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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Entre cobras e lagartos... A vida como ela é?!


Semana repleta de surpresas, cheia de sustos e carregada daquela vontade de jogar tudo para o alto e sumir do mapa. Dias difíceis, cheios de mau humor, de pessoas sem graça e de animais peçonhentos.
Uma semana medonha, temerosa, necessária para me mostrar que nem tudo o que reluz é ouro e para escancarar minha fraqueza, meu medo e minha aflição.
Não sou uma pessoa corajosa, até ai não seria novidade nenhuma, tenho medo de muitas coisas, e descobri esta semana algumas outras que eu nem imaginava ter.
Lembro-me que desde criança já dava sinais da falta de coragem, sempre fui medrosa, especialmente com coisas vivas. Animais com pêlos, penas ou veneno sempre me assustaram.
Quando tinha meus seis anos, aproximadamente, acompanhei a mudança de uma nova vizinha para a esquina de casa. Observei os móveis chegando, tudo sendo carregado com cuidado para o interior da casa, até então abandonada, achava legal ter novos vizinhos e fiquei na expectativa de surgirem crianças no meio da mudança para uma nova brincadeira, mas para meu pavor o que surgiu foi um cachorro enorme, que mais parecia um camelo, todo peludo, com um focinho comprido e que adorava correr atrás de mim, tão logo me via fugindo desesperada dele aos berros até entrar pela porta da garagem.
Creio que até hoje minha pouca afinidade com cães de grande porte se dê por consequência daquelas corridas. Não gostava nem de olhar para aquele cão, ele era assustador, tanto quanto os pombos.
Não suporto pombos, tenho pavor daquele barulho que eles fazem, acho que são ameaçadores e não entendo porque as pessoas insistem em tentar domesticá-los. Ratos não são domesticáveis, a não ser que você compre um ratinho branco de olhos vermelhos em uma loja de animais, porque então tentar domesticar “ratos voadores”? Esqueça os pombos e suas migalhas, plante flores no jardim e espere os beija-flores, eles sim têm algo a nos ensinar.
Voltando aos pombos, sempre soube do meu asco por eles, mas descobri meu pavor no período da faculdade, ao ser atacada por dezenas deles no meio da praça central da cidade. Foi um plano maquiavélico, elaborado por um senhorzinho que esperou o momento exato para jogar um monte de milho e pedaços de pão bem próximo aos meus pés. Quando vi a aproximação dos “ratos voadores” joguei a bolsa, as pastas, o casaco, tudo no chão! Abaixei-me e gritei, gritei tanto que eles se assustaram e eu pude me levantar e aguentar os olhares curiosos e as risadas dos transeuntes que não pareciam acreditar no meu medo.
Como se não bastasse minha aflição pelos enormes cães e pelos terríveis pombos, depois de longos anos, bem nesta semana, pude descobrir meu pavor pelas cobras. Sabia que sentia medo do bicho, desde criança ouvia minha mãe dizer que se eu fosse picada por um escorpião ou por uma cobra seria muito perigoso, devido a um probleminha cardíaco que me brindou no nascimento. Mas com o tempo não sentia mais a pressão do coração com seu buraquinho e fui me adaptando a uma rotina comum, tão comum que me fez esquecer do temor pelos animais peçonhentos.
Acreditava que tinha mais medo de baratas do que de cobras, mas me enganei. Nesta semana deparei-me com uma cobra no meu local de trabalho, e confesso que quase morri, não pela picada que felizmente evitei, mas pelo susto. Chorei, faltou ar, tremia tanto que mal podia falar, tudo por ter visto a tal cobra.
Você deve estar se perguntando onde eu estava para dar de cara com uma cobra a menos de um metro dos meus pés, e posso garantir que eu não estava no meio do mato, nem enfiada na mata atlântica, estava sentada, ao telefone na sala de atendimento. Não, não trabalho no Butantã, nem em um escritório no meio da selva, é um bairro urbano, mas que devido à culpa não sei de quem, estava sem manutenção da grama a alguns meses, tempo suficiente para que a cobra se sentisse em casa.
Descobri mais um de meus pavores e novamente fui ridicularizada, por olhares curiosos e sorrisos sem graça que não entendiam o porquê de tanto desespero, afinal a cobra não deveria ser venenosa. E a não ser que esteja enganada encontrei informações sobre a tal cobra, podendo afirmar sua condição venenosa. Se era pouco, muito ou semi-peçonhenta, pouco me importa, o que sei é que não recebo adicional de periculosidade e não tenho que fingir que gosto destes bichos invadindo meu local de trabalho.
Meu mau humor e minha indignação serviram para o corte da grama ser efetuado logo no dia seguinte, mas ainda não me garantiram a segurança e a ausência deste e de outros bichos por lá, muito menos o retorno das minhas tranquilas noites de sono, atualmente invadidas por cobras e lagartos em pesadelos terríveis.
Só sei que entre feras e feridos, salvaram-se todos, menos a cobra, mas dela confesso não ter sentido pena, até porquê de um jeito ou de outro ela estará aqui eternizada, lembrada para sempre toda vez que abrir-se o baú dos meus medos.

