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domingo, 29 de novembro de 2009

Sexta-feira treze...


Sexta-feira treze. Nunca me importei com esta data, com as previsões e superstições que cobrem de cinza o treze e que chegam a dar um frio na espinha e um pouquinho de medo nas noites escuras, isentas de lua.
Sextas-feiras sempre foram muito convidativas, as treze inclusive, em especial uma que marcou minha vinda para este mundo. Isso mesmo, nasci em uma sexta-feira treze, de janeiro, numa tarde ensolarada que marcou o início de muitas noites insones para meus pais e paparicos para mim.
Na escola sempre fui motivo de risadas quando dizia o dia do meu nascimento, mas sempre me orgulhei de ter nascido em um dia tão polêmico. Sempre gostei desses mistérios que envolvem a data, passei minha adolescência rodeada de bruxas imortalizadas nos livros do escritor Paulo Coelho, com seus enigmas, magias e segredos. Acreditava que ter nascido neste dia poderia ser a reserva de algo misterioso, algo mágico ou quem sabe uma sorte maior para enfrentar esse mundão.
Nunca vivenciei nada de ruim nas sextas-feiras treze que atravessaram meu caminho e me surpreendi quando fui assolada com uma notícia pouco agradável, na terceira e última sexta-feira treze deste ano.
Foi uma sexta-feira quente, como quase todas as outras de novembro, com raios de sol intensos que faziam arder até os cabelos. Um dia para tomar um banho de mar ou piscina para alguns poucos privilegiados que se encontram de férias ou simplesmente nasceram na boa vida. Para mim um dia comum de trabalho, mais um dia como tantos outros que já passei por aqui, só não passou despercebido por conta de um tal sorteio.
Comecei a descobrir o significado de sorte e azar com bastante clareza, e a vivenciar a angústia que assola muitos supersticiosos, naquela ensolarada sexta-feira treze. Eram apenas dois dias depreciáveis: Natal e Ano Novo, prontos para serem sorteados na escala de plantão de final de ano dos trinta e cinco assistentes sociais, prontos para garantir um dia de sorte ou azar.
Como já disse outras vezes, Murphy é meu amigo e não deixaria uma chance como esta passar. É obvio que ele teria que mais uma vez me provar a veracidade de sua teoria, e foi dito e feito: “Se há duas ou mais formas de fazer alguma coisa e uma das formas resultar em catástrofe, então alguém a fará”, bingo! A profecia se cristalizou e não contente com a proximidade do feriado fui escalada exatamente para o dia oficial das comemorações natalinas.
Vinte cinco de dezembro. Dia maravilhoso para ficar de plantão. Dia excepcional para ficar longe da família, dos amigos, da cidade natal e do único momento onde todos os familiares se reúnem no ano.
