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domingo, 4 de julho de 2010

Gorda, gordinha, gordona


Jussara é uma moça jovem, bem clarinha, olhos verdes, sorriso largo e uma preocupação constante: perder peso. Vive obcecada pela perda de peso há aproximadamente três anos.
Não somos amigas, tão pouco a conheço muito bem, mas hoje pude conversar com ela por pouco mais de trinta minutos e escutá-la dizer por muito mais que trinta vezes o quanto precisava perder peso.
Contou-me que engordou dezessete quilos em um mês e ao mesmo tempo foi tirando fotos e mais fotos da bolsa, mostrava-me aflita o quanto era magra aos treze, aos dezoito, aos vinte e dois e aos vinte e três anos. E em seguida apontava-se e dizia : Mas agora olha isso!
Confesso que o sobrepeso de Jussara era visível, mas nada demais, já vi pessoas bem mais gordas que aquela moça e aquela ânsia pelo peso começou a me incomodar.
Falou que já fez milhões de dietas, já foi ao médico, já tomou remédios e nada adiantou. Esbravejou que o Centro de Saúde ainda não tinha liberado seus exames, pois na certa finalmente deviam ter encontrado a causa de seu aumento de peso.
Colocou a culpa na gestação e no mesmo instante desculpou-se: Todo mundo tem uma desculpa, não é? Essa bem que podia ser, mas não é a minha. Meu filho, tadinho, é um anjo não me causou esse mal.
E eu ali, meio sem saber o que falar quando ela me perguntava: Estou muito gorda, preciso emagrecer, não acha?
Questionei se ela tinha algum problema de saúde e ela negou todos, nada de colesterol alterado, nem diabetes, nem alteração hormonal ou hipertensão, nadinha que justificasse a preocupação incessante com a perda de peso.
Justificou a incompreensão do peso atual com seu cardápio saudável diário, detalhado item a item e por fim culpou o marido por sua “desgraça”: Quando separei dele perdi muito peso, mas foi só voltar para ganhar tudo outra vez. Voltar com marido engorda. Você tem marido?
Nem me atrevi a responder e tentando auxiliá-la a entender a causa de seu ganho de peso sugeri que passasse em atendimento psicológico. Mas que falha a minha, no mesmo instante ela me lembrou de que o problema dela era o peso e não a cabeça: Psicóloga para quê? Meu problema é com nutricionista, mas nenhuma delas acertou até hoje. Você conhece alguma boa?
Conheço várias pensei, inclusive uma de minhas melhores amigas, mas nem me atrevi a responder, pois definitivamente não poderia ajudar Jussara a perder seu excesso de peso. Não só pela minha falta de conhecimento específico no assunto, ou pelo excesso de compreensão com sua preocupação, mas principalmente pelo simples fato deste ser praticamente a única razão de sua vida neste momento.
Tirar de Jussara seu peso extra seria como tirar-lhe a vida. Só seria prudente tal ação depois de mostrar-lhe quantas coisas boas ela tem e que tornariam esta obsessão obsoleta.
Jussara é jovem, apesar do sobrepeso tem saúde, tem um filho lindo, tem um emprego, lindos olhos verdes e um sorriso contagiante, apesar de raro. Jussara poderia conquistar o mundo, mas para que isso ocorra, precisa antes de perder peso ganhar auto-estima.
Conheço muitas Jussaras e com certeza você conhece tantas outras, para esta marquei um atendimento de retorno para fortalecer o vínculo, ganhar sua confiança, mas para as outras gordinhas, gordas e gordonas resta a (falta de) atenção, desta sociedade que insiste em viver na era da revolução da beleza.
Para que perder peso quando se é feliz? Antes de perder peso e ganhar auto-estima, creio que Jussara precisa reencontrar a felicidade, nos olhos do filho, no abraço do marido ou no apoio de tantas mulheres que não se sentem completamente perfeitas com seu corpo, mas que como eu, conseguem viver perfeitamente bem com uns quilinhos a mais, sem se importar com as modelos de revista e com as artistas globais.
Jussara não feche a boca, abra, mostre seu sorriso lindo. Não feche os ouvidos, abra-os, e escute os incentivos e bons conselhos. Não feche os olhos, abra-os diante do espelho e descubra a maravilhosa mulher que existe em você.
É isso, para o ouvido mais perto que é o meu e para todas as Jussaras desta vida...
Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 20 de junho de 2010

Êta povo esquisito!