sábado, 24 de outubro de 2009

Casca de banana no sapato dos outros é refresco?!

Observei uma cena na semana passada que me deixou surpresa, tão surpresa que me fez soltar um grande grito: “Ahhhhhhh! Não acredito!”.
Grito esse, que me provocou gargalhada e me fez receber muitos olhares curiosos no ônibus. Foi como se por um instante tivesse esquecido completamente de onde estava, estava tão a vontade conversando com uma amiga, e a surpresa ao olhar pela janela foi tanta que não me contive.
A cena que para muitos pode parecer bobagem, para mim foi no mínimo curiosa. Enquanto aguardávamos o semáforo abrir, olhei pela janela e vi um homem de quarenta anos aproximadamente, cabelos pretos, olhos puxados, óculos, camisa azul e calça jeans abaixando-se em frente ao seu portão e recolhendo uma casca de banana da calçada, caída bem ali, em frente a sua porta.
Tal acontecimento já me causou admiração, visto que ultimamente é muito comum ver alguém atirar uma casca de banana na calçada, mas recolhê-la é algo raro. Contudo, o que me surpreendeu, foi o que aconteceu logo em seguida. O homem abaixou-se, recolheu a casca de banana e a jogou no meio fio.
Quando vi a cena, soltei aquele grito, em sinal de reprovação ao ato. Na mesma hora eu e minha amiga começamos a rir devido aos olhares curiosos dos passageiros, e ao olhar para o sujeito que fez esta bandalheira vi que ele nos olhava e sorria. Levantei a mão em sinal de reprovação e ele sem o riso no rosto entrou, e eu fiquei pensando neste absurdo, certa de que isso iria virar história.
Foi então que comecei a pensar no quanto somos individualistas. Aquele homem teve o trabalho de abaixar-se e recolher a casca de banana por estar em frente a sua porta, onde poderia fazê-lo escorregar, no entanto, não pensou duas vezes ao atirar a casca pelo meio fio onde poderia causar um acidente com qualquer pedestre que por ali passasse.
É o velho ditado: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco!”. Gostaria muito de saber de onde surgiu esta bobagem e o que de bom este ditado poderia causar na vida de alguém.
O que mais me impressiona, na verdade, é o fato de muitos de nós sentir alívio ao ver a dor do outro, em um pensamento egoísta que afirma ao ego constantemente: antes ele do que eu, ou ainda bem que não foi comigo.
Certa vez, me lembro de voltar do estágio de carona com uma colega e a mãe dela, bem no dia em que havíamos sido informadas que uma de nós poderia ser dispensada, e que provavelmente quem ficaria no local seria quem tivesse mais tempo de experiência. Ao saber disso, a mãe da minha colega perguntou qual de nós estava lá há mais tempo e tendo a filha dito quAlinhar à direitae era ela, ela simplesmente disse: então está bom, não se preocupe.
Ela realmente não se preocupou, não disse nada, e eu fiquei indignada com uma mãe dizendo aquilo para uma filha, ainda mais na companhia de outras pessoas. Como poderia esperar uma amizade verdadeira, ou evitar uma rasteira de alguém que foi educada a ser individualista e egoísta? Nunca esperei nada desta colega e na primeira oportunidade que ela teve deu seu sinal de que havia aprendido bem a lição e neste caso, quem escorregou na casca de banana fui eu.
Levar uma rasteira, um escorregão ou ser “deixada na mão” são ações que nos provocam indignação, nos despertam aquela sensação de injustiça e aquele sentimento que você não desejaria nem ao pior inimigo. Contudo, há quem diga que esta é a lei do mais forte, já que alguém terá que sucumbir que seja o outro e não eu, no entanto, cometemos um erro enorme ao acreditar que nunca estaremos do outro lado. Hoje você joga a casca, amanhã leva o tombo.
Na verdade o que gostaria de dizer é que não podemos melhorar a índole de ninguém, nem provocar boas sensações em pessoas que não se deixam emocionar, contudo podemos evitar sensações ruins, sofrimentos e muitos arrependimentos se tomarmos atitudes mais altruístas. Lembrando que não estou pedindo a ninguém para incorporar a Madre Teresa de Calcutá, apenas sugerindo que sejamos mais humanos.
Afinal, como já dizia meu chefe: “Bom senso e canja de galinha não fazem mal a ninguém”... E já que é possível escolher, creio que seja melhor a canja do que a casca de banana, exceto para a galinha é claro, ou será que não?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Garçom, um pouco de justiça, por favor!


