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domingo, 13 de junho de 2010

Sou seu fã!



Em homenagem ao leitor Marcelo, filho da Dona Isméria e à Professora Nívea.

Bem que podia ter sido só mais um final de semana em casa, ou quem sabe um grande final de semana com muitas fotos e histórias para contar. Podia simplesmente ter sido um feriado em família ou ainda dias repletos de lembranças e quitutes saborosos. Este feriado me revelou tudo isso e um pouco mais.
Costumo compartilhar frequentemente com vocês minha rotina maluca, meus medos, minhas angústias, minhas alegrias e anseios. Para algumas pessoas isso é loucura, visto que me exponho de tal maneira que até mesmo quem nunca me viu poderia me definir em palavras, mas para mim este espaço mais do que uma atividade semanal é uma verdadeira terapia, então se me faz bem e não atrapalho ninguém, já que quem não gostar do texto pode recusar-se a lê-lo, por que não ser assim?
E é por este motivo que mesmo nos dias mais difíceis me obrigo a sentar na frente do computador e olhar para a folha em branco até que ela se pinte com letrinhas que podem não significar muito para alguns, mas que para mim são partes da minha história, contada em fascículos, passo a passo como uma novela mexicana.
Confesso que nos últimos dias pensei seriamente em abrir mão deste espaço e me tornar uma colaboradora esporádica deste jornal, não por alguém ou alguma coisa, mas pela minha falta de tempo. Ausência esta que me impede de dedicar tantos minutos quanto gostaria nesta atividade que tanto me faz bem. Por várias vezes pensei em desistir, então me sentava na frente do computador e dizia: “se em cinco minutos não tiver nenhuma inspiração esta semana irei faltar com o jornal”, mas como mágica, felizmente, sempre tive momentos maravilhosos ou angústias suficientes para relatar neste espaço e nesta semana não foi diferente.
Estava na rodoviária da cidade natal, depois de três dias deliciosos com minha família e amigos, na fila de um guichê em busca de uma passagem de volta à rotina. Era uma tarde de sábado comum, fria e seca, com um solzinho tímido, não tinha muita gente circulando pelo local, apenas uma senhora no guichê e outros passageiros sentados. Aproximei-me da fila e enquanto aguardava minha vez, um rapaz, com aproximadamente quarenta anos, de boné, óculos escuros e casaco de moletom se aproximou de mim e disse:
- Desculpe, mas você é a Taline?
- Sim – respondi enquanto o observava tirar o boné, os óculos e me estender sua mão:
- Muito prazer, sou seu fã!
No mesmo instante senti minhas bochechas corarem e por um segundo não soube o que dizer. Enquanto tentava me recompor ele prosseguiu:
- Gosto muito dos seus textos, leio todos. Admiro o jeito como escreve, deixando transparecer suas emoções, isso torna sua escrita diferente. Desculpe meus trajes, mas se eu soubesse que iria te encontrar teria me arrumado melhor.
Eu sorri, não achando nada de errado na bermuda com o moletom. Agradeci, sem saber muito o quê dizer no instante em que ele virou-se para a senhora que estava à minha frente no guichê e disse:
- Mãe, esta é a Taline. Não falo para a senhora que a gente nunca pode sair de casa de qualquer jeito, olha o jeito que eu estou bem no dia em que a conheci.
Cumprimentei a simpática senhora que confirmou o interesse de seu filho pelos meus textos e após a compra da passagem voltei para casa. Voltei não como ali havia chegado, voltei renovada, com novos ares. Voltei principalmente com o acréscimo de uma pequena esperança que ainda existe aqui, com a vontade de um dia tornar esta atividade que me faz tão bem minha rotina e ter mais tempo para momentos tão agradáveis.
Neste mesmo final de semana tive a felicidade de rever uma querida professora da terceira série que disse guardar um caderno com minhas produções de texto até hoje, onde adiciona agora os recortes de jornal. Que coisa, pensei, não tinha a dimensão de que era capaz de interferir de alguma forma na vida das pessoas, mesmo estando tão longe.
Seja pelos segundos que cada um reserva lendo meus textos, seja pelos minutos que passam colecionando meus recortes ou pelas horas que dedicam a pensar nas palavras que desenho semanalmente.
Longe disso tudo, fico sem saber se para mais alguém, além de mim, estas palavras fazem sentido e significam alguma coisa, e é disso que tenho precisado nos últimos dias, destas críticas, destes elogios e das sugestões para que possa fazer parte da vida de cada um destes leitores que já me conhecem tão bem.
Não tenho palavras para agradecer tanta afeição, registro aqui minha vontade desta troca recíproca, de novas opiniões, seja pelo blog, e-mail, cartinhas manuscritas ou datilografadas em antigas máquinas de escrever e encaminhadas ao jornal... O importante é a presença, mesmo que seja há trezentos quilômetros de distância.
Desejo um maravilhoso final de semana a todos que chegaram ao final deste texto e me deram um pouquinho do seu tempo. Tempo que tem valido mais que ouro nos dias de hoje e que quando bem aproveitado pode causar sensações tão maravilhosas, tão incomparáveis que não há dinheiro nenhum neste mundo que as pague...
Ilustração de: Gabriel Vicente.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Uma sensação não sei de quê...

