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domingo, 9 de maio de 2010

Estátua!


Tenho escutado uma pergunta nos últimos dias com tanta freqüência que tem começado a me incomodar. As pessoas sempre me perguntam da onde vim, o que faço e quando escutam as respostas parecem indignadas: Nossa!Mas como você consegue?!
Uma, duas, três, quatro pessoas em menos de uma semana me fizeram a mesma indagação e com a mesma intensidade. Pelo espanto e pelos olhares incrédulos na certa deve ter algo errado. Só não descobri se comigo ou com o resto do mundo.
Como eu consigo administrar mil coisas em 24 horas? Como eu consigo ficar longe da minha família? Como eu consigo manter uma vida social? E a pior delas: Nossa! Mas você ainda consegue ter um namorado? Então está no lucro!
Não quero responder nada disso, apesar de achar mesmo um grande lucro ainda ter um namorado compreensível diante da minha falta de tempo e paciência. Também não quero falar sobre a intensa saudade da minha família e amigos. Menos ainda falar sobre a ausência de minha vida social e da falta que sinto do dia das meninas e das tardes de domingo nos parques da cidade ouvindo boa música.
Quero hoje apenas fazer uma pergunta: Por que as pessoas se incomodam tanto com a rotina dos outros?
Será que é muito difícil alguém entender que algumas pessoas gostam de dias mais dinâmicos, e conseguem conciliar duas ou três atividades em uma mesma semana? Tudo bem que não tenho tido muita sanidade nos últimos meses, é claro que podia ter esperado terminar um projeto para começar outro, mas se foi possível unir, por que separar?!
Sim, sim, para ter mais tempo, mais qualidade de vida e um enorrrme vazio. Lembro-me bem do enorme vazio que sentia logo que me instalei nesta cidade. Trabalhava, mas parecia pouco. Cheguei até a arrumar um emprego paralelo, mas ainda assim tinha muito tempo de sobra. E hoje, aqui estou, mendigando cinco minutos a mais no meu dia.
A verdade é que nunca, nunquinha estamos satisfeitos com nossa situação. E pode ver que isso acontece com todo mundo, homem, mulher, criança, jovem, idoso.
As mulheres vivem trocando a cor e forma dos cabelos, as que os têm lisos imploram por mais volume, as que os têm cacheados dariam um dedinho do pé por eles lisos e domados. As crianças sempre sonham com a vida adulta, até nas brincadeiras insistem em adiantar a vida profissional. Os jovens moldam sua personalidade através de exemplos da mídia, estando hoje darks e amanhã coloridos, querendo ter 18 anos logo para tirar carteira de habilitação e conquistar aquela gatinha. Os idosos vivem da nostalgia de bons tempos, ah se aquela época voltasse, dariam tudo por mais alguns anos de vivacidade, de juventude. E assim vai...
Sempre queremos estar em outro lugar, de outro jeito, com outras pessoas. Isso sem contar quando não assumimos a vontade de mudar nossos hábitos e começamos a julgar os hábitos alheios. São os outros que fazem demais, ou eu que faço menos. São os outros que têm mais tempo, ou eu que não consigo organizar o meu, enfim. Sempre buscamos mais, mais e mais. E o que nos basta?
Talvez o segredo esteja bem aqui. Enquanto apenas nós não formos suficientes para nos saciar, nunca teremos o bastante. Enquanto não estivermos satisfeitos conosco e com nossos defeitos, dificuldade e limites, os assumindo e propondo mudanças sutis, sempre estaremos nos torturando querendo mais, mais e mais.
Em uma tentativa frustrada de esconder uma imagem vista em qualquer espelho. Tentando esconder ou congelar as dificuldades, para que a mudança não se faça necessária. Mudar pra quê? Por quê? Para quem? A resposta é apenas uma: mudar por você, e ninguém mais.
Às vezes me sinto em um jogo de crianças, onde o “vivo e o morto” estão sem saber seus papéis reais. Muitas vezes gostaria que a brincadeira mudasse e alguém gritasse Estátua, para que tudo se congelasse, para que o tempo invadisse meus pulmões e me trouxesse de volta a tranqüilidade para raciocinar. Mas se alguém não me salva, que graça tem? Ninguém gosta de ficar como estátua o jogo inteiro.
Vamos desengessar nossos pré-conceitos e correr atrás do novo. A mudança causa um pequeno furacão em nossas vidas, assusta, destelha casas e deixa cabelos brancos, mas também traz tanta conquista, tanta experiência e força para próximos recomeçares. Chega de Estátua! E agora que te salvei, está com você!


Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 2 de maio de 2010

Qual é o seu maior desejo?!


Na semana passada passei por uma situação que me fez refletir sobre a importância que as coisas têm. Sobre o que é mais importante ou sobre o que mais desejamos hoje, amanhã, no primeiro minuto do dia ou logo ao deitar.
Pensei no quanto isso tudo é relativo e só pode ter valor se analisado conjunturalmente. Tudo isso por causa de uma sandália que não custou mais de trinta reais. Calma que já explico.
Estava a caminho de uma consulta médica, agendada há dois meses, em uma semana que se apresentou toda colorida, com sol, céu azul e aquele vento frio no final do dia, mas que fez questão de se tornar cinza, bem perto da hora da consulta.
Dentro do ônibus já tinha notado algumas nuvens carregadas, mas pensei: Tomara que tenha tempo de chegar ao consultório. Hunf! Até parece. Foi descer do ônibus e a água começar a cair, bem na minha cabeça. Sim, sim, estava com guarda-chuva, mas com a chuva de vento que se apresentou, não tive como escapar e me molhei praticamente inteira. Na verdade estava me sentindo como aquelas personagens de desenho animado que andam, mesmo nos dias ensolarados, com uma nuvem na cabeça.
Até ai, tudo bem. Já estou acostumada a tomar chuva, foram tantas vezes, que já nem me importo. O pior de tudo foi que restando dois quarteirões para chegar ao meu destino, eis que um pé de sandália arrebenta. Na mesma hora pensei: Era só o que me faltava! Pronto Deus pode mandar o raio!
Por um instante não sabia se voltava para casa ou insistia na consulta, mas me lembrando dos dois meses de espera, e que estatisticamente é mais fácil ganhar na loto do que conseguir uma consulta com essa médica, achei que era questão de honra seguir, mesmo molhada e descalço.
Comecei a arrastar a sandália, como se estivesse mancando e com muita dificuldade fui avançando. Fui parada por dois pedestres que me perguntaram se eu tinha caído, mas nem ousei responder, só balancei a cabeça negativamente, soltei um sorrisinho amarelo e mantive meu esforço para chegar ao consultório.
Olhava desesperada para todas as lojas que encontrava na esperança de encontrar um par de calçados que salvasse minha vida, ou pelo menos meus pés daquela água de enxurrada, mas nada, só loja de computadores, escolas de inglês, academia e de roupa infantil.
No quarteirão do consultório cheguei a entrar em uma loja de pijamas, na esperança de encontrar um chinelo de borracha por lá, mas que nada, só chinelinhos de quarto, fofinhos, quentinhos, cheios de pelúcia, que não combinavam nadinha com aquele dilúvio.
Bem, foi bem ai que comecei a pensar no quanto queria um tênis com meias secas naquela hora, no quanto seria indispensável outro calçado naquele instante. Se alguém me perguntasse se eu preferiria um apartamento ou uma sandália naquele momento, na certa pegaria o calçado. Da mesma forma que quando acordo o que mais desejo é poder dormir mais cinco minutos, e quando vou dormir é ter silêncio e sonhos bons.
O fato é que tudo depende do momento, da situação, e ao redor de quem estamos na hora de escolher nossas prioridades, nossas vontades e necessidades. Para uma pessoa desempregada o maior desejo é o emprego, mas para alguém desempregado e sem moradia é a casa, e para aquele que não tem emprego, nem casa, nem comida, um pedaço de pão já serve.
E com isso muitos de nós deixamos de dar atenção ou valorizar o desejo daqueles que nos rodeiam. Achamos ridículo, ou um absurdo, ou ainda falta de ambição a vontade alheia, mas com que direito?
Como podemos julgar o maior desejo de alguém, sua maior necessidade se nem conhecemos sua realidade? Se não sabemos os obstáculos que cristalizaram essa precisão? Ainda assim julgamos, dia e noite.
Resumindo, cheguei ao consultório descalço. Fui olhada de forma rude e irônica pelas pacientes que ali estavam e nem me preocupei em explicar demais. Com a sandália arrebentada nas mãos, toda molhada, sentei na sala de espera e liguei para uma grande amiga (que se transforma em anjo da guarda nessas horas). Contei gargalhando o que tinha acontecido e escutei dela: “Mas tinha que ser você hein?! Se contar ninguém acredita!”.
Pois é, se contar ninguém acredita. Mas é assim, passando esses apuros dia sim dia não é que tenho aprendido a ser mais humilde, mais sensível e menos egoísta cotidianamente. Entender o outro só é possível quando conseguimos entender a nós mesmos e isso exige treino, paciência e muito amor.
Nesse exato momento o que mais desejo é um lanche suculento, daqueles bem gordos, mas vou acabar cozinhando alguma coisa mais saudável, pois tenho que pensar no almoço de amanhã. E isso é bom... Ainda existem várias formas de saciar nossas necessidades, e muitas delas não custam nada.
Basta um olhar carinhoso, um abraço apertado ou um sorriso maroto para atender o desejo de algumas pessoas, principalmente daquelas para as quais geralmente pouco temos tempo, e olhos.
Uma semana repleta de desejos e vontades saciadas, é o que desejo. Bons ventos para nós!
Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 25 de abril de 2010