Mentiria se dissesse que fiquei calma e que tive a certeza de que tudo ficaria bem. Mentiria se dissesse que não senti uma vontade súbita de largar tudo e voltar para a pequena cidade. Mentiria mais ainda se dissesse que aceitei o sorteio de bom grado e que não derramei nenhuma lágrima sequer.
Confesso que foi um dia horrível. Não conseguia acreditar em tamanha falta de sorte e dias depois soube de um grande estudioso das catástrofes humanas que dizia: “Murphy é um otimista!”, pois é meu caro “Johnson”, o senhor tinha toda razão.
Passado os dias de lágrimas e desapontamento depois de inúmeras tentativas infundadas de troca do plantão, resolvi me aquietar e esperar que mais uma vez o universo conspirasse a meu favor, e foi me lembrando de uma conversa que tive com minha mãe na tal sexta-feira treze que resolvi guardar um pouco de esperança:
- Mãe?
- Oi filha, tudo bem?
- Está sentada?
- O que aconteceu?
- Você acredita que fui escalada para trabalhar no dia vinte e cinco de dezembro?
- Não acredito!
- Pois é, e não consegui trocar com ninguém. Estou inconformada.
- Calma filha, vai dar tudo certo.
- Como mãe? Não vai ter jeito não, vou ter que ficar aqui mesmo.
- Confia em mim, vai dar tudo certo.
- Então pode começar a orar por um milagre, por que parece que não vai ter jeito não.
- Fica tranqüila, vai dar tudo certo, eu prometo.
Vai dar tudo certo, confia em mim, dará tudo certo, eu prometo. Fiquei repetindo aquelas palavras no ponto de ônibus enquanto olhava para o sol quente e pensava no quanto seria bom estar em casa naquele instante.
Pensava na minha família, nos meus amigos, no significado que todos eles têm em minha vida e senti um nó na garganta. Um nó tão grande que me fez por um segundo entender o porquê daquilo tudo. Fez-me entender que este não seria o último Natal que teria que passar longe dos meus por conta do trabalho, mas me fez acreditar que também não seria o primeiro.
E foi nesta esperança e na confiança que tenho em minha mãe, que nunca quebrou uma promessa feita a mim, que me apeguei nos dias que se seguiram.
Ainda hoje não sei dizer se foi o destino, se foi a magia, se foi uma obra divina ou quiçá o amor de mãe, que conspiraram para que tudo fosse resolvido. Graças a uma boa alma que pouco conheço, mas que se dispôs a sacrificar seu Natal para que eu tivesse o meu de volta eu pude voltar a sorrir:
- Soube que talvez você possa trocar seu dia de plantão comigo?
- Isso mesmo, posso sim!
- Jura?
- Sim, eu troco, não tem problema. Vou te dar este presente de Natal.
- Você é que merece um presente! Muito obrigada!
Foi assim, com este presente adiantado de Natal que iniciaram as alegrias daquela quarta-feira, do dia dezoito de novembro, dia em que por coincidência ou não, minha mãe completou mais um ano de vida e ao saber da notícia disse que já tinha ganhado seu maior presente: minha presença para o Natal...

