo depois de 50 anos da Revolução da Pílula, que provocou mudanças de hábitos sexuais significativos nos casais do ocidente e principalmente possibilitou a mulher ter o direito de escolher pela reprodução, cabendo a partir de então, a ela, decidir se teria um ou dez filhos, parece que algumas coisas não mudam.
O homem do relato anterior, com toda sua vaidade e orgulho, jamais poderia admitir que coubesse a mulher a escolha de ter mais filhos e se era para impedir a reprodução ele que o faria, optando então por tomar as pílulas no lugar da mulher.
Ignorância, machismo, prepotência, submissão? Tudo isso e um pouco mais, diria apenas que foi uma violência.
Violência dele contra ela, por humilhá-la, substimá-la e impedi-la de tomar decisões apenas pelo fato de ser mulher. Uma violência da sociedade contra ele que foi criado em uma família machista, onde o pai agredia verbalmente e fisicamente a mãe e foi assim que ele reproduziu suas atitudes com sua família. Uma violência dela contra ela mesma, mesmo que inconsciente, em uma luta diária na busca pelo rompimento de um ciclo de violência que parece não ter fim.
E finalmente uma violência de todos nós contra eles, por atribuir à ignorância, à falta de oportunidades ou ao fator econômico a consequência disso. Por culpabilizar esta mulher e dizer por entre ombros: Está assim porque quer, porque gosta de apanhar. Por fecharmos nossos olhos e ouvidos e não movermos uma agulha ao presenciarmos ou suspeitarmos de um ato de violência.
Provavelmente alguém dirá: que baboseira, o que eu tenho com isso? E então lhe pergunto: se você não provocou esta situação então o que tem feito para amenizá-la, para suprimi-la? E o seu um terço? Parte da responsabilidade é do indivíduo, parte do Estado e parte da sociedade, certo? E então, qual seu um terço?
Não precisa me responder, aliás, não pretendo com este texto criticar ou julgar atos de terceiros, muito menos instigar a paz no mundo (por mais que seja este meu desejo). Tenho apenas procurado fazer minha parte e esta capacitação foi para mim tão importante que me senti na obrigação de deixar meu um terço aqui. Minha singela contribuição para uma discussão que nos provoca indignação e aquela vergonha moral que por vezes sentimos e deixamos passar...que desta vez ela não passe, persista e multiplique-se.
Se você já foi vítima de violência, denúncie. Se você é um agressor, procure ajuda. Se você presencia ou suspeita de atos de violência ofereça seu um terço.
Provocar a mudança é preciso, para começar basta um, para vencer precisamos de mais de um milhão!
Uma semana repleta de reflexões e de sementinhas de indignação a todos nós, é o que desejo!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 26 de setembro de 2010

A única certeza desta vida...

Em homenagem a querida Marly: “Até que nos encontremos novamente, que Deus te guarde na palma da sua mão”.

