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sábado, 24 de janeiro de 2009

Tinta fresca


Era domingo, dia em que podia dormir até mais tarde, acordar com preguiça e dormir mais um pouco, mas não neste domingo. Acordou cedo e disposta. Pouco mais de oito horas da manhã, abriu os olhos, sentou-se na cama e olhou o céu azul lá fora, dia lindo, pensou, dará tudo certo.
Lembrou-se da breve conversa que tivera com ele na noite anterior, relembrava cada palavra, cada frase e ansiosa deixou que o otimismo a invadisse.
Havia aberto a ele seu coração, disse-lhe todo o amor que por ele sentia e que ali estava a sua espera. Disse a ele que cansada estava de enganar-se e que não poderia ter apenas sua amizade, queria mais, o queria por inteiro e estava decidida a conquistá-lo.
Os avisos de amigas relembrando os erros do passado e as lágrimas derramadas, a voz de seu coração que prenunciava uma nova cicatriz, nada disso bastou-lhe, queria, precisava viver esse sentimento plenamente.
O dia passou arrastado, tentou ficar mais bonita, escovou os cabelos, após tomar um banho demorado, pintou as unhas e perfumou-se delicadamente. Ligou o rádio e ouviu uma canção, leu seu horóscopo no jornal e agarrou-se em livros para passar o tempo.
Quando olhou novamente no relógio, já passavam das dez horas da noite. Pois é, ele não veio. Sentiu uma dor forte no peito e uma vontade de chorar. Em sua mente vieram as lembranças como em um filme: as risadas, o cafuné, os abraços e brincadeiras, o último beijo e a ilusão.
Despertou com o som do telefone. Correu para atendê-lo, era ele. Foi uma conversa breve. Ele reafirmou gostar dela, mas disse não estar preparado para um relacionamento, creio que ele nunca esteve, nem estará pronto para relacionar-se com ela, contudo, nunca deixou isso muito claro. Disse algumas coisas a mais depois disso, mas a dor fez com que ela perdesse a audição e a fala. As palavras, já sem sentido, saiam com dificuldade. A primeira lágrima escorreu em sua face e ela desligou o telefone.
Apagou as luzes da casa e sentiu-se sozinha como jamais havia se sentido. Entrou no quarto, sentou-se na cama e chorou silenciosamente. Ficou ali, estática, por horas, acreditando que junto com as lágrimas poderia tirar do peito esse amor não correspondido.
Sentia o peito abrir-se e uma angústia profunda a dominara. Precisava sufocar esse sentimento que a invadira, sabia que a única alternativa era esquecê-lo. Lembrou-se de todas as tentativas anteriores, das decepções e finalmente percebeu que aquela história precisava de um ponto final e que a caneta estava em suas mãos.
A noite nunca fora tão silenciosa e vazia, as lágrimas há tempos não tinham gosto tão amargo. Decidiu por pingar no final daquela noite um ponto firme e único. Deu com esse gesto adeus às ilusões. Prometeu naquele instante pintar-se de cinza e nunca mais apaixonar-se.
Temo que ela cumpra essa promessa e desacredite do amor para sempre. Temo mais ainda que esse ponto final seja um obstáculo para novas histórias de amor.
No mais, me resta observá-la todos os dias. Verei com cuidado qual é sua cor e no dia em que ela estiver cinza, chorarei tristemente a perda de, talvez, uma das últimas românticas deste mundo, restará então o cheiro de tinta fresca e um novo olhar para os casais apaixonados.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Um quarto de século...



Foi ouvindo o som dos pássaros e um galo cantando bem longe, que ela abriu os olhos e observou o relógio. Ainda era cedo. Sem coragem para levantar-se, espreguiçou-se demoradamente e deu um longo suspiro.
Olhou para o criado-mudo e encontrou um embrulho colorido, deu um sorriso e não teve tempo de abri-lo, a porta se abriu e ela escutou um agradável bom dia.
Junto com a saudação ganhou um beijo e um forte abraço materno. Sua mãe abriu a janela, que lhe mostrava o dia azul e a apressava para levantar-se. Com muito custo saiu da cama, olhou pela janela e sorriu. Que dia lindo, pensou.