sábado, 21 de novembro de 2009

Vai assoprar ou não?

Era apenas mais uma dessas noites insones. Noite quente, cheia de estrelas, sem nuvens. Noite clara, cheia de luzes e sirenes. Noite das luzes vermelhas da viatura policial e do barulho das sirenes da ambulância.
Passava da meia-noite, o sono não vinha. Ouvi barulhos de rádio comunicador e me aproximei da janela.
Da vista da minha janela, observei duas viaturas da polícia militar e quatro guardas fardados, questionando um casal que acabava de descer de um veículo.
Enquanto dois policiais revistavam o carro, outro checava o documento do rapaz e um quarto questionava a moça.
Encontraram duas mochilas no porta-malas do carro e uma terceira em seu interior. Mochilas repletas de DVD’s piratas, apreensão que causou risadas entre os policiais e problemas para o rapaz magro, que agora de cabeça baixa observava sua companheira ser liberada, até perdê-la de vista, sem nenhum abraço de adeus, sem nenhum afeto.
- Tem DVD aqui que nem saiu no cinema. O cara é o rei da pirataria – disse um dos policiais. Frase suficiente para que o outro logo se pronunciasse:
- “Filho”, você está detido, entendeu? Não precisa responder mais nada até chegar à delegacia.
Encostaram o carro do rapaz na rua da frente, à espera do guincho, chamaram reforço e assim que uma terceira viatura chegou levaram o “rei da pirataria” para a delegacia.
História que me deixou pensando em quantos reis e príncipes da pirataria existem espalhados por ai e que aquele rapaz, agora cabisbaixo, não passava de um simples bobo da corte. Mas esse era apenas o início da movimentada noite.
- Ei! Rapaz, você está louco?!
Escutei a frase em alto tom e voltei à janela, ainda sem sono, e pude ver um carro quase atropelando os cones de sinalização colocados pela polícia.
Com esse motorista a tolerância foi menor e as palavras mais ásperas. Sem meia conversa o rapaz foi detido, sem nem poder explicar-se, apesar de tentar dizer que não tinha visto o aviso para parar com antecedência, porque o policial havia sinalizado bem próximo ao cone:
- Você está dizendo que eu não fiz meu trabalho direito? – gritou o policial.
- Não bicho, não foi isso que eu disse.
- Bicho?! Você sabe com quem está falando?!
- Não consegui ver ser crachá senhor.
- Isso mesmo, comigo é senhor. Você chama de bicho seus amigos e suas “negas”, eu não.
- Posso me explicar agora, senhor? Sou pai de família, trabalhador, só fiz o que o senhor pediu. Pediu para eu parar em cima do cone e eu parei.
- Você bebeu rapaz?
- Eu tomei uns goles sim senhor, mas só fiz o que o senhor pediu.
- E aonde você ia com tanta pressa?
- Ia levar meu amigo para Campinas, a gente estava trabalhando até agora.
- Trabalhando no boteco? Ia dirigir desse jeito?
O rapaz, visivelmente embriagado não teve tempo de responder, só pode observar os policiais retirarem uma caixa preta de uma das viaturas, analisar por alguns minutos o equipamento e lhe dizer:
- Você vai assoprar ou não?
- Assoprar o quê?
- O bafômetro rapaz! Presta atenção! Você vai assoprar ou não?
- E se eu não assoprar?
- Se você não assoprar vai para o Distrito Policial (DP) e o carro vai ser guinchado. Se você assoprar vai pra casa com uma multa. E ai? Vai assoprar ou não?
- Mas eu sou pai de família, trabalhador, você está sendo injusto cara! Eu preciso do carro para trabalhar.
- A pergunta é simples, você vai ou não assoprar? É só dizer sim ou não.
- Quero dar um telefonema.
- Pode guardar o bafômetro, ele não quer assoprar, encaminhem-no para o DP e chamem o guincho também – ordenou um dos policiais aos demais.
Mais um carro enfileirado na rua à espera do guincho. Depois deste outras duas motos paradas, mais um carro e revista em alguns transeuntes. Mas estas histórias eu não quis ouvir. Tentava esvaziar a mente com estas linhas para preenchê-la com um pouco de sossego, à espera não do guincho, mas do sono dos justos.
Confesso que estou farta de tanto blá-blá-blá embaixo da minha janela, principalmente porque as palavras altas, o rádio comunicador, as sirenes e os palavrões, invadem minha calma sem permissão, quase que diariamente.
Sinto-me cansada de tanta invasão. Enquanto estas pessoas invadem meu sossego, eu invado suas histórias, que são abraçadas por mim, pelo simples fato de estarem na vista da minha janela.
Sinto saudades do barulho dos pássaros e do cheiro de mato da minha terra. Onde o único “assopro” que invadia minha calma era a brisa leve que adentrava o quarto com os primeiros raios de sol...