Sim, o assunto é delicado. Não, não terá graça alguma. Sim, com certeza você saberá do que estou falando. Não, ninguém precisa levar este assunto a ferro e fogo.
Morrer. Desencarnar, perder a vida, exalar o último suspiro, falecer, finar-se, expirar, fazer a longa viagem, perecer, abotoar o paletó, adormecer no Senhor, apagar, assentar o cabelo, bater as botas, bater o prego, comer capim pela raiz, dar a alma a Deus, dar a alma ao Criador, dar o último alento, defuntar, desaparecer, descansar, descer à terra, desviver, dizer adeus ao mundo, embarcar deste mundo para um melhor, empacotar, entregar a alma a Deus, esticar a canela, expirar, fazer passagem, fechar o paletó, fechar os olhos, fenecer, ir para a Cucuia, ir para a cidade dos pés juntos, ir para bom lugar, ir para o beleléu, ir para o outro mundo, passar desta para melhor, pifar, render o espírito, vestir o paletó de madeira, extinguir-se, acabar-se, findar. Interromper.
Morte, é este o assunto do dia, isso tudo porque, novamente, fui aproximada da única certeza desta vida. Logo eu que não sei lidar com esta situação (e quem sabe?). Nestes momentos faltam palavras, falta coragem, falta lugar para colocar as mãos, falta força para abraçar e sobram lágrimas.
Apesar de ser a única certeza da vida, ninguém sabe quando esta hora vai chegar. Ninguém consegue prever e calcular. E acho que é por isso que quando alguém morre todos ao seu redor param e veem-se obrigados a recomeçar, a reorganizar sua vida.
Seja porque aquela pessoa era sua base, seja porque era seu exemplo, sua alegria, ou ainda porque você se lembra que inclusive você e todos os que amam estão suscetíveis à morte. E isso dói. Afinal ninguém fica pensando ou planejando o dia do adeus, não é?
Espero que não me entenda mal, afinal não desejo que ninguém fique remoendo este assunto um dia inteiro, mas precisava aproveitar este espaço para mostrar o meu ponto de vista sobre isso tudo e colocar para fora o resto da minha tristeza.
É claro que a dor, o medo de não conseguir suportar, a incerteza de como serão as coisas daqui para frente são comuns a todos e é fato que depois que a perda acontece, não temos o poder de fazer o tempo voltar(bom seria se fosse possível). Mas existe um outro lado que dificilmente percebemos, seja por estar tudo turvo demais ou pela dor ser tão intensa que nos impede de ver o lado bom das coisas em um momento tão triste.
Oras! E existe lado bom na morte?! Aprendi a acreditar que sim. Principalmente por entender que a morte na verdade é só a interrupção da vida. Uma pausa para que possamos nos reorganizar e voltar para junto dos nossos, em outra forma talvez, com outro jeito, mas sempre, sempre dispostos a encontrar e cuidar de nossas almas companheiras, de nossas almas gêmeas.
A morte causa lembranças que nenhum outro sentimento é possível de provocar. Você se lembra de coisas de décadas atrás e consegue se lembrar do quanto era bom estar com aquele alguém, você consegue sorrir relembrando uma conversa, um afago e isso é bom. Bom para sua alma que ganha novas forças, bom para seu coração que aos poucos vai se cicatrizando.
A dor que a morte nos provoca realmente é perene. É uma dor que não tem cura, mas tem acalento. Datas festivas, objetos, pessoas, roupas, cheiros, tudo isso será capaz de trazer a dor de volta, mas com o tempo ela vai se acalmando e se transforma em boas recordações e naquela saudade gostosa de quem viveu tanta coisa boa.
Não tinha um convívio diário com a pessoa que nos deixou na semana passada, mas os poucos momentos que passamos juntas me deixaram deliciosas lembranças e é isso que me consola. Posso ainda afirmar que era uma pessoa tão querida que os anjos na certa fizeram fila para acompanhá-la e que agora ela está muito bem.
E é disso que estou falando, não importa o tempo que você passou ou passa ao lado das pessoas que ama, o que vale mesmo é a intensidade destes encontros. Não temos que viver cada dia como se fosse o último e jogar tudo para o alto, mas podemos aproveitar o melhor da vida a cada dia, para que quando chegar a nossa única certeza desta vida também possamos deixar boas lembranças e exemplos dignos de plágio.
A morte é parte do nosso trato com Deus. Cláusula obrigatória no contrato, impossível de modificação, isso é fato. O que é passível de mudança é a forma como a encaramos. Não é o fim do mundo é o recomeço. Para quem foi e principalmente para quem fica.
É na dor da morte que descobrimos quem somos, é ali que amadurecemos e criamos coragem para recomeçar, para mudar hábitos e posturas, para pedir perdão e dizer eu te amo. Só Deus mesmo para fazer um sentimento tão triste nos provocar mudanças tão maravilhosas... Uma semana repleta de vida a todos nós, é o que desejo.

Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 12 de setembro de 2010

O que os olhos não veem o coração sente...