Ainda de pijama foi até a cozinha e sentiu o cheiro de bolo no forno. Em cima da mesa uma vasilha com recheio. Ela provou, que delícia! Foi até o quintal, brincou com o cachorro e avistou a irmã molhando as plantas. Guerra de água, alguns safanões, abraço fraterno e gosto de acolhida.
Tomou um longo banho, escolheu uma roupa fresca e bem colorida, chinelos nos pés e um cheiro de lar. Observou seu pai pela janela, um rádio de pilhas tocando música caipira e ele abanando a churrasqueira. Abraço paterno e risadas sem fim. Foi assim que passei muitos aniversários da minha infância.
Hoje, distante da minha família, o dia não começou de forma tão agradável. Acordei atrasada, com o despertador tocando uma música latina, bem diferente do som dos pássaros. Não tive o abraço materno e o desejo de bom dia veio por telefone, de forma breve. Não tinha cheiro de bolo no forno, nem fumaça invadindo a casa.
No ônibus as pessoas não sabiam meu nome e muito menos que era meu aniversário, no trabalho alguns cumprimentos e um desejo de ser feriado. O abraço fraterno chegou via SEDEX, em embalagem colorida e números digitais.
O céu está azul, mas o dia sem graça. Nem mesmo as comemorações iniciadas no final de semana e os abraços e ligações dos novos amigos conseguiram trazer de volta aquela sensação da infância.
A nostalgia de aniversários anteriores me entristece um pouco, mas, não me deixa desgostar desta data, pois para mim o ano inicia-se realmente após a comemoração do meu aniversário. É nesta data que faço o balanço do ano anterior, que retomo alguns planos e excluo outros. É neste dia que sei com quem posso contar a vida toda, esteja longe ou perto. É aqui que inicio mais um recomeçar.
E como gostaria de recomeçar com a família, amigos de infância e novos amigos reunidos. Como seria bom se fosse mesmo feriado e pudesse estar mais próxima dos meus, mas não é. E o dia passou arrastado, sem muitas novidades ou transformações.
Um quarto de século, vinte e cinco anos de vida e nada de novo, senão a saudade da velha rotina. Nada de emocionante ou surpreendente, nada, até que...
Ela entrou tímida na sala onde eu trabalhava, com um sorriso no rosto, pouco mais de um metro de altura, cabelos e olhos pretos, toda vestida de cor-de-rosa. Trazia um copo de água nas mãos, puxou uma cadeira na minha frente e sentou-se:
- Oi!
- Oi, você está sozinha aqui?
- Sim, estou trabalhando um pouco e você?
Ela aponta para os presentes em cima da mesa e diz:
- Eu estou esperando minha mãe, ela está ali do lado. O que é isso?
- Alguns presentes.
- De quem são?
- São meus.
- E por que você ganhou presentes? O Natal já passou.
- É que hoje é o meu aniversário.
- Ah é?! Parabéns! Quantos anos você está fazendo?
- Vinte e cinco.
- Nossa! Eu ainda tenho sete!
- E quando você faz aniversário?
- Só em setembro, ainda está longe.
- É, mas logo chega.
Olho para a porta e a mãe da garotinha a esperava dizendo:
- Pare de atrapalhar a moça! Vamos embora.
Nós duas sorrimos e ela despediu-se, antes, contudo, lhe perguntei:
- Qual seu nome?
- Taline e o seu?
- Também!
Ela sorriu, soltou das mãos da mãe, me abraçou e colocou o copo, já vazio, junto dos outros presentes.
- Para você!
- Obrigada! É um ótimo presente, muito útil!
Ela sorriu, deu um aceno de mãos e saiu da sala.
Nos olhos daquela criança e naquele abraço senti a sensação daquela acolhida da infância. Na cumplicidade de nomes iguais e tão raros. Na esperança de que um dia ela completasse seus vinte e cinco anos e eu voltasse aos meus sete anos de idade, nem que fosse só por alguns minutos. Foi assim que terminei meu dia de trabalho, com um quarto de século nos ombros e uma esperança infinita de dias melhores.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Folha em branco


Inspirar, respirar, expirar. Inspiração. Sem inspiração.
Não sei o que é pior, não ter inspiração ou encontrar inspiração nas coisas mais inusitadas. Hoje estou assim, sem saber se chove ou faz sol, se escrevo ou leio, se durmo ou acordo, se como ou bebo, se assisto um filme ou escuto música. Estou assim, sem sal nem açúcar. Numa ânsia de fazer qualquer coisa e com uma vontade enorme do ócio.