Hoje tive a felicidade de observar a movimentação dos brasileiros em dia de jogo do Brasil na Copa do mundo. Que maluquice! No bairro onde trabalho uma das ruas foi praticamente fechada, com a bandeira do Brasil pintada no asfalto, bandeirinhas brigando por espaço com os fios de alta tensão e crianças competindo com o barulho das buzinas ao soprarem suas vuvuzelas.
Que barulho ensurdecedor. Maldita mania esta dos sul africanos. Cornetas não eram tão famosas em outros mundiais. Pelo que me lembro, os brasileiros inventavam gritos de guerra, aguçando a criatividade de qualquer um e garantiam seu barulho no gogó.
Não vi muitas demonstrações de confiança durante meu trajeto para o trabalho. Logo pela manhã as camisas amarelas, se é que existiam, estavam cobertas por cachecóis e casacos que não demonstravam nenhum tipo de empolgação. Para dizer a verdade a não ser pelo barulho das crianças na rua, e pelo fim do expediente ao meio período nem parecia que seria um grande dia para os brasileiros.
Mudei bruscamente de opinião ao retornar para casa, quase três da tarde, e dar de cara com um congestionamento de dar inveja a São Paulo. Bandeirinhas, bandeirões, faixas, blusas, brincos e até unhas em verde e amarelo pintaram as ruas. Vuvuzelas a mil, buzinaço e uma alegria de final de campeonato, simplesmente contagiante.
O motorista de ônibus com o radinho de pilha na sintonia, o porteiro do prédio com a TV ligada no celular, todos unidos para torcer pelo Brasil. Telão na praça central, a economia do país parada, fábricas fechadas, intervalos para assistir ao jogo e vamos lá Brasil!
Assiti ao jogo na casa de uma amiga, onde não faltaram vuvuzelas para animar a monótona partida que pintou o primeiro tempo. Superstições a parte, concordamos em mudar o lugar dos presentes para melhorar as vibrações e pudemos gritar gol por duas vezes no decorrer do segundo tempo.
Mas no caminho de volta, dentro do ônibus é que pude perceber tudo voltando ao normal. As pessoas escondiam na bolsa o verde e amarelo, falavam sobre a aula ou o trabalho, nem se importando com o resultado do tão esperado jogo.
Entrei em casa pensando: Brasileiro é um povo esquisito mesmo. Passo de seis a oito horas do meu dia orientando famílias sobre seus direitos sociais, incentivando a união, a participação popular, tentando mostrar-lhes sua força para a transformação de sua realidade. No máximo que já consegui reunir até hoje foram umas trinta pessoas, que se reduziram para quinze no segundo encontro e para cinco no último, como se fosse uma grande perda de tempo falar sobre direitos e lutar por sua efetivação.
Mas para o jogo do Brasil, só na praça central da cidade reuniram-se quase mil pessoas. Para quê? Para torcer oras! Por quem? Pelo time do Brasil é claro! Por quê? Por que ele nos representa lá fora.
Por que não nos reunimos para reivindicar melhorias sociais, por nós mesmos, pelo povo oprimido, pelo simples fato de sermos cidadãos livres e merecermos o mínimo de dignidade para nossa sobrevivência?
Por que não perdermos tempo com isso? Não pretendo aqui desmerecer o jogo do Brasil e a importância disso para a nação, mas sim questionar o valor que damos a nossa pátria ultimamente.
Os noticiários dedicam integralmente seu tempo a falar sobre a copa do mundo, falam sobra a África do Sul, mas não mostram nossa miséria; falam sobre a jabulani, mas não falam sobre os candidatos à eleição; repetem e até sopram no ar as vuvuzelas, mas não divulgam as greves no país e guerras civis pelo mundo. É como se todo o planeta estivesse em standby. Pausado, na espera de divulgar uma enorme alegria ou uma grande decepção que com certeza interferirá no humor de cada brasileiro.
Mais uma vez repito: Que maluquice! Parece que nos orgulhamos de ser brasileiros e brigamos pelo nosso país, até com socos e pontapés se por preciso, só a cada quatro anos, e olha que nem me refiro ao período de eleições.
Se tivessemos tanta garra para escolher nossos políticos como palpitamos na escalação da seleção brasileira, se fossemos as ruas cobrar as promessas de campanha, como fazemos com os jogadores no final de cada jogo, com certeza este país teria muito mais para se orgulhar.
E salve o Brasil, com todo seu povo alegre, guerreiro e esquisito!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 13 de junho de 2010