Depois de um longo feriado que me rendeu muitas histórias, imaginei um retorno pacato à rotina. Um dia comum, sem muitas surpresas, sem fortes emoções ou mudanças.
No trabalho tudo bem, nada além do esperado, alguns imprevistos brevemente sanados, enfim, nada capaz de tirar meu controle e minha paz.
O final do dia chegou rápido, quatro dias longe de tudo me deu a sensação de ter ficado longe da cidade por um ano. O feriado passou rápido e o dia subsequente mais rápido ainda. Ao tentar voltar para casa consegui perder três ônibus. Dizia para mim em pensamento: Mas será possível? Três ônibus em menos de cinco minutos, só você mesmo!
Acabei entrando no primeiro ônibus que encontrei depois destes desencontros, certa de que seria o caminho mais curto até em casa. É claro que não foi assim tão curto, já que o motorista percorreu dois bairros inteiros antes de se dirigir ao meu destino final.
Só não perdi a calma graças ao prolongado descanso físico e mental e especialmente por ter entendido mais uma vez o porquê de ter perdido três ônibus antes de parar dentro deste.
Andávamos há pouco mais de quinze minutos quando o ônibus parou em um ponto sem muito movimento, vi a porta se abrir e um garoto gritar:
- Calma pai, já pedi para o motorista esperar.
Em seguida observo um senhor de quarenta e poucos anos subir os degraus com cuidado, segurando nas mãos uma guia utilizada por deficientes visuais. O garoto, de uns onze anos aproximadamente, que havia entrado primeiro, segurou a mão do pai e o levou até o banco mais alto da condução.
- É aqui que vamos sentar?
- É, daqui dá para ver melhor lá fora pai.
- Por mim tudo bem.
Sentaram-se bem atrás de mim, deste modo, mesmo que não quisesse foi inevitável escutar a conversa que se seguiu:
- Nossa, esse ônibus está vazio pai. Só nove pessoas.
- Com a gente?
- Isso, e já contando o motorista. Tem uma moça na nossa frente, uma outra moça com duas crianças do lado, um senhor lá na frente,uma menina com roupa do meu colégio do outro lado e o motorista.
- Está vazio mesmo. E o que nós vamos fazer na “cidade” (aqui as pessoas ainda têm costume de dizer que o centro é a cidade, independente do bairro em que vivam)?
- Ah, sei lá. Queria ficar um pouco sozinho com o senhor, tem coisa que não gosto de falar na frente da vovó.
- Mas quer falar sobre o quê?
- É que eu conheci uma garota na escola hoje. Tão bonita pai. Mas depois te conto que agora vou escutar essa música.
Olhei brevemente para trás e vi o garoto colocar o fone de ouvido e cantarolar alguma coisa, enquanto o pai mantinha um leve sorriso no rosto.
Pouco antes do ponto final, o garoto olha pela janela e diz:
- Nossa! Não acredito!
- O que foi filho?
- A garota pai, passando ali na calçada em frente da loja de pesca.
- A garota bonita?
- É pai, olha lá.
- Olhar para quê?
- Ah, sei lá, se não quiser olhar então imagina.
- Então me diz como ela é.
O garoto começou a detalhar a garota passo a passo, dos sapatos até o arranjo no cabelo, dizia a cor da roupa, dos olhos e até o gesto que ela fazia. Fiz questão de olhar a jovem que subia distraída rumo ao calçadão no centro, realmente uma bela garota. A descrição da jovem foi interrompida pelo questionamento do pai:
- Não passamos o ponto filho?
- Nossa! Já estamos quase, bem perto já.
- Acabou se distraindo, não é?
- É, mas acho melhor a gente dar outra volta. Não quero que ela me veja agora e ainda tenho muita coisa para te contar, pode ser?
- Por mim sem problemas – disse o pai rindo enquanto trazia o garoto para junto de si, num forte abraço.
E assim permaneceram sentados no ônibus enquanto eu descia no ponto final. Na certa fariam o caminho inverso todinho para que tivessem tempo suficiente para compartilhar aquele segredo tão importante para pai e filho.
O pai, provavelmente nunca verá o rosto, nem a roupa da linda menina que em breve será a ele apresentada pelo garoto, mas com certeza poderá advinhar seu cheiro, imaginar seu sorriso e a cor da boca pelos olhos do filho que, muito mais do que seu guia, hoje se tornou seus olhos.
Enquanto observava o ônibus se afastar, agradeci a Deus pelos meus olhos saudáveis e por ainda existir esse amor sincero e cúmplice neste mundo que anda cada vez mais cinza... Um ótimo exemplo para iniciar esta curta semana de volta à rotina.




Ilustração de: Gabriel Vicente.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Secretário do lar, sim senhora!