Mas a verdade é que preciso escrever. E escrever por obrigação nunca foi minha praia, muito menos meu campo, mas existem coisas que mesmo quando feitas sob obrigação nos dão prazer e escrever é uma delas.
Na verdade não foi difícil começar este texto, foi só olhar para a folha em branco e encontrar várias idéias: neve, boneco de neve, cenoura, salada, verão, sol, calor, chuva, frio, cobertor, suor, banho, nuvem, fumaça, neblina, montanha, grama, margarida, pomba, eca! Essa não, não suporto pombas, mas enfim, na minha mente as coisas funcionam assim, uma coisa puxa a outra.
Pode ser que todas as mentes funcionem assim, mas como não sei o que se passa na sua mente, nem se você mente quando diz sobre o que se passa na sua mente, falo só por mim.
Tenho ainda como agravante ter uma imaginação incrível, que torna o elo entre as coisas mais fortes. Na verdade acho que não existe muito sentido nessas ligações, o fato é que nem tudo precisa ter sentido. Esse texto mesmo não tem começo, nem fim, você pode lê-lo de cima para baixo, do meio para cima ou para baixo e se preferir a tradição comece do primeiro parágrafo. Tentou?
Aposto que muitos dirão que não deu certo, que não fez sentido nenhum, e não era para fazer mesmo, porque você é que constrói o sentido para o que está lendo, posso escrever qualquer coisa aqui e você vai entender de um jeito, e o fulano de outro, o sicrano vai se assustar e o beltrano achar engraçado, no fim, cada um escolhe seus significados, e isso acontece constantemente em cada segundo de nossas vidas.
Quando se está de mau humor um bom dia merece aquela resposta clássica: “só se for o seu”, ou, “o que têm de bom?” Mas se você teve uma noite maravilhosa e acordou com o som de pássaros, além de responder: “dia lindo, não?”. Vai colocar um sorriso enorme no rosto e deixar o indagador com uma pulga atrás da orelha.
Caso eu escreva que adorei a mangueira do fulano, você pode imaginar a borracha usada para lavar carros e garagens, uma árvore frutífera ou se tiver uma mente poluída outra bobagem qualquer. Do mesmo jeito que quando digo que não estou feliz com meu gato, você pode achar que não gosto de felinos, ou que não estou muito satisfeita com minha relação amorosa. Poderia ficar aqui o dia inteira escrevendo coisas desse tipo e te enlouquecer com essa tal polissemia, mas creio que já foi o suficiente para que você pensasse um segundo e tentasse descobrir outras palavras do tipo e principalmente outros sentidos para sua vida.
Na verdade só queria mesmo te fazer pensar. Pensar faz bem. Você pensa muito ou pouco? Eu penso bastante. Tanto que às vezes me esqueço do por que comecei a pensar.
Quando se pensa muito em alguma coisa, as situações ganham outros significados e muitas vezes perdem a relevância. É pensando que construímos sonhos, problemas e soluções, assim, sempre é bom pensar, mas na medida certa, nem muito, nem pouco, pense no ponto.
Pense em coisas que precisa pensar e em coisas que gosta de pensar. Pense acordado e acorde pensando, pense dormindo e durma pensando, pense e respire, respire fundo para pensar, pense rápido, lentamente pense, pense hoje, pensou ontem e pensará amanhã. Pensar no quê? Ah, isso é com você. E se não quiser pensar, lamento informar que você pode até tentar, mas não vai conseguir, pois até para pensar em nada é preciso pensar.
É isso, tão essencial e involuntário quanto o respirar é o pensar, e de tanto pensar e não encontrar inspiração acabei escrevendo esse texto sem pé nem cabeça, mas que me fez pensar e respirar um bocado! Ufa!

sábado, 3 de janeiro de 2009

Cadê o espírito natalino?


O Natal passou. O tão esperado Ano novo já chegou, as árvores de natal perderam seus presentes, as casas suas decorações, as crianças a expectativa pela noite de natal, os meses ganharam novas promessas, as pessoas novos rótulos e eu ainda não encontrei o espírito natalino.