Deve ser tempo de sobra...


Acabei de perder treze páginas inteirinhas de um trabalho da Pós-graduação que preciso entregar dentro de três dias. Elas simplesmente desapareceram bem na frente de meus olhos. Já procurei nos arquivos recuperados, tentei localizar em todo o computador e nada.
Já chorei, rezei, gritei, xinguei, mas nada adiantou, então resolvi rir. Dei muita risada, mas muita mesmo, tanto ri que até gargalhei. Olhei-me de cima e pensei: Se contar ninguém acredita, deve ser pegadinha. Convivi nesse momento com uma sensação estranha, mas boa. Um alívio incrível, digno de pessoas que se salvam de um enorme sufoco.
Eu ainda não me salvei e nem sei se terei chance de consegui-lo, mas a raiva e o aborrecimento do momento já passaram.
Desisti de sair com minhas amigas para ficar aqui lutando contra um computador que não me entende e não se faz entender, definitivamente.
Já passei antivírus, programa de verificação, combo disso e daquilo e nada trouxe minhas treze páginas de volta.
Só consigo me lembrar de não ter enviado o arquivo por e-mail, nem tê-lo salvo em um pen drive. Só consigo pensar que deve ter alguém lá em cima de sacanagem comigo, rindo da minha cara e me fazendo gargalhar sozinha desta tragédia, só para não me ver surtar de verdade.
Não consigo entender o que aconteceu. Deve ser tempo de sobra de alguém querendo me testar. Ou então deve ser alguém achando que eu tenho tempo de sobra para refazer em três dias um trabalho que demorei quinze dias para deixá-lo no ponto em que estava, ainda sem conclusão nem revisão, mas quase lá.
Devem estar pensando por que estou aqui perdendo meu tempo com este texto sendo que tenho esse trabalho tão importante para refazer, e a resposta é simples: Deve ser tempo de sobra.
Já que tenho tempo de sobra para enfrentar estes obstáculos chatos e sem propósito que vivem me perseguindo, me dei ao luxo de ter tempo de sobra para colocar minhas emoções e neurônios em ordem. Restabelecer meu equilíbrio, o que consigo através de um floral que já nem tem feito mais efeito e com a escrita.
Nesse meu tempo de sobra coloco o nó da garganta para fora e posso ficar aqui, por horas, vendo o relógio virar meia-noite, escrevendo e apagando o quanto achar necessário, olhando aliviada a folha em branco se pintar de letras.
Consigo assim relembrar que algumas coisas precisam de mais tempo que outras, mas não é o tempo que dedicamos a elas que lhes imputam o grau de prioridade. A escrita que me faz tão bem, por exemplo, tem sido um luxo nos dias de hoje. Mal tenho tempo de juntar as palavras e formar frases que façam algum sentido para leitores e para mim, especialmente.
Enquanto escrevo, sempre me pego pensando: Um dia vou viver disso. Vou poder passar as melhores e maiores horas da minha existência escrevendo.
Fazer da minha terapia preferida meu “ganha pão” é só um dos meus sonhos. Sonhos que estão cada dia menos ambiciosos devido a minha falta de tempo para emoldurá-los.
Respiro fundo agora, olho para o outro documento aberto, em branco e penso se vale a pena recomeçar. Se vale a pena lutar contra o tempo e refazer em três dias o trabalho de quinze tardes e inclusive noites insones.
Não pela Pós-graduação, nem pelo trabalho, nem mesmo por mim, mas exclusivamente pelo meu tempo é que irei recomeçar.
Não seria justo perder quinze dias de trabalho, isso é tempo de mais. O jeito é me utilizar de uma ferramenta bem importante para estas situações: a paciência. Afinal, dizem que das sete virtudes esta é a mais difícil de ser desenvolvida, mas a que traz maiores benefícios.
E enquanto não desenvolvo por completo minha capacidade de manter o controle emocional equilibrado, sem perder a calma, sendo tolerante diante de fatos indesejados, permito-me este desabafo sem cor, sem som, mas repleto de significado.
Bem, é hora de agir, tentar otimizar esse tempo que me resta e provar mais uma vez, para quem adora me testar que realmente eu tenho tempo de sobra, sobretudo para as melhores, menores e mais prazerosas coisas desta vida, como este monólogo aqui exposto, por exemplo.
Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 13 de abril de 2010