Às vezes sou invadida por um sentimento estranho. Uma pressão no peito que faz o coração diminuir e a angustia apertar. Um misto de aflição e incômodo, como se fosse incapaz de explicar se o que me aflige é algo que me foi dito, a consequência de um ato, um presságio ou simplesmente uma sensação.
Tem dias que a tristeza se envolve com a saudade e me deixa sem saber o que estou sentindo. Um misto de medo, com nostalgia e alegria. Tem dias que a única coisa que não quero ouvir é alguém me perguntar: “como você está?”. Não por maldade ou falta de vontade, simplesmente por não saber explicar.
Tem dias que o sol parece forte demais, o vento frio demais e a noite escura demais. Tem dias que o silêncio incomoda. Tem noites que parecem não ter lua, e dias que insistem em não ter sol.
Tem dias que acordo assim, estranha, com um nó na garganta, impossível de ser explicado. Tem dias em que os acontecimentos vão me indicando aflições e angustias, tem dias que nem isso. Tem dias que apenas faço passar, correndo, contando cada minuto, na espera de que logo acabe para em um longo suspiro poder dizer ao coração: “não era nada demais, se acalme, está tudo bem”.
Tem dias que nem tento explicar, mas tenho a certeza que algo irá acontecer. Alguma coisa que vai mudar minha rotina, me trazer sorrisos ou lágrimas, alguma coisa que irá me tirar do controle.
Tem dias que me questiono sobre o caminho a seguir, sobre por onde ir e mudo minha rotina por instinto, vou de escada e deixo o elevador, caminho por oito quadras e não pego o ônibus, esqueço a bolsa e me atraso por dois minutos. Tem dias que com certeza recebo uma mãozinha do destino...
Não sei se acreditam nisso ou não, só sei que nesta semana as mãozinhas do destino tem sido verdadeiros tapas na minha nuca. Uma sensação não sei de quê, realmente inexplicável.
Talvez pela avalanche de acontecimentos que invadiram meu relacionamento nas últimas semanas, me tornando comprometida, solteira e novamente comprometida com direito a anel no dedo em curtos espaços de tempo. Talvez pelo fato de mesmo depois disso tudo, alguém ter decidio viajar para bem longe neste momento tão delicado, ou ainda pela minha ansiedade em saber definitivamente se deixarei ou não de ser uma dúvida em algumas situações.
Pode ser ainda pela simples e deliciosa ansiedade de rever, depois de mais de dois meses, minha família. Quem sabe seja apenas vontade de jogar conversa fora o final de semana inteiro com minhas amigas, e de ganhar colo de mãe enquanto a coloco a par de tantos desencontros.
Pode ser que na verdade até saiba bem o que esta coisa signifique, mas para que nomear algo que ainda não sei se me fará bem ou não? Melhor ficar com esta sensação não sei de quê por estes dias que se aproximam, sem a certeza do que será o depois do feriado. Fugir do controle em alguns momentos me faz bem, especialmente quando as decisões a serem tomadas não dependem exclusivamente de mim.
Só não me perguntem o que não sei explicar, enquanto fico aqui com esta sensação não sei de quê, até que os dias retomem a rotina que tem me engolido tantas sensações.
O importante é o fim disso tudo, o início é sempre de alguma forma provocado e o meio ninguém nunca consegue mesmo explicar, então chega de tantas certezas... Pelo menos até que o feriado se finde, me deixe aqui com esta sensação não sei de quê.

sábado, 22 de maio de 2010

A cor do acaso...