Creio que o seu Natal deve ter sido como o de muitos anos anteriores, e diria, inclusive, que em todas as casas é possível notar alguma semelhança, pois me parece que essa data foi criada para acontecer da mesma forma em todas as casas, em todo o mundo, com “pequenas” exceções religiosas, culturais e socioeconômicas. Foi criada para que se parecesse com um “comercial de margarina”.
Uma mesa farta, com um belo peru, fios de ovos, cerejas, mesa de frutas, vinho, champanhe, cerveja, frutas secas e amêndoas. Uma árvore de natal com pisca-piscas, vários pacotes de embrulho no chão, o especial da Xuxa na TV, as crianças jogando na sala, outras dormindo no sofá, os pais, tios e tias bebendo um pouco a mais, os jovens bebendo escondido e apresentando seus novos namorados para a família, as avós felizes ao ver a família reunida, amigo secreto, sorrisos, satisfação, decepção, lágrimas, saudades de quem não está presente, uma oração, um discurso, muitas piadas, sono, final da bebida, restos de pernil, luzes apagadas, um vento leve que entra pela sala e apaga a última luz: Feliz Natal. É isso.
No dia seguinte, o Natal continua, mas já não tem mais graça, os preparativos agora estão voltados para o Ano novo. As comemorações continuam, as comilanças e bebedeiras também, mas a união, as gargalhadas e a vontade de rever alguém que mora longe já passou. Os assuntos já não são mais novidades, a ressaca física e moral impede outras piadas, as crianças brincam isoladas com seus novos brinquedos, os jovens discutem por algo que aconteceu na noite anterior, as velhas mágoas ressurgem com o apagar da última luz, despediu-se o espírito de natal.
E com o Ano novo não é diferente. Festas em clubes, chácaras, amigos e família reunida, roupas brancas, fogos de artifício, champanhe, promessas, simpatias, desejos, esperança e quando se acorda tudo continua igual. Você não perdeu peso, nem arrumou um namorado, não enriqueceu, nem arrumou um emprego novo e então você se acomoda e deixa as metas do dia primeiro para o mês de fevereiro e assim vai...
Confesso que tinha certeza de que meu Natal seria assim, como um falsete para as brigas, mágoas, rancores e dúvidas. Talvez por ter que trabalhar até as 12h00 da véspera de Natal e chegar em casa praticamente com o Papai-noel, talvez por que há algum tempo já tenha desacreditado de algumas coisas, talvez por que desde que me mudei desta cidade já não fazemos mais árvore de natal, nem colocamos guirlandas nas portas, já que isso era feito por mim.
E realmente, meu Natal foi comum, como de muitos outros anos. Família reunida na casa da avó, tios e primos, amigos, muita comida e bebida, um champanhe que não abria por nada deste mundo e que rendeu as gargalhadas mais gostosas da noite. Fotos e histórias antigas, recordações, lembranças, abraços, família. Cheiro de aconchego, de acolhida, gosto de carinho e satisfação.
Foi assim meu Natal, típico e atípico, com situações comuns, como meu tio declarando seu amor por nós depois de muitas cervejas e contando a mesma história por quatro vezes seguidas, e atípico por desta vez não ter um peru enfeitado na mesa, nem árvore de natal, mas por ter sido a noite mais prazerosa em família dos últimos anos. Confesso que não parecia Natal, e que se eu não tivesse pedido a champanhe talvez nem um brinde teríamos feito em homenagem a esta noite, e realmente não seria preciso.
O olhar, as risadas, as piadas e lembranças de outros natais permitiram que esta noite tivesse um brilho diferente. E arriscaria até dizer que havia encontrado o espírito natalino neste momento, não fosse pelo fato de nele não acreditar.
As promessas para o Ano novo ainda não consegui enumerar, preferi não pensar nisso, afinal, mais preocupante do que o que provavelmente eu não irei cumprir, é a busca pelo espírito natalino. E quando digo que dele já desacreditei, não quero dizer que não acredito mais no Natal, e sim que me decepciono quando vejo no que ele se transformou.
A essência do Natal, a união da família e amigos para lembrar o nascimento do menino Jesus há tempos perdeu seu significado, hoje é representado pelos presentes, pela comida e bebida em excesso, pelos compromissos de trabalho que nos impedem de entrar no “clima” desta data festiva.
