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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Tratores e corações não combinam...

Meu coração está partido. Partido ao meio, em pedaços, nas pontas e dos lados. Mais uma vez partido.
Desta vez o pobre coração não caiu, não levou solavanco, nem flechadas. Para dizer a verdade, nem sei ao certo o que aconteceu, talvez um mal entendido, ou quem sabe a distância, quiçá a insegurança ou ainda a incompreensão.
O fato é que se partiu e agora dói.
Não é um ferimento profundo, daqueles incapazes de curar. Nem tampouco me causa desespero ou desânimo, apenas dor. Um ferimento que provavelmente deixará uma cicatriz rala, para lembrar-me do quanto é perigoso amar.
Um ferimento que custa fechar, mas que irá sarar, pois tem sido cuidado com muito apreço.
Meu coração foi vítima de um atropelamento. Passaram por ele tratores de ofensas e injustiças. Tratores cegos e agressivos que nem me deixaram dar um passo à frente ou atrás. Tratores que me atropelaram e me fizeram chorar.
Hoje tive a certeza de que tratores não combinam com corações.
Quisera ter passado por aquele campo de batalha imune. Quisera não ter sofrido nenhum arranhão, mas o amor é assim. Faz-nos tropeçar, nos reerguer e logo em seguida nos empurra aos berros: Segue em frente!
Ainda não sei qual caminho seguir. A dor ainda não passou, estou receosa de voltar e dar "de coração", digo, "de cara" com outro trator, mas ao mesmo tempo temo seguir e passar por cima de um coração que me foi dado.
Quisera que as pessoas entendessem de uma vez por todas que tratores e corações não combinam!
Quisera tanto que as pessoas passassem a abrir passarelas em campos floridos ao invés de estradas de terra. Queria mesmo que um dia as pessoas entendessem as faces do amor e dele não mais se estranhassem.
Amizade, fraternidade, irmandade, amor, humanidade. Sentimentos separados por uma linha tênue, tão tênue que alguns não conseguem enxergar, uma linha tão sutil que impede a tantos outros decifrá-la.
Quisera que as pessoas entendessem que não há amor maior ou menor, apenas diferentes formas de amar. Que não existe amor de mãe maior que de amigo e de namorado maior que de irmão. Que cada forma de amar encontra sua forma em cada coração. Que cada coração dá seu formato ao amor que recebe e dele se apropria da melhor maneira possível.
Existem aqueles que pouco demonstram, mas sabem que o amor está lá. Existem outros que escancaram toda sua emoção, transparentes, capazes de em um abraço apertado ou de em um sorriso sincero dizer constantemente: amo você, quero-te bem, você é especial.
Quisera que as pessoas aprendessem a valorizar mais o amor que têm e deixassem de medi-lo com o que vêem. A intensidade do amor que você recebe está nos gestos, no ato e na história que você construiu com cada doador de um pouco de amor.
Quisera que todos nós aprendêssemos a nos dedicar a cada sementinha de amor que nos é dado e deixássemos de nos preocupar com as sementes dos outros.
Quisera que ao invés de atropelar corações, os tratores tirassem todo o mau olhado e as ervas daninhas que fazem morrer tantos amores.
Por que usaste logo o trator?! Eu só precisava de um pouco de água para regar o amor que tinhas me doado...

Ilustração de: Gabriel Vicente.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Balas de Coco

