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sábado, 23 de agosto de 2008

A caçadora de vaga-lumes


Era um rancho como qualquer outro, mas para uma garota de sete anos criada na zona urbana, com medo de aranhas e com pavor de mosquitos era um misto de excitação e terror.
Lembro-me bem dos finais de semana que passávamos lá, eu, minha irmã, minha avó e minha tia. Os poucos quilômetros que separavam o rancho da cidade pareciam milhas de distância para mim na época, era como se a civilização desaparecesse toda vez que entrávamos naquela estradinha de terra.
Abrir a porteira velha e fechá-la era castigo, ninguém gostava de descer da carroceria da caminhonete, então, costumávamos tirar par ou ímpar, geralmente eu perdia, logo eu que nunca ganho nem pano de prato em bingo de Igreja, ganhar no par ou ímpar seria mesmo demais. Mas tudo bem, a recompensa era chegar primeiro na entrada do rancho, sentir o cheiro da relva molhada pelo orvalho e olhar para aquele pequeno pedaço de terra que mais parecia uma imensidão. Olhava cada detalhe, tentando descobrir o que havia mudado desde a última vez que lá estivera.
Conferia a grama, nem sempre aparada e verdinha, mas sempre coberta por plantinhas que faziam nossa alegria: Dorme - Maria! E lá íamos nós, em volta da casa repetindo a frase e batendo os dedos em cada folha da plantinha que se fechava imediatamente. Checava o largo rio que cortava toda a área do rancho e já analisava se era um bom dia para fazer barcos de palha e folhas de bambu ou não. Logo depois corria para atravessar a pequena ponte de madeira, que costumávamos chamar de: a ponte do rio que cai, na verdade, caía mesmo, toda vez que o rio enchia demais lá se ia a ponte. Em seguida, gostava de encher os pulmões, abrir os braços, olhar para o alto e girar, enquanto era observada por uma fileira de árvores gigantescas, como soldados nos reverenciando e dando as boas-vindas.
Adorávamos ir bem cedinho para aproveitar cada minuto do dia, mas o melhor mesmo era o anoitecer – espaço para todos os tipos de histórias, inclusive para as primeiras de terror que me tiraram o sono.
Nunca tive coragem de dormir lá quando criança, era assustador, mas esperar até o anoitecer tinha uma recompensa valiosíssima, podíamos caçar vaga-lumes. Que delícia! Ficávamos na espera da escuridão total para que as luzes verdes começassem a aparecer, eram muitas, mal sabíamos para onde correr, minha tia ensinava como nos aproximar sem assustar os bichinhos, e lá íamos nós, com uma caixa de fósforos vazia caçar vaga-lumes.
Cada inseto aprisionado era colocado no pote transparente, ainda no escuro, quando conseguíamos uma boa quantidade, levávamos o pote para o meio da relva e abríamos a tampa, que espetáculo, pareciam dezenas de pisca-piscas desenhando no céu.
Um dia decidimos guardar alguns para vê-los no claro e foi esse um dos que considero meus maiores erros. Desde aquele dia perdi o encanto por vaga-lumes, era um inseto sem graça, não tinha aquela lanterna no traseiro como nos desenhos, nem cara de muitos amigos, senti mais asco e medo do que alegria ao vê-lo na luz, sem contar que ele não piscava longe da escuridão. Caçar vaga-lumes desde então, nunca teve a mesma graça, até o espetáculo ao abrir o pote de vidro perdera parte de seu brilho.
Hoje, alguns anos depois, vejo que não tenho mais a mesma habilidade para caçar vaga-lumes, nem mesmo vontade de fazê-lo, e quando fico nostálgica, prefiro lembrar-me do que sentia antes de conhecê-lo verdadeiramente, pois, as impressões eram melhores e me traziam mais alegria.
Creio ainda que grande parte das minhas desilusões e desesperanças atuais foram criadas por este mesmo erro cometido na infância. Muitas vezes vivemos momentos de extrema alegria e prazer que podem ser ofuscados quando quebramos expectativas criadas por nós mesmos.
Imaginar que o vaga-lume era como das histórias em quadrinho me fazia bem, mas não era real e conhecer a verdade não foi muito agradável. Assim, muitas vezes ao criarmos expectativas em relação a algo ou alguém nos esquecemos de que nem tudo é tão certo ou perfeito como imaginávamos, ou como gostaríamos que fosse e que estas ilusões podem ser quebradas por um motivo simples: somos humanos e vivemos em uma realidade que tende constantemente a cristalizar ações, pessoas e sentimentos, nos tornando cada vez menos crianças e cada dia mais adultos, infelizmente.
Ressalvo, contudo, que evitar criar expectativas não é sinônimo de deixar de sonhar, ou fechar-se para o mundo e todas as surpresas que ele nos reserva, significa apenas que devemos deixar as coisas acontecerem a sua maneira e as pessoas se apresentarem como são, antes de pintá-las da nossa cor preferida, assim, é possível evitar desilusões e promessas nunca feitas e por isso, jamais cumpridas.
Resta-nos, pois, viver cada instante e olhar esporadicamente no baú do passado para aproveitar as boas recordações e encontrar nas entrelinhas algumas respostas para as angústias de hoje. Que tal tentar? Você se lembra de alguma história da sua infância que te disse boas-vindas, mesmo que de forma amarga, ao mundo chato dos adultos? Posso apostar que sim...