O espírito de natal para mim nada mais é do que harmonia, paz, solidariedade, caridade e isso quando acontece apenas em uma noite festiva não me parece sincero, deveria acontecer constantemente, em cada bom-dia, em cada sorriso, em cada afago e na vontade de estar perto dos que amamos diariamente e não só nesta ou naquela data.
Infelizmente não tenho visto o espírito natalino, nem aqui, nem acolá, talvez por estar buscando nos lugares errados, talvez por já não acreditar tanto na humanidade, o fato é que essa reflexão não pertence ao Natal. Pertence a você e a mim em cada minuto de nossas vidas.
Sugiro que se junte a mim nesta busca, procure nos cantos da sala, embaixo das escadas e cadeiras, dentro das gavetas e armários, nos potes de açúcar da cozinha, e principalmente dentro de você, tente encontrá-lo ai, no seu peito, na sua razão, nos seus atos.
E caso você o encontre, me avise, ficarei imensamente feliz em reencontrá-lo em épocas distantes do Natal. Até lá, deixo a esperança de dias melhores, para mim e para vocês... Felizes semanas, meses e anos novos!

sábado, 20 de dezembro de 2008

Noite feliz?!



Não sei quanto a vocês, mas para mim os dias têm passado cada vez mais rápido. Claro que têm dias que você reza para o tempo passar e depois de ter ficado meia hora fazendo hora, olha no relógio e vê que só passaram-se dois minutos, mas estou me remetendo ao “voar” dos dias e dos anos.
De uns dez anos para cá, o ano tem parecido um mês, as semanas, dias e os dias que deveriam ter 48 horas para se dar conta de todos os afazeres, restringem-se a poucas horas, que geralmente são “aproveitadas” dormindo, comendo e trabalhando.
As horas dedicadas ao prazer, ao lazer e à diversão têm se tornado cada dia mais escassas. E falo isso por mim, inclusive. Geralmente nos lembramos de dedicar nosso tempo a atividades prazerosas em épocas festivas, e é por isso que acho que o tempo está passando tão rápido.
Não temos tido tempo de aproveitar os minutos de nossas vidas, do nosso dia-a-dia, e ficamos esperando um feriado, uma data comemorativa para extravasar as energias e colocar antigos planos em prática, e para que isso ocorra fingimos que os demais dias não têm importância.
Sobrecarregamo-nos de afazeres, de coisas sem sentido, só para que a noite chegue rápido e possamos dormir (quando não ficamos insones) e o outro dia chegar logo, e vamos fazendo isso até o próximo feriado.
É mais ou menos assim: “Nossa ainda é segunda-feira, mas tudo bem, na próxima terça-feira é feriado, então eu vou suportar essa semana”. E você passa os dias contando as horas para chegar terça-feira, e faz planos, e se mata de trabalhar e quando chega na terça o dia passa que você nem vê e na quarta-feira, você se levanta vai para o trabalho e pensa: “daqui um mês tem carnaval”.
E com isso perdemos muitas vezes o significado das festas, dos feriados e principalmente dos nossos dias comuns. Lembro-me que quando era criança o Natal demorava uma vida para chegar e era uma expectativa tão grande que os preparativos vinham durante o ano todo, me comportando bem, sendo boa aluna e boa filha para receber o tão esperado presente.
E quando começava a contagem regressiva no SBT, ou aquela música (que particularmente acho triste): “Noite feliz, noite feliz! Oh, Senhor Deus de amor...", já me dava um frio na barriga.
Com o passar dos anos as emoções eram ativadas com outros sinais da proximidade do Natal como as propagandas dos ursos brancos e os caminhões iluminados da coca-cola que, ainda hoje, cortam o país.
Sem falar naquela melodia irritante que algumas pessoas adoram ouvir, pelo menos 10 vezes, durante a ceia de natal e que te faz perder o espírito natalino e querer quebrar o rádio na cabeça de alguém: "Então é Natal, e o que você fez? O ano termina e nasce outra vez".
Mas enfim, os dias custavam a passar naquela época. Hoje, quando ouvi a mensagem de final de ano de uma emissora de televisão, percebi o quanto muitas destas coisas, inclusive nossos dias, já perderam o significado para muitos de nós.