A posse é de quem?!

"Nada será legitimamente teu, enquanto a outrem faltar o necessário" (Marat).


Confesso que tive a certeza de que nesta semana não poderia me apoderar deste espaço para continuar meu diálogo, quase mudo, com vocês.
Não por não querer, ou não ter assunto, mas por não ter a clareza de como abordar um assunto muitíssimo delicado que se apoderou da minha semana.
Para tanto precisei reintegrar alguns valores e certezas, para assim restabelecer a posse deste espaço e, sobretudo de um pouco do seu tempo.
Tentando reintegrar a ordem do meu e do seu raciocínio já adianto algumas explicações que deixarão bem claras todas as posses e reintegrações aqui descritas.
No início desta semana fui convocada com outras vinte e uma colegas para atuar em uma ação de reintegração de posse. No caso em questão seria uma operação para restabelecer ao proprietário a posse de cinco blocos de prédios residenciais, que haviam sido apossados por quase cem famílias há aproximadamente seis meses.
Segundo o dicionário, o conceito reintegrar significa “restabelecer (alguém) na posse de um bem de que fora despojado”, e o termo posse, “o estado de quem frui uma coisa ou a tem em seu poder”.
Ressalta-se que ainda de acordo com o dicionário o termo apossar prevê entre seus significados: apoderar-se, invadir, dominar e o que mais me chamou a atenção: conquistar.
Em suma poder-se-ia dizer que estava atuando em uma ação que objetivava reintegrar a alguém a posse de um bem, que havia previamente sido invadido (ou conquistado) por outras pessoas.
O fato é que não me senti nenhum pouco confortável naquela situação, que se mostrou em alguns momentos um tanto quanto alheia aos objetivos da minha profissão, mas ordem judicial é ordem judicial e lá estava eu atendendo a esta convocação.
Não existe, de minha parte a pretensão de julgar as certezas e verdades das partes envolvidas neste processo, nem pretendo que pensem que sou a favor de invasões de propriedades e imóveis, ou que concordo com qualquer tipo de manifestação que venha ferir o direito e a liberdade dos outros, mas neste caso fiquei pensando que na verdade estava acontecendo uma reintegração de posse para estabelecer a alguém um bem, que havia sido apoderado por “ninguém(s)”.
A operação para cumprimento do mandato judicial iniciou-se pouco antes das cinco da manhã e estendeu-se até as nove da noite. Amparadas por quase duzentos policiais, cavalaria, cães farejadores, além da guarda - municipal, corpo de bombeiros e ambulâncias, nos dirigimos até o local em um comboio que parecia a caminho de uma guerra.
Não encontramos resistência. Apenas desespero, medo, revolta e muita indignação, inclusive de minha parte, ao ver aquelas famílias se deslocarem em baixo de chuva, ajeitando seus bens de qualquer jeito com medo de não salvá-los e lotando caminhões que iam e vinham no meio de um mar de lama.