sábado, 16 de agosto de 2008

Mais vale um sapo na mão do que um príncipe te procurando...


Em um reino muito distante, há muito tempo atrás, viviam todas as princesas e príncipes do mundo. Era um reino muito feliz. Cheio de campos floridos, castelos coloridos e amores perfeitos. Os príncipes e as princesas eram mesmo felizes (para sempre), viviam cavalgando em seus cavalos brancos, recitando poesias e vendo o nascer e pôr-do-sol.
Os dias eram sempre lindos, céu azul, com aquela brisa leve e o orvalho de madrugada. A harmonia era predominante, não havia briga, inveja e nem desilusões, afinal, ali estavam todos os príncipes e princesas do mundo.
Um belo dia, uma das princesas decidiu partir para um reino distante, queria conhecer coisas novas, encontrar outras pessoas, queria se divertir e sentir outros sabores. Esqueceu-se, contudo, de que todo sabor prevê um dissabor e novos encontros podem com o tempo virar grandes desencontros.
Chegou em um lugar bem diferente do reino em que vivia, sentiu a chuva forte pela primeira vez em seu rosto, não gostou do frio, achou agradável o cheiro dos alimentos que eram cozidos em algum lugar por ali, ficou assustada com algumas imagens e sons, gostou de algumas pessoas, apaixonou-se intensamente por uma em especial e sentiu o amor humano pela primeira vez em sua vida. Chorou, sorriu e achou que ia morrer quando teve sua primeira desilusão, sentia o coração partir-se e aquela dor que apunhalava por dentro, maior que todas as dores que já sentira. Arrependeu-se, então, de ter partido. Que gosto amargo tem esse amor, pensou. Decidiu retornar ao reino encantado e partilhar suas emoções.
Chegou ao reino e percebeu que tudo havia mudado. Os campos estavam sem flores, os jardins sem cor, os castelos vazios. Foi quando viu escrito nas nuvens que sua partida havia causado mudanças sérias no reino e que ali não era mais seu lugar.
Soube então que após sua partida todas as princesas e príncipes foram mandados para reinos diferentes, cada um em um lugar do planeta, em países, cidades e bairros bem distantes e que teriam a missão de usando apenas seu amor reencontrar-se.
Desde então, todos os príncipes e princesas do reino encantado vivem entre nós. Vagam pelas ruas a procura da sua metade, enganam alguns corações achando ter encontrado sua alma-gêmea, deixam de viver algumas paixões com medo de trair esse amor eterno e sentem bem no fundo de sua alma que em algum lugar do mundo, alguém sente a mesma nostalgia que eles, uma saudade de alguém que não sabem quem é, pois, não vieram com a memória do reino para cá.
O belo disso tudo é que eles não desistem, às vezes morrem em busca desse amor. Às vezes a ilusão os domina e enganam-se com medo da solidão com uma paixão vazia qualquer, mas a verdade é que todas as noites sonham e renovam a força desse amor. Esse amor que para muitos de nós é simplesmente: utópico.
- Sabe amiga, acho que minha princesa está fugindo de mim. Não a encontro em nenhum lugar!
- Aposto que aquela sem-vergonha fugiu de você com meu príncipe para algum lugar!
- Será?
- Com certeza! E os dois devem estar se divertindo e rindo muito da nossa cara agora.
- Princesa safada!
E é o fim. Moral da história: Mesmo com tantos sapos disfarçados de príncipes e de príncipes com cara de sapo o amor ainda existe e vai continuar te procurando, o problema é que ele é cego e talvez demore a eternidade para te encontrar. Desse modo, fica a sugestão: Quem não tem príncipe, caça com sapo!