Estava mais uma vez declarando minha falta de sorte quando levei uma grande rasteira do acaso. Um daqueles tapas com luva de pelica quase imperceptíveis mas capazes de provocar enormes mudanças de valores. Um tapa lançado delicadamente, bem no momento em que insistia em cronometrar minhas ações, na ingênua pretensão de dominar meu tempo.
Poderia ser mais uma tarde de mau humor, daquelas em que ficamos remoendo aquela coisinha que podia ter dado certo e não deu; aquele minuto que poderíamos ter adiantado e nos atrasou uma hora, enfim, daquelas tardes em que se chega em casa e estufa-se o peito para dizer: que dia!
Poderia com certeza ser um final de dia assim, infeliz e emburrado. Mas não foi. Não por mim, nem por você, mas pelo acaso. Caso alguém nele não acredite e queira chamar de destino, força maior, Deus ou de simples coincidência, deixo aqui meu consentimento. Só gostaria que estas palavras fossem capazes de lhes mostrar algumas das inúmeras possibilidades que me foram apresentadas.
Havia chegado bem cedo ao trabalho, na ânsia de sair meia hora mais cedo para ter tempo de comprar um livro indispensável para minha monografia. Tudo o que precisava era me adiantar trinta minutos, apenas isso. Mas é claro que o universo costuma, nestas ocasiões, nos surpreender e conspirar contra ou a favor de acordo com o que o acaso espera do “caso” em andamento. E desta vez o acaso aparentemente estava contra mim, mas completamente disposto a me dar uma lição.
Mais uma vez o ônibus passou por mim, graças a duas palavras trocadas a mais e uma assinatura feita em cima do carimbo. Lá se foi o ônibus e meu livro. Ao observar o veículo passando me sentei no saguão e iniciei uma breve conversa sobre sorte:
- Não acredito que perdi o ônibus! Poxa vida, por causa de um minuto!
- Ah... Sempre acontece isso comigo também. Dá uma raiva não é?
- Raiva dá, mas já me acostumei. Foram tantas vezes que já nem me aborreço tanto. No início resmungava, declarava minha raiva contra a conspiração do universo, mas hoje espero.
- Ah, eu ainda me aborreço. É muita falta de sorte!
- É... Azar, falta de sorte, destino ou acaso. O fato é que o ônibus já foi.
Decidi atravessar a avenida com medo de perder outro coletivo no meio daquela falação, me despedi da colega de trabalho que ficou na porta do prédio e atravessei.
Dois minutos depois avisto um rapaz de camisa social, calça jeans, sapatos lustrados correndo bem apressado. Vinha em minha direção, quase cego de tanta pressa. Ao passar por mim, vi sua carteira cair no asfalto, bem em frente aos meus pés:
- Ei moço! Moço! Moçoooo!
- O quê?!
- Sua carteira caiu aqui!
- Meu Deus! Obrigado moça, muito obrigado! Que Deus lhe abençoe! Nossa! Muito obrigado...
E assim foi agradecendo meus ascendentes e descendentes até a nona geração. Eu sorri e disse:
- Não precisa agradecer, só tenha mais calma. A pressa é inimiga da perfeição.
Ele seguiu com passos largos, mas agora sem correr e eu me senti uma tola. Olha só quem estava falando sobre pressa, sobre ter calma.
Do outro lado da rua minha colega sorriu e disse:
- O que aconteceu ai?
- Ele perdeu a carteira bem na minha frente.
- Nossa!
- Agora entendi por que perdi o ônibus.
- Pois é, você tinha que fazer esta boa ação.
Boa ação. Foi a última frase que ouvi antes de entrar no ônibus que logo se aproximou. Frase curta, mas suficiente para me mostrar o quanto somos impacientes e mal humorados. O quanto custamos a ler nas entrelinhas e a aceitar as pedras no caminho, desacreditando no jardim que existe depois dos cascalhos.
A ação foi boa para o rapaz que com certeza teria muita dor de cabeça, mas foi melhor para mim que havia perdido a crença no acaso, no destino e novamente me permiti acreditar que algumas coisas relamente estão fora do nosso controle.
Que delícia saber que nem tudo depende da minha vontade, da minha ação. Que maravilha acreditar que coisas boas e ruins acontecem o tempo todo e temos a possibilidade de apanhá-las ou chutá-las para bem longe. Que alívio entender que nem sempre o caminho mais curto é o que tem menos curvas e que o conceito de perda de tempo é extremamente relativo.
Que sensação mágica compreender as inúmeras combinações que casualmente fazemos diariamente. Que sensação estranha e ao mesmo tempo gostosa esta do desconhecido. Que bom não ter a certeza do que acontecerá em cinco minutos ou em vinte anos. Que surpresa boa saber que existem muito mais cores neste planeta do que podia imaginar.
Que presente inestimável ganhei naquela tarde, ao abrir meus olhos para novos horizontes, repletos de cores novas, tantas cores que nem saberia calcular. Tantas cores que talvez nem consiga desvendar, mas só de saber que ali estão, que desafogo. Mesmo que por vezes demore a encontrá-las dentre tantas misturas possíveis, o fato é que elas sempre estarão lá, e mesmo que nunca as enxergue, só de saber que estas inúmeras possibilidades existem, ah que alívio! Isso já me basta.