Sei que muitas famílias, iludidas pela oportunidade de obter um imóvel, saíram de suas casas, as deixando sob cuidados de parentes ou inquilinos para ali se instalar, não sendo, portanto vítimas desta tomada de posse, contudo muitas das que ali estavam deixaram seu desespero transparecer nas lágrimas, nos abraços apertados e na dúvida: E agora? Para onde vamos?
Toda esta situação me fez pensar que a posse é mesmo muito relativa. Ao nos apossar de algo, podemos invadi-lo ou conquistá-lo, quando conseguimos a posse pela invasão, esta pode ser tirada de nós a qualquer momento. É como se pudéssemos usufruir de um espaço, de um sentimento ou de alguém com os dias contados. No entanto, quando a posse é adquirida pela conquista, não há processo de reintegração ou santo que lhe faça derrotado.
É como no amor. Invadir os sentimentos de alguém é arriscado, nunca se sabe o que esperar, pode ser que seja bem recebido, mas pode ser que seja expulso com artilharia pesada, pois impôs algo que não era agradável para a outra parte. Já a conquista... Ah a conquista! Que delícia conquistar o amor e a confiança de alguém, um processo árduo, mas que gera resultados e posses definitivas.
Penso que aquelas famílias acreditam que nunca tiveram a posse daqueles bens, penso ainda que temam nunca ter se apoderado de suas próprias vidas. Famílias com histórias de vida bem próximas de muitos de nós, pessoas que assim como eu, sonham com a casa própria, com um futuro melhor e que foram invadidos por promessas e ilusões deixadas na lama que se fez em frente aos prédios.
Creio que lhes faltou entender o conceito de conquista, especialmente aquele utilizado por Saint-Exupéry, em “O Pequeno Príncipe”, onde afirma: “Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”. Talvez se dele se apropriassem poderiam ter saído dali carregando consigo ao menos a certeza de que todo aquele espaço, de um jeito ou de outro, já lhes pertencia. E que todas as histórias, aflições e xícaras de açúcar compartilhadas continuarão eternas na lembrança de cada família que dali saiu, marcando o barro com suas pegadas e meu coração com suas lágrimas e seu exemplo de solidariedade.
Cheguei em casa exausta, com as pernas formigando depois de tantas horas em pé, e com a certeza de que a posse reintegrada a alguém é sinônimo de bem despojado de ninguém(s). Aprendi ainda que na sociedade do “ter”, a posse de um bem pode significar muito além do que alguém.
Afinal de quem é a posse?! Daquele que a sucumbe ou de quem dela se apodera? Os abraços e lágrimas que vi naquela despedida, a troca de telefones e a devolução de panelas e roupas de cama, me fizeram ter a certeza de que a posse, por mais que se diga o contrário, continua sendo de ninguém(s), os únicos que cativaram algo real nesta operação: sentimentos e vínculos que não serão desfeitos com o tempo, nem mesmo com a implosão daqueles prédios.
Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 23 de março de 2010

Sem assunto...


