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domingo, 22 de março de 2009

Fast Cliente?


Domingo é sempre dia de preguiça, dia de pensamentos e movimentos lentos, dia em que você se levanta com sono e com a sensação de que alguém roubou seu final de semana. É quando você pensa que felizmente tem o dia todo para ficar sem fazer nada, mas que infelizmente no dia seguinte a rotina irá te devorar com suas garras e sermões.
Domingo é sempre assim. Você pode dormir até tarde, acordar, cochilar um pouco mais e esperar um convite para almoçar. Acontece que algumas vezes o convite se perde nos cinco minutinhos a mais de sono e para saciar seu estômago, que já está dando sinais sonoros de fome, te implorando um almoço bem caprichado, cabe a você tirar suas amigas da cama mais cedo do que elas gostariam e, finalmente, ir almoçar.
Outro fator importante a ser definido é o local. O ideal seria o serviço na cama, em meio aos travesseiros e a vontade de dormir um pouco mais, mas como isso ainda não é possível, sugeriu-se um local tranquilo, com ar condicionado, onde se pudesse comer sem pressa, e já que a fome sempre é muita, que a comida, fosse boa e chegasse rápido. Essas características foram suficientes para definirmos a opção: restaurante fast food, de comida italiana, com garantia de atendimento rápido e com qualidade, o ideal para três moças famintas e preguiçosas.
Local arejado, com ar condicionado, uma mesa perto da janela, vista para a rua, céu azul, crianças brincando na calçada, balões coloridos, famílias reunidas, cheiro de macarrão e de domingo na casa da avó, tudo muito calmo até que se aproximaram os garçons.
Muitos, muitos garçons, iniciantes, experientes, simpáticos, quietos, falantes, falantes, falantes, lentos, ágeis, ágeis, muito ágeis. O excesso de garçons nos fez achar que estávamos em um almoço de negócios em plena segunda-feira.
Mal sentamos e já se aproximou um com o cardápio, tivemos tempo de abrir a carta de opções e após folhear a primeira página já surgiram outros dois garçons para anotar o pedido:
- Com licença, já escolheram?
- Não, acabamos de sentar.
Tudo bem que a rede fast food prevê um atendimento rápido, mas queríamos pelo menos o sossego de domingo de volta, para podermos escolher com calma o almoço.
Cinco minutos depois e ele voltou:
- Posso anotar o pedido?
Se disséssemos que não, ele acabaria escolhendo por nós, então fechamos os olhos e apontamos o cardápio:
- Um suply al telefono para ela, uma empada de palmito para mim, outro desse para ela. Uma salada e três massas. Anotou?
- Confirmando: um “suplico telefônico” (não, ele, não disse isso, mas soou mais ou menos assim) para você, um desse para ela, outro desse para aquela, uma salada e três massas, é isso?
- Sim, é isso.
O garçon vira-se, sorrimos e começamos a melhor parte do almoço de domingo: a fofoca. Espaço aberto para compartilhar acontecimentos da semana inteira, para as risadas e para as observações alheias, espaço brutalmente invadido por outro garçon que trouxe as bebidas.
Retomamos o assunto, que mais uma vez ficou sem conclusão, pois se aproximou outro garçon com a salada. Desistimos de falar e decidimos comer. Última garfada da salada e brota um garçon do chão:
- Posso tirar os pratos?
Quase engasguei com a agilidade do rapaz. Nem tinha acabado de mastigar e ele ali, plantado ao meu lado.
Não será novidade dizer que as massas chegaram em menos de dois minutos, ao som da marcha dos garçons e dos gritos de: rápido, coma rápido, rápido, mais rápido, que já haviam invadido nossa mente. Enquanto comíamos um dos gerentes se aproximou e disse:
- Será que podem me ajudar?
Fiquei confusa nesse instante, geralmente é o oposto, eles é que perguntam se podem nos ajudar, mas enfim, nem tivemos tempo de responder e ele disparou a falar, falou, falou e finalizou com a entrega de um questionário de avaliação do atendimento.
Será que ele imaginou que éramos críticas de alguma revista de gastronomia famosa? Será que era por isso que todos os garçons pareciam estar apenas nos servindo?