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 9 de maio de 2010

Estátua!


Tenho escutado uma pergunta nos últimos dias com tanta freqüência que tem começado a me incomodar. As pessoas sempre me perguntam da onde vim, o que faço e quando escutam as respostas parecem indignadas: Nossa!Mas como você consegue?!
Uma, duas, três, quatro pessoas em menos de uma semana me fizeram a mesma indagação e com a mesma intensidade. Pelo espanto e pelos olhares incrédulos na certa deve ter algo errado. Só não descobri se comigo ou com o resto do mundo.
Como eu consigo administrar mil coisas em 24 horas? Como eu consigo ficar longe da minha família? Como eu consigo manter uma vida social? E a pior delas: Nossa! Mas você ainda consegue ter um namorado? Então está no lucro!
Não quero responder nada disso, apesar de achar mesmo um grande lucro ainda ter um namorado compreensível diante da minha falta de tempo e paciência. Também não quero falar sobre a intensa saudade da minha família e amigos. Menos ainda falar sobre a ausência de minha vida social e da falta que sinto do dia das meninas e das tardes de domingo nos parques da cidade ouvindo boa música.
Quero hoje apenas fazer uma pergunta: Por que as pessoas se incomodam tanto com a rotina dos outros?
Será que é muito difícil alguém entender que algumas pessoas gostam de dias mais dinâmicos, e conseguem conciliar duas ou três atividades em uma mesma semana? Tudo bem que não tenho tido muita sanidade nos últimos meses, é claro que podia ter esperado terminar um projeto para começar outro, mas se foi possível unir, por que separar?!
Sim, sim, para ter mais tempo, mais qualidade de vida e um enorrrme vazio. Lembro-me bem do enorme vazio que sentia logo que me instalei nesta cidade. Trabalhava, mas parecia pouco. Cheguei até a arrumar um emprego paralelo, mas ainda assim tinha muito tempo de sobra. E hoje, aqui estou, mendigando cinco minutos a mais no meu dia.
A verdade é que nunca, nunquinha estamos satisfeitos com nossa situação. E pode ver que isso acontece com todo mundo, homem, mulher, criança, jovem, idoso.
As mulheres vivem trocando a cor e forma dos cabelos, as que os têm lisos imploram por mais volume, as que os têm cacheados dariam um dedinho do pé por eles lisos e domados. As crianças sempre sonham com a vida adulta, até nas brincadeiras insistem em adiantar a vida profissional. Os jovens moldam sua personalidade através de exemplos da mídia, estando hoje darks e amanhã coloridos, querendo ter 18 anos logo para tirar carteira de habilitação e conquistar aquela gatinha. Os idosos vivem da nostalgia de bons tempos, ah se aquela época voltasse, dariam tudo por mais alguns anos de vivacidade, de juventude. E assim vai...
Sempre queremos estar em outro lugar, de outro jeito, com outras pessoas. Isso sem contar quando não assumimos a vontade de mudar nossos hábitos e começamos a julgar os hábitos alheios. São os outros que fazem demais, ou eu que faço menos. São os outros que têm mais tempo, ou eu que não consigo organizar o meu, enfim. Sempre buscamos mais, mais e mais. E o que nos basta?
Talvez o segredo esteja bem aqui. Enquanto apenas nós não formos suficientes para nos saciar, nunca teremos o bastante. Enquanto não estivermos satisfeitos conosco e com nossos defeitos, dificuldade e limites, os assumindo e propondo mudanças sutis, sempre estaremos nos torturando querendo mais, mais e mais.
Em uma tentativa frustrada de esconder uma imagem vista em qualquer espelho. Tentando esconder ou congelar as dificuldades, para que a mudança não se faça necessária. Mudar pra quê? Por quê? Para quem? A resposta é apenas uma: mudar por você, e ninguém mais.
Às vezes me sinto em um jogo de crianças, onde o “vivo e o morto” estão sem saber seus papéis reais. Muitas vezes gostaria que a brincadeira mudasse e alguém gritasse Estátua, para que tudo se congelasse, para que o tempo invadisse meus pulmões e me trouxesse de volta a tranqüilidade para raciocinar. Mas se alguém não me salva, que graça tem? Ninguém gosta de ficar como estátua o jogo inteiro.
Vamos desengessar nossos pré-conceitos e correr atrás do novo. A mudança causa um pequeno furacão em nossas vidas, assusta, destelha casas e deixa cabelos brancos, mas também traz tanta conquista, tanta experiência e força para próximos recomeçares. Chega de Estátua! E agora que te salvei, está com você!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 2 de maio de 2010