sábado, 7 de novembro de 2009

A greve

Greve é greve em todo lugar. Aqui, na Europa ou na América do Norte greve é greve e sempre será greve, desde fins do século XVIII. Se não me engano a palavra greve origina-se do francês grève, que era também o nome de uma praça onde desempregados e operários insatisfeitos com suas condições de trabalho se reuniam, a Place de Grève.
No Brasil a greve é legalizada, garantida pela Constituição Federal de 1988, que assegura o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender, desde que não prejudiquem serviços essenciais à população e atividades inadiáveis.
Movimentos grevistas surgem e desaparecem como bóias no meio do oceano, já foram proibidos e ainda assim aconteceram; já foram solicitados e ficaram submersos; já foram esquecidos e marginalizados e agora apresentam-se previsíveis.
Atualmente é possível arriscar sem medo os períodos mais propícios ao início de uma greve, que sempre tem data certa para começar, mas nunca para terminar.
Geralmente é assim, passado o início do ano, se não houver nenhum sinal de reajuste salarial, é bem provável que em breve se ouvirá dizer: greve à vista!
Todo ano a mesma história, quase sempre as mesmas reivindicações, os mesmos grevistas e as mesmas reclamações de quem está de fora.
Particularmente nunca participei de um movimento de greve, não sei se por acreditar que esta talvez não seja a melhor forma de negociação, ou por não encontrar argumentos mais sólidos, o fato é que independente de minha opinião o efeito de uma grave geralmente é breve e inegável.
Presenciei bem de perto três grandes greves neste ano, a dos motoristas de ônibus, a dos médicos e dos bancários. A primeira me atingiu diretamente, pois como sempre relato aqui, tenho o ônibus como meu meio de locomoção diário para o trabalho, claro que seria mais confortável ir de carro, mas isso no momento é impossível por dois motivos: não tenho um automóvel e não sou muito fã de direção, mas isso é história para outro dia. O fato é que uma semana sem ônibus foi o suficiente para generalizar o caos no trânsito e nas empresas da cidade.
Era gente “rachando” táxi, gente correndo atrás de lotações, que começaram a surgir na porta dos terminais de ônibus como os guarda-chuvas dos camelôs ao menor indício de chuva. Funcionário chegando atrasado por ter trocado o ônibus pela bicicleta, empregador utilizando o atraso para mandar o fulano embora por justa causa, enfim, foi aquele “vucovuco”.
Eu, não tinha muita opção a não ser esperar os poucos ônibus da frota de emergência que ainda circulavam, nada como duas horas no terminal de ônibus e mais 40 minutos em pé, apertada como em uma lata de sardinha para se entender as consequências de uma greve e descobrir suas sutilidades.
Foi em um desses dias de greve, na fila do ônibus que vi um garoto com o braço erguido, que exultava o dedo indicador apontado na direção daquela fila de gente. Ele ia e vinha contando e dando número às pessoas como se fossem bois no pasto. Quando se aproximou de mim disse:
- Sessenta e quatro.
Olhei para ele e retruquei:
- O que você disse?
- Sessenta e quatro – ele respondeu.
- E o que tem isso?
- Tem que você é a mulher de número sessenta e quatro da fila, bem atrás do homem de número quarenta e dois.
- Então temos mais mulheres do que homens na fila?
- É... Mas isso é em todo lugar, não é? Na minha casa mesmo tem seis mulheres e dois homens. Na minha escola tem mais meninas do que meninos.
- Mas por que você decidiu contar as pessoas de forma separada aqui?
- Para ver se minha mãe tinha razão.
- Razão em quê?
- Hoje, antes de sair de casa, ela disse que as mulheres é que fazem as coisas acontecerem, que são elas que acordam cedo e fazem tudo na casa e vão para o trabalho, enquanto os homens ficam dormindo.
- E você concorda com isso?
- Ah... Eu já estava de pé quando ela disse isso, mas meu pai estava lá dormindo, disse que hoje ia fazer greve. Não sei direito o que é isso, mas deve ser bom, não é?
- O quê?
- A greve ué, quando eu crescer quero fazer greve também, ai posso dormir até tarde enquanto minha mulher sai e faz as coisas acontecerem.
Não tive nem tempo, nem reação para responder ao garoto, pois o ônibus já se aproximava e sua mãe correu o puxando pelo braço, mas que o que ele disse faz bastante sentido faz, não acham?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Entre cobras e lagartos... A vida como ela é?!