Pelo sim, pelo não, preenchemos o formulário e como sugestão colocamos a redução do excesso de agilidade, do excesso de atenção, do excesso de rapidez, que nos deixou totalmente desconfortáveis, do exagero de perguntas e ofertas que nos fez perder o apetite e ter crises de ansiedade.
Cinco minutos após a entrega da avaliação, surge outro gerente e começa a justificar-se pelo atendimento, e depois dele outro responsável, e mais um, concluímos que até para desculparem-se pelo excesso eles costumam se exceder.
Algumas risadas para descontrair e logo em seguida, a sensação de estarmos cheias. Cheias de tantas perguntas, de tanta conversa, de tanta explicação. Olhamos ao redor e era nítida a rotina fast do restaurante. Correria dali, pedidos daqui, pessoas devorando sua refeição sem nem olhar para a frente ou para o lado, clientes já adaptados ao ritmo fast do lugar.
Creio que domingo não seja um bom dia para almoçar em locais deste tipo, a menos que nos assumamos como “fast clientes”, assim, talvez, seja possível superar a agilidade dos garçons e ter um tempinho para reclamar do atendimento demorado, fazendo uma piadinha do tipo: Arrá, te peguei! Acabei esse refrigerante há 2 minutos e você não me ofereceu mais nada!
Sei que no final do almoço já não estávamos mais com preguiça, nem com vontade de dormir, mas também não queríamos mais falar.
Tanto blá-blá-blá dos garçons e gerentes, nos fez perder a vontade de fofocar e a melhor parte do almoço de domingo tornou-se a saída do restaurante, onde pudemos olhar umas para as outras e dizer:
- Escuta...Ufa! Que silêncio...
Creio que da próxima vez não seja uma má idéia perder a preguiça e fazer almoço em casa, lá, pelo menos, as fofocas e risadas fluiriam. Que mundo maluco, não? Nem para almoçar no dia mais preguiçoso da semana se tem sossego...

domingo, 1 de março de 2009

Êta coração burro!




Depois de mais uma vez me declarar, dizer o que meu ingênuo e burro coração pedia, e novamente não ser correspondida, comecei a pensar em que tipo de relação existe entre a loucura, a culpa e o fim de um relacionamento. Particularmente, acredito que as três coisas se entrelaçam profundamente com uma quarta, a acomodação.
A loucura deve ser entendida como o ápice, o início de tudo, aquele ponto de partida que muda completamente nossas vidas e consequentemente a vida das pessoas que abraçamos pra viver a intensidade de um momento, muitas vezes, insano.
Pensando nisso, um impulso negativo, pode levar as pessoas a cometerem loucuras cruéis, desumanas e inacreditáveis, como por exemplo, comer aquela última colher de brigadeiro antes de avisar aos presentes que o doce se findara, ou ainda dizer-se apaixonado por alguém sem realmente sentir isso do fundo do seu coração.
Eu mesma já cometi essas loucuras algumas vezes e garanto a vocês que até hoje não me arrependi. Primeiro porque o brigadeiro estava mesmo uma delícia e porque eu lavaria a louça no final, então merecia esta recompensa. E segundo porque naquele momento acreditava mesmo estar apaixonada. E acho que é aqui que encontramos a relação entre os conceitos sugeridos acima.
Quando acreditamos realmente em algo, aquilo se torna tão forte que vira verdade, pelo menos pra nós. É como se naquele instante o seu sentimento fosse o maior do mundo e, pode apostar que ele era, porque era o único que você sentia. A intensidade era provocada por sua vontade de querer dar certo e pela forma como isso poderia trazer mudanças significativas no seu dia-a-dia.
Creio que funciona mais ou menos assim, o primeiro passo para mudar sua vida solteira para uma em união estável, é acreditar que isso pode acontecer, o segundo passo é querer que isso aconteça, e o terceiro, mais difícil, é encontrar alguém que compartilhe do mesmo desejo que você – o que no caso de mulheres heterossexuais torna-se praticamente irrealizável, pois precisamos encontrar isso tudo em um homem!