Qual é o seu maior desejo?!


Na semana passada passei por uma situação que me fez refletir sobre a importância que as coisas têm. Sobre o que é mais importante ou sobre o que mais desejamos hoje, amanhã, no primeiro minuto do dia ou logo ao deitar.
Pensei no quanto isso tudo é relativo e só pode ter valor se analisado conjunturalmente. Tudo isso por causa de uma sandália que não custou mais de trinta reais. Calma que já explico.
Estava a caminho de uma consulta médica, agendada há dois meses, em uma semana que se apresentou toda colorida, com sol, céu azul e aquele vento frio no final do dia, mas que fez questão de se tornar cinza, bem perto da hora da consulta.
Dentro do ônibus já tinha notado algumas nuvens carregadas, mas pensei: Tomara que tenha tempo de chegar ao consultório. Hunf! Até parece. Foi descer do ônibus e a água começar a cair, bem na minha cabeça. Sim, sim, estava com guarda-chuva, mas com a chuva de vento que se apresentou, não tive como escapar e me molhei praticamente inteira. Na verdade estava me sentindo como aquelas personagens de desenho animado que andam, mesmo nos dias ensolarados, com uma nuvem na cabeça.
Até ai, tudo bem. Já estou acostumada a tomar chuva, foram tantas vezes, que já nem me importo. O pior de tudo foi que restando dois quarteirões para chegar ao meu destino, eis que um pé de sandália arrebenta. Na mesma hora pensei: Era só o que me faltava! Pronto Deus pode mandar o raio!
Por um instante não sabia se voltava para casa ou insistia na consulta, mas me lembrando dos dois meses de espera, e que estatisticamente é mais fácil ganhar na loto do que conseguir uma consulta com essa médica, achei que era questão de honra seguir, mesmo molhada e descalço.
Comecei a arrastar a sandália, como se estivesse mancando e com muita dificuldade fui avançando. Fui parada por dois pedestres que me perguntaram se eu tinha caído, mas nem ousei responder, só balancei a cabeça negativamente, soltei um sorrisinho amarelo e mantive meu esforço para chegar ao consultório.
Olhava desesperada para todas as lojas que encontrava na esperança de encontrar um par de calçados que salvasse minha vida, ou pelo menos meus pés daquela água de enxurrada, mas nada, só loja de computadores, escolas de inglês, academia e de roupa infantil.
No quarteirão do consultório cheguei a entrar em uma loja de pijamas, na esperança de encontrar um chinelo de borracha por lá, mas que nada, só chinelinhos de quarto, fofinhos, quentinhos, cheios de pelúcia, que não combinavam nadinha com aquele dilúvio.
Bem, foi bem ai que comecei a pensar no quanto queria um tênis com meias secas naquela hora, no quanto seria indispensável outro calçado naquele instante. Se alguém me perguntasse se eu preferiria um apartamento ou uma sandália naquele momento, na certa pegaria o calçado. Da mesma forma que quando acordo o que mais desejo é poder dormir mais cinco minutos, e quando vou dormir é ter silêncio e sonhos bons.
O fato é que tudo depende do momento, da situação, e ao redor de quem estamos na hora de escolher nossas prioridades, nossas vontades e necessidades. Para uma pessoa desempregada o maior desejo é o emprego, mas para alguém desempregado e sem moradia é a casa, e para aquele que não tem emprego, nem casa, nem comida, um pedaço de pão já serve.
E com isso muitos de nós deixamos de dar atenção ou valorizar o desejo daqueles que nos rodeiam. Achamos ridículo, ou um absurdo, ou ainda falta de ambição a vontade alheia, mas com que direito?
Como podemos julgar o maior desejo de alguém, sua maior necessidade se nem conhecemos sua realidade? Se não sabemos os obstáculos que cristalizaram essa precisão? Ainda assim julgamos, dia e noite.
Resumindo, cheguei ao consultório descalço. Fui olhada de forma rude e irônica pelas pacientes que ali estavam e nem me preocupei em explicar demais. Com a sandália arrebentada nas mãos, toda molhada, sentei na sala de espera e liguei para uma grande amiga (que se transforma em anjo da guarda nessas horas). Contei gargalhando o que tinha acontecido e escutei dela: “Mas tinha que ser você hein?! Se contar ninguém acredita!”.
Pois é, se contar ninguém acredita. Mas é assim, passando esses apuros dia sim dia não é que tenho aprendido a ser mais humilde, mais sensível e menos egoísta cotidianamente. Entender o outro só é possível quando conseguimos entender a nós mesmos e isso exige treino, paciência e muito amor.
Nesse exato momento o que mais desejo é um lanche suculento, daqueles bem gordos, mas vou acabar cozinhando alguma coisa mais saudável, pois tenho que pensar no almoço de amanhã. E isso é bom... Ainda existem várias formas de saciar nossas necessidades, e muitas delas não custam nada.
Basta um olhar carinhoso, um abraço apertado ou um sorriso maroto para atender o desejo de algumas pessoas, principalmente daquelas para as quais geralmente pouco temos tempo, e olhos.
Uma semana repleta de desejos e vontades saciadas, é o que desejo. Bons ventos para nós!
Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 25 de abril de 2010