Criar mensagens de final de ano virou merchandising barato, tornou-se especulação, e não sei quanto a vocês mas ouvir que: “Hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou...”, desde a década de setenta, já é demais para mim. Causa-me a impressão de que com a virada do ano todos os problemas e dificuldades serão simplesmente eliminados.
O que tenho mais ouvido nos últimos dias é a súplica para que o ano termine. E para quê? O que você pretende para o próximo ano que não conseguiu concluir neste ou que não possa iniciar nestes dias que ainda restam? Iniciar um ano novo, não significa deixar os sonhos e problemas de lado, e sim reafirmá-los, encará-los de frente. E isso você pode fazer hoje, agora, neste instante, sem que seja necessário pular sete ondas, comer sopa de lentilha ou vestir lingerie cor-de-rosa.
Não quero parecer amarga com essas palavras, nem lhes causar desânimo, pretendo apenas mostra-lhes (mostrar-me) que o tempo é um ótimo conselheiro e pode resolver muitas coisas, quando aproveitado intensamente.
Querer adiantar nossos dias não significa resgatar esperanças e sonhos, me parece muito mais medo do que se pretende deixar para depois. É como escolher uma Noite feliz e renunciar a uma Vida plenamente feliz.
Assim, por que deixar para o ano que vêm ao invés de colocar hoje, um ponto final em coisas que nos causam dores de estômago e de cabeça? Por que esperar mais um mês ou o final do ano para mudar seu estilo de vida? Por que concentrar todas suas energias em uma noite ou em uma data comemorativa, se tem todos os dias pela frente? Por que não cortar o cabelo hoje e vestir aquela roupa nova comprada há um mês na espera no Ano novo?
Recuso-me a concluir este texto, pois estas perguntas precisam de respostas e é a vocês que as peço. Deixo aqui esse texto sem fim para que você reflita e, além dos meus votos de um Feliz Natal e um Ano Novo maravilhoso, irei desejar-lhes incansavelmente felizes dias, felizes tardes e felizes noites!
E é isso, todo o resto é com vocês.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Boca Santa



Sempre gostei de plantas, de olhar para suas folhagens, tocá-las, sentir o perfume de suas flores, a textura de cada pétala, mas confesso que nunca fui detentora de muito conhecimento sobre elas.
Sempre tivemos plantas em casa, folhagens como samambaias, babosa e espada-de-são-jorge; floríferas como margaridas, hortênsias, azaléias e onze-horas; além das suculentas flor-de-maio e calonchoê. Minha mãe sempre foi uma amante de violetas e rosas, cresci a vendo cultivar dezenas de vasos e mudas, uma de cada cor, de cada espécie. Aprendi os segredos de seu cultivo e a respeitar o ciclo de cada planta que crescia em nosso jardim.
Meu pai era o responsável por tirar as ervas daninhas, adubar o jardim e podar as plantas. Minha mãe escolhia o local do plantio, reproduzia as mudas e fazia os arranjos que enfeitavam a casa. Eu só observava e morria de dó todas as vezes que via as roseiras podadas, e minha irmã, bem, esta nunca foi muito ligada às plantas.
Mas de todas as plantas que existiam em casa, uma em especial me deixa grandes recordações. Ela sempre esteve na frente de casa, é um misto de bananeira com arranjo artificial, pois suas flores parecem ser de mentira de tão belas e coloridas, costumava chamá-la de: a flor do pica-pau, mas hoje descobri que a Strelitzia reginae, pode ser popularmente chamada de Ave-do-paraíso, você já deve tê-la visto, uma folhagem verde exuberante que protege as flores alaranjadas com toque de lilás e bordô, um primor.
Hoje minha mãe já não cultiva violetas, deixou esse hobby de lado para dedicar-se a planos mais sublimes que lhe tomam muito tempo, me lembro, contudo, que um dos motivos que a fez deixar o cultivo foi o fato de ter perdido grande parte de suas plantas com uma praga muito conhecida e popularmente chamada de mau-olhado, quebranto ou ainda boca santa.O jardim continuou mas a coleção de violetas se foi.
Eu cresci, me mudei de casa e mantive o amor pelas plantas. Quando fui morar em Franca/SP para cursar minha faculdade levei uma samambaia e uma violeta para me fazerem companhia. A violeta não se adaptou muito ao pequeno apartamento, morreu em menos de um mês, mas a samambaia por incrível que pareça adorou o ambiente, tanto que tinha que fazer podas freqüentes, pois ela começou a tomar mais espaço do que devia. Passou comigo os quatro anos da faculdade e ganhou o nome de Cazé.