Realmente nunca é tarde para mudanças de concepção e esta semana tive mais uma vez a confirmação desta certeza. Acredito que as pessoas se formam de acordo com os valores e exemplos que adquirem durante toda sua vida. É por isso que pais, educadores e todas as pessoas que estão em contato direto com as crianças são tão importantes para a construção e o fortalecimento de suas personalidades.
Acontece que mesmo com o passar do tempo algumas concepções, alguns valores continuam arraigados na nossa alma como tatuagens e mesmo que se vivencie novas experiências, conheça novos conceitos, ainda assim algumas verdades continuarão eternas para cada um de nós.
Cresci em uma geração onde a mulher ainda era a única responsável pelos afazeres domésticos: lavar, passar, cozinhar, enfim, das bisavós até as mães sempre foi assim. É claro que ao longo do tempo muitas mudanças apresentaram-se, algumas incríveis, como a possibilidade da mulher trocar de papéis com o homem em algumas funções ou concorrer livremente com ele em uma oportunidade de emprego, contudo, ainda assim mesmo com a mulher invadindo o mercado de trabalho, salvo exceções, ainda é dela a responsabilidade dos afazeres domésticos.
Muitas mulheres hoje têm a possibilidade de contratar alguém para cuidar da casa, da roupa, contudo ainda assim lhes resta a função da escolha do funcionário, mostrar o que quer que seja feito,de que forma, e para isso, já dizia minha avó: só sabe mandar quem sabe fazer. É cultural as meninas brincarem de fazer comidinha e de casinha e os meninos de jogadores de futebol ou motoristas de carro de corrida. Eu pelo menos nunca vi um menino dizer que vai brincar de papai, você já?
Não quero afirmar que ainda vivemos em uma sociedade completamente machista, até por conhecer vários homens que minha avó chamaria de prendados, capazes de cuidar da sua roupa, da sua comida, da casa, mas mesmo que seja para coordenar a organização destes afazeres domésticos sempre existirá por trás deste homem uma mulher, pode ser a avó que o ensinou a fritar o ovo, ou a mãe que ensinou a utilizar a máquina de lavar, dificilmente o que sabem foi lhes ensinado por um homem.
Não acho que seja um cargo do qual devamos nos orgulhar, afinal reflete a submissão sofrida por inúmeras mulheres em um período incontável que perdura da formação da humanidade até hoje, mas este espaço, imaginava eu, sempre seria nosso.
Imaginava até hoje. E é daqui que retomo a discussão iniciada anteriormente sobre nossa mudança de valores, de concepções. Sempre que busquei uma diarista para atender a limpeza do meu apartamento solicitava uma moça de confiança, sempre assim, uma mulher que pudesse cuidar de tudo, sem me deixar com medo de chegar em casa e encontrar o apartamento vazio.
No meu trabalho sempre tive auxiliares de limpeza mulheres e nunca houve nenhum tipo de estranhamento, com a exceção das fofocas comuns onde existem muitas mulheres juntas (isso é inevitável e tenho que admitir), contudo semana passada soube da mudança da empresa de limpeza no meu local de trabalho e fui avisada que teríamos uma nova auxiliar.
No primeiro dia de trabalho da nova funcionária estava em uma reunião externa e não demorou para meu celular tocar com a auxiliar administrativa toda preocupada com a seguinte informação:
- A nova funcionária da limpeza chegou.
- Que bom! Já mostrou o prédio para ela?
- Já. Mas tem uma coisa.
- O quê? Algum problema?
- Não sei se é um problema. Mas é que quem se apresentou hoje aqui é um rapaz.
- Um homem?
- É.
- Interessante.
Confesso que me surpreendi. Não pelo fato de ser um homem simplesmente, afinal já presenciei vários homens em firmas de limpeza da cidade realizando seu trabalho como qualquer uma de nós, mas a surpresa veio quando cheguei ao prédio no dia seguinte.
O toldo da entrada estava brilhando, os vidros impecáveis, chão encerado, aquele cheirinho de limpeza que invadia o prédio todo, me apresentei enquanto o via limpar o fogão.
Um homem novo, de uns 40 anos aproximadamente, quieto e muito prestativo. O comentário no prédio entre as outras funcionárias era apenas um:
- Você viu que belezinha esse moço? Limpou tudinho!
- Pois é, nem dá tempo de pedir e ele já está limpando.
- Além de tudo é organizado.
- E o melhor de tudo, não faz fofoca.
Não faz fofoca, mas virou a fofoca da semana. Uma fofoca boa, daquelas que me fez mais uma vez repensar meus pré-conceitos e admitir que neste cargo, que foi culturalmente delegado exclusivamente a nós mulheres, existem homens que superam a muitas de nós.
Eu nunca gostei dos afazeres domésticos, sei fazer de tudo um pouco porque fui ensinada a isso, mas confesso que estou longe de limpar tão bem uma geladeira como aquele rapaz, que durante uma conversa e outra ainda me contou já ter trabalhado como diarista:
- É mesmo? Trabalhava em casa de família?
- É, antes de entrar na firma eu era secretário.
- Secretário?
- Secretário do lar, sim senhora!
E foi assim que conheci mais um personagem da minha própria história, capaz de me fazer refletir sobre um pouco de tudo e sobre o quanto ainda não sei de nada.