Um dia você acorda e está tudo bem. Respira bem, come com prazer, dorme com tranqüilidade, estuda, trabalha e se aventura a frequentar ambientes que deveriam te distrair. No outro você está sentindo o gosto amargo do sangue na boca, perdendo o sono, a capacidade de se concentrar e com medo de colocar o pé para fora de casa.
Vivemos em uma sociedade onde a vontade individual prevalece, onde regras são quebradas e injustiças são sacramentadas como exemplos.
Não sei quanto a vocês, mas eu já estou farta de tanta injustiça. Basta colocar o pé ou o nariz para fora das grades que nos prendem em nossas próprias casas, para sentir o cheiro podre da impunidade.
Semana passada, presenciei algo que me deixou enjoada e trêmula, sentindo medo e impotência, presenciei minha vida e a vida de muitas outras pessoas na mão de um indivíduo sem bom senso ou diria ainda, sem senso algum.
Sábado à noite, em um bar de classe média, na companhia de alguns amigos, rodeada por casais, crianças e algumas famílias. De repente um empurra empurra, um homem sangrando, com uma arma na mão. Outra discussão, mesas jogadas no chão, pessoas gritando, mulheres chorando e meu coração na boca. Debandada em busca de uma saída, já que a principal estava impedida, saltos quebrados e correria. Acabamos saindo aos pulos pela grade lateral, com medo de levar um tiro ou acabar atingido no meio daquela confusão. A sensação de alívio de ter saído dali bem, só não foi maior que o medo que senti.
Sair para colocar a conversa em dia, conhecer gente nova ou simplesmente distrair-se se tornou uma audácia de grande risco.
Presenciei há pouco tempo, nas páginas dos jornais dois casos de jovens que saíram para se divertir, abandonando um pouco a rotina do trabalho e estudos, tentando encontrar algum momento de distração e retornaram para casa carregados, onde ainda encontram-se sob os cuidados dos pais, reaprendendo a falar, a andar e a viver.
Qual o crime que cometeram? Livre arbítrio. Um deles havia negado um copo de bebida, o outro havia estendido um sorriso para uma garota que sem placa de identificação retornou o olhar, mas era comprometida.
A barbaridade dos atos me deixou assustada, contudo, a argumentação de estar em uma cidade grande, me permitiu erroneamente banalizar os atos e transpor a manchete do jornal, sem relembrá-la no dia seguinte.
No entanto, quando soube de caso semelhante na pequena cidade, onde muitos dormem de janelas abertas e onde os galos cantam ao alvorecer, senti vontade de chorar.
Impotente, foi assim que me senti. Sem forças, sem voz, sem coragem. Apenas com um impulso súbito de ver a vítima, olhar nos seus olhos, lhe dar um abraço e rir do que nunca teve graça, numa fuga majestosa da impunidade.
Sinto-me revoltada e gostaria de saber quem de vocês já se sentiu injustiçado alguma vez, quem já se sentiu traído ou invadido em sua honra?
Pode ser um insulto ou uma coação no trânsito, a traição de um relacionamento ou um ato de violência e covardia que te obrigou a abdicar do ato de defender-se e expressar-se. Pode ser um empurrão no jogo de futebol, uma surra na saída de um bar ou quiçá uma acusação mentirosa. O ato em si não importa, mas sim a sensação que nos provoca.
Revolta. Impotência. Injustiça. São sentimentos que só surgem quando provocados e para serem sanados necessitam do posicionamento de outros, sejam eles representantes da lei, donos de estabelecimentos, pais de filhos sem caráter, educadores ou simplesmente testemunhas de atos improcedentes.
O fato é que somos constantemente vitimizados e revitimizados ao não termos um retorno justo do dano sofrido. E aqui não falo de dinheiro ou reposição de bens materiais, falo da restituição da liberdade e da qualidade de vida.
Para tanto, creio que bem antes da mudança de nossas leis e formas de punição será preciso reconstruir o conceito de humanidade, incluindo-se seus valores morais e éticos, pois deles dependem nossa existência e deles brotam a possibilidade de um mundo mais justo e equânime.
Até lá que se deem voz aos injustiçados e calem-se os covardes, pois meu bradar já proclama um basta: chega de impunidade!