Tento escrever sobre alguma coisa boa, bonita ou engraçada que tenha observado na última semana, mas nada me vem à mente. Puxo na memória as figuras com que esbarrei nos pontos de ônibus, nas calçadas esburacadas e no meio da praça, mas nenhuma delas me parece digna de citação.
Algumas imagens, algumas pessoas, alguns relatos invadiram minha mente nos últimos dias com suas aflições reais, com seu mal estar e sua ira e é a eles que devo me referir.
Não só a eles, mas a todos nós, que construímos estas tragédias, que formamos esta humanidade tão desumana. Presenciei catástrofes naturais bem distantes daqui, longe do meu nariz, dos meus olhos e do meu entendimento, e tão logo os escombros começaram a se reerguer, desvelando vítimas de um terremoto no Haiti, a chuva decidiu castigar aqui, bem perto de mim, tão próximo do meu nariz que desta vez pude sentir o odor da destruição, molhar os pés na lama e estender minhas mãos.
Famílias que perderam tudo, móveis, roupas e parte da dignidade. Famílias que se perderam. Famílias que tentam buscar forças para se reerguer, recomeçar, sem saber ao certo onde fica o ponto de partida. Pessoas comuns que perderam sua casa, seus bens mais preciosos, parte de seu coração e quiçá de sua alma.
Não tenho conseguido me desligar destes incidentes naturais, nem tão pouco consigo entendê-los como uma fatalidade. Ao homem a culpa, ao homem o castigo.
A natureza revolta-se, aflita com tanta falta de percepção. Enquanto nas escolas trabalha-se a educação ambiental, nos rios são despejadas toneladas de lixo. Enquanto se realiza um plantio de árvores na pista de caminhada e ensina-se o valor do ar puro para as crianças, grandes áreas são desmatadas pondo fim ao sonho de um mundo ecologicamente correto no futuro.
Creio que de imediato, precisamos pensar e sonhar apenas com a manutenção do mundo. Começo a entender o impacto que as previsões de fim do mundo, que antes pareciam chacota, hoje resultam nas pessoas. O fim do mundo assusta mais que o bicho papão, mais que a inflação.
Em uma destas tardes chuvosas percebi nitidamente esta aflição em um senhor que entrou no meu local de trabalho. Não queria orientação, não solicitou recurso nenhum, apenas entrou na sala, com uma cesta nas mãos e antes de oferecer o produto escondido por um pano de prato, me perguntou:
- É verdade que o mundo vai acabar?
Fiquei pensando por alguns instantes antes de responder. Se fosse há alguns anos atrás provavelmente teria achado graça da pergunta e dito com certeza que não, mas desta vez hesitei:
- Com essa chuva parece que o mundo está acabando mesmo, não é?
- Ouvi dizer que o mundo vai acabar em 2012, está perto, não é?
- Essa é a história de um filme, mas não sei se é real.
- Mas a senhora acha que o mundo vai mesmo acabar?
- Sinceramente eu espero que não.
Ele saiu dali com duas balas de coco a menos na sua cesta, com dois reais a mais no bolso e com uma angustia agora compartilhada por mim, ao imaginar o fim do mundo.
Quem sou eu para dizer se sim ou se não, mas que temos buscado isso diariamente me parece que está nítido. Parece que aqueles que têm mais de cinquenta anos não se preocupam com o que será do futuro, pois já não pretendem estar aqui. Aqueles que acabaram de nascer já se acostumaram com a poluição e nem sabem mais a cor real da natureza, e para aqueles que ainda pretendem um dia aqui estar, eu desejo boa sorte e balas de coco.
Para finalizar, deixo um texto que me faz refletir muito sobre o que esperamos do mundo e principalmente de nós mesmos, ao proliferar a existência de nossos insetos interiores e destruir o que temos de mais valoroso, a vida:

“Notas de um observador:

Existem milhões de insetos almáticos.
Alguns rastejam, outros poucos correm.
A maioria prefere não se mexer.
Grandes e pequenos.
Redondos e triangulares,
de qualquer forma são todos quadrados.
Ovários, oriundos de variadas raízes radicais.
Ramificações da célula rainha.
Desprovidos de asas,
não voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
repousam-se no lodo,
lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são.
Assim são os insetos interiores.
A futilidade encarrega se de 'mais tralos'.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.
Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa.
A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, "infértebrados".
Arrancam as cabeças de suas fêmeas,
Cortam os troncos,
Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos.
Esquecem-se de si.
Pontuam-se
A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam-se assim:
Na morte e na merda.
Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estômago.
Uma sensação de: o que é mesmo que se passa?
certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro...caem.
Desacordam todos os dias, não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.
Assim são os insetos interiores”.