Pois bem, digamos que você encontrou essa pessoa disposta e que ela se mostre mesmo muito afim de que as coisas se ajeitem, o que você faz? Estraga tudo perguntando, no primeiro encontro, quantos filhos ela gostaria de ter, e se já pensou em algum nome. Pronto. Você acaba de deixar seu pretendente em estado de alerta, com um pé na frente e dois atrás.
É aqui que entra o conceito de culpa. Antes que comecem as críticas, quero ressaltar que não estou dizendo que nós mulheres somos as culpadas pelo fim dos relacionamentos, mas que muitas vezes não deixamos nem que eles se iniciem, com questionamentos inseguros, ilusões adolescentes, planos imaturos e principalmente, por depositarmos grande expectativa em uma pessoa que nunca se interessou nem por saber seu sobrenome.
Ok, ok, eu sei que nós mulheres costumamos perguntar, planejar e principalmente falar mais dos nossos sentimentos, creio que com a intenção de cristalizar nossos planos, inclusive e principalmente pra nós mesmas, e digo que falamos mais porque os homens também pensam nisso, só que guardam para eles, e resgatam só quando acham ser realmente a hora certa, e neste momento geralmente a frase soa mais ou menos assim: “Você gostaria de se casar comigo?”. E termina com um: “Sim”, em algum altar por ai ou diante de algum juiz de paz.
E é aqui que entra o quarto elemento, a acomodação. A acomodação dos homens em um relacionamento dá-se depois dele estar muito cristalizado, mais ou menos depois da lua-de-mel ou para alguns, depois das bodas de ouro. Para as mulheres não, basta um sorriso, um buquê de rosas, um afago, um: “eu também”, depois de verbalizar um: “eu te amo”, para que ela sinta-se a mulher mais feliz do mundo e acredite que encontrou o homem de sua vida. É quando ela começa a fazer planos e a desconsiderar os piores defeitos, injustiças e indiferenças daquele homem.
E isso, muitas vezes é inconsciente. E digo isso, por mim mesma. Finalmente, hoje, caiu a ficha da ilusão que estava vivendo há quase um ano. Entre idas e vindas, lágrimas e risos, despedidas e boas vindas, encontrei minha acomodação e felizmente, o fim de um relacionamento que existiu por todo esse tempo só aqui, dentro de mim.
Percebi que é muito mais fácil, dizer-se apaixonada por essa ou aquela pessoa e não ter que olhar para os lados. Mesmo que o cara por quem se diz apaixonada não esteja retribuindo esse sentimento, só o fato dele não te deixar “livre” já é o suficiente para você alimentar uma ilusão e construir sonhos, planos e imagens de um futuro que nunca vai existir, porque além de você, ninguém mais quer cristalizá-lo.
Engraçado que comecei a escrever este texto na primeira desilusão deste relacionamento, há uns dez meses, e hoje, me deparei com as frases inacabadas e encontrei essa resposta.
Louca ficaria se me deixasse acomodar por mais um dia nesse relacionamento. Culpada seria da minha loucura. Acomodada seria deixando de viver um dos mais belos e nobres sentimentos que conheço.
E é isso. É o fim. Finito! Enfim livre, sem culpa, sem loucura ou acomodação. Livre para esquecer e recomeçar. Livre para gostar de quem gosta de mim... Isso, é claro, se esse coração burro permitir...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A cidade das lembranças


Não costumo assistir televisão, não sou de acompanhar noticiário, nem novela, muito menos minissérie. Creio que perdemos muito tempo quando sentamos em frente à televisão e esquecemos do resto do mundo. Mas quando se mora sozinha, chega uma hora em que você já ouviu todas as músicas que queria ouvir, cansou-se de ficar horas na frente do computador fazendo seja lá o que for, já ligou para sua mãe, suas amigas e o silêncio começa a incomodar, é , então, a hora de ligar a tv.
Sou do tipo de telespectadora que fica trocando de canais, o tempo todo, em busca de comerciais. Sim, isso mesmo, não troco de canal na hora do comercial, troco de canal em busca de comerciais. Acho que a parte mais interessante da televisão são suas propagandas.
Sou fanática por comerciais, assisto todos e procuro na internet curiosidades sobre suas gravações. E tem muita gente que não gosta, mas na verdade acho que é porque não conseguem observar, prestar atenção aos seus detalhes. É claro que comercial de supermercado só é bom para saber onde economizar e não tem lá muita graça, mas existem alguns que me fazem pensar.