Deve ser tempo de sobra...


Acabei de perder treze páginas inteirinhas de um trabalho da Pós-graduação que preciso entregar dentro de três dias. Elas simplesmente desapareceram bem na frente de meus olhos. Já procurei nos arquivos recuperados, tentei localizar em todo o computador e nada.
Já chorei, rezei, gritei, xinguei, mas nada adiantou, então resolvi rir. Dei muita risada, mas muita mesmo, tanto ri que até gargalhei. Olhei-me de cima e pensei: Se contar ninguém acredita, deve ser pegadinha. Convivi nesse momento com uma sensação estranha, mas boa. Um alívio incrível, digno de pessoas que se salvam de um enorme sufoco.
Eu ainda não me salvei e nem sei se terei chance de consegui-lo, mas a raiva e o aborrecimento do momento já passaram.
Desisti de sair com minhas amigas para ficar aqui lutando contra um computador que não me entende e não se faz entender, definitivamente.
Já passei antivírus, programa de verificação, combo disso e daquilo e nada trouxe minhas treze páginas de volta.
Só consigo me lembrar de não ter enviado o arquivo por e-mail, nem tê-lo salvo em um pen drive. Só consigo pensar que deve ter alguém lá em cima de sacanagem comigo, rindo da minha cara e me fazendo gargalhar sozinha desta tragédia, só para não me ver surtar de verdade.
Não consigo entender o que aconteceu. Deve ser tempo de sobra de alguém querendo me testar. Ou então deve ser alguém achando que eu tenho tempo de sobra para refazer em três dias um trabalho que demorei quinze dias para deixá-lo no ponto em que estava, ainda sem conclusão nem revisão, mas quase lá.
Devem estar pensando por que estou aqui perdendo meu tempo com este texto sendo que tenho esse trabalho tão importante para refazer, e a resposta é simples: Deve ser tempo de sobra.
Já que tenho tempo de sobra para enfrentar estes obstáculos chatos e sem propósito que vivem me perseguindo, me dei ao luxo de ter tempo de sobra para colocar minhas emoções e neurônios em ordem. Restabelecer meu equilíbrio, o que consigo através de um floral que já nem tem feito mais efeito e com a escrita.
Nesse meu tempo de sobra coloco o nó da garganta para fora e posso ficar aqui, por horas, vendo o relógio virar meia-noite, escrevendo e apagando o quanto achar necessário, olhando aliviada a folha em branco se pintar de letras.
Consigo assim relembrar que algumas coisas precisam de mais tempo que outras, mas não é o tempo que dedicamos a elas que lhes imputam o grau de prioridade. A escrita que me faz tão bem, por exemplo, tem sido um luxo nos dias de hoje. Mal tenho tempo de juntar as palavras e formar frases que façam algum sentido para leitores e para mim, especialmente.
Enquanto escrevo, sempre me pego pensando: Um dia vou viver disso. Vou poder passar as melhores e maiores horas da minha existência escrevendo.
Fazer da minha terapia preferida meu “ganha pão” é só um dos meus sonhos. Sonhos que estão cada dia menos ambiciosos devido a minha falta de tempo para emoldurá-los.
Respiro fundo agora, olho para o outro documento aberto, em branco e penso se vale a pena recomeçar. Se vale a pena lutar contra o tempo e refazer em três dias o trabalho de quinze tardes e inclusive noites insones.
Não pela Pós-graduação, nem pelo trabalho, nem mesmo por mim, mas exclusivamente pelo meu tempo é que irei recomeçar.
Não seria justo perder quinze dias de trabalho, isso é tempo de mais. O jeito é me utilizar de uma ferramenta bem importante para estas situações: a paciência. Afinal, dizem que das sete virtudes esta é a mais difícil de ser desenvolvida, mas a que traz maiores benefícios.
E enquanto não desenvolvo por completo minha capacidade de manter o controle emocional equilibrado, sem perder a calma, sendo tolerante diante de fatos indesejados, permito-me este desabafo sem cor, sem som, mas repleto de significado.
Bem, é hora de agir, tentar otimizar esse tempo que me resta e provar mais uma vez, para quem adora me testar que realmente eu tenho tempo de sobra, sobretudo para as melhores, menores e mais prazerosas coisas desta vida, como este monólogo aqui exposto, por exemplo.
Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 13 de abril de 2010

A posse é de quem?!

"Nada será legitimamente teu, enquanto a outrem faltar o necessário" (Marat).