(Insetos Interiores – O Teatro Mágico)
Ilustração de: Gabriel Vicente

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A caneca

Terça-feira. A primeira do verão deste resto de ano. Dia quente. Convidativo para uma reunião em bar com os amigos, ao lado de uma cerveja gelada e de uma brisa fresca. Dia estranho que me fez fugir da rotina de manhã até o início da noite e transformou a rotina restante em risos e versos. Manhã preguiçosa que me convidou a ficar na cama por mais cinco minutos e que me obrigou a correr até o ponto de ônibus por outros cinco. Minutos lentos que atravessaram a janela do ônibus e me apresentaram o ir e o vir dos carros e das pessoas. Dia repleto de papéis, mas isento de preocupações profissionais. Dia de preocupação com a saúde e de constrangimentos. Terça-feira atípica. Tarde de almoço de confraternização no trabalho. De samba de roda e de cerveja na mesa do escritório. Tarde de luz e de risos. Dia de perguntas inconvenientes e de apatia. Confesso que não estava disposta a encarar com muito prazer este dia, até porque fisicamente meu corpo ainda pedia pausa e gritava por repouso. Não sei se por conta das últimas notícias ou do calor excessivo, o fato é que não tive ânimo para o samba, nem para as fofocas espontâneas. Limitei-me a observar e tudo não teria passado de uma terça-feira quente se não fosse pela cumplicidade que me foi apresentada em um convite: - Já que você não pode ir para o bar, combinamos de ir tomar um café. O que acha?! - Café? - É. Café. Passo para te buscar umas cinco horas. Mal tive tempo de responder o sim ou o não, principalmente por pensar em alguns detalhes deste convite, do tipo: Café, em uma tarde quente desta? Café, na primeira terça-feira de verão deste resto de ano? Café, simples e puro café? Puro, com leite, frio, quente, com conhaque ou chantily, de um jeito ou de outro, assim ou assado, posso afirmar que foi o mais agradável café de todos os meus dias. Café forte, mas doce. Café preto e branco. Café para despertar e sorrir. Foi assim, com um simples café que se iniciou mais um delicioso “Dia das meninas”. Foram quase quatro horas de conversas intensas. Muita comilança e bobagens que iam e vinham com a garçonete. Mimos de Natal com direito a cartão individual. Pedidos de atendimento feitos por engano por simples reflexo ou curiosidade. Soda de maça verde. Dúvidas entre mais de vinte itens que iam de cima a baixo no cardápio. Fofocas amargas ou auspiciosas, tudo isso acompanhado de um simples café. Poderia falar de muitos assuntos tratados naquele final de tarde, mas nenhum teria tanto significado quanto o que mais nos rendeu risadas e fechou o encontro e o ano com chave de ouro (ou seria de alumínio?). Final da tarde, início da noite, céu claro, com poucas nuvens. Hora de pagar a conta e voltar para casa. Fila do caixa, cálculos e olhares curiosos em volta das coloridas paredes do Café. - Nossa! Que caneca linda! Olhei para meu lado direito e vi uma de minhas amigas segurando uma caneca de alumínio azul, destas que se usa para levar café para o trabalho. No mesmo instante todas concordaram com o elogio e atentas olhamos para a garçonete que disse: - Acho que essa é a última, aproveita para levar, é só R$9,90. - Vou comprar para presentear você! – disse uma outra amiga virando-se para a última integrante do quarteto, que por coincidência faria aniversário naquela semana. Conversa vai, conversa vem. A caneca já estava de posse da futura aniversariante quando uma outra atendente, com mais tempo de casa interrompe a conversa e diz: - Ela disse o preço errado para vocês. Essa caneca custa R$25,00. - O quê?! – disse a compradora da caneca ao mesmo tempo em que tirava a caneca das mãos da aniversariante e a devolvia no balcão. - É que ela é nova aqui e não sabe o preço direito. - Mas e agora? Se eu não levar, minha amiga vai achar que não merece um presente de R$25,00, mas está muito caro! - Mas não posso fazer nada! - Moça, ela já nasceu no Natal, ganha só um presente por ano, se ela achar que ela não merece essa caneca que custa R$25,00, como você acha que ela vai se sentir? - Então, compra a caneca para ela e prova que ela merece, ué! E assim, deu-se o diálogo entre a compradora da caneca e a atendente, enquanto isso, eu, a futura aniversariante e nossa outra amiga nos desmanchávamos de tanto rir no meio do saguão. Resumindo, a aniversariante saiu de lá com a caneca. A compradora da caneca saiu de lá com seu presente eternizado em uma fotografia digna de porta-retratos e nós ganhamos uma tarde inesquecível de risadas e disse que me disse. É por estas e outras que admiro incessantemente as pequenas coisas da vida. É por estas e outras que valorizo tanto minhas amizades. Um simples café tornou um dos dias mais indispostos do ano, uma tarde repleta de gargalhadas e de boas recordações. Recordações que só tornaram-se tão boas e inesquecíveis por estarem, eternizadas nos sorrisos e abraços de grandes amigas. Um brinde à caneca térmica, à amizade e ao cafezinho, é claro!