Ultimamente poderia citar uma série deles, e cogitei inclusive a possibilidade de comentar alguns comerciais neste espaço, mas hoje me prendo a apenas um.
Chamou-me a atenção pela fotografia, pela música – que me lembra muito um dos meus filmes prediletos, pela roupa dos figurantes, pelos detalhes, mas principalmente pelo texto: “Essa é a cidade da lembrança. A minha cidade. Um lugar onde ninguém se esquece de nada. Esse é o prefeito, ele não esquece o nome de nenhum morador, sabia? Essa garçonete não esquece o prato preferido de nenhum cliente da lanchonete. Os taxistas da cidade da lembrança sabem onde todo mundo mora. Aqui, até os animais nunca esquecem o que aprendem, e o elefante é o símbolo da nossa cidade...”.
O narrador do texto, um menino de seus doze anos fala com orgulho das características de sua cidade, como se lembrar-se de todos os acontecimentos, pessoas e coisas fosse a melhor coisa do mundo. Eu não entendi assim. Vieram-me outros tipos de pensamentos e sensações que agora compartilho com vocês.
Creio que muitos de nós temos boas coisas para recordar, mas com certeza inúmeras coisas a esquecer ou simplesmente não resgatar do fundo do baú de memórias. Pensando assim, imagino o quanto deva ser difícil morar nesta cidade, que felizmente, é só imaginária.
Pense em todos os erros do seu passado, em todas as vezes que deixou de perdoar e ser perdoado, em todas as vezes que se feriu e sentiu dor, em todas as pessoas que perdeu e nas lembranças que te fazem chorar, pense no gosto amargo daquela comida exótica e nas vezes que já se sentiu ridículo na frente de outras pessoas. Assim como as boas coisas, todas essas também seriam lembradas, não é?
E as contas que evitou pagar, fingindo-se esquecer, e as promessas que fez e deixou de cumprir, e aquela pessoa que você jurou esquecer para sempre, tudo isso seria lembrado. Acho que quem fez esse comercial não pensou nisso e muitas pessoas certamente não observaram a realidade por este ângulo, mas se a intenção do propagandista era me animar, me motivar a levantar do sofá e fazer minha inscrição em um curso de inglês, ele não conseguiu.
Diria que, no mínimo, esse comercial me angustiou. Cheguei a imaginar como seria viver nessa “cidade das lembranças” e senti medo. Tantas dores apagadas, tantos rostos esquecidos, tudo seria revivido o tempo todo, todo o tempo.
Tempo. Acho que aqui está o segredo. Na cidade das lembranças o tempo não deve existir. Sem tempo as pessoas não se magoam, não se julgam, mas também não se conhecem. Sem tempo todos os cheiros e gostos são os mesmos e não há do que discordar. Sem tempo não há do que esquecer, nem o que curar, tudo segue, ali, como sempre foi.
Ainda prefiro o tempo e seus ponteiros que cortam o espaço para nos amparar e nos reerguer, não sei quanto a vocês, mas de lembranças me chegam as do meu baú de recordações que guardo com muito cuidado, uma cidade cheinha delas, creio que seria aterrorizante demais. Ou não.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

"Bons ventos para nós..."


Dentre inúmeras coisas que gosto de fazer, existe uma que me agrada de forma singular, é ela que me leva a direcionar muitas de minhas ações, controlar meus sentimentos, pensar, encontrar respostas para muitas perguntas e inspiração para escrever.
Adoro observar. Observo tudo e o tempo todo. Procuro olhar cada acontecimento com os olhos da alma e isso me dá a chance de conseguir ouvir uma conversa no ônibus e fazer com que isso se transforme em uma lição de vida, ou olhar um hidrante jorrando água e fazer disso poesia.
De tanto observar as coisas simples, não me surpreendo quando mesmo com os olhos fechados consigo descrever minuciosamente qual a cor do céu, a sensação de brisa fresca, o formato das nuvens que escondiam o sol e até mesmo os pássaros e flores vistas ao longo do dia.