sábado, 3 de outubro de 2009

Força estranha...

Creio que você já possa tê-la sentido, ou quem sabe já se encontraram frente a frente, numa luta cotidiana para combatê-la. Não existe definição real ou única para ela, diria apenas que se trata de uma força estranha.
Força essa que costuma tornar-se ainda mais intensa nos momentos de decisão. São nos momentos do tudo ou nada, nas oportunidades que você tem de respirar ou sufocar-se por completo, nos momentos de eliminar as preocupações ou triplicá-las é que ela aparece.
Uma sensação que começa no dedo do pé e vai passando por todo seu corpo, chega ao estômago causando um mal estar atípico, acelera o coração, intensifica a respiração e quando chega à sua mente, pronto, é fatal, você vai precipitar-se e aproveitar o empurrãozinho da força estranha para entrar em alguma enrascada.
Nestes momentos você tem sempre duas possibilidades: ficar calada e deixar as coisas como estão – o que geralmente significa manter seu ritmo e não se descabelar; ou abrir tanto os braços quanto a boca e abraçar o mundo, contudo, sem perceber que não conseguiu apertá-lo, você segue com a sensação estranha, provocada pela força estranha, de que alguma coisa está estranha e provavelmente dará errado.
O mais interessante na força estranha é que ela independe da vontade de outras pessoas, é algo que está totalmente sob seu controle, contudo é fortemente influenciada por pedidos, olhares, palavras e sugestões alheias, que podem te causar temor, te alegrar, te preocupar ou na maioria das vezes te desafiar.
A força estranha muitas vezes consegue personificar-se, geralmente aparece no ponto de ônibus te pedindo atendimento depois do expediente, ou em reuniões solicitando sua presença e seu trabalho em atividades longas e maçantes.
Nessas situações geralmente você não consegue livrar-se da força estranha. É como se tivesse um imã te arrastando para abraçar as maiores dores de cabeça e preocupações.
Muitas vezes parece que um instante de euforia é suficiente para você esquecer tudo o que precisa manter na sua agenda e insistir em adicionar outros compromissos que invadem seu sábado, domingo e madrugadas de sono.
A força estranha me move. Algumas vezes de forma positiva, pois me faz dinamizar o dia, me mexer, sair da rotina e buscar coisas novas, contudo, na maioria das vezes essa sensação boa de recomeçar, dura pouco, e é superada por muita preocupação, fadiga e estresse.
Diria que assim como o amor, o ódio, a alegria e a tristeza, a força estranha deve ser entendida como uma sensação, uma emoção, e ser utilizada com moderação, pois nada em excesso é bom, o que dirá essa força que com uma imensa e estranha dominação te faz entrar num mundo misterioso, onde você sabe como entrou, mas nunca sabe como e quando vai sair, podendo retornar sentindo-se um fracassado ou um grande vitorioso.
Resumindo diria que a força estranha é um embate diário com sua vontade de dizer: NÃO. Olhar para as pessoas e dizer: agora não posso; esse ano não vou fazer; amanhã não quero; para ontem não dá; para o final da semana não será possível...num exercício difícil e desgastante que quando deixa de ser colocado em prática, te provoca inchaço, te deixa carregado da força estranha e bem distante da sua liberdade de expressão.
E viva a dificuldade de dizer não!

sábado, 26 de setembro de 2009

Da vista da minha janela...