Ilustração de: Gabriel Vicente.

sábado, 28 de agosto de 2010

A marvada gripe!


Começo a ter certeza de que algo aqui dentro não vai bem. Sinto como se todos os meus músculos ficassem se engalfiando, em um estica e puxa que faz tudo formigar. Minha cabeça está pesada, cheia de ar eu presumo, já que meu nariz fechou a passagem de qualquer coisa nesta direção. A boca está seca e a cada copo de água é como se pedisse mais e mais.
Parece que às vezes vou cair, uma tontura esquisita que aparece sempre ao final de um espirro. Odeio espirrar, meus olhos quase saltam do rosto e o alívio imediato não é suficiente para sanar a aflição.
Minha garganta apresenta sinais de irritação, ainda não reclama da água, nem do leite quente, mas já começa a ameçar o bloqueio de um pedaço de pão. Imagino milhares de microrganismos em uma luta sem fim dentro de mim. Soldados brancos e vermelhos tentando decifrar o nome do inimigo, enquanto sugam minhas forças.
O termômetro indica estado febril. Começo a lembrar das propagandas de antitérmicos que vi recentemente. Três em um, quatro, sete em um. Será possível que um comprimidinho de nada consegueria acabar com todo esse mal estar?
Tento controlar o início da inflamação com muita água e alguns comprimidos de vitamina C. Tenho me dado prazos para melhorar, se em dois dias não tiver sinal de melhora procuro um médico. Não consigo ficar nem por meia hora concentrada nos livros, minha cabeça dói e meu nariz implora por um lenço limpo.
Penso que deveria ter uma lei que proibisse as pessoas neste estado de sair de casa. Seria muito mais digno esperar isso tudo passar deitada na minha cama quente, do que espirrando no ônibus e espalhando vírus no meu trabalho.
Sem falar no mau humor que me assola e desta vez não me culpo. Quem consegue ficar disposto em dias assim? Quem pode sorrir se não lhe sobra força nem para olhar no espelho enquanto pensa: você está um bagaço, bom dia.
Felizmente estou vacinada contra a gripe A (H1N1). Desta acho que me livrei. Mas será que isso é gripe mesmo? Talvez seja apenas o tempo seco, agravado pelas queimadas que tem feito meus olhos arder e intensificado, pouco a pouco, a sensação de falta de ar.
O jornal apontava logo pela manhã um alerta sobre a baixa umidade do ar na região em que me encontro. Altas temperaturas, baixa umidade, nem sinal de chuva. Tenho seguido as recomendações a risca: evito exercícios físicos (se bem que isso independe da umidade do ar), tenho bebido mais de dois litros de água por dia, até porque outros alimentos têm sido rejeitados pela garganta irritadinha e o vício de hidratar o nariz, agora se estendeu aos olhos também. Ainda assim, não me sinto bem, deve mesmo ser gripe.
Já recebi diversos diagnósticos no meu trabalho, que variam de gripe a renite. Além disso, não me faltaram receitas caseiras contra a suposta doença: chá de gengibre com cravo, canela com limão, limão com mel e alho, tanta mistura esquisita que chego até a acreditar que realmente funcione, na certa maltratam tanto o corpo que até o vírus decide debandar.
Mas na verdade eu só queria repousar. Ficar deitada o dia todo, por três dias se fosse preciso, tomando uma sopinha leve e um leite quente com açúcar queimado. Para tanto, teria que importar minha mãe para cá, porque ficar doente sem colo de mãe, mesmo em casa, com folga do trabalho, não tem graça nenhuma.
E para quem ainda não foi acometido pelos sinais descritos anteriormente, meus parabéns, já para os demais, que se cuidem, pois deve mesmo ser gripe e daquelas bem “marvadas”!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 15 de agosto de 2010

Pé na estrada!