Sou seu fã!



Em homenagem ao leitor Marcelo, filho da Dona Isméria e à Professora Nívea.

Bem que podia ter sido só mais um final de semana em casa, ou quem sabe um grande final de semana com muitas fotos e histórias para contar. Podia simplesmente ter sido um feriado em família ou ainda dias repletos de lembranças e quitutes saborosos. Este feriado me revelou tudo isso e um pouco mais.
Costumo compartilhar frequentemente com vocês minha rotina maluca, meus medos, minhas angústias, minhas alegrias e anseios. Para algumas pessoas isso é loucura, visto que me exponho de tal maneira que até mesmo quem nunca me viu poderia me definir em palavras, mas para mim este espaço mais do que uma atividade semanal é uma verdadeira terapia, então se me faz bem e não atrapalho ninguém, já que quem não gostar do texto pode recusar-se a lê-lo, por que não ser assim?
E é por este motivo que mesmo nos dias mais difíceis me obrigo a sentar na frente do computador e olhar para a folha em branco até que ela se pinte com letrinhas que podem não significar muito para alguns, mas que para mim são partes da minha história, contada em fascículos, passo a passo como uma novela mexicana.
Confesso que nos últimos dias pensei seriamente em abrir mão deste espaço e me tornar uma colaboradora esporádica deste jornal, não por alguém ou alguma coisa, mas pela minha falta de tempo. Ausência esta que me impede de dedicar tantos minutos quanto gostaria nesta atividade que tanto me faz bem. Por várias vezes pensei em desistir, então me sentava na frente do computador e dizia: “se em cinco minutos não tiver nenhuma inspiração esta semana irei faltar com o jornal”, mas como mágica, felizmente, sempre tive momentos maravilhosos ou angústias suficientes para relatar neste espaço e nesta semana não foi diferente.
Estava na rodoviária da cidade natal, depois de três dias deliciosos com minha família e amigos, na fila de um guichê em busca de uma passagem de volta à rotina. Era uma tarde de sábado comum, fria e seca, com um solzinho tímido, não tinha muita gente circulando pelo local, apenas uma senhora no guichê e outros passageiros sentados. Aproximei-me da fila e enquanto aguardava minha vez, um rapaz, com aproximadamente quarenta anos, de boné, óculos escuros e casaco de moletom se aproximou de mim e disse:
- Desculpe, mas você é a Taline?
- Sim – respondi enquanto o observava tirar o boné, os óculos e me estender sua mão:
- Muito prazer, sou seu fã!
No mesmo instante senti minhas bochechas corarem e por um segundo não soube o que dizer. Enquanto tentava me recompor ele prosseguiu:
- Gosto muito dos seus textos, leio todos. Admiro o jeito como escreve, deixando transparecer suas emoções, isso torna sua escrita diferente. Desculpe meus trajes, mas se eu soubesse que iria te encontrar teria me arrumado melhor.
Eu sorri, não achando nada de errado na bermuda com o moletom. Agradeci, sem saber muito o quê dizer no instante em que ele virou-se para a senhora que estava à minha frente no guichê e disse:
- Mãe, esta é a Taline. Não falo para a senhora que a gente nunca pode sair de casa de qualquer jeito, olha o jeito que eu estou bem no dia em que a conheci.
Cumprimentei a simpática senhora que confirmou o interesse de seu filho pelos meus textos e após a compra da passagem voltei para casa. Voltei não como ali havia chegado, voltei renovada, com novos ares. Voltei principalmente com o acréscimo de uma pequena esperança que ainda existe aqui, com a vontade de um dia tornar esta atividade que me faz tão bem minha rotina e ter mais tempo para momentos tão agradáveis.
Neste mesmo final de semana tive a felicidade de rever uma querida professora da terceira série que disse guardar um caderno com minhas produções de texto até hoje, onde adiciona agora os recortes de jornal. Que coisa, pensei, não tinha a dimensão de que era capaz de interferir de alguma forma na vida das pessoas, mesmo estando tão longe.
Seja pelos segundos que cada um reserva lendo meus textos, seja pelos minutos que passam colecionando meus recortes ou pelas horas que dedicam a pensar nas palavras que desenho semanalmente.
Longe disso tudo, fico sem saber se para mais alguém, além de mim, estas palavras fazem sentido e significam alguma coisa, e é disso que tenho precisado nos últimos dias, destas críticas, destes elogios e das sugestões para que possa fazer parte da vida de cada um destes leitores que já me conhecem tão bem.
Não tenho palavras para agradecer tanta afeição, registro aqui minha vontade desta troca recíproca, de novas opiniões, seja pelo blog, e-mail, cartinhas manuscritas ou datilografadas em antigas máquinas de escrever e encaminhadas ao jornal... O importante é a presença, mesmo que seja há trezentos quilômetros de distância.
Desejo um maravilhoso final de semana a todos que chegaram ao final deste texto e me deram um pouquinho do seu tempo. Tempo que tem valido mais que ouro nos dias de hoje e que quando bem aproveitado pode causar sensações tão maravilhosas, tão incomparáveis que não há dinheiro nenhum neste mundo que as pague...
Ilustração de: Gabriel Vicente.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Uma sensação não sei de quê...