Ilustração de: Gabriel Vicente.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Então é Natal...

O ano passou voando...Já nos aproximamos da última semana deste rentável 2009 e tento imaginar como será meu final de ano. Não tenho tido muito tempo para pensar nas festividades, nem em quem vou reencontrar ou qual o cardápio da ceia. De alguns anos para cá, acompanho tudo de longe, dando sugestões pelo telefone, sugerindo coisas e pessoas que talvez nem existam mais, a não ser dentro de mim.
Estou em um novo apartamento neste final de ano, com novas janelas e horizontes. O barulho daqui é terrível, mas de um mês para cá se tornou bastante agradável. Músicas natalinas, risadas de crianças, conversas de namorados, passos apressados, sacolas buscando suas brechas e luz, muita luz.
A cidade ganhou nova cor, mais vida e ritmo. Consigo escutar o som dos sinos pendurados nas portas das casas e o barulho dos passos das botas colocadas nas janelas. Consigo ouvir o trote das renas e o sorriso engraçado do Papai-noel colocado em cada esquina. É como entrar em uma vila de contos de fadas, que cedo ou tarde se desfaz e volta a mostrar sua verdadeira cor.
No bairro onde trabalho não existe decoração natalina, este privilégio é reservado para o centro comercial, para os grandes shoppings e parques com maior movimentação de pessoas, e, consequentemente, de renda. Tive medo de que as crianças de lá não soubesse nada sobre o Natal e levei uma grande lição ao trabalhar com elas na última semana.
A proposta era levantarmos tudo o que existe no Natal e em seguida escolher duas destas coisas para eternizar com um desenho ou colagem. Surgiram inúmeras sugestões que iam desde o Papai-noel e seus duendes, até a enfeitada árvore de Natal, passando pela neve, pelo trenó e claro pelos presentes.
Este último item foi o mais lembrado, e confesso que não me admirei, afinal de contas o Natal deixou de ser uma data religiosa para virar uma data mercadológica há muitos anos. Passar um Natal sem presente, nos dias de hoje é inimaginável, certo?
Não para aquelas crianças. Quando as questionei sobre o presente de natal que gostariam de receber, ouvi respostas que passaram longe das bicicletas, carrinhos de controle remoto, vídeo-game e bonecas barbie. Escutei desejos de frango assado, leite, brigadeiro e macarronada.
Descobri naquela tarde que além da barriga cheia alguns desejavam rever o pai ou irmão que estavam sentenciados, outros o tio que tinha falecido ou ainda desejavam uma cama com colchão só para eles.
Claro que depois destes desejos surgiram os pedidos de carrinhos e bonecas, mas nada que fosse de última geração, ou que tirasse o sono de alguns pais.
O fato é que estes desejos de natal me deixaram sem respirar por alguns segundos e me fizeram mais uma vez procurar o espírito natalino. Espírito esse que surge no final do ano e desaparece feito mágica dias depois, deixando as expectativas para traz e nos lembrando dos tropeços da vida. Mas como não custa nada tentar, busquei bem fundo o significado real desse tal espírito de Natal e desta vez, felizmente, o encontrei.
O espírito natalino estava bem ali, estampado no rostinho de cada uma daquelas crianças que se desmancharam de alegria ao fazer pequenos pedaços de algodão virar neve com seu assopro, ou ainda, quando se lambuzaram com um saquinho surpresa de doces.
Encontrei o tão esperado espírito de Natal em uma garotinha especialmente, que ao receber os doces, guardou metade em um dos bolsos da calça e me disse:
- Tia, esses eu vou guardar para o dia de Natal.
- Ah é? E por que vai guardá-los?
- Vou dar de presente para minha mãe e meus irmãos.
Por um breve instante me calei, a peguei no colo e lhe dei um longo abraço, em seguida lhe disse:
- Este abraço você guarda também e distribui com os doces na noite de Natal, tudo bem?
Sorrindo ela me beijou e correu para os braços da mãe mostrando aquela simbólica lembrança que pra ela tinha sido tão valiosa.
Na mesma hora me lembrei de um conhecido ditado que é muito verbalizado, mas que poucos colocam em prática: “Ninguém é tão pobre que não tenha nada para oferecer, nem tão rico que não possa nada receber”.
E é com estas palavras que finalizo este texto, com desejos de fartura e alegria para todas as famílias neste Natal, e especialmente com desejos de ações altruístas como daquela garotinha que não conhece muito da vida, mas já desvendou seu segredo...