Além da Cazé tinha uma coleção de mini cactos, uma ótima escolha para quem vive em apartamento, entre eles tinha um preferido, o ganhei de minha avó e o plantei em um vaso bem colorido trazido por um amigo maravilhoso que vive em Barcelona. Ainda hoje, não sei de que espécie esse cacto é, mas continua cada dia mais lindo, agora na casa dos meus pais.
As plantas no apartamento representavam companhia e eram um amuleto contra a inveja de visitas indesejáveis, como dizia minha mãe: “antes nelas do que em você”. Por via das dúvidas , melhor tê-las, visto que algumas vezes tive que dar atenção redobrada a Cazé que era quem mais sofria com a praga do mau-olhado.
Hoje, em outra cidade, em outro apartamento, ainda tenho plantas, ou pelo menos tento tê-las. Há pouco mais de seis meses comprei uma pimenteira, carregada, linda, linda. Ela ia bem, até eu sair de férias, foi quando tive que delegar as minhas colegas de república a função de colocá-la no sol, e aguá-la.
Até hoje não sei direito o que aconteceu, sei que quando voltei das férias, a pimenteira ainda estava lá, só que duas vezes maior que seu tamanho natural e com umas pimentas gigantes.
- Cadê a minha pimenteira?
- Na cozinha, você não viu?
- Vi a irmã mais velha dela, ela não.
- Xi, ela percebeu.
- E vocês achavam que eu não ia perceber que esta não é a minha pimenteira?
- Olha, nós tentamos achar uma igualzinha, mas não tinham vasos menores, então, trouxemos esta mesmo.
- Ok, mas e a minha, onde está?
- Estávamos tentando reanimá-la, mas a faxineira veio e jogou fora. Quando chegamos e perguntamos pela planta ela disse que estava morta e que ela tinha jogado no lixo. O jeito foi tentar substituí-la, mas não deu muito certo não é?
Rimos a noite toda dessa situação, acolhi a nova integrante da casa e proibi as meninas de sequer chegar perto dela, só assim poderia garantir sua integridade física.
Ainda hoje, elas culpam a faxineira que vivia elogiando a planta, mas acho que a culpa foi minha que esqueci de falar que além de colocar no sol, era preciso tirar a planta de lá às vezes. E se a culpa não foi minha e nem delas, pode ter sido mesmo daquela praga popular: o mau-olhado, que provavelmente partiu dos olhos arregalados da faxineira que não perdia a oportunidade de colher umas pimentinhas e dizer:
- Mas que beleza de pimenteira hein?!
Essa é a típica boca santa,ou melhor, Dona Cida, nossa faxineira.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Guajira, guantanamera. Guajira, quanta lamera!



O meu trabalho apresenta algumas peculiaridades, além do que lhe é comum, tenho alguns dias de plantão, e não é um plantão médico, é um plantão da defesa civil. Em casos de emergência, calamidades e tragédias gregas somos acionados.
O bom é que posso ficar em casa e sou chamada só em caso de ocorrência, o ruim é que fico presa na cidade e não posso me distanciar muito daqui. O bom é que recebo hora-extra quando as ocorrências surgem e o ruim é que quando isso acontece alguém perdeu tudo do pouco que possuía. Isso me lembra uma conversa que tive com um querido amigo esses dias, diz ele que precisou imobilizar o pé após uma cirurgia e enquanto a enfermeira o engessava ele perguntou:
- Engessando muitas pernas?
- Graças a Deus, foi o que ela respondeu.
Mas enfim, era um sábado, como qualquer outro se não fosse pela chuva torrencial que caiu na sexta-feira à noite e pelo fato do plantão ser meu. Às 8:00h o telefone toca e meu chefe, bem humorado, diz:
- Taline? Já está de galochas?
- Não, não tenho galochas aqui. Tem ocorrência?
- Sim, precisa de quanto tempo pra ficar pronta?
É quando me vejo de pijama, com muito sono e de mau humor, lembro do café da manhã que não tomei e do banho que preciso pra despertar, preciso de no mínimo cinco horas, o que acha?
- Trinta minutos, pode ser?
- Pode.