Às vezes sou invadida por um sentimento estranho. Uma pressão no peito que faz o coração diminuir e a angustia apertar. Um misto de aflição e incômodo, como se fosse incapaz de explicar se o que me aflige é algo que me foi dito, a consequência de um ato, um presságio ou simplesmente uma sensação.
Tem dias que a tristeza se envolve com a saudade e me deixa sem saber o que estou sentindo. Um misto de medo, com nostalgia e alegria. Tem dias que a única coisa que não quero ouvir é alguém me perguntar: “como você está?”. Não por maldade ou falta de vontade, simplesmente por não saber explicar.
Tem dias que o sol parece forte demais, o vento frio demais e a noite escura demais. Tem dias que o silêncio incomoda. Tem noites que parecem não ter lua, e dias que insistem em não ter sol.
Tem dias que acordo assim, estranha, com um nó na garganta, impossível de ser explicado. Tem dias em que os acontecimentos vão me indicando aflições e angustias, tem dias que nem isso. Tem dias que apenas faço passar, correndo, contando cada minuto, na espera de que logo acabe para em um longo suspiro poder dizer ao coração: “não era nada demais, se acalme, está tudo bem”.
Tem dias que nem tento explicar, mas tenho a certeza que algo irá acontecer. Alguma coisa que vai mudar minha rotina, me trazer sorrisos ou lágrimas, alguma coisa que irá me tirar do controle.
Tem dias que me questiono sobre o caminho a seguir, sobre por onde ir e mudo minha rotina por instinto, vou de escada e deixo o elevador, caminho por oito quadras e não pego o ônibus, esqueço a bolsa e me atraso por dois minutos. Tem dias que com certeza recebo uma mãozinha do destino...
Não sei se acreditam nisso ou não, só sei que nesta semana as mãozinhas do destino tem sido verdadeiros tapas na minha nuca. Uma sensação não sei de quê, realmente inexplicável.
Talvez pela avalanche de acontecimentos que invadiram meu relacionamento nas últimas semanas, me tornando comprometida, solteira e novamente comprometida com direito a anel no dedo em curtos espaços de tempo. Talvez pelo fato de mesmo depois disso tudo, alguém ter decidio viajar para bem longe neste momento tão delicado, ou ainda pela minha ansiedade em saber definitivamente se deixarei ou não de ser uma dúvida em algumas situações.
Pode ser ainda pela simples e deliciosa ansiedade de rever, depois de mais de dois meses, minha família. Quem sabe seja apenas vontade de jogar conversa fora o final de semana inteiro com minhas amigas, e de ganhar colo de mãe enquanto a coloco a par de tantos desencontros.
Pode ser que na verdade até saiba bem o que esta coisa signifique, mas para que nomear algo que ainda não sei se me fará bem ou não? Melhor ficar com esta sensação não sei de quê por estes dias que se aproximam, sem a certeza do que será o depois do feriado. Fugir do controle em alguns momentos me faz bem, especialmente quando as decisões a serem tomadas não dependem exclusivamente de mim.
Só não me perguntem o que não sei explicar, enquanto fico aqui com esta sensação não sei de quê, até que os dias retomem a rotina que tem me engolido tantas sensações.
O importante é o fim disso tudo, o início é sempre de alguma forma provocado e o meio ninguém nunca consegue mesmo explicar, então chega de tantas certezas... Pelo menos até que o feriado se finde, me deixe aqui com esta sensação não sei de quê.