Enquanto escolhia o tema desta semana para a coluna, dentre a imensidão de estranhices que me perseguem diariamente, comecei a perceber que não é de hoje que este jeitinho esquisito me acompanha.
Lembrei-me das inúmeras vezes em que me senti envergonhada, assustada ou confusa quando era criança diante de tantas situações inusitadas. Realmente já tenho sido treinada desde sempre para enfrentar com bom humor as peças que a vida me prega.
Dentre tantas histórias, pude voltar no tempo em pelo menos três situações que se repetiram recentemente. Claro que tudo em seu devido contexto e com seus importantes personagens, mas o motivo foi o mesmo, creio que banal, pois posso afirmar que todo mundo já passou por isso antes e se não passou provavelmente irá passar. Quem nunca teve um carro enguiçado no meio de uma estrada, afinal?
Voltando no tempo consegui me lembrar com detalhes de uma vez em que fiquei na beira de uma estrada de terra com minha avó, minha irmã e meu tio, na porta do sítio do meu avô depois do carro ter decidido parar de funcionar, bem na hora de voltar para casa, com a noite caindo, o frio chegando e os morcegos se aproximando cada vez mais de nós. Tinha meus seis para sete anos e o sítio que nem é tão longe da cidade, parecia distante demais para que alguém nos salvasse, linha telefônica em área rural naquela época nem existia, muito menos celular.
Consigo lembrar do barulho do vento nas árvores, dos barulhos de bichos do mato que pareciam monstros para uma garota no escuro. Na ocasião fomos salvos por um sitiante da vizinhança que nos colocou na traseira da caminhonete, em meio a sacos de milho e latões de leite e nos trouxe para casa sãs e salvas.
Depois deste ocorrido outros acontecimentos do tipo surgiram, foram inúmeras às vezes em que ajudei uma amiga a empurrar um fusca amarelo imperial ladeira a cima, já que o pobre carro vivia sem bateria e combustível era no conta gotas. Sem falar nas vezes em que fiquei na estrada por um pneu furado e em uma das ocasiões a motorista nem sabia informar onde ficava o tal do pneu step. Sabe como é, carro novo, com aqueles suportes, que mais parecem esconderijos secretos, tão secretos que nem os donos dos veículos sabem onde estão.
Foram tantas histórias! E a mais recente delas me surpreendeu na semana passada. Depois de um final de semana prolongado na cidade natal tive que voltar para a rotina e contei com a carona da minha querida mãe. Eu e meu namorado combinamos de voltar com ela e pegar uma carona até Campinas/SP, seguiriamos então para Sorocaba/SP e ela para São Paulo/SP.
Tudo ia bem até a luz do óleo começar a piscar no painel do veículo. Pisca daqui, dali e o motorista com um ar de preocupado decidiu avisar minha mãe de que algo não ia bem. Paramos em um posto de gasolina na beira da estrada, olhamos o óleo, a água, o combustível, aparentemente tudo certo. Já que o relógio não pára decidimos tentar chegar ao menos em Campinas e voltamos estrada afora.
Cinco quilômetros depois o carro começou apresentar um barulho estranho, um tipo de: tec,tec,tec, que começou a incomodar. É...decididamente seria impossível seguir viagem. Paramos no acostamento e minha mãe acionou o seguro. Com sorte trariam um gincho e um carro extra em aproximadamente duas horas, tempo mais do que suficiente para perdermos o ônibus em Campinas.
Acostumada com tantos desencontros olhei para o céu, vi o céu azul, com poucas nuvens e pensei: pelo menos não está chovendo. Não fiquei brava, nem com medo, mas com certeza tive a certeza de que algo estava por vir.
Não demorou muito para que minha mãe avistasse um ônibus no final da rodovia em nossa direção. Sem pensar duas vezes ela quase se jogou na frente do veículo acenando sem parar até que o motorista parou e nos permitiu embarcar.
Foi uma loucura. Aquele monte de malas tentando se ajeitar no interior do ônibus, já que o bagageiro estava fechado. As pessoas olhando assustadas, tentando entender o que tinha acontecido com aqueles malucos no meio da estrada. Eu e meu namorado esbaforidos, rindo como bobos e relembrando as idas e vindas até o momento.
Enfim chegamos a Campinas, mais tarde no que deveríamos,é claro, o que nos rendeu um chá de cadeiras de mais de duas horas até a chegada ao nosso destino. No final do dia soube que minha mãe havia chegado em segurança também, me contou rindo que voltou para casa de guincho. É...tem coisa que se contar ninguém acredita. Mas é isso, faça chuva ou faça sol, fé em Deus e pé na estrada!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 8 de agosto de 2010

Ah! Se São Tomé fosse vivo...