Acabo de ligar para minha irmã. Não, ela não disse nada, nem atendeu. Na verdade nem eu teria muito assunto a tratar com ela, afinal faz tanto tempo que não a vejo e não somos lá muito íntimas, mas me deu vontade de ligar.
Não sei por quê, mas hoje queria ter falado com ela. Falar o quê?! Ah, sei lá, talvez nada. Nossas conversas não são muito longas. Mas pelo menos dizer um oi, como você está, essas coisas.
Perguntar do trabalho e da pós dela, mesmo sem esperar que ela retorne a pergunta. Saber se ela ainda está namorando e se montou um consultório, trocou o carro ou decidiu casar. Essas coisas que a gente deve saber sobre os irmãos, entende?
Mas ela não atendeu, então deixa para outro dia. Não, não tentei uma vez só, insisti várias vezes. Em casa umas três vezes pelo menos e outra no celular. Aposto que minha mãe quando chegar vai ver a ligação e me ligar achando que aconteceu alguma coisa, mas hoje só queria mesmo era falar com a minha irmã.
Tenho pensado bastante nela essa semana. Sempre penso em todo mundo de casa, é estranho não saber o que sua família está fazendo, se estão bem ou não, se estão rindo ou chorando, se assistiram o último capítulo da novela ou tomaram chuva no final da tarde. Essas coisas que a gente faz quando mora junto com a família, coisas que agente fica sabendo sem precisar perguntar, já que acompanha tudo.
Essas coisinhas, do tipo café com açúcar ou adoçante, bife ou frango, gelatina ou sorvete, enfim... Pequenas coisas, do dia a dia que te deixam tão próximo, mas tão próximo que te colocam dentro da vida de cada membro da sua família. Você sabe o que cada um jantou, que horas saiu e chegou, que roupa vestiu e o sapato que calçou.
E quando a gente se afasta, isso tudo, que era tão comum, torna-se alheio a nova rotina. No máximo consigo imaginar o que acontece por lá, mas tudo, tudinho, não isso eu já não sei. Até por que os pais têm a mania de nos poupar dos piores problemas, na verdade acho que essa é uma tática de família, também não conto todos meus pormenores para não acharem que estou enlouquecendo, mas é assim, se soubéssemos de tudo, tudinho, não conseguiríamos tocar a vida do lado de cá, tão longe e com a cabeça lá, perto deles e dos seus problemas.
Mas a distância não impede a saudade, pelo contrário, a provoca. Ainda há a vontade de fazer parte daquela rotina e para isso eu mando e-mail, ligo, às vezes recebo até cartas do meu pai. Mas têm dias que minha irmã não atende o telefone, ou minha mãe vê a ligação tarde demais.
Na verdade o que queria dizer é que queria ter falado com minha irmã hoje. Acho que é saudade. Se pudesse iria agora mesmo para lá e me jogaria na cama dela dizendo: Oi irmaaã! Logo em seguida lhe daria um beijo na bochecha (que ela detesta), só para ouvi-la dizer: Pára Taline!
Ia então olhar bem para ela e sorrir. Esse é o nosso diálogo mais frequente, um diálogo quase mudo, sem assunto, mas que significa tanto, tanto quanto o telefonema que ela não pode atender.
Nostalgia. Essa pequenina palavra tem consumido meus dias e as poucas horas que tenho reservo para me revigorar. Tenho me dado o direito de relembrar boas coisas do presente passado e isso tem me dado mais força, mais fôlego. Diria que tem diminuído a distância e aumentado a saudade.
Que coisa estranha... Não sou muito de dizer isso, mas caramba, que saudade da minha irmã!
Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 14 de março de 2010

Tolos multiplicadores de tempo


"A globalização não é apenas palavra da moda (...). Suas dimensões básicas, que estão revolucionando a atividade produtiva e o modo de vida neste fim de milênio, são a aceleração do tempo e a integração do espaço. O paradoxo é que embora façamos as coisas que desejamos em cada vez menos tempo, falte também cada vez mais tempo para fazer aquilo que desejamos. Quanto mais economizamos tempo, mais carecemos dele” (GIANNETTI DA FONSECA, Eduardo).