sábado, 9 de agosto de 2008

Corações partidos e hambúrgueres!







Conversando com um querido amigo um dia desses me surpreendi quando ele disse que eu deveria escrever um livro sobre os homens, ou melhor, sobre relacionamentos, pois, segundo ele, esse era assunto predominante nas minhas crônicas. Mais surpresa fiquei quando ele disse que me achava uma mulher antiga quando o assunto era relacionamento.
- Antiga? Como assim antiga?
- Bem. Digamos que você é um misto de mulher moderna e antiga. Moderna quando se trata da sua vida profissional, pois é independente e luta pelo que quer, mas antiga para as coisas do coração.
- E isso é ruim?
- É que eu prefiro sempre as mulheres no comando, em tudo. Mulher para presidente, mulher para dirigir, enfim, mulher não pode ser dependente de homem, a gente não evoluiu ainda! Mas você quer um homem.
- Um companheiro? Sim, eu quero.
- Pois é você se torna dependente assim.
Esse breve diálogo me fez pensar no quanto podemos ser livres e dependentes ao mesmo tempo, e isso tudo porque somos nós que fazemos nossas grades e as pintamos da cor que achamos melhor, isso quando não as deixamos descascar com a rotina.
Mas enfim, na verdade pensei mesmo no porquê de escrever tanto sobre relacionamentos e cheguei à conclusão de que escrevo porque as pessoas gostam de ler sobre isso, tanto quanto gostam de se apaixonar ou saber que alguém, mesmo que em outro canto do planeta, está sentindo a mesma coisa que ela sente ou já sentiu um dia.
Além disso, as mulheres têm mais facilidade de falar sobre seus sentimentos, já os homens não admitiriam ter levado um fora, ou viver uma desilusão por nada neste mundo, nem para o melhor amigo, o que dirá para um blog de acesso público como esse.
- Escrever é ótimo, se fosse você escreveria também, deve ter muita história para contar, ainda mais agora que está vivendo em outro país.
- Daqui pode até ser, mas não é sobre isso que gostaria de escrever, na verdade nem sei se quero escrever sobre alguma coisa.
- E por que não fala sobre as mulheres? Já que diz que eu falo tanto sobre os homens...
- Escrever sobre meu “sucesso” com as mulheres e meus relacionamentos?
- Exatamente! Eu não faço sucesso nenhum com os homens, mas isso me trouxe inspiração, por que não tenta?
- Eu? Nunca!
Como eu dizia, os homens jamais admitirão publicamente suas frustrações, pois como diz esse meu amigo, a frustração e a infelicidade são dele e de mais ninguém.
Aqui está mais uma grande diferença entre os homens e as mulheres. Mesmo após o término de uma relação, as mulheres tendem a viver uma dor dupla, pensam no outro e em como ele está, mesmo se for para odiá-lo ao saber que está bem, já os homens continuam individualistas, pensando neles e só neles, às vezes pensam no jogo de futebol do próximo final de semana e em qual amigo irão convidar para acompanhá-lo já que seu ingresso agora está disponível. E isso não quer dizer que ele não se importava com o relacionamento de vocês, mas os homens são mesmo assim, mais objetivos e indiscutivelmente racionais.
- A gente não nasceu para ser monogâmico, somos animais, apesar de sentir ciúmes e tudo. Somos animais com sentimentos. Você não pode querer uma pessoa só para você, porque ela nunca vai ser só sua.
- Você está falando de traição?
- Não, estou falando que a maior parte, de todos os relacionamentos, dará errado.
- E por que acha isso?
- Matemático.
Pois bem, os homens adoram uma probabilidade, sempre saberão qual a chance de seu time ser campeão, mas dificilmente pensarão nas chances do namoro virar casamento. Saberão calcular as chances de chegar a tempo em casa para ver o “show do intervalo”, mas nunca entenderão a diferença que aquele minuto a menos fez na sua maquiagem. Contarão as moedas para mais um hambúrguer, mas dificilmente comprarão para você um botão de rosa vendido em restaurantes. Os homens são assim, meramente racionais. E sem querer generalizar, diria que a maioria deles, confia mais nas probabilidades do que em seu próprio coração.
E olha eu aqui, novamente, falando sobre eles!