Semana repleta de surpresas, cheia de sustos e carregada daquela vontade de jogar tudo para o alto e sumir do mapa. Dias difíceis, cheios de mau humor, de pessoas sem graça e de animais peçonhentos.
Uma semana medonha, temerosa, necessária para me mostrar que nem tudo o que reluz é ouro e para escancarar minha fraqueza, meu medo e minha aflição.
Não sou uma pessoa corajosa, até ai não seria novidade nenhuma, tenho medo de muitas coisas, e descobri esta semana algumas outras que eu nem imaginava ter.
Lembro-me que desde criança já dava sinais da falta de coragem, sempre fui medrosa, especialmente com coisas vivas. Animais com pêlos, penas ou veneno sempre me assustaram.
Quando tinha meus seis anos, aproximadamente, acompanhei a mudança de uma nova vizinha para a esquina de casa. Observei os móveis chegando, tudo sendo carregado com cuidado para o interior da casa, até então abandonada, achava legal ter novos vizinhos e fiquei na expectativa de surgirem crianças no meio da mudança para uma nova brincadeira, mas para meu pavor o que surgiu foi um cachorro enorme, que mais parecia um camelo, todo peludo, com um focinho comprido e que adorava correr atrás de mim, tão logo me via fugindo desesperada dele aos berros até entrar pela porta da garagem.
Creio que até hoje minha pouca afinidade com cães de grande porte se dê por consequência daquelas corridas. Não gostava nem de olhar para aquele cão, ele era assustador, tanto quanto os pombos.
Não suporto pombos, tenho pavor daquele barulho que eles fazem, acho que são ameaçadores e não entendo porque as pessoas insistem em tentar domesticá-los. Ratos não são domesticáveis, a não ser que você compre um ratinho branco de olhos vermelhos em uma loja de animais, porque então tentar domesticar “ratos voadores”? Esqueça os pombos e suas migalhas, plante flores no jardim e espere os beija-flores, eles sim têm algo a nos ensinar.
Voltando aos pombos, sempre soube do meu asco por eles, mas descobri meu pavor no período da faculdade, ao ser atacada por dezenas deles no meio da praça central da cidade. Foi um plano maquiavélico, elaborado por um senhorzinho que esperou o momento exato para jogar um monte de milho e pedaços de pão bem próximo aos meus pés. Quando vi a aproximação dos “ratos voadores” joguei a bolsa, as pastas, o casaco, tudo no chão! Abaixei-me e gritei, gritei tanto que eles se assustaram e eu pude me levantar e aguentar os olhares curiosos e as risadas dos transeuntes que não pareciam acreditar no meu medo.
Como se não bastasse minha aflição pelos enormes cães e pelos terríveis pombos, depois de longos anos, bem nesta semana, pude descobrir meu pavor pelas cobras. Sabia que sentia medo do bicho, desde criança ouvia minha mãe dizer que se eu fosse picada por um escorpião ou por uma cobra seria muito perigoso, devido a um probleminha cardíaco que me brindou no nascimento. Mas com o tempo não sentia mais a pressão do coração com seu buraquinho e fui me adaptando a uma rotina comum, tão comum que me fez esquecer do temor pelos animais peçonhentos.
Acreditava que tinha mais medo de baratas do que de cobras, mas me enganei. Nesta semana deparei-me com uma cobra no meu local de trabalho, e confesso que quase morri, não pela picada que felizmente evitei, mas pelo susto. Chorei, faltou ar, tremia tanto que mal podia falar, tudo por ter visto a tal cobra.
Você deve estar se perguntando onde eu estava para dar de cara com uma cobra a menos de um metro dos meus pés, e posso garantir que eu não estava no meio do mato, nem enfiada na mata atlântica, estava sentada, ao telefone na sala de atendimento. Não, não trabalho no Butantã, nem em um escritório no meio da selva, é um bairro urbano, mas que devido à culpa não sei de quem, estava sem manutenção da grama a alguns meses, tempo suficiente para que a cobra se sentisse em casa.
Descobri mais um de meus pavores e novamente fui ridicularizada, por olhares curiosos e sorrisos sem graça que não entendiam o porquê de tanto desespero, afinal a cobra não deveria ser venenosa. E a não ser que esteja enganada encontrei informações sobre a tal cobra, podendo afirmar sua condição venenosa. Se era pouco, muito ou semi-peçonhenta, pouco me importa, o que sei é que não recebo adicional de periculosidade e não tenho que fingir que gosto destes bichos invadindo meu local de trabalho.
Meu mau humor e minha indignação serviram para o corte da grama ser efetuado logo no dia seguinte, mas ainda não me garantiram a segurança e a ausência deste e de outros bichos por lá, muito menos o retorno das minhas tranquilas noites de sono, atualmente invadidas por cobras e lagartos em pesadelos terríveis.
Só sei que entre feras e feridos, salvaram-se todos, menos a cobra, mas dela confesso não ter sentido pena, até porquê de um jeito ou de outro ela estará aqui eternizada, lembrada para sempre toda vez que abrir-se o baú dos meus medos.

sábado, 24 de outubro de 2009

Casca de banana no sapato dos outros é refresco?!