Ilustração de: Gabriel Vicente.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Enquanto o tempo vai e a vida vem...

Tenho tido bastante tempo para pensar nos últimos dias. Por mais incrível que pareça, fui acometida por uma dolorosa caxumba. Doencinha esquisita, que me obrigou a tirar férias forçadas do trabalho e me colocou de repouso por longos e intermináveis dias.
Nunca imaginei que seria vítima desta doença beirando os vinte e seis anos, nem que a tal caxumba – doença de criança, perigosa para os homens na fase adulta, fosse tão dolorosa, menos ainda que me cansaria de ficar deitada e não teria mais filmes na minha lista intitulada: “Assistir nas férias...”
O fato é que tanto tempo livre me possibilitou refletir sobre o que tenho feito do meu tempo e com a minha vida, e mais, me fez pensar nos meus quereres. Pensei no que tenho construído e no que tenho destruído nos últimos meses e tentei organizar tudo com etiquetas coloridas, como se fossem caixas em uma grande estante.
Pensei nos prazos que deixariam de ser cumpridos no meu trabalho e em todo o trabalho que teria na volta. Cheguei a sonhar com reuniões, com o grupo de crianças, com as cestas básicas e com o carrancudo auxiliar administrativo.
Pensei nas mensagens confortantes que recebi dos poucos, mas fiéis amigos que conquistei ao longo da vida e no quanto me fazem falta.
Pensei na minha família que nos últimos dias dividiu-se entre: os que já tiveram caxumba e os que não tiveram, revezando telefonemas e paparicos que deram um pouco de cor nestas tardes doloridas, me fazendo companhia no décimo filme ou me trazendo a terceira gelatina do dia.
Pensei no meu namorado e no quanto perdemos tempo falando de problemas e nos chateando nos poucos momentos que temos para ficar juntos. Pensei no quanto poderíamos rir mais, sair mais e deixar mais lembranças para este sentimento que tem se fortalecido com o passar dos dias. Pensei no vazio que sua ausência me causa e nas dúvidas que rodeiam nosso namoro e fiquei confusa.
Pensei nas aulas que deixei de assistir das duas pós-graduações que teimosamente continuo a fazer e nos livros que terei que ler quando retornar.
Pensei no texto que tinha que ser encaminhado para o jornal e no quanto tenho sentido falta de escrever. Pensei nos leitores e nos meus e-mails que estão sem resposta há mais de uma semana.
Pensei no quanto minha vida está dividida entre lá e cá e no quanto me embaralhei ao colocar algumas coisas na estante. Tantas coisas que deveriam estar na cômoda do prazer e passaram para a gaveta das obrigações. Tantas pessoas que deveriam estar na mesa de centro e foram penduradas no cabide. Tantas vontades esquecidas no fundo do baú, tantos momentos desperdiçados, tanto tempo indo enquanto minha vida vem.