Foi observando que comecei a me dar conta do quanto dou importância a coisas sem importância. Confuso? Pode parecer, mas não é. Tenho passado por uma fase bem complicada ultimamente, com muitas mudanças, e não é que reclame das mudanças, pelo contrário, não gosto é de rotina, mas muitas mudanças ao mesmo tempo me fazem desacreditar do meu poder de decisão e isso me deixa insegura.
É como se em um piscar de olhos a vida te lembrasse do quanto você é insignificante. E por mais que você queira viajar nas férias, ou comprar um carro ou ainda mudar de cidade, você não vai conseguir isso de forma tão simples. Eis que surgem os obstáculos e muitas vezes não os compreendemos.
Ainda hoje, depois de um mês dos encarrilhados acontecimentos tento entender o porquê de tudo isso, e como não encontrei nenhuma resposta pronta, me limitei a observar. Confesso que o empurrão crucial para esta atitude partiu de minha mãe. Depois de me ouvir lamuriar no telefone por quase uma hora ela soltou a sábia frase: “Pare de reclamar, você tem saúde, tem um bom emprego, logo tudo se ajeita”.
Não, eu não me calei. Naquele momento só queria colo e ainda tive a tola coragem de retrucar: “Mas não é porque eu tenho isso tudo que eu preciso me sentir realizada, tenho o direito de querer mais, de acreditar em coisas melhores”.
Ela não retrucou e eu, bem, eu me senti uma idiota. Foi, então, que comecei a olhar os meus problemas com outros olhos, foi ai que comecei a observar mais, ouvir mais, falar pouco e reclamar bem menos.
Ainda acho que não preciso me contentar com o que tenho e que tenho todo o direito de buscar coisas melhores, mas havia me esquecido de agradecer. Agradecer minha vida, minha saúde, minha família, meus amigos que tornam aquele monte de problemas, meramente insignificantes.
Acho que o maior problema está em nossas mentes, que não aceitam as contrariedades da vida. Acho ainda que se aceitássemos os acontecimentos tudo se resolveria de forma bem mais simples.
Parei de reclamar, não me lamento tanto, continuo tentando buscar soluções, e o segredo é não perder a esperança, afinal, dizem por ai que cedo ou tarde tudo segue bem. Concordei com essa afirmação no dia seguinte ao diálogo com minha mãe, após presenciar um acontecimento no mínimo intrigante.
No caminho para o trabalho, observei um pássaro chocar-se com o vidro do ônibus, bem ao meu lado. A sensação foi de que se não tivesse o vidro ele teria entrado pelo meu ouvido, mas tendo ali aquela barreira transparente tive a certeza de que ele havia morrido.
Qual não foi minha surpresa quando o vi voar rente ao ônibus uma vez mais e bater asas para longe dali, desta vez em sentido contrário ao que fazia quando se chocou com o ônibus, comigo e com os meus sentimentos.
Percebi então, que muitas, mas muitas vezes é preciso cair, bater a cabeça, se esborrachar, para depois parar, respirar bem fundo, levantar as asas e buscar coragem para redirecionar seu caminho...
Creio que esta seja uma tarefa muito complicada, e que para o pássaro provavelmente tenha sido bem fácil, talvez por não se importar com os olhos de pena dos passageiros, ou ainda, com o pensamento de que ele não iria conseguir. Talvez por seguir apenas seu instinto e lutar por sua sobrevivência, ou quem sabe por acreditar que ainda valia a pena um novo bater de asas, um novo fôlego, mais um suspiro.
Independente de suas razões, aquele pássaro me fez pensar, e mais, me fez acreditar que, realmente, logo tudo se ajeita, pois, se ele conseguiu, eu também consigo e você também, e todos aqueles que ainda acreditam que vale a pena dar uma nova chance ao destino e viver todos os dias intensamente, mesmo que para isso seja necessário, em alguns momentos, voar para bem longe...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Bozo sim senhor!


Era sexta-feira, a última do mês, marcada por ser um dia repleto de obrigações, fechamentos, relatórios e visitas inusitadas. Uma sexta-feira que mesmo não sendo treze, mostrou-se atípica desde seu início. Na volta do trabalho, outro acontecimento estranho. Ele sentou-se ao meu lado, e as banalidades nos levaram a falar sobre o final de semana. Ter recebido um número de telefone e um desafio enquanto ele descia do ônibus e se despedia afoito seria apenas o início das estranhezas deste dia.