Confesso que tive a certeza de que nesta semana não poderia me apoderar deste espaço para continuar meu diálogo, quase mudo, com vocês.
Não por não querer, ou não ter assunto, mas por não ter a clareza de como abordar um assunto muitíssimo delicado que se apoderou da minha semana.
Para tanto precisei reintegrar alguns valores e certezas, para assim restabelecer a posse deste espaço e, sobretudo de um pouco do seu tempo.
Tentando reintegrar a ordem do meu e do seu raciocínio já adianto algumas explicações que deixarão bem claras todas as posses e reintegrações aqui descritas.
No início desta semana fui convocada com outras vinte e uma colegas para atuar em uma ação de reintegração de posse. No caso em questão seria uma operação para restabelecer ao proprietário a posse de cinco blocos de prédios residenciais, que haviam sido apossados por quase cem famílias há aproximadamente seis meses.
Segundo o dicionário, o conceito reintegrar significa “restabelecer (alguém) na posse de um bem de que fora despojado”, e o termo posse, “o estado de quem frui uma coisa ou a tem em seu poder”.
Ressalta-se que ainda de acordo com o dicionário o termo apossar prevê entre seus significados: apoderar-se, invadir, dominar e o que mais me chamou a atenção: conquistar.
Em suma poder-se-ia dizer que estava atuando em uma ação que objetivava reintegrar a alguém a posse de um bem, que havia previamente sido invadido (ou conquistado) por outras pessoas.
O fato é que não me senti nenhum pouco confortável naquela situação, que se mostrou em alguns momentos um tanto quanto alheia aos objetivos da minha profissão, mas ordem judicial é ordem judicial e lá estava eu atendendo a esta convocação.
Não existe, de minha parte a pretensão de julgar as certezas e verdades das partes envolvidas neste processo, nem pretendo que pensem que sou a favor de invasões de propriedades e imóveis, ou que concordo com qualquer tipo de manifestação que venha ferir o direito e a liberdade dos outros, mas neste caso fiquei pensando que na verdade estava acontecendo uma reintegração de posse para estabelecer a alguém um bem, que havia sido apoderado por “ninguém(s)”.
A operação para cumprimento do mandato judicial iniciou-se pouco antes das cinco da manhã e estendeu-se até as nove da noite. Amparadas por quase duzentos policiais, cavalaria, cães farejadores, além da guarda - municipal, corpo de bombeiros e ambulâncias, nos dirigimos até o local em um comboio que parecia a caminho de uma guerra.
Não encontramos resistência. Apenas desespero, medo, revolta e muita indignação, inclusive de minha parte, ao ver aquelas famílias se deslocarem em baixo de chuva, ajeitando seus bens de qualquer jeito com medo de não salvá-los e lotando caminhões que iam e vinham no meio de um mar de lama.