Da vista da minha janela vejo o moço de olhos castanhos passar. Vejo seus cabelos ao vento e imagino seu pensamento. Ora com sorriso nos lábios, ora com ansiosos passos.
Da vista da minha janela vejo a moça se maquiar. Vejo os olhos procurando o pequeno espelho, vejo os lábios se apertarem para uniformizar a cor, ora rosada, ora furtacor.
Da vista da minha janela vejo um emaranhado de prédios. Vejo suas luzes coloridas refletindo nas sacadas, vejo semblantes atrás das cortinas, ora fechadas, ora escancaradas.
Da vista da minha janela vejo sirenes piscando. Vejo homens de farda com sorriso no rosto e poder nas mãos, ora com justiça, ora não.
Da vista da minha janela vejo mulheres trabalhando. Vejo roupas curtas e ouço palavras obscenas, vejo um comércio que explora, maltrata e vicia, ora de noite, ora de dia.
Da vista da minha janela vejo lojas adornadas. Vejo faixas de promoção e vendedores alvoroçados, ora animados, ora de pés cansados.
Da vista da minha janela vejo palhaços enfeitados. Vejo seus narizes vermelhos e seus pés enormes, vejo rostos e bocas pintadas, ora acolhedoras, ora assustadas.
Da vista da minha janela vejo um caminhão barulhento. Vejo a madrugada ser engolida por sua caçamba, nas mãos de homens desatentos, que recolhem restos de coisas e enterram-se por inteiro, num ritmo ora consciente, ora sonolento.
Da vista da minha janela vejo pombos nos fios. Vejo asas batendo e tentativas de equilíbrio, vejo vôos rasantes e bicos abertos, ora assustando a gente, ora colhendo afeto.
Da vista da minha janela vejo um mar de gente. Vejo camisas coloridas e sapatos enfeitados, vejo sacolas na cabeça, mãos e braços, vejo crianças correndo, ora felizes, ora com cansaço.
Da vista da minha janela vejo o pôr-do-sol. Vejo o amarelo invadir meu quarto, tão quente e brilhante quanto a areia do deserto. Vejo o sol mudar de cor, do amarelo ao vermelho, se findando num alaranjado lilás, ora na minha frente, ora logo atrás.
Da vista da minha janela vejo o céu azul. Vejo as nuvens em formato de bichos e pessoas, vejo sua cor alterar-se no entardecer ou quando a chuva vem, ora para lavar a alma, ora para lembrar alguém.
Da vista da minha janela vejo meu quintal. Vejo uma imensidão de coisas e pessoas, vejo a diversidade de tudo o que há e do que ainda é possível criar. Vejo alguma esperança no fim deste horizonte, que ora se reprime e ora se expande.
Da vista da minha janela vejo o mundo e toda sua confusão. Ora na palma das minhas mãos, ora caindo no chão...

sábado, 19 de setembro de 2009

Só mais cinco minutinhos...