Pensei no que tem me movido a fazer escolhas. No que tem me feito errar tanto algumas vezes e a acertar sem querer em outros momentos. Pensei nas coisas que gostava de fazer quando era mais jovem e que foram esquecidas. Pensei nos desenhos em grafite e carvão, nos quadros de tinta a óleo, nas flores de crochê, na minha coleção de cactos e nas aulas de natação.
Lembrei-me com saudade das habilidades que deixei de exercer e pensei no quanto tenho deixado o tempo passar enquanto minha vida vem. Pensei em algumas conversas que viraram discussões e no silêncio que me fez calar tantas vezes. Pensei nas lágrimas retidas, no nó na garganta e nas gargalhadas que há tempos não surgem espontaneamente.
Olhei para mim e me observei de fora, me vi cheia de compromissos, e sozinha, rodeada por um mar de gente. Olhei para dentro de mim e descobri o que me move.
Pensei na certeza de sair daqui e ir para lá, nas dúvidas do recomeçar e na confiança do que seria melhor. Pensei no adeus, nas pessoas que estão do outro lado do mundo e ainda vivem tão forte no meu coração e no quanto me obriguei a reencontrá-las, por tanto tempo.
Pensei no que espero do meu futuro e não encontrei resposta alguma. Descobri que viver os dias um a um pode ser maravilhoso e que fazer planos para daqui há dez anos, pode ser mais doloroso do que a caxumba, já que ninguém faz planos sozinho e contar com personagens para nossa história pode ser bastante decepcionante.
Descobri que o que me move mais que o amor em tudo o que faço é a minha confiança.
Confio na minha competência profissional, confio nas amizades que se cristalizaram com o passar do tempo, confio no amor da minha família, confio no meu coração e em tudo o que ele tem me ensinado, confio na minha ânsia de novos conhecimentos e, sobretudo, confio em mim.
Descobri que não estou infeliz, nem tão pouco descontente, creio que me falta apenas organização. Nada do que vivo foi imposto, cada momento, cada pessoa que entrou e saiu da minha vida, cada dia passado, presente e futuro, tudo foi em determinação da minha vontade, da minha escolha e das minhas renúncias.
Descobri que preciso recobrar algumas velhas alegrias e aspirar novos horizontes. Descobri essencialmente que confiança gera auto-estima, que gera confiança, que gera amor, que gera confiança, que gera coragem, que gera confiança, que gera escolha, que gera confiança, que gera sabedoria, que gera confiança, que gera personalidade, que gera confiança e que finalmente gera ple-ni-tu-de...
Enquanto o tempo vai, a vida vem plena e cheia de surpresas. Eu que o diga, ter caxumba nesta fase da vida é mesmo algo inimaginável e ainda arriscaria dizer: incrível. Fez-me brecar o ritmo e colocar cada coisa em seu devido lugar, enquanto o tempo vai e a vida vem, enquanto as coisas se apertam e se encaixam nesta longa e colorida estante...