sábado, 2 de agosto de 2008

Romano






Seria ele um herói ou um desbravador da antiguidade? Seria um sábio ou um criador da Roma antiga? Seria ele um poeta ou um músico, ou ainda quem sabe um Imperador?
Na verdade não sei responder. Mas posso afirmar que bem longe disso tudo, Romano é um homem comum.
Um homem maduro, alto, forte, nem gordo, nem magro, pele clara e olhos castanhos, sorriso bonito. Asseguraram-me ainda que tem mãos bem cuidadas e que se veste bem. Além disso, soube que gosta de futebol, que freqüenta academia e ouve boa música.
Contudo, não posso afirmar ser verdade ou não, pois, nunca o vi. Nem por fotos. Mas já criei algumas imagens a seu respeito, talvez de curiosidade ou especialmente por ele ter sido assunto de boas horas de uma conversa com uma das pessoas que mais tenho apreço nesta existência.
Soube ainda que Romano trata-se apenas de um sobrenome, isso me causou alívio, pois se fosse um apelido seria assustador! O nome não cabe aqui informar, mas é um belo nome. E por que sei tanto de alguém que não conheço? Bem, isso é melhor você perguntar para minha amiga e para o namorado dela que iniciaram essa prosa. Simplesmente me olharam e disseram que eu deveria conhecer o Romano.
Achei no mínimo estranha toda essa história, mas ultimamente não tenho me assustado muito com coisas vindas da humanidade, então pensei, conhecer o Romano, por que não?
Um dos motivos que me impedem, além de não saber da veracidade destas informações, é conhecer alguns detalhes que atrapalhariam qualquer apresentação, no entanto, penso que se fossemos apresentados faria a ele outras perguntas...
Você prefere o sol ou a lua? Você já contou estrelas? Já sentiu o perfume de uma rosa? Prefere um beija-flor ou um tucano? Gosta do cheiro da terra molhada? O que te traz alegria? O que te faz chorar? Você prefere morango, chocolate ou pistache? Praia ou campo? Cinema ou barzinho? Você é romântico? Você faria tudo por amor? Você gosta de esportes radicais? Você sabe amar?
E no minuto seguinte, após o breve e direto interrogatório, teria algumas respostas, mas a maioria delas estaria representada por um silêncio profundo. Seria, então, o momento de olhar bem fundo em seus olhos e descobrir realmente que homem é este, que atende pelo nome de Romano.
As demais respostas escondidas no silêncio poderiam surgir com a presença do deus do amor romano, um tal Cupido. Caberia a ele direcionar suas flechas – que costumeiramente partem corações, ou simplesmente bater suas asas. Qualquer destas atitudes seria suficiente para acalmar um coração que, por obstinação ou apenas curiosidade, cria expectativas toda vez que se apresenta a ele alguém, como o Romano, que pode – até que se conheça de verdade, ser pintado de qualquer cor.