- Costuma sair muito aqui?
- Saía mais, agora estou mais caseira, mas de sexta-feira é sagrado.
- Hoje vai sair então?
- Com certeza.
- Aqui está.
- O que é isso?
- O número do meu telefone, tem coragem de me ligar?
- Por que não?
- Quero só ver.
O conheço a pouco mais de um mês, trabalhamos em prédios próximos, viajamos no mesmo ônibus todos os dias, nem sempre nos sentamos juntos, na verdade geralmente as conversas resumem-se a um “bom dia” ou “ainda bem que já é sexta-feira”. Desta vez conversamos um pouco mais e recebi esse desafio, logo eu que vivo desafiando o destino, não deixaria passar a oportunidade de conhecê-lo um pouco mais.
Liguei e fui convidada para ir a um jantar que ele não sabia onde seria, nem com quem, convite negado, ele decidiu juntar-se a mim e a meus amigos. Encontramo-nos e decidimos o destino da noite.
A primeira opção estava fechada, de lá nos dirigimos a outro local, mais uma mudança de planos e enfim o bar.
Éramos cinco pessoas. Três mulheres, um homem e o Bozo. Não, este não é o apelido dele, nem indica alguma característica física. Ele simplesmente é o cara mais engraçado que já conheci.
Apesar de dizer-se tímido, fez piada com todo mundo, apresentou-se, enturmou-se e fez com que déssemos grandes gargalhadas. Piadas não faltaram e intromissões nas nossas conversas também não, tudo ia muito bem até o momento em que ele colocou uma batata frita no nariz. Foi, então, que tive a certeza de estar sentada ao lado do Bozo.
Ele ali, com a batata no nariz continuou conversando com meus amigos e tomando cerveja, algum tempo depois a batata se foi, mas o Bozo não.
Não conseguia acreditar que podia existir alguém tão engraçado e simpático, ainda mais nesta cidade esquisita, onde as pessoas não se misturam e adoram julgar pelas aparências. Mas é claro que essas surpresas boas geralmente têm data prevista para acabar, ainda mais comigo.
Algumas cervejas a mais fizeram o Bozo transformar-se no Sérgio Malandro. Foi então que percebi que tinha caído em mais uma pegadinha de Santo Antônio, que com certeza é afim de mim.
Procurei pelas câmeras escondidas e já começava a ouvir: ”Rá-rá! Salsi-fu-fu! É pegadinha do Malandro!”, quando decidi voltar para minha realidade e para casa, afinal, brigar com um bêbado e com idéias machistas nunca valeu a pena:
- Você não vai me dar um beijo?
- Não.
- E por que não?
- Chamei você para sair comigo e com meus amigos para nos conhecermos, isso não quer dizer que vou beijar você, as coisas não são assim.
- Não acredito que eu deixei de ir no jantar com meu amigo, para vir aqui com você e você vai me ignorar.
- Sinto muito se você acha que perdeu seu tempo, estávamos nos divertindo com você, e achei que você também estava gostando de estar aqui, mas se não está é melhor ir.
- Não acredito que você vai fazer isso comigo
- Sabe o que não suporto em vocês?
- Em nós?
- É, nos homens. Vocês sempre precisam de algo em troca. A companhia, uma boa conversa, o estar presente não basta, sempre precisa ter algo mais para ter valido a pena. Isso é ridículo!
- Você está me chamando de ridículo?
- Não, você é que está se ridicularizando.
Não encontrei as câmeras, mas tive certeza que estaria nas telas do programa Silvio Santos no próximo domingo. No dia seguinte ele me ligou e perguntou o que havia acontecido, falou que estava de ressaca e com amnésia.
A amnésia é uma boa desculpa para esconder a ressaca moral, mas tudo bem, eu já tinha visto e escutado o suficiente, já estava satisfeita e não perderia meu tempo relembrando aquela tola conversa.