Ilustração de: Gabriel Vicente.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Vida de inseto

Era uma noite chuvosa, fresca e barulhenta, que nos brindou com sua escuridão. Era uma dessas noites de “apagão”, onde faltou a luz e sentimos faltar o chão sob os pés. Momentos em que percebemos o quanto somos dependentes da tecnologia e dos confortos contemporâneos. Noite em que observar alguns insetos que rodeavam incessantemente uma vela, tornou-se uma grande diversão.
Alguns insetos grandes, outros pequenos, alguns com asas, outros com pequenas patas, iam e vinham em torno do pires que sustentava a vela, alguns mais audaciosos arriscavam um vôo ao seu redor e sumiam, alguns para sempre.
Um pequeno besouro, em especial, chamou minha atenção. Foi um dos primeiros a rodear a chama da vela e não contente com sua proeza cortou a chama raspando no pavio, que fez o fogo esmorecer rapidamente e me permitiu vê-lo sair do outro lado da chama, com uma das asas queimadas.
Caiu bem ali, de costas, no vidro da mesa de centro e ficou a mexer as patinhas numa súbita vontade de recobrar o equilíbrio. Não me atrevi a auxiliá-lo, creio que ele precisava aprender aquela lição sozinho. Quanto a mim, ficaria a observá-lo e a incentivá-lo em pensamento enquanto olhava outro inseto que se aproximava da vela.
Este, menor que o besouro, parecia uma formiga com asas, popularmente conhecido por “aleluia”, o bichinho subiu com cuidado até o pires e começou a andar em círculos.
Ia e vinha o tempo todo, sem dar descanso às patas cansadas, como se fizesse uma reverência à vela colocada no centro daquele círculo imaginário.
Fiquei pensando quando ele iria subir pela vela, ou quando criaria coragem para voar próximo às chamas como os demais insetos que ali estavam, mas ele não o fez. Ficou ali na mesma rota, até que a chama terminasse, hipnotizado pela luz, extasiado com todo aquele calor que o prendia como um imã.
Antes da chama findar-se voltei a olhar o pequeno besouro, que com muito esforço havia novamente se colocando de pé. Uma das asas estava comprometida, mas isso não o impediu de mais uma vez alçar vôo pelo pires. Ia e vinha, desta vez mais tímido, mas cada vez mais alto.
Pensei que nenhum animal seria suficientemente ignorante para novamente jogar-se nas chamas e ingenuamente me surpreendi quando o vi usar suas últimas forças para jogar-se novamente na chama e cair, desta vez sem vida.
Foi então que comecei a pensar na nossa semelhança com os insetos e tentei encontrar alguma característica que nos diferenciasse deles. Depois de muito pensar, encontrei apenas uma: a consciência.
Da mesma forma que aquele besouro, trilhamos objetivos, superamos obstáculos e muitas vezes somos por eles derrubados. Criamos novas estratégias, definimos novamente o objetivo, nos machucamos, recebemos todos os sinais de que aquele não é o melhor caminho, mas tão logo criamos novas forças, recuperamos o equilíbrio, nos jogamos na chama e muitas vezes não vemos mais saída.
A única diferença destas duas histórias está na consciência dos atos. O besouro age por instinto, não consegue desvencilhar-se da luz, nós muitas vezes nos atiramos na chama conscientes e ainda assim nos lamentamos com o fatídico resultado e não aceitamos as renúncias de nossas escolhas.
Assim também podemos nos comparar com a “aleluia”, que ficou por horas almejando seu objetivo e não se arriscou, deixou engolir-se pela rotina, e saiu cabisbaixa para longe da vela que já perdia seu significado com o apagar da chama. Quanto a nós, quantas vezes não trilhamos objetivos, fazemos planos e nos sufocamos pela rotina, que nos acomoda e nos impede de alcançá-los?
A cada dia tenho mais certeza de que temos muito a aprender com a natureza, com seu instinto e seus reflexos e é por isso que não me canso de observá-la.
Seja dia ou noite, com luz artificial ou solar, com lâmpada ou velas, meu olhar sempre estará em busca das pequenas coisas que nos movem. Das pequenas coisas que constituem a essência humana.
Talvez se adotássemos a vida de inseto poderíamos ganhar muito, principalmente se formos capazes de usar nossa consciência humanamente. Consciência esta, que atribui ao homem a capacidade de agir racionalmente e fazer suas escolhas de maneira justa.
Creio que nos falta um pouco mais de instinto e nos sobra crueldade em alguns momentos, em outros nos falta coragem e nos sobra acomodação, sem falar nas vezes que nos sentimos com as pernas para o ar e sem forças para recomeçar. Para recobrar este equilíbrio, e nos ensinar novas formas de trilhar os mesmos caminhos, creio que os insetos, na imensidão de suas monótonas vidas ainda têm muito a nos ensinar....
Ilustração de: Gabriel Vicente.

domingo, 29 de novembro de 2009

Sexta-feira treze...