Aquela história de aceleração do tempo me deixou bastante aflita. Confesso que já me preocupava em excesso com a organização e o aproveitamento do meu tempo e que depois deste milionésimo de segundo a menos senti a necessidade de analisar minha vida inserida na relação espaço e tempo.
Calma. Não farei nenhuma análise científica, muito menos me atreverei a falar de física, até porque nunca fui uma boa aluna nesta matéria. Até hoje não consigo entender muitas das fórmulas apresentadas em sala de aula e me basta saber que ao conseguir calcular inconscientemente a possibilidade de atravessar uma rua, sem ser atropelada, já estou utilizando de cálculos da física.
Peço licença para utilizar alguns exemplos da minha vida para ilustrar esta reflexão e mais, peço que tentem incluir seus exemplos no decorrer deste texto, pois só assim poderemos realizar uma reflexão coletiva.
Tenho passado por dias angustiantes, que se desenrolam em uma única questão: o que fizeram com as minhas 24 horas do dia?
A sensação de que o dia já foi e que nem metade da lista de tarefas foi cumprida é opressora, angustiante e diria mais, torturante.
Para entender essa angústia precisei listar todas as atividades realizadas diariamente e então ficou fácil saber para onde as 24 horas foram.
Dedico-me atualmente ao cargo de assistente social em um setor público, que raramente me permite o cumprimento de apenas 6 horas diárias, estipuladas no edital do concurso, adicionam-se as 2 horas diárias no transporte público e lá se foram 8 horas.
Além disso, preciso estudar para atender a minha teimosia de realizar duas pós-graduações simultâneas. Considerando que não tenho pique diário para a leitura de livros científicos, quando não estou estudando me dedico a pesquisas na internet e outras distrações. Estudo e computador consomem aproximadamente 3 das minhas horas restantes, e lá se foram 11 horas.
Faço questão ainda de passar pelo menos 1 hora do dia lendo o jornal local e pesquisando notícias curiosas do Brasil e do mundo que servirão de inspiração para a coluna da semana, soma-se ai mais 1 hora de elaboração e revisão dos textos, e lá se foram 13 horas do meu dia.
Há que se considerar que eu preciso me alimentar pelo menos três vezes ao dia, e que cada refeição exige tempo de preparo e de louças limpas, assim lá se foram mais 3 horas, computando 16 horas!
Lembrando que, com a conquista das mulheres no último século, tive a oportunidade de me tornar independente financeiramente e morar sozinha. Para tanto, pensando na manutenção da minha saúde, do meu nome e da minha casa torna-se indispensável encarar filas de banco e sessões de fonoterapia, discutir com a atendente da NET, trocar a lâmpada da sala, além das habituais tarefas designadas historicamente às mulheres: limpar a casa, lavar e passar roupa e fazer pelo menos uma sobremesa por semana. Dividindo estas tarefas em dias diria que lá se foram pelo menos mais 2 horas, totalizando 18.
Como ninguém é de ferro também gosto de ir ao cinema, sair com meu namorado, visitar minha família, cuidar da minha tartaruga ou ficar estendida no chão da sala escutando música sem pensar em nada. Confesso que tem sobrado pouco tempo para essas atividades, mas em termos, poderia dizer que dedico outras 2 horas diárias a esses prazeres, e enfim 20 horas!
Infelizmente ainda não sou um ser extremamente desenvolvido e necessito do sono para repor as baterias, deste modo, quando o raro silêncio da rua me permite utilizo minhas últimas 4 horas do dia para descansar.
Depois de fazer e refazer estes cálculos percebi que tenho dedicado muitas horas a coisas que podem ser importantes para outras pessoas, mas não são tão importantes para mim.
Lembro-me que quando me instalei nesta cidade, passei 8 meses me dedicando apenas ao trabalho e viajei com freqüência, conheci novas cidades e culturas, sai aos finais de semana, fiz muitos amigos, experimentei novos sabores, fui a peças de teatro e a shows em praças públicas, mas um insistente sussurro vivia dizendo que eu precisava me dedicar a outras atividades.
Não demorou muito para arrumar um outro emprego e fazer uma dupla jornada de trabalho e tão logo saí de lá iniciei uma pós-graduação e seis meses depois a outra. E hoje, olhando para isso tudo me sinto envergonhada por perguntar para onde foram minhas 24 horas.
Eu as consumi! E não da forma mais prazerosa ou mais rentável, as consumi multiplicando minhas tarefas, com a falsa ilusão de que assim conseguiria multiplicar o tempo. A verdade é que GIANNETTI está correto, “quanto mais economizamos tempo, mais carecemos dele”. Carecemos de tempo para subdividi-lo ao atendimento de nossas múltiplas tarefas.
O fato é que quanto mais atividades temos, mais querermos ter, numa enganosa impressão de que o tempo irá multiplicar-se para atender nossos ditames. Quão tolos somos! A humanidade adora brincar de Deus e tem arriscado até multiplicar o tempo na última década.
Gostaria de ter a percepção, e de que esta fosse coletiva, do resultado de tanta correria, pois ao avaliar ponto a ponto do meu dia, percebi que tenho tido pouco tempo para cuidar de mim e das pessoas de quem eu gosto, e isso tudo para agradar ao futuro, que pode apresentar-se promissor, mas que não me dá garantias.
A única certeza que tenho agora, a única garantia que é palpável é que o tempo não para e cabe a mim, e a você dentro da sua rotina, não multiplicá-lo, mas consumi-lo com as melhores coisas desta vida, é isso que faz o tempo render, é isso e nada mais!

Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 7 de março de 2010

O dia em que a Terra acelerou...

Li no jornal desta semana que os dias na Terra ficaram mais curtos desde a madrugada do último sábado. Logo pensei no horário de verão e achei que poderia existir alguma relação com o escurecer mais breve e a menor quantidade de horas claras para se dedicar aos afazeres cotidianos.

Mas ao continuar a leitura da manchete, não demorou muito para me surpreender com a notícia de que os dias mais curtos são uma consequência do terremoto que devastou o Chile na última semana. Os cálculos, feitos por um Laboratório da NASA, indicam que os dias ficaram 1,26 microssegundos mais curtos.

Considerando que os dias terrestres possuem cerca de 86.400 segundos, pode parecer pouco, ou quase nada. Contudo, o fato de pensar que a força de um terremoto é capaz de acelerar ou reduzir a rotação da Terra, tornando os dias mais curtos ou mais longos de acordo com a redistribuição da massa do planeta após seu tremor, me deixou tensa.

Quando era criança estudei sobre o movimento de rotação e translação da Terra, mas ninguém me disse que isso era passível de mudança... Aliás, sempre imaginei que a Terra estivesse “presa” em um eixo imaginário, seguindo seu ritmo rotineiramente a fim de nos garantir nossos dias e noites.

E agora essa novidade... Novidade que para muitos não passou de mais uma manchete sem sentido e que pouco ou nada impressionou, mas que me fez pensar em algumas coisas

Como é possível um tremor no Chile acelerar os dias da humanidade inteira? A quem devemos “cobrar” esse milionésimo de segundo que nos foi tirado? Será que os atrasos no trabalho poderão ser justificados com a aceleração da Terra daqui por diante? Chego a imaginar como serão as desculpas em um futuro breve:

- Desculpe chefe, é que o planeta acelerou na madrugada passada e eu não acertei meu relógio.

- Estava marcada para antes do tremor, mas acabei me atrapalhando com a aceleração da Terra.

Dias atrás estava preocupada com o fim do planeta, com medo de que o mundo acabasse em água ou coisa assim, mas hoje vejo que não é nada difícil a Terra sair “rodando” por ai, depois de um tremor daqueles. Imagine que loucura, o planeta rodopiando como uma bola de gude pelo espaço?

Claro que estou exagerando, mas imaginar os dias mais curtos, mesmo que com uma mudança quase imperceptível na relação tempo-espaço, me faz aumentar ainda mais minha cobrança sobre minhas certezas. Sobre de que modo tenho aproveitado meus dias, meus milionésimos de segundo e que mundo estou construindo para a nova geração.

Terremotos, enchentes, calor excessivo, nevascas, as pessoas tem morrido de desastres naturais hoje em dia. Não se fala mais de morte por velhice ou acidente de trânsito, quiçá de câncer ou AIDS. Nos noticiários os índices de mortalidade apresentados são causas de efeitos da natureza, isso é o que podemos chamar de “morte natural”.

É bem possível que com tanto espaço na mídia, em breve existirão “empreendedores” utilizando-se da desgraça alheia para lucrar. Do mesmo modo que já ouvi dizer que turistas de outros países pagam para fazer um tour pelas favelas cariocas, não me assustarei se em breve aparecerem anúncios do tipo: Conheça um tornado de perto! Ou: Venha viver a emoção de um terremoto! Ou ainda: Faça seu passeio de bote na marginal (coletes inclusos).

Brincadeiras à parte, o fato é que frequentemente direcionamos nossa energia para coisas que em pouco tempo deixam de ter sentido. Aproveitamos os dias (curtos ou não) com pouca intensidade, valorizamos negócios que prejudicam nossa existência, pouco nos importamos com mudanças que afetam a humanidade.

Que tipo esquisito nos tornamos... As crianças são bem mais interessantes que nós. A “adultescência” nos faz perder alguns dos valores mais interessantes desta vida. Por essas e outras, que se fosse possível gostaria de desacelerar não só a Terra, mas também o tempo, com tanta intensidade que retornaria para a calmaria dos meus cinco anos, onde a Terra não saia do eixo, muito menos a humanidade.

Ilustração de: Gabriel Vicente.