sábado, 22 de maio de 2010

A cor do acaso...


Estava mais uma vez declarando minha falta de sorte quando levei uma grande rasteira do acaso. Um daqueles tapas com luva de pelica quase imperceptíveis mas capazes de provocar enormes mudanças de valores. Um tapa lançado delicadamente, bem no momento em que insistia em cronometrar minhas ações, na ingênua pretensão de dominar meu tempo.
Poderia ser mais uma tarde de mau humor, daquelas em que ficamos remoendo aquela coisinha que podia ter dado certo e não deu; aquele minuto que poderíamos ter adiantado e nos atrasou uma hora, enfim, daquelas tardes em que se chega em casa e estufa-se o peito para dizer: que dia!
Poderia com certeza ser um final de dia assim, infeliz e emburrado. Mas não foi. Não por mim, nem por você, mas pelo acaso. Caso alguém nele não acredite e queira chamar de destino, força maior, Deus ou de simples coincidência, deixo aqui meu consentimento. Só gostaria que estas palavras fossem capazes de lhes mostrar algumas das inúmeras possibilidades que me foram apresentadas.
Havia chegado bem cedo ao trabalho, na ânsia de sair meia hora mais cedo para ter tempo de comprar um livro indispensável para minha monografia. Tudo o que precisava era me adiantar trinta minutos, apenas isso. Mas é claro que o universo costuma, nestas ocasiões, nos surpreender e conspirar contra ou a favor de acordo com o que o acaso espera do “caso” em andamento. E desta vez o acaso aparentemente estava contra mim, mas completamente disposto a me dar uma lição.
Mais uma vez o ônibus passou por mim, graças a duas palavras trocadas a mais e uma assinatura feita em cima do carimbo. Lá se foi o ônibus e meu livro. Ao observar o veículo passando me sentei no saguão e iniciei uma breve conversa sobre sorte:
- Não acredito que perdi o ônibus! Poxa vida, por causa de um minuto!
- Ah... Sempre acontece isso comigo também. Dá uma raiva não é?
- Raiva dá, mas já me acostumei. Foram tantas vezes que já nem me aborreço tanto. No início resmungava, declarava minha raiva contra a conspiração do universo, mas hoje espero.
- Ah, eu ainda me aborreço. É muita falta de sorte!
- É... Azar, falta de sorte, destino ou acaso. O fato é que o ônibus já foi.
Decidi atravessar a avenida com medo de perder outro coletivo no meio daquela falação, me despedi da colega de trabalho que ficou na porta do prédio e atravessei.
Dois minutos depois avisto um rapaz de camisa social, calça jeans, sapatos lustrados correndo bem apressado. Vinha em minha direção, quase cego de tanta pressa. Ao passar por mim, vi sua carteira cair no asfalto, bem em frente aos meus pés:
- Ei moço! Moço! Moçoooo!
- O quê?!
- Sua carteira caiu aqui!
- Meu Deus! Obrigado moça, muito obrigado! Que Deus lhe abençoe! Nossa! Muito obrigado...
E assim foi agradecendo meus ascendentes e descendentes até a nona geração. Eu sorri e disse:
- Não precisa agradecer, só tenha mais calma. A pressa é inimiga da perfeição.
Ele seguiu com passos largos, mas agora sem correr e eu me senti uma tola. Olha só quem estava falando sobre pressa, sobre ter calma.
Do outro lado da rua minha colega sorriu e disse:
- O que aconteceu ai?
- Ele perdeu a carteira bem na minha frente.
- Nossa!
- Agora entendi por que perdi o ônibus.
- Pois é, você tinha que fazer esta boa ação.
Boa ação. Foi a última frase que ouvi antes de entrar no ônibus que logo se aproximou. Frase curta, mas suficiente para me mostrar o quanto somos impacientes e mal humorados. O quanto custamos a ler nas entrelinhas e a aceitar as pedras no caminho, desacreditando no jardim que existe depois dos cascalhos.
A ação foi boa para o rapaz que com certeza teria muita dor de cabeça, mas foi melhor para mim que havia perdido a crença no acaso, no destino e novamente me permiti acreditar que algumas coisas relamente estão fora do nosso controle.
Que delícia saber que nem tudo depende da minha vontade, da minha ação. Que maravilha acreditar que coisas boas e ruins acontecem o tempo todo e temos a possibilidade de apanhá-las ou chutá-las para bem longe. Que alívio entender que nem sempre o caminho mais curto é o que tem menos curvas e que o conceito de perda de tempo é extremamente relativo.
Que sensação mágica compreender as inúmeras combinações que casualmente fazemos diariamente. Que sensação estranha e ao mesmo tempo gostosa esta do desconhecido. Que bom não ter a certeza do que acontecerá em cinco minutos ou em vinte anos. Que surpresa boa saber que existem muito mais cores neste planeta do que podia imaginar.
Que presente inestimável ganhei naquela tarde, ao abrir meus olhos para novos horizontes, repletos de cores novas, tantas cores que nem saberia calcular. Tantas cores que talvez nem consiga desvendar, mas só de saber que ali estão, que desafogo. Mesmo que por vezes demore a encontrá-las dentre tantas misturas possíveis, o fato é que elas sempre estarão lá, e mesmo que nunca as enxergue, só de saber que estas inúmeras possibilidades existem, ah que alívio! Isso já me basta.