Observei uma cena na semana passada que me deixou surpresa, tão surpresa que me fez soltar um grande grito: “Ahhhhhhh! Não acredito!”.
Grito esse, que me provocou gargalhada e me fez receber muitos olhares curiosos no ônibus. Foi como se por um instante tivesse esquecido completamente de onde estava, estava tão a vontade conversando com uma amiga, e a surpresa ao olhar pela janela foi tanta que não me contive.
A cena que para muitos pode parecer bobagem, para mim foi no mínimo curiosa. Enquanto aguardávamos o semáforo abrir, olhei pela janela e vi um homem de quarenta anos aproximadamente, cabelos pretos, olhos puxados, óculos, camisa azul e calça jeans abaixando-se em frente ao seu portão e recolhendo uma casca de banana da calçada, caída bem ali, em frente a sua porta.
Tal acontecimento já me causou admiração, visto que ultimamente é muito comum ver alguém atirar uma casca de banana na calçada, mas recolhê-la é algo raro. Contudo, o que me surpreendeu, foi o que aconteceu logo em seguida. O homem abaixou-se, recolheu a casca de banana e a jogou no meio fio.
Quando vi a cena, soltei aquele grito, em sinal de reprovação ao ato. Na mesma hora eu e minha amiga começamos a rir devido aos olhares curiosos dos passageiros, e ao olhar para o sujeito que fez esta bandalheira vi que ele nos olhava e sorria. Levantei a mão em sinal de reprovação e ele sem o riso no rosto entrou, e eu fiquei pensando neste absurdo, certa de que isso iria virar história.
Foi então que comecei a pensar no quanto somos individualistas. Aquele homem teve o trabalho de abaixar-se e recolher a casca de banana por estar em frente a sua porta, onde poderia fazê-lo escorregar, no entanto, não pensou duas vezes ao atirar a casca pelo meio fio onde poderia causar um acidente com qualquer pedestre que por ali passasse.
É o velho ditado: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco!”. Gostaria muito de saber de onde surgiu esta bobagem e o que de bom este ditado poderia causar na vida de alguém.
O que mais me impressiona, na verdade, é o fato de muitos de nós sentir alívio ao ver a dor do outro, em um pensamento egoísta que afirma ao ego constantemente: antes ele do que eu, ou ainda bem que não foi comigo.
Certa vez, me lembro de voltar do estágio de carona com uma colega e a mãe dela, bem no dia em que havíamos sido informadas que uma de nós poderia ser dispensada, e que provavelmente quem ficaria no local seria quem tivesse mais tempo de experiência. Ao saber disso, a mãe da minha colega perguntou qual de nós estava lá há mais tempo e tendo a filha dito quAlinhar à direitae era ela, ela simplesmente disse: então está bom, não se preocupe.
Ela realmente não se preocupou, não disse nada, e eu fiquei indignada com uma mãe dizendo aquilo para uma filha, ainda mais na companhia de outras pessoas. Como poderia esperar uma amizade verdadeira, ou evitar uma rasteira de alguém que foi educada a ser individualista e egoísta? Nunca esperei nada desta colega e na primeira oportunidade que ela teve deu seu sinal de que havia aprendido bem a lição e neste caso, quem escorregou na casca de banana fui eu.
Levar uma rasteira, um escorregão ou ser “deixada na mão” são ações que nos provocam indignação, nos despertam aquela sensação de injustiça e aquele sentimento que você não desejaria nem ao pior inimigo. Contudo, há quem diga que esta é a lei do mais forte, já que alguém terá que sucumbir que seja o outro e não eu, no entanto, cometemos um erro enorme ao acreditar que nunca estaremos do outro lado. Hoje você joga a casca, amanhã leva o tombo.
Na verdade o que gostaria de dizer é que não podemos melhorar a índole de ninguém, nem provocar boas sensações em pessoas que não se deixam emocionar, contudo podemos evitar sensações ruins, sofrimentos e muitos arrependimentos se tomarmos atitudes mais altruístas. Lembrando que não estou pedindo a ninguém para incorporar a Madre Teresa de Calcutá, apenas sugerindo que sejamos mais humanos.
Afinal, como já dizia meu chefe: “Bom senso e canja de galinha não fazem mal a ninguém”... E já que é possível escolher, creio que seja melhor a canja do que a casca de banana, exceto para a galinha é claro, ou será que não?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Garçom, um pouco de justiça, por favor!