Sexta-feira treze. Nunca me importei com esta data, com as previsões e superstições que cobrem de cinza o treze e que chegam a dar um frio na espinha e um pouquinho de medo nas noites escuras, isentas de lua.
Sextas-feiras sempre foram muito convidativas, as treze inclusive, em especial uma que marcou minha vinda para este mundo. Isso mesmo, nasci em uma sexta-feira treze, de janeiro, numa tarde ensolarada que marcou o início de muitas noites insones para meus pais e paparicos para mim.
Na escola sempre fui motivo de risadas quando dizia o dia do meu nascimento, mas sempre me orgulhei de ter nascido em um dia tão polêmico. Sempre gostei desses mistérios que envolvem a data, passei minha adolescência rodeada de bruxas imortalizadas nos livros do escritor Paulo Coelho, com seus enigmas, magias e segredos. Acreditava que ter nascido neste dia poderia ser a reserva de algo misterioso, algo mágico ou quem sabe uma sorte maior para enfrentar esse mundão.
Nunca vivenciei nada de ruim nas sextas-feiras treze que atravessaram meu caminho e me surpreendi quando fui assolada com uma notícia pouco agradável, na terceira e última sexta-feira treze deste ano.
Foi uma sexta-feira quente, como quase todas as outras de novembro, com raios de sol intensos que faziam arder até os cabelos. Um dia para tomar um banho de mar ou piscina para alguns poucos privilegiados que se encontram de férias ou simplesmente nasceram na boa vida. Para mim um dia comum de trabalho, mais um dia como tantos outros que já passei por aqui, só não passou despercebido por conta de um tal sorteio.
Comecei a descobrir o significado de sorte e azar com bastante clareza, e a vivenciar a angústia que assola muitos supersticiosos, naquela ensolarada sexta-feira treze. Eram apenas dois dias depreciáveis: Natal e Ano Novo, prontos para serem sorteados na escala de plantão de final de ano dos trinta e cinco assistentes sociais, prontos para garantir um dia de sorte ou azar.
Como já disse outras vezes, Murphy é meu amigo e não deixaria uma chance como esta passar. É obvio que ele teria que mais uma vez me provar a veracidade de sua teoria, e foi dito e feito: “Se há duas ou mais formas de fazer alguma coisa e uma das formas resultar em catástrofe, então alguém a fará”, bingo! A profecia se cristalizou e não contente com a proximidade do feriado fui escalada exatamente para o dia oficial das comemorações natalinas.
Vinte cinco de dezembro. Dia maravilhoso para ficar de plantão. Dia excepcional para ficar longe da família, dos amigos, da cidade natal e do único momento onde todos os familiares se reúnem no ano.
Mentiria se dissesse que fiquei calma e que tive a certeza de que tudo ficaria bem. Mentiria se dissesse que não senti uma vontade súbita de largar tudo e voltar para a pequena cidade. Mentiria mais ainda se dissesse que aceitei o sorteio de bom grado e que não derramei nenhuma lágrima sequer.
Confesso que foi um dia horrível. Não conseguia acreditar em tamanha falta de sorte e dias depois soube de um grande estudioso das catástrofes humanas que dizia: “Murphy é um otimista!”, pois é meu caro “Johnson”, o senhor tinha toda razão.
Passado os dias de lágrimas e desapontamento depois de inúmeras tentativas infundadas de troca do plantão, resolvi me aquietar e esperar que mais uma vez o universo conspirasse a meu favor, e foi me lembrando de uma conversa que tive com minha mãe na tal sexta-feira treze que resolvi guardar um pouco de esperança:
- Mãe?
- Oi filha, tudo bem?
- Está sentada?
- O que aconteceu?
- Você acredita que fui escalada para trabalhar no dia vinte e cinco de dezembro?
- Não acredito!
- Pois é, e não consegui trocar com ninguém. Estou inconformada.
- Calma filha, vai dar tudo certo.
- Como mãe? Não vai ter jeito não, vou ter que ficar aqui mesmo.
- Confia em mim, vai dar tudo certo.
- Então pode começar a orar por um milagre, por que parece que não vai ter jeito não.
- Fica tranqüila, vai dar tudo certo, eu prometo.
Vai dar tudo certo, confia em mim, dará tudo certo, eu prometo. Fiquei repetindo aquelas palavras no ponto de ônibus enquanto olhava para o sol quente e pensava no quanto seria bom estar em casa naquele instante.
Pensava na minha família, nos meus amigos, no significado que todos eles têm em minha vida e senti um nó na garganta. Um nó tão grande que me fez por um segundo entender o porquê daquilo tudo. Fez-me entender que este não seria o último Natal que teria que passar longe dos meus por conta do trabalho, mas me fez acreditar que também não seria o primeiro.
E foi nesta esperança e na confiança que tenho em minha mãe, que nunca quebrou uma promessa feita a mim, que me apeguei nos dias que se seguiram.
Ainda hoje não sei dizer se foi o destino, se foi a magia, se foi uma obra divina ou quiçá o amor de mãe, que conspiraram para que tudo fosse resolvido. Graças a uma boa alma que pouco conheço, mas que se dispôs a sacrificar seu Natal para que eu tivesse o meu de volta eu pude voltar a sorrir:
- Soube que talvez você possa trocar seu dia de plantão comigo?
- Isso mesmo, posso sim!
- Jura?
- Sim, eu troco, não tem problema. Vou te dar este presente de Natal.
- Você é que merece um presente! Muito obrigada!
Foi assim, com este presente adiantado de Natal que iniciaram as alegrias daquela quarta-feira, do dia dezoito de novembro, dia em que por coincidência ou não, minha mãe completou mais um ano de vida e ao saber da notícia disse que já tinha ganhado seu maior presente: minha presença para o Natal...