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 9 de maio de 2010

Estátua!


Tenho escutado uma pergunta nos últimos dias com tanta freqüência que tem começado a me incomodar. As pessoas sempre me perguntam da onde vim, o que faço e quando escutam as respostas parecem indignadas: Nossa!Mas como você consegue?!
Uma, duas, três, quatro pessoas em menos de uma semana me fizeram a mesma indagação e com a mesma intensidade. Pelo espanto e pelos olhares incrédulos na certa deve ter algo errado. Só não descobri se comigo ou com o resto do mundo.
Como eu consigo administrar mil coisas em 24 horas? Como eu consigo ficar longe da minha família? Como eu consigo manter uma vida social? E a pior delas: Nossa! Mas você ainda consegue ter um namorado? Então está no lucro!
Não quero responder nada disso, apesar de achar mesmo um grande lucro ainda ter um namorado compreensível diante da minha falta de tempo e paciência. Também não quero falar sobre a intensa saudade da minha família e amigos. Menos ainda falar sobre a ausência de minha vida social e da falta que sinto do dia das meninas e das tardes de domingo nos parques da cidade ouvindo boa música.
Quero hoje apenas fazer uma pergunta: Por que as pessoas se incomodam tanto com a rotina dos outros?
Será que é muito difícil alguém entender que algumas pessoas gostam de dias mais dinâmicos, e conseguem conciliar duas ou três atividades em uma mesma semana? Tudo bem que não tenho tido muita sanidade nos últimos meses, é claro que podia ter esperado terminar um projeto para começar outro, mas se foi possível unir, por que separar?!
Sim, sim, para ter mais tempo, mais qualidade de vida e um enorrrme vazio. Lembro-me bem do enorme vazio que sentia logo que me instalei nesta cidade. Trabalhava, mas parecia pouco. Cheguei até a arrumar um emprego paralelo, mas ainda assim tinha muito tempo de sobra. E hoje, aqui estou, mendigando cinco minutos a mais no meu dia.
A verdade é que nunca, nunquinha estamos satisfeitos com nossa situação. E pode ver que isso acontece com todo mundo, homem, mulher, criança, jovem, idoso.
As mulheres vivem trocando a cor e forma dos cabelos, as que os têm lisos imploram por mais volume, as que os têm cacheados dariam um dedinho do pé por eles lisos e domados. As crianças sempre sonham com a vida adulta, até nas brincadeiras insistem em adiantar a vida profissional. Os jovens moldam sua personalidade através de exemplos da mídia, estando hoje darks e amanhã coloridos, querendo ter 18 anos logo para tirar carteira de habilitação e conquistar aquela gatinha. Os idosos vivem da nostalgia de bons tempos, ah se aquela época voltasse, dariam tudo por mais alguns anos de vivacidade, de juventude. E assim vai...
Sempre queremos estar em outro lugar, de outro jeito, com outras pessoas. Isso sem contar quando não assumimos a vontade de mudar nossos hábitos e começamos a julgar os hábitos alheios. São os outros que fazem demais, ou eu que faço menos. São os outros que têm mais tempo, ou eu que não consigo organizar o meu, enfim. Sempre buscamos mais, mais e mais. E o que nos basta?
Talvez o segredo esteja bem aqui. Enquanto apenas nós não formos suficientes para nos saciar, nunca teremos o bastante. Enquanto não estivermos satisfeitos conosco e com nossos defeitos, dificuldade e limites, os assumindo e propondo mudanças sutis, sempre estaremos nos torturando querendo mais, mais e mais.
Em uma tentativa frustrada de esconder uma imagem vista em qualquer espelho. Tentando esconder ou congelar as dificuldades, para que a mudança não se faça necessária. Mudar pra quê? Por quê? Para quem? A resposta é apenas uma: mudar por você, e ninguém mais.
Às vezes me sinto em um jogo de crianças, onde o “vivo e o morto” estão sem saber seus papéis reais. Muitas vezes gostaria que a brincadeira mudasse e alguém gritasse Estátua, para que tudo se congelasse, para que o tempo invadisse meus pulmões e me trouxesse de volta a tranqüilidade para raciocinar. Mas se alguém não me salva, que graça tem? Ninguém gosta de ficar como estátua o jogo inteiro.
Vamos desengessar nossos pré-conceitos e correr atrás do novo. A mudança causa um pequeno furacão em nossas vidas, assusta, destelha casas e deixa cabelos brancos, mas também traz tanta conquista, tanta experiência e força para próximos recomeçares. Chega de Estátua! E agora que te salvei, está com você!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 2 de maio de 2010

Qual é o seu maior desejo?!