Confesso que antes de sentar na frente deste computador estava certa de que lhes escreveria algo realmente raro, inusitado, inacreditável, mais uma daquelas coisas que só acontecem comigo ou quando estou por perto. Mas desta vez o mérito não é só meu, dei uma rápida pesquisada na internet e descobri que meu conto inédito é na verdade mais comum do que se imagina.
Contudo, não é assim tão comum que não mereça um relato, então vou prosseguir, certa de que este texto servirá ainda como um alerta aos motoristas de plantão. Explicações dadas, vamos aos fatos.
Não retornava para a cidade natal há quase um mês, quando cheguei tive pouco tempo para tantas novidades, mas ainda assim tentei ao máximo aproveitá-las, afinal cada dia ao lado da família é sagrado, especialmente quando se mora longe do “lar doce lar”.
Na ânsia de poder falar o tempo todo com todo mundo acompanhei minha irmã em uma das tardes em suas andanças pela cidade me aproveitando da sua companhia e de sua habilidade no volante para atender algumas necessidades: supermercado, farmácia, visita aos tios, enfim.
Depois de rodar por quase quatro horas de cá e de lá, aqui e acolá estacionamos na garagem de casa e ao descer do carro sentimos um cheirinho estranho. Não chegava a ser cheiro de queimado, mas era quase. Resolvemos por bem chamar meu pai para dar uma olhadinha no carro, afinal não conheço nada de mecânica automobilística e talvez pudesse ter algum truque que desconheciamos.
Meu pai chegou perto do carro, afirmou que sentia o tal cheirinho, andou pelos lados do automóvel e nos disse:
- Já abriram o capô?
- Não. Será que tem algo de errado?
- Vamos abrir para ver.
Não me atrevi a abrir o capô, mas estava ali, de olhos bem abertos quando ele foi aberto e além do motor e de todo o resto pude ver um gato, isso mesmo, um gato preto, peludo e enorme enfiado no motor.
No mesmo instante meu pai deu um pulo tentando desviar do meu vulto e dos meus gritos que me acompanhavam enquanto corria para a sala e quase me escondia atrás do sofá, certa de que tinha visto um gato morto.
Felizmente o bichano não havia morrido, creio que deva ter perdido apenas uma ou duas das sete vidas que dizem possuir, pois correu bem vivo quando foi cutucado por uma vassoura.
Confesso que fiquei em estado de choque por alguns instantes. Mas será possível um gato dentro do motor do carro? Tudo bem que ali é quentinho, mas nem estava tão frio assim. Sem contar o sufoco que ele passou por todo o tempo que andávamos de cá e de lá pela cidade. Por que ele não miou?! Será que estava gostando do passeio?!
Não sei a resposta para nenhuma destas perguntas, mas me tranquilizei ao saber que isso é mais comum do que se imagina. Já estava achando que era perseguição, uma sexta-feira, de agosto (e olha que não era treze), um gato preto enorme enfiado no meio do motor do carro, parece mandinga, não é?
Mas não é. Encontrei inúmeras reportagens de cobras, ratos e muitos, muitos gatos que se enfiaram no motor de automóveis em busca de calor ou de uma aventura qualquer (quem vai saber?).
Apesar do susto, que rendeu risadas o último dia deste longo final de semana tenho certeza que tirei disso tudo uma grande lição. Antes de sair verifique o óleo, a água, o farol e o gato. Caso não esteja bem posicionado o acomode bem, afinal o bichano também é filho de Deus e tem todo o direito de dar suas voltinhas e arriscar-se como qualquer um de nós, pobres mortais.
Ah! E para quem não acreditou na história, tenho provas e testemunhas do fato. Não perdi a oportunidade de fotografar a cena antes do gato ser acordado, afinal tenho uma mãe que é pior que São Tomé, só vendo para crer, e ela merecia saber com detalhes desta história!


Ilustração de: Gabriel Vicente.