Sei que muitas famílias, iludidas pela oportunidade de obter um imóvel, saíram de suas casas, as deixando sob cuidados de parentes ou inquilinos para ali se instalar, não sendo, portanto vítimas desta tomada de posse, contudo muitas das que ali estavam deixaram seu desespero transparecer nas lágrimas, nos abraços apertados e na dúvida: E agora? Para onde vamos?
Toda esta situação me fez pensar que a posse é mesmo muito relativa. Ao nos apossar de algo, podemos invadi-lo ou conquistá-lo, quando conseguimos a posse pela invasão, esta pode ser tirada de nós a qualquer momento. É como se pudéssemos usufruir de um espaço, de um sentimento ou de alguém com os dias contados. No entanto, quando a posse é adquirida pela conquista, não há processo de reintegração ou santo que lhe faça derrotado.
É como no amor. Invadir os sentimentos de alguém é arriscado, nunca se sabe o que esperar, pode ser que seja bem recebido, mas pode ser que seja expulso com artilharia pesada, pois impôs algo que não era agradável para a outra parte. Já a conquista... Ah a conquista! Que delícia conquistar o amor e a confiança de alguém, um processo árduo, mas que gera resultados e posses definitivas.
Penso que aquelas famílias acreditam que nunca tiveram a posse daqueles bens, penso ainda que temam nunca ter se apoderado de suas próprias vidas. Famílias com histórias de vida bem próximas de muitos de nós, pessoas que assim como eu, sonham com a casa própria, com um futuro melhor e que foram invadidos por promessas e ilusões deixadas na lama que se fez em frente aos prédios.
Creio que lhes faltou entender o conceito de conquista, especialmente aquele utilizado por Saint-Exupéry, em “O Pequeno Príncipe”, onde afirma: “Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”. Talvez se dele se apropriassem poderiam ter saído dali carregando consigo ao menos a certeza de que todo aquele espaço, de um jeito ou de outro, já lhes pertencia. E que todas as histórias, aflições e xícaras de açúcar compartilhadas continuarão eternas na lembrança de cada família que dali saiu, marcando o barro com suas pegadas e meu coração com suas lágrimas e seu exemplo de solidariedade.
Cheguei em casa exausta, com as pernas formigando depois de tantas horas em pé, e com a certeza de que a posse reintegrada a alguém é sinônimo de bem despojado de ninguém(s). Aprendi ainda que na sociedade do “ter”, a posse de um bem pode significar muito além do que alguém.
Afinal de quem é a posse?! Daquele que a sucumbe ou de quem dela se apodera? Os abraços e lágrimas que vi naquela despedida, a troca de telefones e a devolução de panelas e roupas de cama, me fizeram ter a certeza de que a posse, por mais que se diga o contrário, continua sendo de ninguém(s), os únicos que cativaram algo real nesta operação: sentimentos e vínculos que não serão desfeitos com o tempo, nem mesmo com a implosão daqueles prédios.
Ilustração de: Gabriel Vicente.