Na semana passada passei por uma situação que me fez refletir sobre a importância que as coisas têm. Sobre o que é mais importante ou sobre o que mais desejamos hoje, amanhã, no primeiro minuto do dia ou logo ao deitar.
Pensei no quanto isso tudo é relativo e só pode ter valor se analisado conjunturalmente. Tudo isso por causa de uma sandália que não custou mais de trinta reais. Calma que já explico.
Estava a caminho de uma consulta médica, agendada há dois meses, em uma semana que se apresentou toda colorida, com sol, céu azul e aquele vento frio no final do dia, mas que fez questão de se tornar cinza, bem perto da hora da consulta.
Dentro do ônibus já tinha notado algumas nuvens carregadas, mas pensei: Tomara que tenha tempo de chegar ao consultório. Hunf! Até parece. Foi descer do ônibus e a água começar a cair, bem na minha cabeça. Sim, sim, estava com guarda-chuva, mas com a chuva de vento que se apresentou, não tive como escapar e me molhei praticamente inteira. Na verdade estava me sentindo como aquelas personagens de desenho animado que andam, mesmo nos dias ensolarados, com uma nuvem na cabeça.
Até ai, tudo bem. Já estou acostumada a tomar chuva, foram tantas vezes, que já nem me importo. O pior de tudo foi que restando dois quarteirões para chegar ao meu destino, eis que um pé de sandália arrebenta. Na mesma hora pensei: Era só o que me faltava! Pronto Deus pode mandar o raio!
Por um instante não sabia se voltava para casa ou insistia na consulta, mas me lembrando dos dois meses de espera, e que estatisticamente é mais fácil ganhar na loto do que conseguir uma consulta com essa médica, achei que era questão de honra seguir, mesmo molhada e descalço.
Comecei a arrastar a sandália, como se estivesse mancando e com muita dificuldade fui avançando. Fui parada por dois pedestres que me perguntaram se eu tinha caído, mas nem ousei responder, só balancei a cabeça negativamente, soltei um sorrisinho amarelo e mantive meu esforço para chegar ao consultório.
Olhava desesperada para todas as lojas que encontrava na esperança de encontrar um par de calçados que salvasse minha vida, ou pelo menos meus pés daquela água de enxurrada, mas nada, só loja de computadores, escolas de inglês, academia e de roupa infantil.
No quarteirão do consultório cheguei a entrar em uma loja de pijamas, na esperança de encontrar um chinelo de borracha por lá, mas que nada, só chinelinhos de quarto, fofinhos, quentinhos, cheios de pelúcia, que não combinavam nadinha com aquele dilúvio.
Bem, foi bem ai que comecei a pensar no quanto queria um tênis com meias secas naquela hora, no quanto seria indispensável outro calçado naquele instante. Se alguém me perguntasse se eu preferiria um apartamento ou uma sandália naquele momento, na certa pegaria o calçado. Da mesma forma que quando acordo o que mais desejo é poder dormir mais cinco minutos, e quando vou dormir é ter silêncio e sonhos bons.
O fato é que tudo depende do momento, da situação, e ao redor de quem estamos na hora de escolher nossas prioridades, nossas vontades e necessidades. Para uma pessoa desempregada o maior desejo é o emprego, mas para alguém desempregado e sem moradia é a casa, e para aquele que não tem emprego, nem casa, nem comida, um pedaço de pão já serve.
E com isso muitos de nós deixamos de dar atenção ou valorizar o desejo daqueles que nos rodeiam. Achamos ridículo, ou um absurdo, ou ainda falta de ambição a vontade alheia, mas com que direito?
Como podemos julgar o maior desejo de alguém, sua maior necessidade se nem conhecemos sua realidade? Se não sabemos os obstáculos que cristalizaram essa precisão? Ainda assim julgamos, dia e noite.
Resumindo, cheguei ao consultório descalço. Fui olhada de forma rude e irônica pelas pacientes que ali estavam e nem me preocupei em explicar demais. Com a sandália arrebentada nas mãos, toda molhada, sentei na sala de espera e liguei para uma grande amiga (que se transforma em anjo da guarda nessas horas). Contei gargalhando o que tinha acontecido e escutei dela: “Mas tinha que ser você hein?! Se contar ninguém acredita!”.
Pois é, se contar ninguém acredita. Mas é assim, passando esses apuros dia sim dia não é que tenho aprendido a ser mais humilde, mais sensível e menos egoísta cotidianamente. Entender o outro só é possível quando conseguimos entender a nós mesmos e isso exige treino, paciência e muito amor.
Nesse exato momento o que mais desejo é um lanche suculento, daqueles bem gordos, mas vou acabar cozinhando alguma coisa mais saudável, pois tenho que pensar no almoço de amanhã. E isso é bom... Ainda existem várias formas de saciar nossas necessidades, e muitas delas não custam nada.
Basta um olhar carinhoso, um abraço apertado ou um sorriso maroto para atender o desejo de algumas pessoas, principalmente daquelas para as quais geralmente pouco temos tempo, e olhos.
Uma semana repleta de desejos e vontades saciadas, é o que desejo. Bons ventos para nós!
Ilustração de: Gabriel Vicente.