sábado, 26 de julho de 2008

Esquecer. Simples assim...



Esquecer. Apagar. Passar uma borracha. Deletar. Tirar do pensamento. Ausentar da imaginação. Desconhecer. Desmerecer. Tornar indiferente. Acabar. Suprimir. Olvidar. Desaprender. Deslembrar. Desmemoriar. Desprezar. Ignorar. Desaprender. Negligenciar. Adormecer. Omitir. Desacreditar. Negar. Descrer. Depreciar. Irreconhecer. Insignificar. Pôr de lado. Perder. Distrair. Descuidar. Preterir. Invalidar. Eliminar. Cassar. Extinguir. Recomeçar.
Recomeçar porque nada dura para sempre, porque tudo tem um fim, porque a fila anda, porque sempre existe outra chance, porque não vale a pena desistir, porque a vida continua, porque você merece, porque você vale a pena, porque ainda existem pessoas boas, porque ainda existem sentimentos nobres, porque ainda existe o sol lá fora, porque o tempo cura tudo.
Recomeçar e esquecer.
Esquecer uma dor, um adeus, uma paixão, um amor, uma decepção, uma pessoa, um momento, uma palavra, uma ação, um dia, uma noite, um minuto, uma hora, um lugar, uma música, um filme, uma piada, um gosto, uma sensação, um toque, um sentimento, uma mágoa.
Esquecer e recomeçar.
Recomeçar. Reiniciar. Renovar. Restaurar. Recompor. Reformar. Reconstruir. Reparar. Retravar. Restabelecer. Consertar. Renascer. Esquecer.
Esquecer aos poucos porque muita coisa é inesquecível, porque algumas lições não se devem esquecer, porque nem tudo merece ser esquecido, porque o esquecimento faz parte da vida, porque amanhã será um novo dia, porque todo fim precede um recomeço, porque o tempo às vezes é um grande inimigo.
Esquecer para recomeçar.
Simples como álgebra e física quântica, como conjugação verbal e latim, como abrir algemas sem a chave, como atravessar o deserto do Saara sem uma gota de água, como viver sem cobertor no Pólo Norte, como ferver uma água sem fogo, como trocar um pneu sem o macaco, como trocar de roupa no escuro, como saltar de pára-quedas quando se tem medo de altura, como fazer um bolo sem quebrar os ovos, como terminar um relacionamento sem lágrimas, como encontrar um verdadeiro amor.
Recomeçar e esquecer. Esquecer e recomeçar. Esquecer para recomeçar. Simples assim...

domingo, 20 de julho de 2008

Quanto tempo dura um "para sempre"? E um "nunca mais"?