Um dia você acorda e está tudo bem. Respira bem, come com prazer, dorme com tranqüilidade, estuda, trabalha e se aventura a frequentar ambientes que deveriam te distrair. No outro você está sentindo o gosto amargo do sangue na boca, perdendo o sono, a capacidade de se concentrar e com medo de colocar o pé para fora de casa.
Vivemos em uma sociedade onde a vontade individual prevalece, onde regras são quebradas e injustiças são sacramentadas como exemplos.
Não sei quanto a vocês, mas eu já estou farta de tanta injustiça. Basta colocar o pé ou o nariz para fora das grades que nos prendem em nossas próprias casas, para sentir o cheiro podre da impunidade.
Semana passada, presenciei algo que me deixou enjoada e trêmula, sentindo medo e impotência, presenciei minha vida e a vida de muitas outras pessoas na mão de um indivíduo sem bom senso ou diria ainda, sem senso algum.
Sábado à noite, em um bar de classe média, na companhia de alguns amigos, rodeada por casais, crianças e algumas famílias. De repente um empurra empurra, um homem sangrando, com uma arma na mão. Outra discussão, mesas jogadas no chão, pessoas gritando, mulheres chorando e meu coração na boca. Debandada em busca de uma saída, já que a principal estava impedida, saltos quebrados e correria. Acabamos saindo aos pulos pela grade lateral, com medo de levar um tiro ou acabar atingido no meio daquela confusão. A sensação de alívio de ter saído dali bem, só não foi maior que o medo que senti.
Sair para colocar a conversa em dia, conhecer gente nova ou simplesmente distrair-se se tornou uma audácia de grande risco.
Presenciei há pouco tempo, nas páginas dos jornais dois casos de jovens que saíram para se divertir, abandonando um pouco a rotina do trabalho e estudos, tentando encontrar algum momento de distração e retornaram para casa carregados, onde ainda encontram-se sob os cuidados dos pais, reaprendendo a falar, a andar e a viver.
Qual o crime que cometeram? Livre arbítrio. Um deles havia negado um copo de bebida, o outro havia estendido um sorriso para uma garota que sem placa de identificação retornou o olhar, mas era comprometida.
A barbaridade dos atos me deixou assustada, contudo, a argumentação de estar em uma cidade grande, me permitiu erroneamente banalizar os atos e transpor a manchete do jornal, sem relembrá-la no dia seguinte.
No entanto, quando soube de caso semelhante na pequena cidade, onde muitos dormem de janelas abertas e onde os galos cantam ao alvorecer, senti vontade de chorar.
Impotente, foi assim que me senti. Sem forças, sem voz, sem coragem. Apenas com um impulso súbito de ver a vítima, olhar nos seus olhos, lhe dar um abraço e rir do que nunca teve graça, numa fuga majestosa da impunidade.
Sinto-me revoltada e gostaria de saber quem de vocês já se sentiu injustiçado alguma vez, quem já se sentiu traído ou invadido em sua honra?
Pode ser um insulto ou uma coação no trânsito, a traição de um relacionamento ou um ato de violência e covardia que te obrigou a abdicar do ato de defender-se e expressar-se. Pode ser um empurrão no jogo de futebol, uma surra na saída de um bar ou quiçá uma acusação mentirosa. O ato em si não importa, mas sim a sensação que nos provoca.
Revolta. Impotência. Injustiça. São sentimentos que só surgem quando provocados e para serem sanados necessitam do posicionamento de outros, sejam eles representantes da lei, donos de estabelecimentos, pais de filhos sem caráter, educadores ou simplesmente testemunhas de atos improcedentes.
O fato é que somos constantemente vitimizados e revitimizados ao não termos um retorno justo do dano sofrido. E aqui não falo de dinheiro ou reposição de bens materiais, falo da restituição da liberdade e da qualidade de vida.
Para tanto, creio que bem antes da mudança de nossas leis e formas de punição será preciso reconstruir o conceito de humanidade, incluindo-se seus valores morais e éticos, pois deles dependem nossa existência e deles brotam a possibilidade de um mundo mais justo e equânime.
Até lá que se deem voz aos injustiçados e calem-se os covardes, pois meu bradar já proclama um basta: chega de impunidade!