- Quem vem me buscar?
- A guarda municipal.
- Ok.
- Boa sorte.
Sorte. Sorte teria se não tivesse ocorrência, teria mais sorte ainda se pudesse ter dormido pelo menos até às dez. Mas é assim, não adianta resmungar, o jeito é optar pelo café ou pelo banho e aproveitar bem meus trinta minutos. Escolho o banho e um copo de leite, já que tomar café da manhã e dormir até passar o mau humor em trinta minutos não seria possível.
Procuro um sapato que seja compatível com a situação e não encontro as galochas, escolho um tênis, calça jeans e uma camiseta branca. Crachá no pescoço, colete da defesa civil, prancheta e caneta, nas mãos, é, estou pronta.
A guarda municipal chega e os companheiros de plantão além do interfone, optam pela buzina e pela sirene. Entro na viatura e observo os vizinhos do prédio na janela, no mínimo pensando que cometi algum crime ou que a culpa pelo aumento da conta de água do condomínio ou ainda pela fome no mundo é minha, mas é assim, não teria nem tempo nem disposição de explicar a situação, melhor deixar que pensem qualquer coisa, já tinha problemas demais à vista.
Pergunto onde é a ocorrência e escuto a comunicação no rádio da viatura:
- Fulano de tal, residente no bairro tal, localizado onde Judas perdeu as meias.
- É hoje, pensei.
Imagine um lugar longe, agora some a distância de São José do Rio Pardo/SP a Casa Branca/SP, foi ainda um pouco à frente que me vi depois de quarenta minutos sentada no banco de traz de uma viatura da guarda municipal que acabava de parar bruscamente:
- O que aconteceu?
- Não posso seguir, tem muita lama.
- Como assim não pode? Onde é a casa?
- Acho que daqui umas duas quadras.
- E como eu vou chegar lá no meio dessa lama?
- Ah não sei, só sei que não vou colocar a viatura lá, é muita lama.
- E qual dos dois vai me acompanhar?
- Par!
- Ímpar!
A porta se abre e eu desço. Lama, muita lama, mal conseguia andar. Um dos guardas me acompanha, aquele que perdeu no par ou ímpar, quase caio sentada na lama e penso nas galochas que não tenho, no tênis que com certeza não seria recuperado e no meu estômago roncando.
Os vizinhos se amontoavam e ridicularizavam a cena, eu e o guarda municipal nos equilibrando na rua como se fosse em uma pista de sabão. Com muito custo encontramos a residência invadida pela lama. Fui recebida por uma pessoa muito nervosa e por vizinhos curiosos. Recepção calorosa, pensei.
O telefone toca e é meu chefe perguntando como estou. Eu estou ótima, mas a casa, o dono dela e a vizinhança estavam irritados e eu buscando uma saída para algo que aparentemente não tinha solução.
Aos poucos fui dando os encaminhamentos necessários e deixando o caos sob controle. Nada que quatros horas de conversa e negociação não se resolva. Bom, trabalho cumprido, hora de voltar para casa e para meu sábado.
- Vamos?
- Acabou? Achei que não ia embora hoje.
- Avisei que ia demorar, é assim mesmo.
- Mas eu estou com fome. Já são 13:00h e eu não almocei.
- Pois eu também não almocei, nem tomei café da manhã.
- Mas agora você vai para casa e a gente fica de plantão até as 18:00h.
- Agora eu vou para casa fazer relatórios, conseguir doação de móveis, roupas, material de escola e alimentos, isso se não tiver outra ocorrência, pois meu plantão vai até a meia-noite.
Ele não se atreveu a retrucar. Fim de papo, chego em casa, com o pé cheio de lama, desço da viatura, alguns vizinhos na sacada. Tiro o tênis, que é puro barro, dou adeus à viatura e entro no prédio. Escuto uns buchichos dos vizinhos e o melhor deles, que me fez subir as escadas de meias e sorrindo foi:
- Nossa, devem ter dado uma prensa boa nela, desde aquela hora e com o pé todo sujo de lama. Coitada!
Minha vizinha passou a manhã toda daquele sábado esperando o desfecho desta história, ou melhor, da história que ela criou, pois desta, ela provavelmente nunca ficará sabendo. E eu achando que tinha perdido meu sábado...Que gente mais engraçada e ociosa! Vizinhos!