Estive pensando no tempo e no quanto ele é relativo. Conceitos como cedo ou tarde demais, “para sempre” ou “nunca mais”, só mais um minuto ou por toda a eternidade são constantes na fala, no pensamento e na vida, senão de todos, de muitos de nós.
Quantas vezes você não disse que amaria “para sempre” ou que não queria ver aquela pessoa “nunca mais”? Quantas vezes você chegou cedo demais na vida de alguém ou decidiu falar o que sentia tarde demais? E pior ainda, quantas vezes você não desejou sentir algo por toda a sua eternidade e no minuto seguinte viu tudo se desmoronar como um castelo de areia?
Creio eu, que muitas vezes. Mas pensando nestas situações agora, pode ser que muitas já ganharam outro sentido em sua vida e inclusive te fizeram gargalhar ao lembrar de alguns acontecimentos. Afinal, em momentos de crise, muitas vezes, nos tornamos ridículos. Quem nunca se descabelou, quase morreu de tanto chorar, fez greve de fome ou quis se jogar do 10° andar achando que a vida havia perdido o sentido “para sempre”?
E por que tudo isso? Porque o tempo, que dizem por aí, ser quem tudo cura, também é relativo.
O seu “para sempre” pode ser o minuto de alguém, da mesma forma que um até breve pode ser um definitivo “nunca mais”.
Isso tudo é realmente muito confuso e estranho, quero dizer, humano. Pensar demais em coisas desse tipo causa crises existenciais, mas quando você já está no ápice de uma, a reflexão é uma forma de encontrar respostas. Respostas não para os problemas da humanidade, mas para você mesmo, para suas angústias e aflições, para suas lamentações e para aquela dor que só você sente e por isso é a maior do mundo.
Quando sabemos o que está sendo prioridade na nossa vida passamos a entender com mais facilidade o quanto o tempo é relativo.
O fato de um “para sempre” ter sido breve é dolorido para quem queria que fosse eterno, mas para quem o tornou breve foi só mais um momento, e por quê? Porque não era prioridade na vida daquela pessoa este sentimento ou a vontade de eternizá-lo. E é aqui que nos enganamos constantemente. Acreditar que o que sentimos provoca no outro a mesma intensidade de emoções que em nós é bobagem.
É mais ou menos o que aquela frase quer dizer: numa relação, sempre um dos dois gosta mais que o outro. Pode parecer estranho, mas esse “gostar mais”, não é nada mais do que a relatividade do tempo.
O fato de você querer estar cada minuto com alguém e viver “para sempre” ao lado desta pessoa, não obriga que ela também queira ou precise ficar cada minuto ao seu lado para estar “para sempre” com você.
Quando alguém diz que não quer te ver “nunca mais”, pode acreditar que naquele instante a vontade é mesmo essa, mesmo que pareça o contrário. Contudo, esse “nunca mais” não vai durar uma eternidade, pois, uma hora a mágoa passa e você acaba sendo só mais um momento na vida deste alguém, e ai, tanto faz te ver em breve ou “nunca mais”.
Entrar sem querer na vida de alguém e ouvir desta pessoa que você é a pessoa certa na hora errada é uma das piores coisas para um coração sensível. Então, você pensa: que negócio é esse de ter hora certa pra se apaixonar, a gente não manda no coração. Com certeza, você tem toda razão, mas aí entra, novamente, o conceito de prioridade, se esta pessoa não tiver como objetivo principal apaixonar-se, pode acreditar que mesmo você sendo a mulher da vida dele, ele vai te deixar partir, pois, acredita que neste momento não é a melhor escolha, ou pior, que você pode estragar seus planos. Então, não insista e se um dia ele voltar, talvez seja sua vez de dizer: agora meu querido, é tarde demais.
Hoje, compreendo perfeitamente isso e creio que descobri um tesouro, ao entender que tudo, inclusive e principalmente o tempo, é relativo. Então, tente não otimizar de forma extremada seus bons momentos a ponto de que pareçam tão perfeitos que você “nunca mais” irá senti-los, mas também não deixe de vivê-los, por achar que nada dura “para sempre”.
Apenas viva. Seja por uma vida inteira ou por apenas um minuto. Viva de forma que possa ser feliz “para sempre” ou não desejar aquilo “nunca mais”. Viva cada instante, até que possa olhá-lo como uma lembrança que lhe faça chorar de tanto rir, ou apenas chorar. Arrependa-se, mas viva. Faça planos, mantenha seus sonhos, só não deixe que eles te tirem do chão. Este é o segredo da vida. Viver intensamente.