sábado, 3 de outubro de 2009

Força estranha...

Creio que você já possa tê-la sentido, ou quem sabe já se encontraram frente a frente, numa luta cotidiana para combatê-la. Não existe definição real ou única para ela, diria apenas que se trata de uma força estranha.
Força essa que costuma tornar-se ainda mais intensa nos momentos de decisão. São nos momentos do tudo ou nada, nas oportunidades que você tem de respirar ou sufocar-se por completo, nos momentos de eliminar as preocupações ou triplicá-las é que ela aparece.
Uma sensação que começa no dedo do pé e vai passando por todo seu corpo, chega ao estômago causando um mal estar atípico, acelera o coração, intensifica a respiração e quando chega à sua mente, pronto, é fatal, você vai precipitar-se e aproveitar o empurrãozinho da força estranha para entrar em alguma enrascada.
Nestes momentos você tem sempre duas possibilidades: ficar calada e deixar as coisas como estão – o que geralmente significa manter seu ritmo e não se descabelar; ou abrir tanto os braços quanto a boca e abraçar o mundo, contudo, sem perceber que não conseguiu apertá-lo, você segue com a sensação estranha, provocada pela força estranha, de que alguma coisa está estranha e provavelmente dará errado.
O mais interessante na força estranha é que ela independe da vontade de outras pessoas, é algo que está totalmente sob seu controle, contudo é fortemente influenciada por pedidos, olhares, palavras e sugestões alheias, que podem te causar temor, te alegrar, te preocupar ou na maioria das vezes te desafiar.
A força estranha muitas vezes consegue personificar-se, geralmente aparece no ponto de ônibus te pedindo atendimento depois do expediente, ou em reuniões solicitando sua presença e seu trabalho em atividades longas e maçantes.
Nessas situações geralmente você não consegue livrar-se da força estranha. É como se tivesse um imã te arrastando para abraçar as maiores dores de cabeça e preocupações.
Muitas vezes parece que um instante de euforia é suficiente para você esquecer tudo o que precisa manter na sua agenda e insistir em adicionar outros compromissos que invadem seu sábado, domingo e madrugadas de sono.
A força estranha me move. Algumas vezes de forma positiva, pois me faz dinamizar o dia, me mexer, sair da rotina e buscar coisas novas, contudo, na maioria das vezes essa sensação boa de recomeçar, dura pouco, e é superada por muita preocupação, fadiga e estresse.
Diria que assim como o amor, o ódio, a alegria e a tristeza, a força estranha deve ser entendida como uma sensação, uma emoção, e ser utilizada com moderação, pois nada em excesso é bom, o que dirá essa força que com uma imensa e estranha dominação te faz entrar num mundo misterioso, onde você sabe como entrou, mas nunca sabe como e quando vai sair, podendo retornar sentindo-se um fracassado ou um grande vitorioso.
Resumindo diria que a força estranha é um embate diário com sua vontade de dizer: NÃO. Olhar para as pessoas e dizer: agora não posso; esse ano não vou fazer; amanhã não quero; para ontem não dá; para o final da semana não será possível...num exercício difícil e desgastante que quando deixa de ser colocado em prática, te provoca inchaço, te deixa carregado da força estranha e bem distante da sua liberdade de expressão.
E viva a dificuldade de dizer não!