Com o apoio do dicionário me expresso. No intuito de reservar um pouco de trabalho intelectual para o fim deste texto, hoje me resumo em algumas palavras curtas, mas de grandes significados. Palavras que não provocam surpresa como as gigantes aglomerações silábicas: inconstitucionalissimamente ou oftalmotorrinolaringologista, mas que com muita ousadia transformam coisas, pessoas e lugares.
Palavras que quando ditas provocam ansiedade e quando sentidas provocam desconforto. Palavras que se auto resumem e indicam o grau de dificuldade na tentativa de retornar ao equilíbrio.
Mentiroso, creio ser, quem nunca as disse ou as sentiu. Mentiroso diria ser quem nunca as evitou ou as apreendeu. Mais mentiroso ainda diria ser quem um dia afirmou tê-las ignorado.
“Estafa: fadiga resultante de um trabalho muscular ou intelectual intenso e prolongado; Fadiga: Condição em que um indivíduo acusa crescente desconforto e decrescente capacidade física e/ou mental, decorrendo ambos de atividade prolongada ou excessiva para a sua capacidade de tolerância; Cansaço: Falta de força causada por exercício demasiado; Canseira: Esforço aturado para conseguir qualquer coisa”.
Excesso, desconforto, esforço aturado, falta de forças, decrescente capacidade física e mental, intolerância. Diria que o excesso só foi possível pela ausência de tolerância, que por sua vez não foi utilizada porque o desconforto e a falta de forças, apesar de decrescer a capacidade física e intelectual são úteis e aturáveis para se conseguir qualquer coisa, ou ainda me atreveria a afirmar: coisa alguma.
Tenho vivido dias cansativos, estafantes, repletos de ansiedades, dúvidas, renúncias e escolhas. Tenho vivido noites insones, barulhentas, pensativas e cautelosas. Tenho vivido tardes sonolentas, doloridas, sem apetite e abarrotadas de cobranças.
Quando digo que estas palavras são mágicas, capazes de transformar coisas, pessoas e lugares digo com convicção. O melhor lugar do mundo torna-se um verdadeiro castigo quando estamos fatigados, até a praia mais bela ou a vista mais linda perdem a cor quando nosso corpo e nossa mente se encontram em estado de exaustão.
O seu passatempo preferido te esgota, o som da sua música predileta, que antes você ouvia por mil vezes seguidas, te irrita, a voz da pessoa amada te confunde e os resmungos da pessoa ao seu lado te cansam. Tudo, tudo se torna intolerante.
Atender aos chamados com sorriso no rosto, respirar fundo cinco, dez, mil vezes ao dia, para não perder o controle, deixar invadir-se pelo mau humor e pelo sentimento de incompreensão, tudo isso, absolutamente tudo são sinais de estafa.
Tenho perdido o sono no início da noite, logo em seguida sou invadida por uma onda de mau humor que me consome a madrugada toda, me faz acordar sem disposição e levar o dia irritada e exausta, tomando o cuidado de não descontar nas pessoas do meu convívio meu desgaste, mas xingando baixinho desde a lerdeza do motorista de ônibus, até a quantidade de palavras e assuntos que sai da boca do meu chefe.
Tenho sentido vontade de quebrar coisas e jogar chinelos na parede, tenho tido vontade de jogar ovos bem em cima das pessoas que passam gritando de madrugada pela minha janela, de fazer uma fogueira com todos os telefones que não param de tocar e dar um stop no mundo, para que eu possa respirar por um minuto em paz e dizer: hoje eu tenho tempo.
Devo parecer ridícula com tanta reclamação, mas creio que senão todas, muitas pessoas irão identificar-se com este emaranhado de emoções que transformam-se da fadiga em angústia em apenas um segundo. Quem nunca teve seu dia de fúria? Quem nunca quis jogar tudo para o alto? Quem nunca teve vontade de dormir o dia inteiro ou só mais cinco minutinhos?
Os cinco minutinhos extras têm me feito uma falta considerável. Faltam minutos para estudar, comer, dormir, namorar, sair. E sabe por quê? Porque um dia, eu acreditei que aturar um esforço para alcançar alguma coisa fazia todo o sentido do mundo. Só me esqueci de registrar que para se desfrutar de alguma conquista é necessário manter-se sadio, de mente e corpo, e para alcançar isso é preciso um pouco mais do que cinco minutos.
Recado dado, é hora de reorganizar minhas 24 horas e se não for pedir muito, vou incitar a conquista, além delas, de só mais cinco minutinhos...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O caracol é o cara! Já eu... preciso de um caminhão!