sábado, 12 de julho de 2008

Zé Pequeno


Era uma vez Zé Pequeno. Zé de José Augusto da Silva e Pequeno por diversos motivos. Nascido em uma pequena cidade do interior paulista, aos 10 anos de idade Zé Pequeno mudou-se para a cidade grande. Mudou de uma casa grande para uma pequena casa na grande cidade, deixou grandes amigos e conquistou uma pequena vizinhança com poucos conhecidos.
O tempo foi passando e Zé Pequeno mudando. Mudou de tamanho, de colégio, de amigos, mudou de idéias. Cresceu um pouco, mas não o suficiente para ser chamado de Zé Grande, continuou Zé Pequeno, pequeno de tamanho, mas com grandes idéias.
Zé Pequeno pensava grande, tinha uma grande mente. Tirava grandes notas no colégio e fazia algumas maldades pequenas. Começou a trabalhar ainda moço, num emprego com salário pequeno, época em que conquistou algumas namoradas que ele assegurava amar grandemente.
Com o tempo, parou de crescer no tamanho, dando assim mais espaço para suas grandes idéias. Zé Pequeno tinha valiosas idéias, mas um caráter pequeno. Causou, por esse motivo, grande mal para muitas pessoas, inclusive para aquelas que ele considerava grandes (amigos, amores...).
Zé Pequeno tinha pequenas qualidades, gostava de estudar e não negava o trabalho, era gentil com sua família e gostava de animais. No mais, se destacava por seus grandes defeitos. Contava mentiras grandes e inventava pequenas desculpas, com arrependimento menor ainda. Iludia as moças com grandes promessas e em pouco tempo partia em busca de outro grande desafio. Zé Pequeno adorava um desafio, quanto maior melhor, e para superá-lo faria qualquer negócio, grande ou pequeno, não se importando se doeria muito ou pouco no coração ou no bolso de alguém, ele ia lá e fazia.
Tinha uma grande ambição que o fazia dar grande valor às coisas “grandes”. Adorava mais que tudo seu carro e a mansão que acabara de construir, gostava mais ainda do salário grande que agora recebia. Só que coitado do Zé Pequeno, lutou tanto para ser grande que acabou esquecendo de dar valor maior às “pequenas” coisas dessa vida. Zé Pequeno nunca havia sentido o cheiro da terra molhada, nem olhado para o céu numa noite de lua cheia, nunca parou para olhar um beija-flor ou sentir o perfume de uma rosa, mas pior que isso tudo, não sabia amar. Zé Pequeno nunca amou de verdade, e nem sabia que gosto tinha esse sentimento porque como ele mesmo dizia era bobagem.
Creio eu, que na verdade, ele sempre quis amar, mas tinha medo de mostrar-se pequeno, frágil, impotente e ser desmerecido, mal sabia ele que os pequenos homens, aqueles considerados mais sensíveis são os que geralmente deixam marcas eternas nos corações de grandes mulheres. Zé Pequeno era tão minúsculo paras as coisas do coração que quando sentia um nó na garganta, tratava de amolar a tesoura para cortá-lo, lágrimas ele não admitia – era coisa para fracos, exceto quando precisava usá-las para ganhar um desafio, aí elas escorriam feito chuva em sua face. Zé Pequeno era um grande ator, encenava a própria vida e escolhia seus coadjuvantes.
Um dia, certo que estava de ser grande em tudo, resolveu apaixonar-se para sentir o gosto disso, mas não conseguiu, porque seu caráter e sua coragem eram pequenos demais pra deixá-lo amar. Coitado do Zé Pequeno morreu sem nunca ter provado o amor. Morreu sozinho, com uma grande quantia de dinheiro no banco, sem nenhum amigo, em uma tarde vazia e chuvosa na pequena cidade do interior paulista, onde fora enterrado por um coveiro sem nome, mas com um coração grande, que com muito esforço escreveu na sua lápide: “Aqui jaz Zé Pequeno, o homem que comprou tudo o que era grande, menos o amor”.