Creio que as conversas no ônibus, provavelmente, serão resumidas a um “olá” ou “até amanhã”. Uma pena, pois fazia tempo que um homem não me fazia rir tanto e tão espontaneamente...

sábado, 24 de janeiro de 2009

Tinta fresca


Era domingo, dia em que podia dormir até mais tarde, acordar com preguiça e dormir mais um pouco, mas não neste domingo. Acordou cedo e disposta. Pouco mais de oito horas da manhã, abriu os olhos, sentou-se na cama e olhou o céu azul lá fora, dia lindo, pensou, dará tudo certo.
Lembrou-se da breve conversa que tivera com ele na noite anterior, relembrava cada palavra, cada frase e ansiosa deixou que o otimismo a invadisse.
Havia aberto a ele seu coração, disse-lhe todo o amor que por ele sentia e que ali estava a sua espera. Disse a ele que cansada estava de enganar-se e que não poderia ter apenas sua amizade, queria mais, o queria por inteiro e estava decidida a conquistá-lo.
Os avisos de amigas relembrando os erros do passado e as lágrimas derramadas, a voz de seu coração que prenunciava uma nova cicatriz, nada disso bastou-lhe, queria, precisava viver esse sentimento plenamente.
O dia passou arrastado, tentou ficar mais bonita, escovou os cabelos, após tomar um banho demorado, pintou as unhas e perfumou-se delicadamente. Ligou o rádio e ouviu uma canção, leu seu horóscopo no jornal e agarrou-se em livros para passar o tempo.
Quando olhou novamente no relógio, já passavam das dez horas da noite. Pois é, ele não veio. Sentiu uma dor forte no peito e uma vontade de chorar. Em sua mente vieram as lembranças como em um filme: as risadas, o cafuné, os abraços e brincadeiras, o último beijo e a ilusão.
Despertou com o som do telefone. Correu para atendê-lo, era ele. Foi uma conversa breve. Ele reafirmou gostar dela, mas disse não estar preparado para um relacionamento, creio que ele nunca esteve, nem estará pronto para relacionar-se com ela, contudo, nunca deixou isso muito claro. Disse algumas coisas a mais depois disso, mas a dor fez com que ela perdesse a audição e a fala. As palavras, já sem sentido, saiam com dificuldade. A primeira lágrima escorreu em sua face e ela desligou o telefone.
Apagou as luzes da casa e sentiu-se sozinha como jamais havia se sentido. Entrou no quarto, sentou-se na cama e chorou silenciosamente. Ficou ali, estática, por horas, acreditando que junto com as lágrimas poderia tirar do peito esse amor não correspondido.
Sentia o peito abrir-se e uma angústia profunda a dominara. Precisava sufocar esse sentimento que a invadira, sabia que a única alternativa era esquecê-lo. Lembrou-se de todas as tentativas anteriores, das decepções e finalmente percebeu que aquela história precisava de um ponto final e que a caneta estava em suas mãos.
A noite nunca fora tão silenciosa e vazia, as lágrimas há tempos não tinham gosto tão amargo. Decidiu por pingar no final daquela noite um ponto firme e único. Deu com esse gesto adeus às ilusões. Prometeu naquele instante pintar-se de cinza e nunca mais apaixonar-se.
Temo que ela cumpra essa promessa e desacredite do amor para sempre. Temo mais ainda que esse ponto final seja um obstáculo para novas histórias de amor.
No mais, me resta observá-la todos os dias. Verei com cuidado qual é sua cor e no dia em que ela estiver cinza, chorarei tristemente a perda de, talvez, uma das últimas românticas deste mundo, restará então o cheiro de tinta fresca e um novo olhar para os casais apaixonados.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Um quarto de século...



Foi ouvindo o som dos pássaros e um galo cantando bem longe, que ela abriu os olhos e observou o relógio. Ainda era cedo. Sem coragem para levantar-se, espreguiçou-se demoradamente e deu um longo suspiro.
Olhou para o criado-mudo e encontrou um embrulho colorido, deu um sorriso e não teve tempo de abri-lo, a porta se abriu e ela escutou um agradável bom dia.
Junto com a saudação ganhou um beijo e um forte abraço materno. Sua mãe abriu a janela, que lhe mostrava o dia azul e a apressava para levantar-se. Com muito custo saiu da cama, olhou pela janela e sorriu. Que dia lindo, pensou.