Dizem que a casa onde a gente vive reflete nosso interior. Que quanto mais bagunçada a casa maior a confusão interior, que quanto mais organizada, mais objetivos trilhados. Dizem ainda que guardar muitas coisas significa uma enorme dificuldade de desprender-se do passado.
Confesso que se isso tudo for verdade estou em apuros. Pude perceber isso esta semana enquanto tentava organizar minhas coisas para a mudança. Depois de sete meses de árdua procura encontrei um bom apartamento, com preço acessível, em boa localização e o melhor de tudo, um espaço só meu, que possibilitará o retorno da minha privacidade.
Mas voltando a arrumação, percebi que minhas poucas coisas transformaram-se em muitas, mas muitas coisas mesmo. Coisas que eu não lembrava ter visto, que eu nem imaginava existir apareceram no meio do meu guarda-roupa e das gavetas da cozinha. Sei que encontrei um amontoado de coisas, de entrada de cinema a extrato bancário, coisas de dois anos atrás, ali acumuladas, ocupando espaço.
Espaço é algo que não terei na nova moradia, claro que terei o suficiente para me acomodar com conforto, mas nem tanto que me permitirá acumular papéis de dois anos atrás. Desfazer-me destas pequenas lembranças não foi fácil, mas foi bom.
A cada papel rasgado e colocado no saco de lixo relembrava uma situação vivida, um passeio, uma pessoa e logo em seguida separava a lembrança no coração e todo o resto despejava no saco escuro, aquele buraco negro que poderia me dar mais espaço para novas lembranças, novas alegrias e com certeza novos papéis.
Já fiz tantas mudanças de residência que nem sei dizer qual delas foi a mais difícil, além das coisas que se perdem pelo caminho, o emaranhando de opiniões, palpites e formas de fazer isso ou aquilo deixa qualquer um maluco. A começar pela escolha do caminhão que fará a mudança, pelos carregadores e porque não pela forma com que os copos e pratos serão embalados, sem falar na data em que a empresa telefônica poderá transferir o serviço.
É chato, cansativo, irritante, mas no final é muito bom. Mudar dá trabalho, nos deixa de mau humor, sem disposição por alguns dias, mas todas as mudanças nos trazem uma lição e o melhor, um novo caminho.
Tem gente que viveu por toda a vida no mesmo lugar, e isso não é ruim, mas tenho certeza que estas pessoas nunca abriram todas as gavetas e armários para reencontrar lembranças do passado. Arriscaria dizer que estas pessoas criaram novas aspirações pelas mudanças ao seu redor ou por uma mudança interior, mas não por sua própria mudança.
Tem gente que passa a ser mais simpático quando recebe uma nova vizinha na casa da frente, outros ganham verdadeiro ar sisudo com o cachorro do novo vizinho ao lado, o fato é que a mudança seja sua ou ao seu redor sempre provoca sensações que nos obrigam a renovar nossas emoções.
Existem ainda, pessoas que não conseguem se desfazer das coisas, vão guardando aqui e ali na esperança de um dia ser útil, como se aquela blusa de dez anos atrás ainda fosse servir no próximo ano, ou aquele pedaço de cano que sobrou da construção pudesse ser útil até o final do mês. Confesso que me incluo neste grupo, pois não sou tão desprendida, não consigo me desfazer de tudo o que ganho, especialmente quando se diz respeito ao meu ponto fraco, que está diretamente relacionado aos papéis.
Pode ser um bilhetinho da época da faculdade, ou um diário da quarta série, a entrada do cinema ou o cartão do táxi, tenho a mania de guardar todo e qualquer tipo de papel, o problema é que quando preciso deles dificilmente encontro. E por conta disso estou vivendo momentos de mau humor e ansiedade, deixar no saco escuro aqueles papéis que parecem tão úteis tem sido um sacrifício.
Além disso, parece que o tempo não colabora, a cada hora o número de sacos aumenta e os papéis aos poucos vão sumindo e dando lugar ao espaço, que eu sempre precisei e nunca tive. O lado negativo da mudança pode ser resumido ao meu último dia de férias, pois foi totalmente utilizado para encaixotar pertences, rasgar lembranças, empacotar saudades e detalhar certezas, amparando-as bem para que em segurança fossem levadas para o novo lar.
O que me espera agora é um novo porteiro, um novo supermercado e padaria, novos vizinhos, momentos de constrangimento no elevador, novo motorista de ônibus e novas histórias. Que sejam coloridas e alegres como todos os papéis que piquei nesta tarde, para que possam enfeitar minhas lembranças até a próxima mudança.
O que posso afirmar agora é que os sacos continuam se acumulando, e as caixas de papelão também. Seria bom se pudesse levar a casa nas costas como os caracóis que hoje dormem ao pé de uma roseira e amanhã se mudam para as folhas dos antúrios enfeitando os jardins.
Seria bom me deslocar sem rumo levando a casa nas costas, o difícil seria me desfazer dos papéis e de seus significados. Mas enquanto carregar a casa não é possível, creio que preciso de um caminhão! Um não, talvez dois ou três para acomodar bem minhas lembranças, meus pertences, minha saudade, meus papéis e, claro, toda a minha expectativa de um novo recomeçar...