Ainda de pijama foi até a cozinha e sentiu o cheiro de bolo no forno. Em cima da mesa uma vasilha com recheio. Ela provou, que delícia! Foi até o quintal, brincou com o cachorro e avistou a irmã molhando as plantas. Guerra de água, alguns safanões, abraço fraterno e gosto de acolhida.
Tomou um longo banho, escolheu uma roupa fresca e bem colorida, chinelos nos pés e um cheiro de lar. Observou seu pai pela janela, um rádio de pilhas tocando música caipira e ele abanando a churrasqueira. Abraço paterno e risadas sem fim. Foi assim que passei muitos aniversários da minha infância.
Hoje, distante da minha família, o dia não começou de forma tão agradável. Acordei atrasada, com o despertador tocando uma música latina, bem diferente do som dos pássaros. Não tive o abraço materno e o desejo de bom dia veio por telefone, de forma breve. Não tinha cheiro de bolo no forno, nem fumaça invadindo a casa.
No ônibus as pessoas não sabiam meu nome e muito menos que era meu aniversário, no trabalho alguns cumprimentos e um desejo de ser feriado. O abraço fraterno chegou via SEDEX, em embalagem colorida e números digitais.
O céu está azul, mas o dia sem graça. Nem mesmo as comemorações iniciadas no final de semana e os abraços e ligações dos novos amigos conseguiram trazer de volta aquela sensação da infância.
A nostalgia de aniversários anteriores me entristece um pouco, mas, não me deixa desgostar desta data, pois para mim o ano inicia-se realmente após a comemoração do meu aniversário. É nesta data que faço o balanço do ano anterior, que retomo alguns planos e excluo outros. É neste dia que sei com quem posso contar a vida toda, esteja longe ou perto. É aqui que inicio mais um recomeçar.
E como gostaria de recomeçar com a família, amigos de infância e novos amigos reunidos. Como seria bom se fosse mesmo feriado e pudesse estar mais próxima dos meus, mas não é. E o dia passou arrastado, sem muitas novidades ou transformações.
Um quarto de século, vinte e cinco anos de vida e nada de novo, senão a saudade da velha rotina. Nada de emocionante ou surpreendente, nada, até que...
Ela entrou tímida na sala onde eu trabalhava, com um sorriso no rosto, pouco mais de um metro de altura, cabelos e olhos pretos, toda vestida de cor-de-rosa. Trazia um copo de água nas mãos, puxou uma cadeira na minha frente e sentou-se:
- Oi!
- Oi, você está sozinha aqui?
- Sim, estou trabalhando um pouco e você?
Ela aponta para os presentes em cima da mesa e diz:
- Eu estou esperando minha mãe, ela está ali do lado. O que é isso?
- Alguns presentes.
- De quem são?
- São meus.
- E por que você ganhou presentes? O Natal já passou.
- É que hoje é o meu aniversário.
- Ah é?! Parabéns! Quantos anos você está fazendo?
- Vinte e cinco.
- Nossa! Eu ainda tenho sete!
- E quando você faz aniversário?
- Só em setembro, ainda está longe.
- É, mas logo chega.
Olho para a porta e a mãe da garotinha a esperava dizendo:
- Pare de atrapalhar a moça! Vamos embora.
Nós duas sorrimos e ela despediu-se, antes, contudo, lhe perguntei:
- Qual seu nome?
- Taline e o seu?
- Também!
Ela sorriu, soltou das mãos da mãe, me abraçou e colocou o copo, já vazio, junto dos outros presentes.
- Para você!
- Obrigada! É um ótimo presente, muito útil!
Ela sorriu, deu um aceno de mãos e saiu da sala.
Nos olhos daquela criança e naquele abraço senti a sensação daquela acolhida da infância. Na cumplicidade de nomes iguais e tão raros. Na esperança de que um dia ela completasse seus vinte e cinco anos e eu voltasse aos meus sete anos de idade, nem que fosse só por alguns minutos. Foi assim que terminei meu dia de trabalho, com um quarto de século nos ombros e uma esperança infinita de dias melhores.